18 July 2009

16o Domingo Comum, Ano B, 19 Julho 2009

160 Domingo Comum, Ano B, 19 Julho 2009
Igreja do Bom Pastor, V.N. de Gaia
Cón. Dr. Francisco C. Zanger

Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.

Talvez ainda ninguém tenha chamado a vossa atenção, mas se ainda não tiverdes notado... não sou português. Sou estrangeiro. É verdade! Não é defeito de fala ou falta de educação: é mesmo sotaque e falta de vocabulário!
E sim, estou a brincar, mas estou a brincar por uma razão: na leitura da Carta do S. Paulo aos Efésios, que é ao mesmo tempo interessante e difícil, porque fala das coisas que devem ser, e que irão ser, mas que nem na época em que foi escrita foram, nem o são agora. Ao falar das diferenças entre os judeus, que eram os únicos monoteístas da região e talvez do mundo, e os pagãos do resto do Império Romano, Paulo disse que a morte e Ressurreição de Jesus criava pela primeira vez um só povo de Deus: que Jesus fez em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova, reconciliando-os ambos com Deus. Ouçam: “Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições”[1]. Seria uma maravilha, se fosse verdade quer na altura quer hoje mesmo; será uma maravilha quando suceder... e vai acontecer. A primeira parte já aconteceu, claro: Cristo é a nossa paz, e dentro d'Ele, dentro do Seu Corpo, somos um só povo. Mas infelizmente, nós somos humanos, pecadores, e quando Jesus destruiu o muro da inimizade, nós substuímos as vedações de arame farpado.
Paulo, que era o Apóstolo dos Gentios, escreveu sobre o muro da Lei entre os Gentios e os Judeus, mas já teve problemas entre eles: originalmente, quando os Cristãos eram Judeus, os Judeus pensavam que os Cristãos eram somente uma seita herética, mas depois, quando eles começaram a baptizar Gentios, a coisa piorou muito. O primeiro grupo que perseguiu os Cristãos foram os Judeus do Templo: antes de se converter, S. Paulo, chamado ainda Saulo, foi um dos piores de todos[2]. Ele ainda estava do outro lado do “muro da inimizade”, que ele próprio afirmou, depois, já ter sido destruído pela morte de Cristo: do outro lado, apedrajando!
Bem, como é que podemos entender tudo isto? Se Jesus Cristo fez um só povo do mundo inteiro, dos Judeus que eram o Povo escolhido por Deus, e dos Gentios que eram os restantes povos do mundo (e foi isto que Paulo escreveu), que pena que Jesus tivesse feito tudo isto sem que os povos do mundo o notassem!
Não... não é uma pena. É um pecado. É o nosso pecado.
O problema não está somente em nós não termos fé suficiente em Deus: não temos fé suficiente em nós próprios. Somos inseguros, ansiosos. É a versão do pecado pior de todas, o pecado que é a raiz de todos os outros: o orgulho. Nós pensamos que precisamos de ser perfeitos, e se não podemos aperfeiçoarmo-nos, ao menos precisamos de ser melhores do que os nossos vizinhos. “Se alguém souber que não sou perfeito, ninguém me vai amar.”
Quando o Anjo Lúcifer, ele que era o mais lindo dos anjos, cujo nome significa “Luz”, se insurgiu contra Deus e foi derrubado, atirado dos céus à terra, perdeu não só o seu nome — Lúcifer tornou-se Satanás — mas perdeu também todo o seu poder angelical, menos a sua língua dourada, a sua língua viperina... ainda pode mentir, confundir e persuadir. É por isso que lemos que Jesus, depois de ser baptizado por seu primo, S. João Baptista, foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser tentado três vezes pelo diabo[3]. Satanás, que sabia bem que Jesus era verdadeiro homem, esqueceu-se que Jesus também era verdadeiro Deus, e as palavras de rejeição que Jesus proferiu são em si mesmas uma recordação: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”[4], e “Vai-te, Satanás! A Escritura diz, ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”[5]. Mas Jesus era Deus, e não só homem: Satanás ganhou o nome de “O Tentador” quando enganou dois que eram não só homens, mas inocentes.
No terceiro capítulo do Génesis, Satanás entrou na serpente, o mais astuto dos animais criados por Deus: entrou para tentar os primeiros homens, Eva e Adão, no Jardim. Só havia um fruto proibido no jardim: o da árvore do conhecimento do bem e do mal. O fruto desta árvore podia chamar-se ‘o fim da inocência’. Sem o conhecimento do bom e do mal, eles não podiam escolher o mal sobre o bem: não podiam pecar. E Satanás não queria um mundo sem pecado.
