10 January 2011

4° Domingo do Advento, 21.12.08 [Ano B] A Coragem duma Virgem

4°Domingo do Advento, 21.12.08 [Ano B]
Igreja de Redentor/Porto
Cónego Doutor Francisco Carlos Zanger

Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.


"Eu te saúdo, ó escolhida de Deus! O Senhor está contigo." Ou, nas palavras talvez mais conhecidas, “Avé Maria, cheia de graça! O Senhor é contigo.”

Quando ouviu estas palavras, a jovem Virgem Maria ficou cheia de medo. Sabemos isto, porque logo a seguir as palavras do Anjo Gabriel foram: “Não tenhas medo, Maria.”

Os Anjos são assustadores; quando, na noite do Nascimento de Nosso Senhor, o anjo apareceu aos pastores que passavam a noite no campo guardando os rebanhos, a primeira coisa que o anjo lhes disse foi: “Não tenham medo!”. Agora, vimos anjos nas lojas e eles são giros, adoráveis, bebés dourados com asas... mas não é nada de “delico-doce” como um anjo verdadeiro; os anjos são os mensageiros de Deus. É por isso que eles dizem: “Não tenhas medo”— são medonhos.

E as palavras seguintes foram até piores: "Ficarás grávida e terás um filho, a quem vais pôr o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado de Filho do Deus Altíssimo."

À primeira vista, não compreendeu. Ela perguntou ao Anjo Gabriel (e isso também demonstrou a sua coragem, confrontando um anjo do Senhor!): “Como é que isso pode ser, se eu sou virgem?”. Mas o anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Deus altíssimo te cobrirá como uma nuvem. Por isso o que vai nascer é santo e será chamado Filho de Deus.” E o anjo disse a Maria que a sua parente, Isabel, que era casada com o sacerdote Zacarias, e era velha de mais para ter crianças, também estava grávida já no sexto mês, de um filho: filho este que seria São João Baptista: "É que para Deus não há nada impossível!”

Histórias e palavras tão familiares que quase nem lhes ligamos agora, mas que para uma miúda de doze ou treze anos, que estava desposada com um homem mais velho, um homem sério, um homem muito religioso numa cultura muita conservadora... estas eram palavras terríveis, palavras medonhas. Se ela tivesse tido medo quando viu o anjo, tal teria sido o fim do mundo.

Para compreender porque era tão difícil, precisamos de saber um pouco sobre a cultura israelita do Primeiro Século. Não se tratava só de os casamentos serem arranjados, mas também que o acordo de casamento era um contrato com força legal. O Império Romano não tinha interesse nenhum em assuntos como estes, desde que os Judeus pagassem os impostos, o “IVA Romano”, e continuassem como uma colónia pacífica, podiam continuar com as suas leis tradicionais, as leis Bíblicas.
A maioria das leis sobre os casamentos estavam escritas no vigésimo segundo capitulo do Deuteronómio. O contrato de casamento era entre o noivo e o pai da noiva, e menina não tinha voz nenhuma no assunto. No caso da Virgem Maria, seu pai, São Joaquim, assegurou que ela era uma virgem, pura e sem mácula, e assinou o contrato com São José. Como era normal, a jovem Maria continuaria na casa dos pais durante o ano de noivado.
Mas, na lei, se ela ‘quebrasse o contrato’, se depois do dia do casamento, o marido a acusasse de já não ser virgem na altura do casamento, a lei era simples. Se os pais da jovem não pudessem levar os sinais da virgindade aos anciãos da cidade, reunidos em tribunal, então, como estava escrito no Deuteronómio: "devem levá-la à porta da casa do seu pai e ali será apedrejada e morta pelos homens da sua cidade. É que ela cometeu no meio do povo de Israel a infâmia de se prostituir, desonrando a casa do seu pai. Dessa maneira, acabarás com este escândalo, no meio do teu povo." E, no caso de uma menina que já estava, pelo menos, no terceiro ou quarto mês da gravidez, o tribunal não estaria muito interessado nos sinais da sua virgindade.

E Maria sabia bem disso: ela era duma família religiosa, era bem educada. Ela era jovem, ainda entre menina e mulher, provavelmente já se tinha assustado antes do encontro com o anjo, assustado com o casamento, com a entrada no mundo dos adultos, mas ao mesmo tempo tudo era animado... todos os sentimentos, todas as esperanças que são naturais a uma noiva tão jovem. E agora, com as palavras do anjo, perdia tudo.

O que é que ela poderia dizer aos pais? Que está grávida, mas ainda é virgem? O que é que ela poderia dizer ao seu noivo, José? Ela bem sabia que, ao dizer “Sim” ao anjo, ninguém iria acreditar que fosse ainda virgem... e sabia que iria morrer, apedrejada como prostituta, em frente à porta da sua casa.

Mas... como é que ela podia disser que “não”? Ela era fiel, educada na Fé, e quando o anjo — um anjo de Deus(!) se aproximou... ela não podia dizer não, não ao seu Deus!

E não teve tempo para pensar. É impossível dizer a um anjo: “Posso pensar nisto por uns dias?”. Ela tinha de responder no momento e respondeu, não assustada mas com Fé : “Servirei o Senhor como ele quiser. Seja como tu dizes.”Ou, nas palavras mais tradicionais: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segunda a tua palavra.”

Falou assim, sabendo que talvez ninguém fosse acreditar nela, que o preço da sua obediência podia ser mais do que a vergonha, poderia ser a sua própria morte. Falou assim, esta jovem, por causa da sua fé. Falou assim, e, nas palavras do Anjo Gabriel, o Espírito Santo desceu sobre ela, e o poder de Deus altíssimo cobriu-a como uma nuvem.

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós!

Esta jovem, esta miúda virgem, tinha tanta coragem! É por isso que ela tem um lugar especial na nossa Fé tal como está escrito no quadragésimo segundo versículo deste mesmo Evangelho, a Santa Isabel, parente da Virgem Maria e já grávida de nove meses de João Baptista, disse: “Abençoada és tu entre todas as mulheres e abençoado é o fruto do teu ventre!" e a Virgem respondeu, no Cântico de Maria “Daqui em diante toda a gente me vai chamar ditosa, pois grandes coisas me fez o Deus Poderoso. Ele é Santo!.”

Quando Maria aceitou a vontade do Senhor e o Espírito Santo desceu sobre ela, Deus que criou o Universo, Incarnou-se. Jesus Cristo entrou na sua própria Criação nesse mesmo momento. Ele, que era verdadeiro Deus desde o princípio, fez-se verdadeiro homem, nove meses antes do primeiro Natal, no seio de Maria.

É por isso que a igreja primitiva a chamava de “Theotokos” — a “Mãe de Deus”, ou literalmente, “a Portadora de Deus”, assim insistindo que o Messias era totalmente humano e totalmente divino a partir do momento da concepção; por conseguinte, a criança que nasceu não era somente uma criança humana com a divindade habitando nela, mas era uma Pessoa com duas naturezas distintas, a divina e a humana — o Deus-Homem, o Encarnado. O Verbo se fez carne, e habitou entre nós... e só para nos salvar!

Quando o Anjo Gabriel foi mandado a Maria, ela tinha que fazer uma escolha terrível. Podia dizer que “sim”, com o risco não só de uma gravidez vergonhosa e escandalosa, mas sabendo que a lei ordenava que ela fosse apedrejada, morta em frente da casa de seu pai... ou podia dizer que “não”. E se dissesse “não”, ninguém iria saber! Ninguém, excepto o próprio Deus. E ela, esta menina tão jovem e tão assustada, respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segunda a tua palavra.”

Nós raramente somos solicitados por Deus para pôr em risco as nossas vidas... mas as exigências de Deus ainda podem parecer difíceis, porque as exigências de Deus são frequentemente muito diferentes das exigências da nossa cultura moderna. Talvez nunca iremos precisar de comparecer em frente dos anciãos da cidade, reunidos em tribunal, e sentenciando a morte... mas temos de comparecer em frente dos nossos colegas, dos nossos amigos... em frente do “Tribunal da Cultura Secular”. E as nossas vidas seriam muito mais fáceis, mais calmas, mais agradáveis, se pudéssemos dizer que somos inocentes.

Mas não podemos. Quando tivermos que comparecer em frente do “Tribunal da Cultura Secular” só poderemos confessar que somos culpados... porque cada um de nós precisa primeiro de dizer: “Eis aqui o servo do Senhor. Faça-se em mim segunda a Sua palavra.”


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

3° Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]

3°Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]
Igreja de S. João Evangelista/VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco C. Zanger

«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Vivam sempre em alegria!” Vivam sempre em quê? Assim começou a nossa segunda leitura, da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses... com uma frase que até parece um contra senso. Estamos no Terceiro Domingo do Advento, esperando o retorno de Cristo e o Seu Juízo Final, e precisamos de viver ‘sempre em alegria’? Não seria muito mais fácil, e mais justo, viver no medo, no medo da condenação, e no medo de passar a eternidade no Inferno?


Esta é a contradição do Advento. Nós esperamos pelo Juiz do Mundo, por Aquele que conhece todos os nossos desejos e pensamentos, bons e maus, esperamos por Aquele que já disse que, cada vez que passamos por um mendigo com fome sem lhe dar comida, cada vez que sabemos de uma viúva idosa e sozinha e não a visitamos, ou que sabemos de um membro da Paróquia que está no hospital e não o visitamos, sabemos que este mendigo, ou esta viúva, ou este doente, “é um dos irmãos mais pequeninos” de Jesus, e no Juízo Final tudo isto será o mesmo que termos ignorado a própria pessoa de Jesus nessas ocasiões. E esperamos com esperança.

Esta é a contradição do Advento, podermos esperar sem medo por uma coisa tão medonha. É a contradição do Advento, e também a contradição da nossa Fé. Esperamos pelo Juízo Final, pelo julgamento de Deus, mas ao mesmo tempo sabemos que o tribunal não será “justo”, e sabemos que, se fosse um tribunal justo, e um Juiz justo, seriamos todos condenados.

Mas tal é a nossa Fé — a de que, no dia e na hora do Juízo Final, não será um julgamento de justiça, será um julgamento de amor. O nosso Juiz, Aquele que nos amou de tal modo que entrou na sua própria Criação, encarnou-se no seio da Virgem Maria e viveu como um de nós (quando podia ser rico, podia ser um rei, mas não, quis ser um homem normal, como um de nós mesmo), e morreu de um modo horrível e escandaloso, verdadeiro homem, mas ainda verdadeiro Deus ao mesmo tempo, e tudo isto só pelo seu amor a nós, e para a nossa salvação... é Ele que nos julgará! Não, este não vai ser um tribunal de justiça, graças a Deus. Será um tribunal de amor.

