18 July 2009

12o Domingo Comum, 21.06.09 [Ano B]

12o Domingo Comum, 21.06.09 [Ano B]
Igreja do Redentor, Porto
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger

«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Para entender este Evangelho, é preciso lembrar exactamente quem eram os discípulos do Nosso Senhor, e os primeiros quatro em particular, os quatro homens que Jesus encontrou quando estava a caminhar junto o lago da Galileia[1]. Os primeiros foram: Simão e seu irmão, André, e pouco tempo depois, mais dois irmãos, Tiago e João, os filhos de Zebedeu. Cada um dos quatro era um pescador profissional[2].

Também, como é dito no Evangelho de São João, depois da Ressurreição, quando sete dos onze Discípulos estavam numa casa à beira do Lago Tiberíades (o nome Romano para o lago da Galileia[3]), Simão Pedro disse aos outros, “Vou pescar,” e todos os outros quiseram ir também. Eles todos saíram da casa e meteram-se num barco, aonde passava a noite inteira, mas sem sorte[4].

Estes eram homens quem sabiam muito de barcos, sabiam muito do mar. Não eram “caloiros de passeio de barco”, para ficarem assustados com um pouco de vento ou umas ondinhas no lago. O lago da Galileia é famoso para suas tempestades inesperadas: na altura, e até nos nossas dias, pescadores profissionais morem afogados neste lago[5]. Ora, se os Discípulos, incluindo pelo menos quatro pescadores profissionais que bem conheciam este lago e os seus perigos estavam com medo, se eles achavam que estavam perdidos, era porque tinham razão.
Eles estavam quase maluco com medo, e seu Mestre, Jesus, estava... a dormir? As ondas eram tão altas que subiam por cima do barco, que se estava a encher de água, e Jesus continuava com a sua cabeça deitada na almofada! Eles despertaram-no, e perguntou, “Mestre, não vês que estamos perdidos?”

Então, Jesus levantou-se no barco (e, eu, que fui um capelão na marinha militar, posso dizer que até isso, de balançar de pé num barco no meio de uma tempestade, é quase um milagre!), e repreendeu o vento e disse ao vento, “Parem! Acalmem-se!”. Imediatamente o vento cessou, e seguiu-se grande bonança. E Jesus voltou-se para os Discípulos e perguntou-lhes: “Por que é que vocês têm medo? Ainda não tem fé?”.

Mas em vez de fé, eles, que eram ainda Discípulos recentes de Jesus, estavam era de facto com mais medo do que antes... eles podiam entender uma tempestade, mas quem era este homem que até mandava no vento e nas ondas?

Levou muito tempo para eles entenderem a resposta: o medo do Discípulos que ouvimos hoje no quarto capítulo do Evangelho do S. Marcos, quando eles afirmavam: “Quem é este homem, que até manda no vento e nas ondas?”, mudou no oitavo capítulo para a afirmação “Tu és o Messias!”[6]. Uma coisa é seguir o Senhor, ser membro da Igreja. Outra coisa é, ter a fé tão integrada na nossa vida, na nossa mente e alma que nem pensamos no medo.

É fácil ter medo, porque o mundo é medroso. Vivemos em tempos difíceis, assustadores. É a época dos “sustos grandes”, quase como uma guia alfabético: “A é para “Abrigo”: Por causa das guerras em Darfur e no Congo, há milhares das pessoas vivendo em campos de refugiados em África, mas também há muitos outros milhares mais sem-abrigo em todos os cantos do mundo: na China, há ‘refugiados nacionais’, camponeses que mudaram ilegalmente das cidades para procurar trabalho, trabalho que não existe mais; nas Américas do Sul e do Norte, com as favelas do Rio e com os pobres dos Estados Unidos, um país rico que não faz muito pelo seus pobres, e no México, e aqui na Europa, e não só no Leste mas em todo lado, incluindo aqui em Portugal.

“B é para Bombas” : o Correia do Norte está uma vez mais a brincar com armas atómicas e mísseis balísticos... a agora o Irão quer os mesmos brinquedos também. O trafico em armas, quer para governos quer para “movimentos revolucionários” quer para gangues e criminosos, é um dos únicos negócios que o Crise não afectou.