Então, Satanás entrou na serpente para fazer a sua maldade, bem como, muito mais tarde, entrou em Judas[6], e Judas traiu o Senhor. A serpente disse à mulher que, se comessem o fruto proibido, “ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus”[7]. Satanás não disse que o fruto poderia dar quaisquer “superpoderes”... só que eles poderiam ser “tal como Deus” em termos de sabedoria. Eles não queriam mostrar ignorância em frente de Deus: não queriam ser os mais ignorantes no seu pequeno mundo.
Até os nossos primeiros pais eram inseguros, ansiosos, tal como nós. No universo inteiro, Adão e Eva só conheciam Deus, mas sabiam que Deus era muito melhor, mais sábio, mais forte, mais tudo do que eles... e tornaram-se inseguros.
Agora que já não eram inocentes, não podiam ficar no jardim paradisíaco, e Deus mandou-os embora para se frutificarem e multiplicarem no mundo que Ele fez. Os seus filhos e netos e bisnetos e trinetos encheram o mundo, mas eram também inseguros, pois sabiam que nunca poderiam ser perfeitos. Satanás nunca deixou fugir uma oportunidade: o seu novo truque é até melhor do que o anterior. Em vez de enganar-nos, insinuando que podemos melhorar-nos, desobedecendo a Deus, a nova mentira demoníaca é até pior: que nós já somos melhores do que os outros: que as pessoas diferentes, quer doutro país, quer doutra cor de pele, quer doutro modo de louvar o Senhor, são piores, são estúpidas, são ‘menos humanas’ do que nós.
Enquanto o Grande Mentiroso conseguir persuadir umas pessoas, feitas por Deus e à Imagem do próprio Deus, de que outras pessoas, igualmente feitas por Deus e à Imagem do próprio de Deus, têm menos valor aos olhos do mesmo Deus, só Satanás sai vencedor. Na história da humanidade, não houve, nem há, guerra nenhuma, perseguição nenhuma, escravatura nenhuma, conquista nenhuma, em que o instigador e o vencedor não seja... Satanás. Ele é militante de cada partido, sócio de cada clube, general em cada exército... e bispo ou pândita ou pastor ou imã ou rabino de cada grupo religioso que ensine o ódio em vez do amor, em qualquer lugar onde um grupo disser que eles são os melhores, ou os mais importantes, ou os mais amados por Deus do que qualquer outro grupo.
“Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro. Aboliu na própria carne a lei judaica, os preceitos e as prescrições. Deste modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só Corpo pela virtude da Cruz, aniquilado a inimizade.”[8]
A lei judaica que Cristo aboliu não tinha nada de mal: foi dada aos israelitas pelo próprio Deus. No plano da Salvação, não era má: era necessária. De todos os povos do mundo, Deus escolheu os Judeus, um povo pequeno, sem poder político, mas com uma força interna e eterna maior do que qualquer outro. Que outro povo teria podido sobreviver mais de dois mil anos sem país próprio, com perseguições, escravatura, com os genocídios dos Assírios e Romanos, do Nazismo e Estalinismo?
Deus escolheu os Judeus, e deu-lhes a Lei, para ajudar o seu povo a aprender quem era Deus: que o verdadeiro Deus que criou o Universo não era o mesmo que os deuses pagãos. Isto levou muito tempo: o Antigo Testamento, uma mistura de história e poesia, teologia e manuais jurídicos, genealogia e ritos religiosos, entre outras coisas, é também a narrativa dum parentesco, de uma relação durante a qual o povo escolhido aprendeu, pouco a pouco, sempre mais sobre o seu Criador.