Mas, se será um julgamento de amor, também será um julgamento do nosso amor — e não só do nosso amor para todos os seres humanos criados por Deus, de todos nós que somos criados à Imagem de Deus, mas também do nosso amor pela Criação inteira. Nós somos os feitores da Criação, não somos os donos, mas os feitores, os “empregados” de Deus, desde que fomos criados. No primeiro capítulo do Génesis, Deus abençoou o ser humano, o primeiro homem e a mulher, desta maneira: «Sejam férteis e cresçam, encham a terra e dominem-na, dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» [v.26]

Mas este 'domínio’ não significa que nós somos os novos proprietários, os ‘donos do mundo’! No Salmo Cinquenta, Deus disse: «...pois todos os animais dos bosques me pertencem, bem como os que se encontram nos altos montes; pois conheço bem as aves das montanhas, e os répteis do campo estão à minha disposição. Se eu tivesse fome não precisava de to dizer, pois o mundo e tudo o que ele contém pertencem-me.» Não, donos não somos, somos somente os feitores do dono... e quando o dono voltar, devemos estar preparados.

Não me lembro já de quantas vezes Jesus falou através de parábolas, de comparações, sobre a importância do nosso papel enquanto feitores, quando o dono não está presente na casa. No décimo segundo capitulo do Evangelho de São Lucas, Jesus disse que: «Como poderá mostrar-se fiel e prudente o empregado a quem o Patrão deixou a tomar conta dos outros... Feliz seja seráaquele empregado a quem o patrão, quando vier, encontrar a proceder assim. Digo-vos que certamente o fará administrador de todos seus bens.» [12,42-43], mas no outro lado, no mesmo capítulo do Evangelho, o «empregado, que conhecia a vontade do patrão, mas não se preparou nem fez nada de acordo com o que ele queria, será bastante castigado»[12,47].

Temos parábolas semelhantes nos outros Evangelhos também, como a parábola do Rei e do Administrador que Não Soube Perdoar, no décimo oitavo capítulo de São Mateus, e a comparação dos Rendeiros Criminosos no décimo segundo capitulo de São Marcos, e também a história da Cura do Empregado do dum Oficial Romano no oitavo capítulo de São Mateus — o Centurião do Exército Romano que, quando Jesus queria ir a casa dele para curar o seu empregado, respondeu : «Isso não, Senhor! Não mereço que entres em minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu empregado ficará são. Também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência e os meus soldados a quem dou ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem.» O Centurião — ele que era pagão, que venerou o Mithras, o ‘deus’ dos soldados Romanos — ele entendeu! E Jesus ficou admirado, e respondeu:«Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé mesmo entre o povo de Israel. Digo-vos mais : hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no Reino do céus com Abraão, Isaac, e Jacob, enquanto os herdeiros do Reino serão lançados fora, na escuridão!”» [8,5-13]

Palavras difíceis, estas! Na altura em que Jesus disse estas palavras, nem as pessoas do Oriente, da China ou Japão, nem as pessoas do Ocidente, quer as tribos europeias quer as tribos dos Índios das Américas, conheciam o Deus de Abraão, Isaac, e Jacob . Eram todos pagãos de um tipo ou de outro. Os herdeiros do Reino, na altura, eram o povo Hebraico, e depois da Ressurreição, também os Cristãos gentílicos que foram convertidos por São Paulo e outros evangelistas da nova Fé... mas levou séculos para o Cristianismo entrar na Europa inteira, um milénio e meio para as Américas, e ainda há lugares na China, na África, e nalgumas das ilhas do Oceano Pacífico aonde o nome de Jesus é completamente desconhecido. Dois mil anos, e ainda não podemos dizer que concluímos a Grande Comissão, a de pregar a mensagem sobre o arrependimento e o perdão do pecados a todas as nações.

Bem, tínhamos só três tarefas para o julgamento final. A primeira : Amar o Senhor e os nossos próximos, e tratar os nossos próximos da mesma maneira como tratamos a Jesus, tal como Ele disse: “Saibam também que todas as vezes que deixaram de (ajudar) a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o deixaram de fazer”. Reprovamos !

Segunda: somos os feitores da Criação. Com a nossa historia de exploração do nosso planeta, com a desflorestação das grandes partes da Amazónia e da Rússia, com a extinção de tantos tipos de plantas e de animais, com a poluição dos rios e oceanos e o ar impuro, viciado, com o aquecimento global... a nossa solicitude para com a Criação não é muito visível! Reprovamos!

E terceira: a Grande Comissão — o mandamento de Jesus para levar a Boa Nova ao mundo inteiro. Dois mil anos mais tarde, num mundo com aviões, com rádio, televisão e a internet, quando podemos gastar milhões, não, biliões de Euros quer para guerras quer para os Jogos Olímpicos, há quantos mongólicos, ou Papuanos, ou Birmaneses, ou indígenas na Amazónia, que nunca ouviram sequer falar no nome “Jesus”? Reprovamos! Três mandamentos. e três Reprovações. !

E as primeiras palavras de São Paulo que ouvimos hoje, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses, são “Vivam sempre em alegria!” ? Preparamo-nos para o Juízo Final, sabendo bem que não temos resposta nenhuma para o Juiz... e necessitamos de viver sempre em alegria?

Sim! Claro que sim, porque tudo isto não tem nada haver com justiça, mas só com amor. Precisamos sempre de continuar, de tentar melhorarmo-nos, de ser Cristãos verdadeiros, e não só de nome... porque quando Jesus Cristo morreu na Cruz, Ele tirou-nos o peso terrível dos nossos pecados. É um amor incompreensível. "Vivam sempre em alegria e oração, e dêem graças a Deus por tudo. Esta é a vida que Deus quer de vocês, em união com Cristo Jesus... Que o Deus da paz vos torne totalmente perfeitos, e vos guarde dignos e irrepreensíveis de corpo e alma, até à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que vos escolheu é fiel e realizará o que prometeu." E por isto, damos graças a Deus!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

2° Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]

2º Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]
Igreja do Bom Pastor/VN de Gaia
Cónego Doutor Francisco Carlos Zanger


«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Hoje é o Segundo Domingo do Advento, e o Advento é principalmente um tempo de preparação. Para o mundo secular, é um tempo de preparação para as férias, talvez o tempo para comprar uma árvore de Natal, fazer uma festa para a família e de esconder os presentes do “Pai Natal” para as crianças.
Para nós, é diferente. Preparamo-nos para o Natal, claro... mas é muito mais importante que nos preparemos para acolher Jesus, não só como o bebé no presépio, mas como o nosso Juiz e deste modo preparamo-nos para o Juízo Final. Advento é tempo de lembrar a advertência do Evangelho do Domingo passado: “Estejam, portanto, vigilantes, porque não se sabe quando voltará”.
Estejam vigilantes — estejam preparados. O tema mais importante do Advento é este mesmo : preparação. Até podemos dizer que este é um dos temas mais importantes da nossa Fé Cristã; a preparação.

É por isso que o Evangelho de São Marcos, que é ‘a Boa Nova a respeito de Jesus Cristo, Filho de Deus’, não começa com Jesus, mas com um dos profetas maiores do Antigo Testamento, Isaías, e também com um do Novo Testamento, que é São João Baptista. Mas as nossas Bíblias ensinam que a preparação para a Incarnação e o Nascimento de Jesus, e também para o Juízo Final, começou bem antes do Novo Testamento — começou desde a Criação do Universo.
Como está escrito no Evangelho de São João : «No princípio de tudo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus, e ele mesmo era Deus. Desde sempre ele esteve com Deus.» Não podemos falar dum tempo ‘antes da Criação’ — o ‘tempo’ mesmo é uma parte da Criação.

Em Grego, a língua original do Novo Testamento, há duas palavras diferentes para traduzir a nossa palavra “tempo” e que são : — chronos e kairos. Chronos é o nosso tempo, o tempo linear — o hoje vem antes do amanhã, eu nasci depois dos meus pais mas antes dos meus netos... é o “tempo normal”, do passado, do presente, e do futuro. O chronos, o nosso tempo, é somente uma parte da Criação, a parte que começou ‘no princípio, quando Deus criou o céu e a terra”, no primeiro dia, e nas primeiras palavras do Livro do Génesis.

Kairos é completamente diferente. Kairos é o “tempo de Deus”, e para Deus, todos os nossos tempos são iguais. Ele pode ver o passado e o futuro ao mesmo tempo, porque Deus existe fora do tempo humano.

É por isso que o nascimento de Jesus é tão incrível — Deus, em Cristo Jesus, não só entrou na Sua própria Criação, como entrou no chronos também — entrou no tempo ‘humano’, como bebé, e viveu, e morreu, como um de nós. Nós falamos do sacrifício na Cruz, e foi um sacrifício horrível... mas Deus primeiro sacrificou o Seu próprio lugar fora do tempo humano, no kairos, para a ignorância, a dor e o medo do chronos. Só assim é que Ele pôde exclamar, no fim da vida, «Eloí, Eloí, lema sabactáni?» --"Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”

Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Trindade, entrou na sua própria Criação como um de nós, deixando a sua omnisciência, até deixando ao lado, nesse momento terrível na Cruz, a sua sabedoria de amor do Pai... só para nos salvar??? Como é que podemos entender um sacrifício como este? Como é que podemos responder?

Não podemos entender. Precisamos de responder.

Desde a Criação, a nossa resposta ao amor de Deus foi terrível, pecaminosa. E a culpa é só nossa dado que Deus mandou centenas de profetas para nos ensinar. Deus, vivendo no kairos, fora do ‘tempo humano’, soube bem que as mensagens dos profetas seriam ignoradas e passariam despercebidas, mas ao mesmo tempo, deu-nos o livre arbítrio, deu-nos a oportunidade de escolher, quer o bem quer o mal. E, vezes sem conta, escolhíamos o mal. Ignorávamos os profetas que tinham sorte, e matámos o resto... incluindo o último, São João Baptista. Este, embora tenha acabado a sua missão profética com a cabeça num prato, conseguiu primeiro completar a sua missão — preparou o caminho do Senhor!
O caminho foi bem preparado — esta é umas das mensagens do Advento : que Deus, vivendo e mudando em kairos, preparou tudo o que era preciso bem antes do primeiro Natal em Belém. Não foram somente as mensagens dos profetas, as profecias sobre o Salvador de Isaías e Jeremias e nos Salmos do Rei David, mas também as coisas mais concretas, mais pragmáticas.