“C é para Crise” : Claro que é. A Crise mundial, que começou com uma mistura da avidez e de estupidez nos mercados de hipotecas americanas e mudou rapidamente para todos os mercados e bolsos do mundo, é um desastre para a maioria do mundo. Alguns dos ricos estão um pouco menos ricos, mas agora ninguém sabe quantas pessoas da classe média estão desempregadas, e para a classe operária, agora que tantas fábricas estão a fechar depois de passarem três ou quatro meses sem pagarem aos seus trabalhadores, são mesmos tempos difíceis estes.

“D é para Doença” : Os jornais e a televisão estão cheios de notícias sobre a pandemia de Gripe A H1N1, e cada dia que passa ouvimos mais noticias. Há somente três doentes no país inteiro, e cada um foi infectado fora do Portugal (um no Canada, outro nos Estados Unidos, e outro no México), mas é ainda uma gripe assustadora, porque está na televisão quase todos os dias, como estavam as doenças da vaca louca e a gripe das aves dos anos passados. Ao mesmo tempo, há outras doenças mais graves, mais perigosas, como a SAMR (‘staphylocci aurea, methicilina-resistente), uma infecção propagada nos hospitais que não está a reagir bem aos tratamentos antibióticos.

“E é para Ecologia” : Todo o mundo sabe que o clima está mudando, e se o aquecimento global continua, o Oceano Glacial Árctico vai continuar a derreter-se, de dissolver-se, e os níveis de água nos Oceanos Atlântico e Pacífico vão crescer... e daqui a mais um ou dois séculos, todas as cidades do mundo situadas à beira dos mares vão ser inundadas: no lado Atlântico, serão Lisboa e Porto na Europa, claro, e Amsterdão e Estocolmo, Valência e Barcelona, e Roma e Atenas, e tantas outras. Em África, Bissau vai desaparecer, juntamente com todas as maiores cidades de África ocidental, de Marrocos até África do Sul: Casablanca e Abidjan, Luanda e Cape Town, todas inundadas, pouco a pouco. Do outro lado do Atlântico, vai ser a mesma coisa: nas Américas, via ser um desastre: Halifax e Newfoundland em Canada, Boston, Nova Iorque e Philadelphia, Charleston e Miami, New Orleans (que já foi quase destruída pela furacão ‘Katrina’) e Houston; Tampico e Vera Cruz em México, e na América do Sul Caracas e Belém, Recife e Salvador, Rio e Porto Alegre, Montevideo e Buenos Aires... todas inundadas, perdidas.

Eu nem preciso de fazer uma lista das cidades no lado do Oceano Pacífico: é só preciso lembrar que a maioria da população do mundo vive na Índia e na China, e a maioria deles vivem perto do mar. Também, não falei sobre ilhas como a Madeira ou os Açores, ou Cabo Verde ou as ilhas Caraíbas como Cuba e Haiti, ou no Pacífico, as nações de Oceânia ou Japão... não é somente o facto cientistas pensaram que estas ilhas se vão afundar completamente, numas delas o processo já começou... faz três ou quatro anos desde que a pequena ilha nação de Nauru, ao nordeste de Austrália, tinha de evacuar a maioria dos seus cidadãos a Novo Zelândia, porque um grande parte do país estava debaixo da água!

Basta com isto. “F é para Fé” : É verdade que é fácil, acreditar que estamos em pleno mar, no meio de uma tempestade terrível. É verdade que é fácil, e é fácil porque é verdade. Todas as coisas na minha lista: os sem tecto, a multiplicação dos mercados dos armamentos mundial e o programa nuclear do Correia do Norte, a crise económica mundial, a facilidade com que as doenças graves podem ser transmitidas nesta altura do tráfego aéreo, e o mais assustador de tudo, as mudanças da clima mundial... cada um é verdadeiramente terrível, e juntas são mesmo verdadeiramente assustadoras.

Mas o tempestade no lago da Galileia foi também verdadeiramente assustador, e os pescadores profissionais estavam verdadeiramente assustados... mas Jesus Cristo ficou a dormir no meio do vento, da água no barco, do ruído do vento, com sua cabeça reclinada numa almofada.
Durante dois mil anos desde a tempestade, não havia tempo nenhum quando era “tempo boa”. As coisas podem dar a impressão de serem piores agora, por causa das comunicações mundiais: com a Internet, nós podemos ver fotos de um terramoto em Japão com quase o mesmo rapidez do que as Japoneses, e também fotos das crianças carenciadas em África, de um ataque militar em Iraque, de um choque na auto-estrada, e não sei que mais, sem sairmos das nossas cadeiras.
E com tudo isso, parece que o mundo está numa situação terrível, que está a afundar-se, e que nós todos vamos afogar a qualquer minuto... e que Jesus continua ainda a dormir, com a sua cabeça reclinada numa almofada.