É uma relação que começou com as palavras, “Faça-se luz!”[9], e como nós sabemos, no início da Criação, o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus; tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada foi feito[10]. Os Israelitas moravam em conjunto com os outros povos do Médio Oriente, povos que tinham uma multidão de deuses, e habitualmente não diziam ‘não’ aos sacrifícios humanos. Estes deuses, como Baal e Asserás, deuses masculino e feminino dos Cananeus, queriam servilismo e subserviência dos seus crentes, e não somente obediência e humildade. A Bíblia Hebraica, o nosso Antigo Testamento, é um testemunho disso mesmo: o testemunho de um Deus que não era igual aos deuses dos outros povos. O entendimento dos israelitas precisava de crescer, pouco a pouco, do tempo de Abraão e Isaac, quando primeiro aprenderam que Deus não quer sacrifícios humanos[11]; o desenvolvimento do entendimento no Livro de Josué, onde Deus é ainda um deus de guerras e batalhas[12], até ao de Amós, o profeta que Deus mandou para castigar os ricos, em que “compraremos os infelizes por dinheiro, e os pobres por um par de sandálias”[13], e para dizer, “Odeio e desprezo as vossas festas. Não me agradam os vossos cultos. ... Quero, sim, que a justiça corra como as águas, e que o que é recto, como um rio que nunca seca!”[14]
Levou séculos, séculos duros. Os israelitas, que foram escravos no Egipto cerca de uns 200 anos, depois de José, o da capa vistosa, colorida com mangas compridas, que foi vendido pelos irmãos para escravo mas chegou a ser governador de Egipto[15], até ao tempo de Moisés que nasceu como escravo no Egipto[16] mas chegou a ser o líder e profeta dos israelitas até chegarem à terra prometida[17], talvez quinze séculos antes de Cristo[18]. Durante todo este tempo, havia um “muro” entre os israelitas, o ‘povo escolhido’ por Deus, e todo o resto do mundo, a que os judeus chamavam de Gentios, durante o tempo em que Deus “ensinou” os judeus. Levou séculos, mas quando Deus soube que tinha chegado o tempo certo (uma coisa que Deus já sabia até antes da Criação: o tempo de Deus não é o nosso), Jesus, o Filho que era o Verbo Divino durante Criação, incarnou pelo Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, e habitou entre nós.
Com os seus ensinamentos, mostrou as portas da vida eterna; com a sua morte, abriu as mesmas portas. Na sua morte, Jesus triunfou sobre o pecado e a morte, dando-nos a vida eterna. Com a sua morte Jesus não somente destruiu a morte, abrindo as portas à vida eterna, mas também destruiu o muro entre os judeus e os Gentios. Com Abraão, Deus-Pai escolheu um povo para si. Com a sua Incarnação, no seio da Virgem, com a sua morte, na Cruz, Deus-Filho escolheu todos os povos, para sempre. Com os seus dons espirituais, Deus-Espírito Santo possibilita que nós formemos o Corpo de Cristo, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.
Mas, se Jesus Cristo destruiu o muro entre os povos do mundo, como é que estamos tão divididos? Como já disse... pecado. É o pecado do orgulho, orgulho e medo. E o medo também pode ser pecado, se tivermos medo porque não temos fé no amor de Cristo.
Ora. Se acho que não tenho muito valor, que não sou digno de respeito, digno de amor, digno das promessas de Cristo, há coisas que posso fazer.
Primeiro, posso ter a fé de que, apesar de não pelo meu mérito, pois daí não tenho salvação de jeito nenhum, o amor de Cristo é ainda tão grande que até um pecador (como eu) pode ser salvo, e depois fazer tudo quanto poder pelos outros, como acção de graças. Esta é a versão melhor, e que acontece menos (claro).
Segundo, posso trabalhar para ser melhor, e ser tão bom que mereça a salvação. Falhará. É impossível. Mas, poderia ser pior.
Terceiro, e mais comum. É dizer, “Eu não sou assim tão mau—olha para ele! Eu odeio pessoas como ele! Ele não tem valor nenhum!” A nível pessoal, estas pessoas são chatas. A nível dos grupos, esta é a justificação para todos os tipos de racismo, ou para todos os outros tipos de discriminação, como sexismo, discriminação etária, ou discriminação contra pessoas de outras religiões, quer Católicos Romanos que não gostam de Protestantes, ou Protestantes que não gostam de Católicos Romanos, quer Protestantes e Católicos Romanos que não gostam de Anglicanos porque somos ou Católicos demais para os Protestantes ou Protestantes demais para os Católicos Romanos, ou qualquer das três que odeiam os Islâmicos, e os Islâmicos que odeiam os Cristãos, e qualquer destas que não gostam dos judeus... etcetera, etcetera, etcetera.
E ao nível dos países, pode ser o pretexto para guerras, ou para os genocídios.