Deus primeiro mandou o Anjo Gabriel ao sacerdote idoso, Zacarias, para lhe dizer: “Deus ouviu as tuas orações : Isabel, tua mulher, (também idosa) vai dar-te um filho e tu vais pôr-lhe o nome de João”, e alguns meses mais tarde, mandou o mesmo anjo à Virgem Maria, parente de Isabel, para a Anunciação : “Eu te saúdo, ó escolhida de Deus. O Senhor está contigo! Não tenhas medo, pois foste abençoada por Deus. Ficarás grávida e terás um Filho, a quem vais pôr o nome de Jesus.” E Santa Maria disse, “Servirei o Senhor como Ele quiser. Seja como tu dizes.”
Deus tinha de mandar o anjo pela terceira vez, a São José, quando ele ouviu que Santa Maria já estava grávida — o anjo apareceu num sonho e disse-lhe: “José, filho de David, não tenhas medo de casar com Maria, pois o que nela está gerado é do Espírito Santo; e dará à luz um filho, e chamarás o seu nome Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados!”.

São João nasceu antes de Jesus, porque tinha de preparar o caminho para o seu primo, nosso Salvador. São João, o último profeta da velha Aliança, o primeiro profeta da nova, proclamou a Boa Nova : “Arrependam-se do mal, recebam o baptismo, e Deus vos perdoará os pecados”. João sabia bem que não era o Messias, o Cristo –– foi ele que disse: “Eu baptizo-vos com água, para se arrependerem do mal. Mas o que vem depois de mim tem mais autoridade do que eu : nem sequer mereço a honra de lhe levar as sandálias!. Ele há-de baptizar-vos com o Espírito Santo e com fogo”.
Então, tudo isto foi a preparação do caminho para Jesus, preparação esta, que começou na Criação, como está escrito no Evangelho de São João, quando diz: “Nele estava a vida, e essa vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram”. A preparação do caminho do Senhor continuou com as palavras dos profetas, como Isaías : “Pois bem, é o próprio Senhor que vos vai dar um sinal: uma virgem ficará grávida e vai dar à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel” que significa “Deus está connosco”, e também : “Alguém grita no deserto : preparem o caminho do Senhor e abram-lhe estradas direitas!”. [*Capítulos 7 e 40 do Isaías, na ‘Septuaginta’]

A preparação feita por Deus continuou com a pregação do primo de Jesus, São João Baptista, no deserto da região da Judeia, pregando o arrependimento do mal, e baptizando o povo no Rio Jordão, para a remissão dos pecados. E, como está escrito no nosso Evangelho, Jesus veio de Nazaré da Galileia e também foi baptizado por João Baptista no Jordão, e o céu abriu-se e o Espírito Santo, como uma pomba, descia sobre Ele, e Ele ouviu a voz do Pai, que dizia: “Tu és o meu Filho querido: tenho em Ti a maior satisfação!”.

E logo, o Espírito o impeliu para o deserto, aonde Jesus passou quarenta dias com os animais selvagens, foi tentado por Satanás, e era servido pelos anjos.
Quando saiu do deserto, começou pregando a Boa Nova sobre o amor de Deus, o arrependimento dos pecados, o Reino do Céu — mas também sobre o Juízo Final, quando Ele voltará para julgar o mundo. Vai ser um julgamento difícil, porque, como Ele disse no Evangelho de São Mateus, o nosso Juiz só quererá saber se vivíamos as nossas vidas com passividade ou compaixão — se dávamos comida para todos os que tinham fome, água para todos os que tinham sede, roupas para os que estavam nus...
Bem. Se o Advento é o tempo da preparação para o retorno de Jesus, para o Juízo Final, e se este Juízo vai ser sobre o nosso amor para com os outros... como é que nos preparamos?
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

Primeiro Advento, Ano B, 30-11-2008

1° Domingo do Advento, 30.11.08 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo/VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco C. Zanger


«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Feliz Ano Novo! Já sei que hoje não é o primeiro dia do mês de Janeiro, mas hoje é o primeiro dia do calendário Eclesiástico, o Ano B, para todos os que usam as Leituras Bíblicas da nossa Igreja Lusitana e de todas as Igrejas Anglicanas.
O calendário Eclesiástico é um pouco diferente nos Estados Unidos; o Evangelho começa com o Versículo 24, em vez do 32, e neste caso prefiro o mais longo porque podemos ouvir estas palavras tão fortes: «Depois daqueles dias de sofrimento, o Sol ficará escuro e a Lua deixará de brilhar. As estrelas cairão e os poderes do céu hão-de estremecer. Hão-de ver então o Filho do Homem aparecer nas nuvens com grande poder e glória. E Ele enviará os anjos para reunirem os escolhidos de um extremo ao outro do mundo.»
Ai - isto é um drama! Tem emoções fortes, emoções de medo, mas também de esperança... porque estes versículos falam do fim do mundo, do fim do universo, do fim da criação inteira-- sem Sol, sem Lua, sem estrelas... de um tempo no qual a único luz vai ser Cristo, em todo o Seu poder. O mundo acabará como começou, na Criação — nas palavras do primeiro capitulo do Evangelho de São João, «Nele estava a vida, e essa vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram.» E como foi no principio, assim será no fim. Jesus, que era mesmo Deus na Criação do universo, que fez-se homem e veio morar, e morrer, no meio de nós, é o mesmo Jesus que voltará em poder, em toda a sua glória e majestade, para o Juízo Final.
E vai ser um Juízo assustador, como ouvimos no Evangelho de Domingo passado, porque cada um de nós vai ser julgado, e por cada vez — cada vez! — que passámos por um mendigo sem lhe dar umas moedas, por cada vez que deixámos um idoso com fome sem lhe dar comida, por cada vez que passámos por qualquer pessoa que precisava de ajuda sem fazermos nada, o Juiz vai dizer : «Saibam também que todas as vezes que deixaram de fazer isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o deixaram de fazer.» Este Juízo Final, que acontecerá no fim do mundo, pode ser mesmo terrível.
Ora bem. Se soubéssemos quando é que Jesus vai voltar, talvez fosse tudo muito mais fácil. Se eu tivesse a certeza de que tinha ainda, oh... mais quinze ou vinte anos de vida, eu podia ‘brincar’ nos primeiros quatro ou cinco anos, e depois passaria o resto do tempo vivendo como um pequeno santo... e rezando e fazendo mais boas acções nos restantes quinze anos do que as más que tinha feito nos primeiros quatro ou cinco.
Isto é mais uma idiotice do que uma ideia, porque não vai dar, de maneira nenhuma. É impossível por três razões. Primeiro, eu já sei que não posso viver quinze anos como “anjinho” — eu, que nem sequer consigo viver quinze minutos como um anjo! Segundo, Jesus, o Rei da Glória e nosso Juiz, não esquecerá os pecados dos primeiros cinco anos, só porque tentei melhorar-me nos últimos quinze! E terceiro — e mais importante — é que sabendo que Cristo voltará, tal não é ainda suficiente. Sabemos que Ele vai aparecer nas nuvens, com todo os Seus anjos e arcanjos, com grande poder e glória, mas sabemos só o como, sem saber o quando, o que não se torna muito útil.
O Rei pode voltar daqui a mais mil anos, ou no ano que vem, ou antes do final deste Culto! E é por isso mesmo que sempre que começamos o Primeiro Domingo do Advento, começamos também o Ano Eclesiástico, assim, olhando para a frente, para o futuro. Quando o mundo secular está a pensar no Natal, nós não estamos a olhar para a chegada de um bebé, mas de um Juiz. O bebé é importante, claro, foi o bebé mais importante na história do mundo — mas quando o Juiz chegar, vai ser o fim deste mundo. Nós sabemos que devemos estar preparados para a chegada, mas é difícil, sem saber quando é que tal vai acontecer. Não somos só nós que não sabemos; nem os anjos do Céu, nem mesmo o Filho, quando Ele esteve cá connosco, sabiam. Depois do Dia da Ascensão, quando voltou para a direita do Pai, soube, claro, mas na altura, nem o Filho, que era verdadeiro Deus mas também verdadeiro homem, soube. Só o Pai Celestial sabia.
E é por isso que precisamos de estar sempre atentos, sempre preparados. Quando Nosso Senhor, depois da Ressurreição, ascendeu ao Céu, Ele deixou a cada o seu encargo de coisas para fazer. Era disso que Jesus falava, quando disse: «É como se um homem tivesse deixado a sua casa, partindo para uma viagem. Entregou a administração dos seus bens aos empregados, ficando cada um com o seu encargo, e deu ordens ao porteiro para que vigiasse. Estejam, portanto, vigilantes, porque não se sabe quando voltará o dono da casa.».
O dono da casa é Jesus Cristo, claro, que “deixou a casa” quando subiu aos céus para se sentar mais uma vez à direita do Pai. Nós, que somos Cristãos, somos os empregados que Ele deixou para administrar os seus bens aqui na terra, cada um de nós com o seu próprio encargo... mas os encargos são todos semelhantes. Até podemos dizer que são somente quatro, e são todos bem familiares.
O primeiro é este : ‘Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento. Este é o primeiro e mais importante dos mandamentos’.
O segundo, tão importante como ele é: ‘ama o teu próximo como a ti mesmo’. Tão importante, sim, mas fácil, não. Quando Jesus disse o “teu próximo”, Ele não estava a falar da pessoa sentada ao seu lado, aqui na igreja. Tal seria fácil de mais. Não, para entender Jesus quando Ele disse o “teu próximo”, temos de lembrar a parábola, a comparação do ‘samaritano de bom coração’ no décimo capitulo do Evangelho de São Lucas, e também lembrar o Evangelho da semana passada, do vigésimo quinto capítulo do Evangelho de São Mateus. O ‘nosso próximo’ é todo o mundo! O ‘nosso próximo’ é cada um “destes meus irmãos mais pequeninos”, criado à imagem de Deus.
O terceiro encargo é a Grande Comissão, dada por Jesus minutos antes da sua Ascensão — «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.». Isto não pode ser interpretado literalmente, claro — qual de nós consegue ir por todo o mundo? É um mandamento para toda a Igreja, e não para pessoas individuais. Mas como membros da Igreja una, santa, católica e apostólica, precisamos sempre de recordar que não somos somente membros nem do Salvador do Mundo nem da Igreja Lusitana mas do Corpo do Cristo mundial, e de lembrar que ainda há um quarto da população mundial que nunca ouviu falar sequer do nome de Jesus Cristo. O que é que nós podemos fazer para ajudar a Igreja no trabalho de Evangelização?
É importante, pensar nestas coisas. É importante, porque, quando o dono deixou a sua casa, ele entregou-nos, a nós, seus empregados, a administração dos seus bens — as vidas e as almas do Seu povo. Quando Jesus foi levado ao Céu e voltou ao Seu lugar à direita de Deus, deixou para nós, a Igreja, estes encargos tão importantes. Deixou estes três, e também um quarto — estejam vigilantes!
Não sabemos quando Nosso Senhor voltará. Os primeiros Cristãos, na época de São Paulo, achavam que seria durante as suas próprias vidas. Mais tarde, outros pensavam que Jesus regressaria no final do primeiro milénio, e mais tarde ainda, outros no fim do segundo, e estavam todos errados. Ninguém sabe quando Jesus voltará, e é por isso que precisamos de estar sempre bem atentos, sempre vigilantes.
Mas... também podemos dizer que... tal não é o mais importante. Não será tão importante, se nós vivermos as nossas vidas fazendo as coisas que Ele mandou. Se todos amarmos o Senhor nosso Deus com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, e com todo o nosso entendimento, e se amarmos os nossos próximos; se todos ajudarmos a Igreja a crescer conforme as possibilidades de cada um... e se tudo isto for feito não pelo medo do Inferno mas por amor a Deus que tanto deu por nós, ainda podemos estar vigilantes — mas, porque amamos o ‘dono da casa”, e queremos que Ele voltará!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