Mas quando quero resmungar, tenho de me lembrar que a única razão pela qual Jesus estava a dormir era pelo facto de Ele saber que não havia verdadeiramente nenhum problema: o barco não estava em perigo de se afundar com Jesus lá dentro... e nós que somos o Corpo de Cristo também não estamos em perigo de nos afundar.

Tal não significa dizer que ‘ser-se Cristão é de ter uma vida perfeita”... todos nós já sabemos que isso não é verdade. Mas “ser-se Cristão” nunca foi somente um dos aspectos da vida neste mundo, e também uma vida fácil e simples nunca foi uma das promessas de Cristo.
Na porção da Segunda Carta que São Paulo escreveu aos Coríntios que ouvimos hoje, Paulo nem sequer falou sobre a vida dos Cristãos neste mundo, mas sobre uma das coisas mais importantes: a nossa relação com Deus. A nossa vida neste mundo é temporária, mas a nossa relação com Deus é eterna. É por isso que Paulo disse, “Em nome de Cristo vos peço, irmãos, que se reconciliem com Deus.”

Esta reconciliação só se realiza em Cristo. Não há nada que nós possamos fazer para nos reconciliarmos sozinhos, mas a boa noticia é que não precisamos. O Filho Unigénito do Pai, que nunca tinha cometido pecado, Deus o fez pecado por nós, para que n’Ele nos tornássemos justiça de Deus.

Ora: isso não é “justiça”. ‘Justiça’ é quando nós pagamos pelos nossos próprios pecados. Não, tal não é justiça: é Amor.

É por isso que S. Paulo escreveu, “...peço-vos que não recebais a graça de Deus em vão.” A comunidade dos Coríntios já era Cristã: isto não é um convite aos pagãos para se converterem e receber a graça de Deus. Não, isso foi escrito para os Cristãos, para pessoas como nós.
A graça de Deus foi-nos dada pelo amor do Deus, e para a não recebermos em vão, precisamos de responder com o mesmo amor, amor para Deus e para com toda a Sua Criação (e temos de nos lembrar que, na minha lista das coisas assustadores, elas são quase todas provocadas pela nossa culpa, a de humanos feitos á Imagem de Deus, e, se quisermos, somos capazes de arranjar, de aperfeiçoar muitos dos problemas!).

Temos de responder, com amor, ao Amor de Deus, e de nos lembraram sempre que vivemos no amor de Deus. S. Paulo citou as palavras do Profeta Isaías, “Eis o que diz o Senhor: No tempo da graça eu te atenderei, no dia da salvação eu te socorrerei.”[7]

É por isso que, num mundo cheio de coisas assustadoras, nós podemos olhar a tempestade de nosso barco sem nos assustar. Sabemos que nós temos o amor de Nosso Senhor sempre connosco. Sabemos que temos o Corpo de Cristo, a Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica, sempre connosco. Sabemos que, quando o vento é de mais, e as ondas começam a entrar no barco, não estamos sozinhos, e nunca seremos abandonados por Jesus Cristo, que como a Palavra[8], nós criou, e enquanto no Cristo que não conheceu pecado, aceitou de ser tratado como pecador, para nos salvar.

E por isso, damos graças a Deus.

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.



Notas:
[1] S. Mateus 4, 18
[2] S. Mateus 4, 18-22; S. Marcos 1, 14-20; S. Lucas 5, 1-11
[3] The Macmillan Bible Atlas, 2º Edição,Y. Aharoni e M. Avi-Yonah, Macmillan Publishing, New York, 1968, 1977
[4] S. João 21, 1-3
[5] The Interpreter’s One-Volume Commentary on the Bible, C.M. Laymon, Editor, Abingdon Press, Nashville, 1988
[6] S. Marcos 8:
[7] Isaías 49, 8
[8] S. João 1, 1

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