Para muitos de nós, nós que somos feitos por Deus à Sua própria Imagem, somente poderemos ser felizes se pensarmos que somos superiores a qualquer outro grupo. A única qualidade própria que temos é em contraste com alguém que nós pensamos ser pior, de menos valor. Os Americanos ou Ingleses acham que eles são o povo melhor do mundo, e que o resto do mundo só existe para os cuidar, são conhecidos nesta cidade de turismo.
Sou Americano—vou falar do meu país. Há muitos Americanos que não têm interesse nenhum em viajar, porque acham que nos Estados Unidos há tudo o que existe de bom no mundo. É por isso que Americanos não estudam outras línguas... Porquê? Os outros devem aprender inglês! Há muitos Americanos que querem construir um muro grande ao longo da fronteira com o México, por causa dos imigrantes ilegais... mais um substituto para o muro destruído por Cristo.
E não são somente os Americanos, claro. Os Italianos querem fazer a mesma coisa com os imigrantes da Bósnia, os Franceses com os árabes, os israelistas matam palestinianos que matam israelitas, as guerras em cada canto de África... Cada país quer um muro, e cada grupo dentro do país quer mais um muro, e cada pessoa no grupo vai precisar do seu próprio muro também... se não temos fronteiras, não podemos saber quem é “diferente”, e se não sabemos quem é “diferente”, não podemos saber quem é pior do que nós, e se não sabemos se alguém é pior que nós, só temos os nossos espelhos para ver os pecadores. Ai! Claro que temos medo!
É este mesmo o problema. É como disse S. Pedro: “Agora compreendo verdadeiramente que para Deus todos são iguais. Ele quer bem a todos os que respeitam e cumprem a sua vontade, sejam de que raça forem.”[19]
“...sejam de que raça forem.” As fronteiras do mundo não são de Deus. As fronteiras são feitas por homens, pecadores, e a maioria foram feitas com armas. O nosso Deus não fez os Estados Unidos: Ele fez a América do Norte. Deus não desenhou num mapa as fronteiras de Portugal—não foi Deus que deu a Galiza à Espanha. Deus, em Jesus Cristo, erradicou os muros entre os povos.
Não quero dizer que é mau, ter orgulho no seu próprio país, nem na sua cidade, ou na sua equipe (sou Portista!), ou na sua família. Eu até acho que as fronteiras entre países podem ter valor: a minha única ansiedade com a ideia da União Europeia é que Portugal e os outros países mais pequeninos podem perder as suas culturas particulares. Não quero morar em “Françamanha”: quero morar em Portugal!
Mas este orgulho nacional nunca pode ser tão forte que se torne num muro. A coisa mais importante é o Corpo de Cristo, e o Corpo de Cristo atravessa todas as fronteiras do mundo. Eu tenho muito mais em comum com qualquer um de vós do que tenho com um Americano que seja ateu. Só há uma “fronteira” com importância, que é a fronteira entre as pessoas que já são membros do Corpo e as que ainda o não são, e esta “fronteira” tem de ter sempre a porta aberta... mais, nós temos de convidar todos os que estão fora a entrar. Isto é a tarefa de que Jesus nos encarregou: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, vão e façam com que os povos se tornem meus discípulos. Baptizem as pessoas em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo ensinando-as a obedecer a tudo quanto eu tenho mandado. E saibam que estarei sempre convosco, até o fim do mundo.”[20]


Em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.


[1] Efésios 2, 14-15
[2] Actos 7, 58; 8:1, 3; 9,1-2
[3] S. Mateus 4, 1
[4] Deuteronómio 6, 16: “Não tentareis o Senhor, vosso Deus, como o tentaste em Massá.”
[5] Deuteronómio 6, 13-14: “Temerás o Senhor, teu Deus, prestar-lhe-ás culto e só jurarás pelo seu nome. Não seguireis outros deuses entre os das nações que vos cercam.
[6] S. João 13, 26-27
[7] Génesis 3, 5
[8] Efésios 2,14-16
[9] Génesis 1, 3
[10] S. João 1, 1 e 3
[11] Génesis 22, 1-14
[12] Josué 10 (ou qualquer outro capítulo!)
[13] Amós 8, 6
[14] Amós 5, 21 e 24
[15] Génesis 37, 3-4, 25-28,; 42,6
[16] Êxodo 2, 1-10
[17] Deuteronómio 34, 1-12
[18] “Exodus”, por John Gray, PhD, Interpreter’s One-Volume Commentary on the Bible, 1984, 1971
[19] Actos 10, 34-35
[20] S. Mateus 28, 18-20

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