15 August 2009

Address to the Clergy by Dom Mark Lawrence, Bispo da Carolina do Sul

Address to the Clergy of The Diocese of South Carolina
August 13, 2009
Dom +Mark Lawrence, Bispo da Diocesa Anglicana da Carolina do Sul, EUA

Among the many doctrines of our Faith to which I might ask you to turn your thoughts this morning it is first to that wonderful doctrine of God’s Providence. It was to this doctrine that my distant predecessor, The Rt. Reverend Robert Smith, first bishop of South Carolina, turned when he addressed the Colonial Assembly which gathered at St. Philips Church in the early months of 1775 as the winds of war were blowing on the eve of the American Revolution. Of course he was not at that time a bishop. There were no bishops on these shores, though Anglicanism was well into its second century on this continent. Nor was he a bishop when he returned to Charleston from imprisonment and banishment in 1783 to give his homecoming sermon, where once again he spoke of an “overruling Providence”. As perhaps you know, his banishment to a northern colony was due to his having taken words and arms against his former king and country—and having thrown in his lot with his adopted home, he risked and lost everything. He was taken to Philadelphia bereaved of wife (she had recently died), and bereft of home and parish. But on that public occasion in February 1775, before he had ever fired a musket towards a British troop, this unlikely patriot declared his deepest allegiance:
We form schemes of happiness and deceive ourselves with a weak imagination of security, without ever taking God into the question; no wonder then if our hopes prove abortive, and the conceits of our vain minds end in disappointment and sorrow. For we are inclined to attribute our prosperity to the wisdom of our own councils, and the arm of our own flesh, we become forgetful of him from whom our strength and wisdom are derived; and are then betrayed into that fatal security, which ends in shame, in misery and ruin.” Is it not towards such false peace or fatal security that we are tempted too often and too soon to fling ourselves?

I believe for us to discern God’s purpose and role for this diocese in this current challenge, and then to live it out faithfully, will involve each of us in more struggles and suffering than we have yet invested—for we have invested as yet, so little. This is not a challenge for a bishop or even a Standing Committee to face alone. None of us can afford to keep the members of our parishes uninformed of the challenges that lie ahead. Consequently, since I see struggle and suffering before each of us, it is towards God’s beneficent providence I chose first to turn our attention this morning. And where can we find a text to so focus our thoughts on this strengthening doctrine than that which is found in the prophet Isaiah—spoken to those in exile?

Do you not know? Do you not hear? Has it not been told you from the beginning? Have you not understood from the foundations of the earth? It is he who sits above the circle of the earth and its inhabitants are like grasshoppers; who stretches out the heavens like a curtain and spreads them like a tent to dwell in; who brings princes to nothing and makes the rulers of the earth as emptiness. Scarcely are they planted, scarcely sown, scarcely has their stem taken root in the earth when he blows on them, and they wither, and the tempest carries them off like stubble.” (Isaiah 40:21-24)

It is under such a godly Providence that we live—and it is under this godly providence, whether we act or merely stand firm in prayerful posture, that we “shall mount up with wings like eagles, [we] shall run and not be weary, [we] shall walk and not faint.”

In our present situation some would counsel us that it is past time to cut our moorings from The Episcopal Church and take refuge in a harbor without the pluralism and false teachings that surround us in both the secular culture and within our Church; others speak to us of the need for patience, to “let the Instruments of Unity do their work”—that now is not yet the time to act. Still others seem paralyzed; though no less distressed than us by the developments within our Church, they seem to take a posture of insular denial of what is inexorably coming upon us all. While I have no immediate solution to the challenges we face—it is certainly neither a hasty departure nor a paralyzed passivity I counsel. Either of these I believe, regardless of what godly wisdom they may be for others, would be for us a false peace and a “fatal security” which in time (and brief at that) would only betray us. Others in their given circumstances must do what they believe God has called them to do.
One must remember, however, that it is an ever changing landscape in Anglicanism today so there is a need for dynamism lest one becomes too passive, and for provisionality ‘lest one should not notice the engagement has moved on to a new field of action.

The False Gospel of an Indiscriminate Inclusivity

It is perfectly understandable to me that many among us may look at the developments during the last several decades and believe it is The Episcopal Church (TEC) that is our problem. Those of us who refer to ourselves as reasserters, conservatives, Anglo-Catholics or Evangelicals, or sometimes under the sweeping moniker of “orthodox” have often felt ourselves driven, if not out, then to the margins of this Church. We refer sometimes with derision to the Presiding Bishop (whether Bps Browning, Griswold or Jefferts Schori). We speak of 815, the “National” Church, the General Convention, as problems we have to react to, and believe we know what it is we are fighting, or are in conflict with. Sometimes it all comes under the title of TEC. Never realizing perhaps that here at least in South Carolina we are the Church: The Episcopal Church. It is only as I’ve allowed my Lord to remove the anger toward these “institutions” of the Church that I can recognize with greater clarity what it is I need to engage—and even fight against.

When the apostle Paul heard that the churches of Galatia (Gal 1:2) were being misled by a “new” gospel, turning away from Christ and his grace it was not the churches themselves he attacked. Certainly he spoke firmly when he penned or dictated the words “O foolish Galatians! who has bewitched you…..” Or stated in those opening verses of the letter “I am astonished that you are so quickly deserting him who called you in the grace of Christ and are turning to a different gospel—not that there is another one, but there are some who trouble you and want to distort the gospel of Christ.” His sharp words addressed the false teaching and those who preached it. (Galatians 1:6—9). So too in our present context it is not The Episcopal Church that is the problem, it is those who have cloaked it with so many strands of false doctrine that we can well wonder if indeed it can be salvaged. Like an invading vine unnatural to the habitat that has covered a once elegant, old growth forest with what to some looks like a gracious vine it is in fact decorative destruction. What may look like a flower may be bramble.

We face a multitude of false teachings, which like an intrusive vine, is threatening The Episcopal Church as we have inherited and received it from our ancestors. I have called this the false Gospel of Indiscriminate Inclusivity because I see a common pattern in how the core doctrines of our faith are being systematically deconstructed. I must by necessity be brief and cannot give any of these concerns the attention they deserve.

The Trinity
One of the doctrines under barrage in our Church is an orthodox understanding of the Trinity. At the last three General Conventions I have been concerned about the lack of Eucharists according to the rites in the Book of Common Prayer. Even this I might be able to overlook if the rites that were employed were not so devoid of references to God the Father. In more than a few of these worship services the only reference to God the Father actually in the liturgy was the Lord’s Prayer. In the name of inclusion there’s the perception by some (a variant of radical feminism I suppose) that the references to the Father, and the pronoun “he” is some lingering patriarchal holdover. Yet it has always intrigued me that in all of the Hebrew Scriptures there are only a handful of references to God as Father. If one wants to locate the authority of the Church to worship God as Father one need look no further than Jesus himself. It was he who called God “Abba” and taught the disciples to prayer “Our Father.” Frankly, if Jesus got that one so wrong, why should we turn to him for anything? As many of you know there is more here than I have time to explore this morning.

Uniqueness of Christ.
In my opinion the current Presiding Bishop has repeatedly been irresponsible with her comments regarding the doctrine of the Uniqueness and Universality of Christ. This will not surprise you, for I said as much to her when she visited us shortly after my consecration. In answering questions about the Uniqueness and Universality of Christ she has repeatedly suggested that it is not up to her to decide what the mechanism is God uses to save people. But, quite to the contrary, it is her responsibility as a bishop of the Church to proclaim the saving work of Jesus Christ and to teach what it is the Scriptures and the Church teach. Anything less from us who are bishops is an abdication of our teaching office. Otherwise how will the world know to whom to come? How will the unschooled within the Church know what they should believe? I do not cite this to be controversial but to reference the pervasiveness of this inclusive gospel that would, in its attempt to include all people and all religions, fail to rightly delight in, celebrate and worship him before whom every knee shall bow and every tongue confess that he is Lord. It does not honor another religion to not be forthright about one’s own.

As the English Bishop Michael Nazir-Ali observed , “Fudging important issues and attempting a superficial harmonization gives a sense of unity that is untrue and … prevents real differences from being acknowledged and discussed.” And we haven’t time to discuss brief swipes toward confessional approaches to the faith except to ask—wasn’t the Lordship of Christ the first confession of the faithful—even in the face of Caesar’s claim to Lordship? Did not St. Paul teach that if we confess with our lips and believe in our hearts that Jesus Christ is Lord we shall be saved? Does not the baptismal rite require such a formulaic statement of the individual before the assembled body who witness it? Such statements, unfortunately, make it necessary for us to correct rather than to support leadership.Scriptural Authority. This is such a comprehensive dimension of our present crisis in the church that one hardly knows where to begin. But one can hardly do better than St. Ambrose’s statement that “the whole of Holy Scripture be a feast for the soul.”

How seldom one hears upon us who are bishops in Tec such glowing statements about the Bible. In my experience all too many of our bishops and priests seem to mine the scriptures for minerals to use in vain idolatries. There is too little confidence expressed in its trustworthiness; the authority and uniqueness of revelation. Indeed, as J.V. Langmead-Casserly once put it, “We have developed a method of studying the Word of God from which a Word of God never comes.” Too often supposed conundrums or difficulties are brought up, seemingly in order to detract from traditional understandings, never considering the damage to the faithful’s trust in God and his Word. Ridiculous arguments such as shellfish and mixed fabrics are dragged out (long reconciled by the Fathers of the Church, as well as the Anglican Reformers) in order to confuse the ill-taught or the untutored in theology. And those who are intellectually sophisticated, schooled in many academic disciplines, but dreadfully untaught in the Bible and theology, are, through little fault of their own, except for naively trusting generations of slothful priests and bishops, are led astray.

We must be willing to speak out against this 'Baptismal Theology' detached from Biblical and Catholic doctrine. The phrase heard frequently at General Convention 2009 was “All the sacraments for all the Baptized”. One suspects that great Catholic teacher of the 4th Century, St. Cyril of Jerusalem would have been unconvinced for he wrote tellingly of Simon Magus, “he was baptized, but not enlightened. His body was dipped in water, but admitted not the Spirit to illuminate his heart. His body went down and came up; but his soul was not buried together with Christ nor with him raised.” (see Acts 8:9-24) Nevertheless, this inadequate baptismal theology was used to argue for the full inclusion of partnered GLBT persons to all the orders of the Church—deacons, priests and bishops. What it singularly misses is the straightforward teaching of the catechism, not to mention of the New Testament’s “teaching that baptism is a dying to self and sin and a rising to new life in Christ.” (N.T. Wright) Even if one would turn to the simplicity of the catechism one would encounter this question and answer: Q. What is required of us at Baptism? A. It is required that we renounce Satan, repent of our sins, and accept Jesus as our Lord and Savior. Since when has baptism been the ticket to ordination in the Church? The Archbishop’s perceptive comment in section 8 of “Communion, Covenant and our Anglican Future” is pertinent here.

Human Sexuality.
While it has been a clever device of some in recent years to refer to the varied approach to marriage in the different epochs of biblical history, often done in ways that are intended to bring more confusion rather than clarity, (ignoring that well honored hermeneutic of interpreting the less clear passages of Holy Scripture by the clearer, or not interpreting one text in such a way that it is repugnant to another) we are back with that tendency of ordained leaders of the Church and professors of religion to confound the faithful rather than to instruct—it has been used repeatedly in this current debate regarding Human Sexuality and the establishment of an inclusive moral equivalency of GLBT sexual unions with the Christian understanding of marriage between a man and a woman.

Constitution & Canons—Common Life.
These, and other examples that could be cited, are illustrative of this “new gospel” of Indiscriminate Inclusivity that began with a denigration of the Holy Scriptures, then, step by step has brought the very core teachings of the Christian faith under its distorting and destructive sway. Thus, if the Scriptures should teach something contrary to this “gospel’s” most recent incarnation, (take for instance the full inclusion of GLBT) then the Scripture’s broad themes or individual passages, which plainly oppose current understanding of same-sex genital behavior, must be deconstructed. And if the bonds of affection within the Worldwide Anglican Communion are a hindrance to this gospel of inclusivity then the moral authority and role of the Instruments of Unity are downplayed.

Most recently at GC’09 when the BCP’s marriage service, rubrics, and catechism, as well as the Constitution & Canons speak of marriage as exclusively between a man and a woman, therein conflicting with this inclusive “gospel”, resolution CO56 was passed contrary to our own order of governance and common life—thus one by one, the Holy Scriptures, the teachings of the Church, the Anglican Communion, the Ecumenical relationships with the other bodies of the Church Catholic, and now even our own Book of Common Prayer and Constitutions & Canons are subjugated to this “new” gospel. It is a foreign vine like kudzu draping the old growth forest of Episcopalianism with decorative destruction.

As I wrote in my post-Convention Letter to the Clergy, "There is an increasingly aggressive displacement within this Church of the gospel of Jesus Christ’s transforming power by the “new” gospel of indiscriminate inclusivity which seeks to subsume all in its wake. It is marked by an increased evangelistic zeal and mission that hints at imperialistic plans to spread throughout the Communion. This calls for a bold response.” It is not in my opinion the right action for this diocese to retreat from a thorough engagement with this destructive “new” gospel. As the prophet Ezekiel was called by the Lord to be a Watchman, to sound the alarm of judgment—to warn Israel to turn from her wickedness and live. We are called to speak forthrightly to The Episcopal Church and others, but even more specifically to the thousands of everyday Episcopalians who do not yet know the fullness of this present cultural captivity of the Church. Clearly this is not about the virtue of being “excluding”; it is about being rightly discerning about what is morally and spiritually appropriate. As the Archbishop of Canterbury suggests the Church’s life cannot be “wholly determined by what society at large considers usual or acceptable or determines to be legal”.

Quite beyond this challenge within our Church this “gospel of indiscriminate inclusion” is as much a movement of the larger European and North American culture as it is a movement within the church. Thus, if one should seek to get away from it by leaving TEC, joining some other denomination, or continuing Anglican body (and please know, I do not say this critically of those who have chosen or felt called to leave) it will not free us from having to engage this challenge. As I’ve said on more than one occasion, this indiscriminant inclusivity is coming to a neighborhood near you. If you are in TEC and resisting this aggressive march you are already on the front lines. If you have a stomach to engage the battle you are rightly situated. It is now a matter of whether one is prepared to engage the challenge or not. We may prefer a false peace or fatal security but don’t think for a minute this challenge will not find us.

Our Present Strategy: Four Guiding Principles

The Lordship of Jesus Christ and the Sufficiency of Holy Scripture
The first principle I wish to affirm in our diocesan life is that the Church lives its life under the Lordship of Jesus Christ and under and upon the authority of Holy Scripture. As Article XX in the Articles of Religion states, “…it is not lawful for the Church to ordain anything that is contrary to God’s Word written, neither may it so expound one place of Scripture, that it be repugnant to another.” (BCP p. 871) Since so many within our diocese may have been confused or disturbed by the newspaper and journal reports of the actions of General Convention 2009, and through reading the very resolutions D025 and C056 themselves, as well as the various contradictory statements by leaders in this Church interpreting what these resolutions mean, the Standing Committee and I are proposing that a Special Meeting of Convention (Diocesan Constitution Art.II sec.2) be called for Saturday, October 24th to deal with several concerns that need to be addressed.

One such concern is what may be actually understood by the candidate for ordination as he or she makes the Oath of Conformity, and what the worshiping congregation will in the present climate understand by such a vow. When the ordinand pledges himself to “… solemnly engage to conform to the doctrine, discipline and worship of The Episcopal Church.” and variations thereof, “in accordance to the canons of this Church…” does that imply adherence to these recent resolutions of GC’09? The Standing Committee and I are proposing a resolution for Convention to approve the reading of a letter prior to the spoken vow, and attached with the signed document of conformity, at every ordination in this diocese, thereby making clear what the Church has historically meant by such an oath—explicating what the Book of Common Prayer means by loyalty “to the doctrine, discipline and worship of Christ as this Church has received them.” (All quotations above may be found on p. 526 and 538 of the BCP.)

The Appropriateness of Godly Boundaries—Withdrawal
Secondly, there is a need to establish appropriate boundaries and differentiation. Why? There is a need for this Diocese and the faithful across TEC to recognize that the actions of General Convention 2009 in adopting resolutions D025 and C056 along with going contrary to 1) Holy Scripture, 2) tradition—that is 2000 years of the Churches interpretation of these very scriptures—understood as the catholic principle of the consensus of the faithful, 3) the mind of the Anglican Communion as expressed in the resolutions of successive Lambeth Conferences and the considered conversation of Lambeth 2008, The Anglican Consultative Council, the Primates as well as the expressed hopes of the Archbishop himself, quite staggeringly also went against 4) even TEC’s own BCP, Catechism, and Constitution & Canons.

It is my contention that a resolution adopted by a legislative body, contrary to the Constitution & Canons of that body, by its very adoption is made null and void. Such an institution is in violation of its own principles of governance. Therefore we cannot recognize the actions of GC”09 in passing resolutions DO25 and CO56 and believe that any diocese or bishop which allows partnered gay or lesbian persons to be ordained in holy orders, or allows blessings of same sex unions or “marriages” is in violation of the Canons. Frankly, it is rather staggering that many in the HOB after arguing in DO25 that we needed to return to being guided by our canons in regard to the ordination process instead of BO33, that this same convention then gave permission for bishops to disregard those very canons’ teaching toward marriage. I have personally witnessed the House of Bishops deposing sitting bishops for what they believe was an indiscreet disregard of the Church’s Constitution & Canons. Now hardly a year later the same governing body votes to give certain bishops the permission to do so!

This begs the question—how an institution, having jettisoned what for 2000 years has been the understood teaching of Holy Scripture and collective wisdom of Christendom, and taken refuge in its vaunted polity as expressed in its Constitution & Canons, can allow itself to proceed without first changing those canons? Two reasons: 1) The agenda of Inclusivity is viewed by many to be of such overriding importance as an issue of justice that it subjugates everything under its rubrics. 2) The level of conformity is so staggering that only a few would seem capable of resisting its pressure. And too often, even then the resistance is “This will not fly back home” rather than “I believe this is theologically wrong”.

The Standing Committee and bishop will be proposing a resolution to come before the special convention that this diocese begin withdrawing from all bodies of governance of TEC that have assented to actions contrary to Holy Scripture; the doctrine, discipline and worship of Christ as this church has received them; the resolutions of Lambeth which have expressed the mind of the Communion; the Book of Common Prayer (p.422-423) and the Constitution & Canons of TEC (Canon 18:1.2.b) until such bodies show a willingness to repent of such actions. Let no one think this is a denial of the vows a priest or bishop makes to participate in the councils of governance. This is not a flight into isolation; nor is it an abandonment of duty, but the protest of conscience. It is recognition that the actions of GC’09 were in such blatant disregard and violation of Holy Scripture, the bonds of affection, and our own Constitution & Canons that one is led by reasoned conviction to undertake an intrepid resistance to the tyranny of the majority over judicious authority; therein erring both in Faith and Order.

Domestic Engagement for Relief and Mission
Thirdly, I have noted in my Post-Convention Letter to the Clergy of the Diocese that we need to find a place not only to survive, but to thrive, and that this needs to be faithful, relational and structural. But this is not merely for our sake, but for others. I have been in conversation with bishops of other dioceses in TEC which find themselves in similar positions of isolation. We have discussed the possibility of developing gatherings of bishops, clergy, and laity for the express purpose of encouragement, education and mission. These gatherings in different regions of the country could bring internationally recognized Christian leaders from across the Anglican Communion to address such things as Holy Scripture, Christian doctrine, issues of pressing concern within the church, as well as the ever important work of ministry, evangelism, mission and church planting. These Dioceses in Missional Relationship I believe can create an environment which will lead to positive growth and concerted actions not merely for future survival but more importantly for growth and expansion.

There is also a need to find ways to support conservative parishes and missions in dioceses where there is isolation or worse. I would like to encourage congregations in this diocese to create missional relationships with “orthodox” congregations isolated across North America. There, consequently, is a need for the laity in South Carolina to be awakened and mobilized for engagement. This includes but is not limited to courses in theology which enables them to articulated their faith in the face of an aggressive displacement biblical and catholic teaching—not only in order to evangelize the lost, but to encourage the laity across the church who are surrounded by teaching that is clearly contrary to the gospel of Jesus Christ. Let me say it quite candidly, there may be effective initiatives the laity can undertake that would not be possible for the clergy in this present climate.

The Emergence of 21st Century Anglicanism
Fourthly, we need to be guided by the principle that we are called to help shape an emerging Anglicanism that is sufficient of the 21st Century. The Archbishop in his recent “Communion, Covenant and our Anglican Future” rightly noted that “it would be a great mistake to see the present situation as no more than an unhappy set of tensions within a global family struggling to find a coherence that not all its members actually want. Rather, it is an opportunity for clarity, renewal and deeper relation with one another—and so also with Our Lord and his Father, in the power of the Spirit.” He went on to note, “If the present structures that have safeguarded our unity turn out to need serious rethinking in the near future, this is not the end of the Anglican way and it may bring its own opportunities.”

Indeed, I believe it not only “may”; I believe it will. You have heard me say on several occasions, “A crisis is a terrible thing to waste.” Well, I believe we should not waste this crisis—neither the ecclesiastical crisis nor the attending economic one. And certainly we should not waste it by taking refuge in a false peace that expresses itself in a retreat into an insular parochialism or a “fatal security” which for us, at least now, would be an escape. We have the opportunity to help shape the emergence of a truly global Anglicanism—Making Biblical Anglicans for a Global Age. I believe we have a unique role to play within the Anglican Communion. If at present we play that role by being in but not of the mainstream of TEC is it any less important? We passed at our Diocesan Convention in March a resolution which asserted our authority as a diocese to sign onto the Anglican Covenant. The final section read,
Be it further resolved, that as the Diocese of South Carolina did choose at its Diocesan Convention in 1785, to organize as a diocese, (one of the first seven dioceses in these United States to so organize in that year), and to send delegates to the first General Conventions to organize the Protestant Episcopal Church in the United States of America, and thereby freely associate its clerical and lay members with the Domestic and Foreign Missionary Society—presently known as The Episcopal Church; so this same Diocese does also assert its authority to freely embrace such a Covenant in communion with the Archbishop of Canterbury, and to seek to remain a constituent member of the Anglican Communion should the Instruments of Unity allow such diocesan association.”

The Archbishop has expressed in section 25 of “Communion, Covenant and our Anglican Future” his strong hope that “elements” [dioceses?] will adopt the Covenant. I believe we ought to sign on to the Ridley Draft of the Covenant as it presently stands in all four sections. (If it means we need to withdraw from a lawsuit, we withdraw from a lawsuit). Therefore we need to begin the process of studying the Ridley Draft in every deanery and parish and be prepared to vote on it either in the special convention in October or, if that’s too ambitious a time frame, no later than our Annual Diocesan Convention in March 2010.
You need to know that the Anglican Communion Development Committee has already had its first meeting and will begin this fall to vigorously establish relationships with a broad array of Provinces across the Communion. You have heard me speak of this often, including during my Bishop’s Address last March. This still strikes me as one of the most important activities we should pursue. We can work with several of the Provinces within the Communion, and, if they are so inclined to partner with us, we should work with GAFCON and ACNA from within TEC to further gospel initiatives.

I believe we are as financially strong, and as spiritually and theologically unified as any conservative diocese left in TEC. We have I believe the resources to focus on the mission and ministry within the diocese of South Carolina as well as working within TEC to shore up and encourage the faithful; and at the same time to help shape the emerging Anglicanism of the 21st Century. Admittedly, this is a tall order. Though accurate statistics are hard to come by I believe there are still more theologically orthodox believers still inside of TEC than have left. Yet they seem increasingly isolated, with few leaders to encourage them. I believe we have a moral and spiritual call/obligation to stay in the fight with those still in TEC who look to us for hope; and to stay for as long as it is within our consciences to do so. On this last caveat, clearly the clock for many of us is loudly ticking. Few of us doubt there will be a strong push to make what is now de facto, de jure in GC2012. Along with this the number of partnered GLBT priests—and quite likely bishops will continue to increase (given the recent nominees in Episcopal elections in Minnesota and Los Angeles)—putting facts on the ground which the rest of us have to react to or deal with as best we can. As events unfold it will be necessary for us to put risky facts on the ground as well.

Concluding Thoughts
But before I conclude I need to address a sensitive issue. Should a parish find it needs to be served by alternative Episcopal care I will work with them toward that end. Please know this is not my desire for any parish. It would grieve me because I have enjoyed my relationship with every congregation in this great Diocese of South Carolina. Still these are challenging times, and if I am called to lead in such an assertive manner as I have suggested here, pastoral sensitivity suggests I should give space to those who feel they need it.

I hope all can recognize in the things I have addressed above the three marks of the church recognized in Evangelical Anglicanism—1) Proclamation of the Word of God; 2) the sacraments duly administered; 3) order and discipline (Art. XIX)—yet there is that fourth mark (that to which Bishop and Martyr Nicholas Ridley referred, echoing of course St. Paul in I Corinthians 13; Galatians 5:22 and nurtured in the life of the church by the Holy Spirit), 4) the mark of charity, without which we are noisy gongs and clanging cymbals. And then for most of us there’s the one I just mentioned, 5) the beneficence of the historic episcopate.

I must address another thing under the rubric of love—and in this I follow the lead of Lambeth 1.10, the Archbishop of Canterbury, and I trust with the Church Catholic around the world: we are not to be in this Diocese about the business of encouraging prejudice or denying the dignity of any person, including, but not limited to, those who believe themselves to be Gay, Lesbian, Bi-Sexual, or Transgender. As those who know me well will acknowledge, it grieves me that so much of the battle has been waged here, and if the full story were to be told I believe that many who understand themselves through these categories wish it were not as well. No, we have no business fostering unexamined prejudice; so few of us are free from scars of sexual brokenness. Rather, we are constrained by the love of Christ to be primarily about the task of proclaiming the Gospel—calling all people to repentance—ourselves included; administering the sacraments; encouraging faithfulness in the body of Christ; and through the power of the Holy Spirit walking with charity in the world.

It is an increasingly fluid landscape in which we are called to do our work and at times seems to change from week to week as developments take place on several fronts. While our principles may stay consistent our strategy must be dynamic and provisional. To this end the Standing Committee and I are calling for a Special Convention of this diocese to be held on Saturday, October 24th at Christ Church, Mt. Pleasant. As bishop I am asking every parish and mission to call a congregational meeting to broadly engage these matters and to inform the delegates who will represent them at this upcoming convention. I am also asking every deanery to engage these challenges at a clericus level and in deanery meetings for clergy and lay delegates. Frankly, I don’t know how to say this in any other way but to tell you that this is a call to action; of mobilization of clergy, parishes and laity. What I have stated here is only a start—the turning of the ship. While striving to stay as intact as possible—we need believers who are informed, engaged, missional and faithful.

For now our task is clear: As some within the Episcopal Church are busy cutting the cords of fellowship with the larger Church through the unilateral actions of General Convention expanding policies which further tear the fabric of the Communion; our task will be to weave and braid missional relationships which strengthen far flung dioceses and provinces in the work of the gospel. As some in the Episcopal Church find a hopeless refuge in the narrower restrictions of denominational autonomy, we shall find hope in a deeper and generous catholicity. In our pursuit of these principles I remind you of where I began in this address—Bishop Smith’s eschewing of a fatal security which he feared would end “in shame, in misery and ruin.” He refused such a comfortable course and in time it led him to risk—and to lose everything. This may one day come to us. For now what lies before us is to engage this challenge with all the will and resources of strong and growing diocese. With the clarity of God’s call, the courage to walk in step with the Spirit, and the confidence of an overruling Providence in, with and through Christ, we shall not only endure, but prevail. I leave now with this—we cannot choose to follow God without following what God has chosen for us. So, “Lead kindly, Light.”
Amen.

Brief comment: As a medically-retired priest of the Diocese of South Carolina and a member of the Clero da Igreja Lusitana, I feel that I am in some small way a (albeit unofficial) part of that "weaving of missional relationships" between the Diocese of South Carolina and the Anglicans Communion. South Carolina is one of the most orthodox dioceses in North America, one of the least willing to go along with the changes of the surounding culture... and is also the only diocese in the Episcopal Church (the Anglican Communion in the USA) to have shown any growth in years... where the Church is shrinking everywhere else, the Diocese of South Carolina is adding members, building new buildings, expanding the number of parishes... Perhaps following the winds of American culture, vice Holy Scripture and 2,000 years of Christian teachings, is not the best way to "build a Church".

For now, I am quite happily in Portugal. However, I will continue to preach the Gospel of Christ and the Church Catholic, wherever God leads me and for so long as he lets me.

Pray for the Church.
FCZ+

18 July 2009

Theologian's statement on the Episcopal Church's decision to ordain homosexuals

Statement of Canon Kendall Harmon on the US Episcopal Church's General Convention's Resolution D025 (the Ordination of Homosexuals to the Episcopacy, Priesthood and Diaconate)

The passage of Resolution D025 by the General Convention of 2009 is a repudiation of Holy Scripture as the church has received and understood it ecumenically in the East and West. It is also a clear rejection of the mutual responsibility and interdependence to which we are called as Anglicans. That it is also a snub to the Archbishop of Canterbury this week while General Synod is occurring in York only adds insult to injury.

The Archbishop of Canterbury, the BBC, the New York Times and Integrity all see what is being done here. There are now some participants in the 76th General Convention who are trying to pretend that a yes to D025 is NOT a no to B033. Jesus' statement about letting your yes be yes and your no be no is apt here. These types of attempted obfuscations are utterly unconvincing.

The Bishop of Arizona rightly noted in his blog that D025 was "a defacto repudiation of" B033.
The presuppositions of Resolution D025 are revealing. For a whole series of recent General Conventions resolutions have been passed which are thought to be descriptive by some, but understood to be prescriptive by others. The 2007 Primates Communique spoke to this tendency when they stated “they deeply regret a lack of clarity” on the part of the 75th General Convention.

What is particularly noteworthy, however, is that Episcopal Church Resolutions and claimed stances said to be descriptive at one time are more and more interpreted to be prescriptive thereafter. Now, in Resolution D025, the descriptive and the prescriptive have merged. You could hear this clearly in the floor debates in the two Houses where speakers insisted “This is who we are!”

Those involved in pastoral care know that when a relationship is deeply frayed when one or other party insists “this is who I am” the outcome will be disastrous. The same will be the case with D025, both inside the Episcopal Church and the Anglican Communion.

D025 is the proud assertion of a church of self-authentication and radical autonomy.

It is a particularly ugly sight.
--The Rev. Dr. Kendall S. Harmon is Canon Theologian of the Diocese of South Carolina

16o Domingo Comum, Ano B, 19 Julho 2009

160 Domingo Comum, Ano B, 19 Julho 2009
Igreja do Bom Pastor, V.N. de Gaia
Cón. Dr. Francisco C. Zanger

Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.

Talvez ainda ninguém tenha chamado a vossa atenção, mas se ainda não tiverdes notado... não sou português. Sou estrangeiro. É verdade! Não é defeito de fala ou falta de educação: é mesmo sotaque e falta de vocabulário!
E sim, estou a brincar, mas estou a brincar por uma razão: na leitura da Carta do S. Paulo aos Efésios, que é ao mesmo tempo interessante e difícil, porque fala das coisas que devem ser, e que irão ser, mas que nem na época em que foi escrita foram, nem o são agora. Ao falar das diferenças entre os judeus, que eram os únicos monoteístas da região e talvez do mundo, e os pagãos do resto do Império Romano, Paulo disse que a morte e Ressurreição de Jesus criava pela primeira vez um só povo de Deus: que Jesus fez em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova, reconciliando-os ambos com Deus. Ouçam: “Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições”[1]. Seria uma maravilha, se fosse verdade quer na altura quer hoje mesmo; será uma maravilha quando suceder... e vai acontecer. A primeira parte já aconteceu, claro: Cristo é a nossa paz, e dentro d'Ele, dentro do Seu Corpo, somos um só povo. Mas infelizmente, nós somos humanos, pecadores, e quando Jesus destruiu o muro da inimizade, nós substuímos as vedações de arame farpado.
Paulo, que era o Apóstolo dos Gentios, escreveu sobre o muro da Lei entre os Gentios e os Judeus, mas já teve problemas entre eles: originalmente, quando os Cristãos eram Judeus, os Judeus pensavam que os Cristãos eram somente uma seita herética, mas depois, quando eles começaram a baptizar Gentios, a coisa piorou muito. O primeiro grupo que perseguiu os Cristãos foram os Judeus do Templo: antes de se converter, S. Paulo, chamado ainda Saulo, foi um dos piores de todos[2]. Ele ainda estava do outro lado do “muro da inimizade”, que ele próprio afirmou, depois, já ter sido destruído pela morte de Cristo: do outro lado, apedrajando!
Bem, como é que podemos entender tudo isto? Se Jesus Cristo fez um só povo do mundo inteiro, dos Judeus que eram o Povo escolhido por Deus, e dos Gentios que eram os restantes povos do mundo (e foi isto que Paulo escreveu), que pena que Jesus tivesse feito tudo isto sem que os povos do mundo o notassem!
Não... não é uma pena. É um pecado. É o nosso pecado.
O problema não está somente em nós não termos fé suficiente em Deus: não temos fé suficiente em nós próprios. Somos inseguros, ansiosos. É a versão do pecado pior de todas, o pecado que é a raiz de todos os outros: o orgulho. Nós pensamos que precisamos de ser perfeitos, e se não podemos aperfeiçoarmo-nos, ao menos precisamos de ser melhores do que os nossos vizinhos. “Se alguém souber que não sou perfeito, ninguém me vai amar.”
Quando o Anjo Lúcifer, ele que era o mais lindo dos anjos, cujo nome significa “Luz”, se insurgiu contra Deus e foi derrubado, atirado dos céus à terra, perdeu não só o seu nome — Lúcifer tornou-se Satanás — mas perdeu também todo o seu poder angelical, menos a sua língua dourada, a sua língua viperina... ainda pode mentir, confundir e persuadir. É por isso que lemos que Jesus, depois de ser baptizado por seu primo, S. João Baptista, foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser tentado três vezes pelo diabo[3]. Satanás, que sabia bem que Jesus era verdadeiro homem, esqueceu-se que Jesus também era verdadeiro Deus, e as palavras de rejeição que Jesus proferiu são em si mesmas uma recordação: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”[4], e “Vai-te, Satanás! A Escritura diz, ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”[5]. Mas Jesus era Deus, e não só homem: Satanás ganhou o nome de “O Tentador” quando enganou dois que eram não só homens, mas inocentes.
No terceiro capítulo do Génesis, Satanás entrou na serpente, o mais astuto dos animais criados por Deus: entrou para tentar os primeiros homens, Eva e Adão, no Jardim. Só havia um fruto proibido no jardim: o da árvore do conhecimento do bem e do mal. O fruto desta árvore podia chamar-se ‘o fim da inocência’. Sem o conhecimento do bom e do mal, eles não podiam escolher o mal sobre o bem: não podiam pecar. E Satanás não queria um mundo sem pecado.
Então, Satanás entrou na serpente para fazer a sua maldade, bem como, muito mais tarde, entrou em Judas[6], e Judas traiu o Senhor. A serpente disse à mulher que, se comessem o fruto proibido, “ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus”[7]. Satanás não disse que o fruto poderia dar quaisquer “superpoderes”... só que eles poderiam ser “tal como Deus” em termos de sabedoria. Eles não queriam mostrar ignorância em frente de Deus: não queriam ser os mais ignorantes no seu pequeno mundo.
Até os nossos primeiros pais eram inseguros, ansiosos, tal como nós. No universo inteiro, Adão e Eva só conheciam Deus, mas sabiam que Deus era muito melhor, mais sábio, mais forte, mais tudo do que eles... e tornaram-se inseguros.
Agora que já não eram inocentes, não podiam ficar no jardim paradisíaco, e Deus mandou-os embora para se frutificarem e multiplicarem no mundo que Ele fez. Os seus filhos e netos e bisnetos e trinetos encheram o mundo, mas eram também inseguros, pois sabiam que nunca poderiam ser perfeitos. Satanás nunca deixou fugir uma oportunidade: o seu novo truque é até melhor do que o anterior. Em vez de enganar-nos, insinuando que podemos melhorar-nos, desobedecendo a Deus, a nova mentira demoníaca é até pior: que nós já somos melhores do que os outros: que as pessoas diferentes, quer doutro país, quer doutra cor de pele, quer doutro modo de louvar o Senhor, são piores, são estúpidas, são ‘menos humanas’ do que nós.
Enquanto o Grande Mentiroso conseguir persuadir umas pessoas, feitas por Deus e à Imagem do próprio Deus, de que outras pessoas, igualmente feitas por Deus e à Imagem do próprio de Deus, têm menos valor aos olhos do mesmo Deus, só Satanás sai vencedor. Na história da humanidade, não houve, nem há, guerra nenhuma, perseguição nenhuma, escravatura nenhuma, conquista nenhuma, em que o instigador e o vencedor não seja... Satanás. Ele é militante de cada partido, sócio de cada clube, general em cada exército... e bispo ou pândita ou pastor ou imã ou rabino de cada grupo religioso que ensine o ódio em vez do amor, em qualquer lugar onde um grupo disser que eles são os melhores, ou os mais importantes, ou os mais amados por Deus do que qualquer outro grupo.
“Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro. Aboliu na própria carne a lei judaica, os preceitos e as prescrições. Deste modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só Corpo pela virtude da Cruz, aniquilado a inimizade.”[8]
A lei judaica que Cristo aboliu não tinha nada de mal: foi dada aos israelitas pelo próprio Deus. No plano da Salvação, não era má: era necessária. De todos os povos do mundo, Deus escolheu os Judeus, um povo pequeno, sem poder político, mas com uma força interna e eterna maior do que qualquer outro. Que outro povo teria podido sobreviver mais de dois mil anos sem país próprio, com perseguições, escravatura, com os genocídios dos Assírios e Romanos, do Nazismo e Estalinismo?
Deus escolheu os Judeus, e deu-lhes a Lei, para ajudar o seu povo a aprender quem era Deus: que o verdadeiro Deus que criou o Universo não era o mesmo que os deuses pagãos. Isto levou muito tempo: o Antigo Testamento, uma mistura de história e poesia, teologia e manuais jurídicos, genealogia e ritos religiosos, entre outras coisas, é também a narrativa dum parentesco, de uma relação durante a qual o povo escolhido aprendeu, pouco a pouco, sempre mais sobre o seu Criador.
É uma relação que começou com as palavras, “Faça-se luz!”[9], e como nós sabemos, no início da Criação, o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus; tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada foi feito[10]. Os Israelitas moravam em conjunto com os outros povos do Médio Oriente, povos que tinham uma multidão de deuses, e habitualmente não diziam ‘não’ aos sacrifícios humanos. Estes deuses, como Baal e Asserás, deuses masculino e feminino dos Cananeus, queriam servilismo e subserviência dos seus crentes, e não somente obediência e humildade. A Bíblia Hebraica, o nosso Antigo Testamento, é um testemunho disso mesmo: o testemunho de um Deus que não era igual aos deuses dos outros povos. O entendimento dos israelitas precisava de crescer, pouco a pouco, do tempo de Abraão e Isaac, quando primeiro aprenderam que Deus não quer sacrifícios humanos[11]; o desenvolvimento do entendimento no Livro de Josué, onde Deus é ainda um deus de guerras e batalhas[12], até ao de Amós, o profeta que Deus mandou para castigar os ricos, em que “compraremos os infelizes por dinheiro, e os pobres por um par de sandálias”[13], e para dizer, “Odeio e desprezo as vossas festas. Não me agradam os vossos cultos. ... Quero, sim, que a justiça corra como as águas, e que o que é recto, como um rio que nunca seca!”[14]
Levou séculos, séculos duros. Os israelitas, que foram escravos no Egipto cerca de uns 200 anos, depois de José, o da capa vistosa, colorida com mangas compridas, que foi vendido pelos irmãos para escravo mas chegou a ser governador de Egipto[15], até ao tempo de Moisés que nasceu como escravo no Egipto[16] mas chegou a ser o líder e profeta dos israelitas até chegarem à terra prometida[17], talvez quinze séculos antes de Cristo[18]. Durante todo este tempo, havia um “muro” entre os israelitas, o ‘povo escolhido’ por Deus, e todo o resto do mundo, a que os judeus chamavam de Gentios, durante o tempo em que Deus “ensinou” os judeus. Levou séculos, mas quando Deus soube que tinha chegado o tempo certo (uma coisa que Deus já sabia até antes da Criação: o tempo de Deus não é o nosso), Jesus, o Filho que era o Verbo Divino durante Criação, incarnou pelo Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, e habitou entre nós.
Com os seus ensinamentos, mostrou as portas da vida eterna; com a sua morte, abriu as mesmas portas. Na sua morte, Jesus triunfou sobre o pecado e a morte, dando-nos a vida eterna. Com a sua morte Jesus não somente destruiu a morte, abrindo as portas à vida eterna, mas também destruiu o muro entre os judeus e os Gentios. Com Abraão, Deus-Pai escolheu um povo para si. Com a sua Incarnação, no seio da Virgem, com a sua morte, na Cruz, Deus-Filho escolheu todos os povos, para sempre. Com os seus dons espirituais, Deus-Espírito Santo possibilita que nós formemos o Corpo de Cristo, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.
Mas, se Jesus Cristo destruiu o muro entre os povos do mundo, como é que estamos tão divididos? Como já disse... pecado. É o pecado do orgulho, orgulho e medo. E o medo também pode ser pecado, se tivermos medo porque não temos fé no amor de Cristo.
Ora. Se acho que não tenho muito valor, que não sou digno de respeito, digno de amor, digno das promessas de Cristo, há coisas que posso fazer.
Primeiro, posso ter a fé de que, apesar de não pelo meu mérito, pois daí não tenho salvação de jeito nenhum, o amor de Cristo é ainda tão grande que até um pecador (como eu) pode ser salvo, e depois fazer tudo quanto poder pelos outros, como acção de graças. Esta é a versão melhor, e que acontece menos (claro).
Segundo, posso trabalhar para ser melhor, e ser tão bom que mereça a salvação. Falhará. É impossível. Mas, poderia ser pior.
Terceiro, e mais comum. É dizer, “Eu não sou assim tão mau—olha para ele! Eu odeio pessoas como ele! Ele não tem valor nenhum!” A nível pessoal, estas pessoas são chatas. A nível dos grupos, esta é a justificação para todos os tipos de racismo, ou para todos os outros tipos de discriminação, como sexismo, discriminação etária, ou discriminação contra pessoas de outras religiões, quer Católicos Romanos que não gostam de Protestantes, ou Protestantes que não gostam de Católicos Romanos, quer Protestantes e Católicos Romanos que não gostam de Anglicanos porque somos ou Católicos demais para os Protestantes ou Protestantes demais para os Católicos Romanos, ou qualquer das três que odeiam os Islâmicos, e os Islâmicos que odeiam os Cristãos, e qualquer destas que não gostam dos judeus... etcetera, etcetera, etcetera.
E ao nível dos países, pode ser o pretexto para guerras, ou para os genocídios.
Para muitos de nós, nós que somos feitos por Deus à Sua própria Imagem, somente poderemos ser felizes se pensarmos que somos superiores a qualquer outro grupo. A única qualidade própria que temos é em contraste com alguém que nós pensamos ser pior, de menos valor. Os Americanos ou Ingleses acham que eles são o povo melhor do mundo, e que o resto do mundo só existe para os cuidar, são conhecidos nesta cidade de turismo.
Sou Americano—vou falar do meu país. Há muitos Americanos que não têm interesse nenhum em viajar, porque acham que nos Estados Unidos há tudo o que existe de bom no mundo. É por isso que Americanos não estudam outras línguas... Porquê? Os outros devem aprender inglês! Há muitos Americanos que querem construir um muro grande ao longo da fronteira com o México, por causa dos imigrantes ilegais... mais um substituto para o muro destruído por Cristo.
E não são somente os Americanos, claro. Os Italianos querem fazer a mesma coisa com os imigrantes da Bósnia, os Franceses com os árabes, os israelistas matam palestinianos que matam israelitas, as guerras em cada canto de África... Cada país quer um muro, e cada grupo dentro do país quer mais um muro, e cada pessoa no grupo vai precisar do seu próprio muro também... se não temos fronteiras, não podemos saber quem é “diferente”, e se não sabemos quem é “diferente”, não podemos saber quem é pior do que nós, e se não sabemos se alguém é pior que nós, só temos os nossos espelhos para ver os pecadores. Ai! Claro que temos medo!
É este mesmo o problema. É como disse S. Pedro: “Agora compreendo verdadeiramente que para Deus todos são iguais. Ele quer bem a todos os que respeitam e cumprem a sua vontade, sejam de que raça forem.”[19]
“...sejam de que raça forem.” As fronteiras do mundo não são de Deus. As fronteiras são feitas por homens, pecadores, e a maioria foram feitas com armas. O nosso Deus não fez os Estados Unidos: Ele fez a América do Norte. Deus não desenhou num mapa as fronteiras de Portugal—não foi Deus que deu a Galiza à Espanha. Deus, em Jesus Cristo, erradicou os muros entre os povos.
Não quero dizer que é mau, ter orgulho no seu próprio país, nem na sua cidade, ou na sua equipe (sou Portista!), ou na sua família. Eu até acho que as fronteiras entre países podem ter valor: a minha única ansiedade com a ideia da União Europeia é que Portugal e os outros países mais pequeninos podem perder as suas culturas particulares. Não quero morar em “Françamanha”: quero morar em Portugal!
Mas este orgulho nacional nunca pode ser tão forte que se torne num muro. A coisa mais importante é o Corpo de Cristo, e o Corpo de Cristo atravessa todas as fronteiras do mundo. Eu tenho muito mais em comum com qualquer um de vós do que tenho com um Americano que seja ateu. Só há uma “fronteira” com importância, que é a fronteira entre as pessoas que já são membros do Corpo e as que ainda o não são, e esta “fronteira” tem de ter sempre a porta aberta... mais, nós temos de convidar todos os que estão fora a entrar. Isto é a tarefa de que Jesus nos encarregou: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, vão e façam com que os povos se tornem meus discípulos. Baptizem as pessoas em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo ensinando-as a obedecer a tudo quanto eu tenho mandado. E saibam que estarei sempre convosco, até o fim do mundo.”[20]


Em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.


[1] Efésios 2, 14-15
[2] Actos 7, 58; 8:1, 3; 9,1-2
[3] S. Mateus 4, 1
[4] Deuteronómio 6, 16: “Não tentareis o Senhor, vosso Deus, como o tentaste em Massá.”
[5] Deuteronómio 6, 13-14: “Temerás o Senhor, teu Deus, prestar-lhe-ás culto e só jurarás pelo seu nome. Não seguireis outros deuses entre os das nações que vos cercam.
[6] S. João 13, 26-27
[7] Génesis 3, 5
[8] Efésios 2,14-16
[9] Génesis 1, 3
[10] S. João 1, 1 e 3
[11] Génesis 22, 1-14
[12] Josué 10 (ou qualquer outro capítulo!)
[13] Amós 8, 6
[14] Amós 5, 21 e 24
[15] Génesis 37, 3-4, 25-28,; 42,6
[16] Êxodo 2, 1-10
[17] Deuteronómio 34, 1-12
[18] “Exodus”, por John Gray, PhD, Interpreter’s One-Volume Commentary on the Bible, 1984, 1971
[19] Actos 10, 34-35
[20] S. Mateus 28, 18-20

15o Domingo Comum, Ano B, 12 Julho 2009

150 Domingo Comum, Ano B, 12 Julho 2009
Igreja do Salvador do Mundo, V.N. de Gaia
Cón. Dr. Francisco C. Zanger

Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.

Quando fui capelão militar, aprendi nos fuzileiros um modo de instruir em três passos, um modo bem eficaz: “Observe; Faça; Ensine”. Observe uma vez, para ver o que é preciso; faça uma vez, para entender como é feito, e depois ensine uma vez, porque, diziam eles, o único método de compreender verdadeiramente alguma coisa é ensiná-la aos outros.
Graças a Hollywood, todo o mundo sabe que a vida na tropa não é fácil, e nos fuzileiros — nos United States Marine Corps — pode ser até muito difícil. Mas eu, que passei onze anos nos Marine Corps e na Marinha Militar, posso dizer com toda a certeza: ter sido um dos doze Discípulos foi muito pior.
No terceiro capítulo do Evangelho de S. Marcos, o Evangelista escreveu que Jesus subiu a um monte e chamou para junto de si os seus discípulos, aqueles que quis[1]. Não sabemos quantos foram: no final do seu ministério de três anos, eram pelo menos cento e vinte[2], homens e mulheres, mas isto foi bem antes do fim. Designou de entre eles, lá na montanha, um grupo de doze homens para ficarem na sua companhia, e mais tarde enviá-los-ia a pregar, com o poder de expulsar demónios e curar enfermidades[3].
Mas antes de pregar, precisavam de ouvir e entender a Boa Nova; antes de expulsar ou curar, precisavam de ver Jesus fazer milagres. “Observe, Faça, Ensine”. E assim foi. Segundo S. Marcos, depois de serem escolhidos como apóstolos, primeiro ouviram as Parábolas do Reino, e também a razão das parábolas, as comparações, como a do Semeador [4], a parábola da Candeia[5], e as da semente e do grão de mostarda[6]. A seguir, viram Jesus fazer milagres e curas: acalmou a tempestade[7], curou um homem de Gerasa possuído com tantos demónios que lhe chamavam Multidão[8], e finalmente curou a mulher que perdia sangue[9], cuja história ouvimos o Domingo passado, e ressuscitou, no mesmo dia, a filha do Jairo[10].
Bem... e depois de tudo isto, de ouvirem as parábolas e verem os milagres, foi a sua vez! No Evangelho de São Marcos, o mais antigo dos Evangelhos, esta é a mesma ordem: ouvir, ver, fazer. Depois da cura da filha do Jairo, e uma visita a Nazaré, onde não foi bem recebido, Jesus enviou os apóstolos e enviou-os, dois a dois, para fazerem o que ele fez: pregar a Boa Nova do arrependimento dos pecados, expulsarem os demónios e curarem as enfermidades[11].
Porquê “dois a dois”? Porque nenhum deles estava a pregar e a curar por si mesmo, mas como representantes da nova comunidade de Jesus, da comunidade que, depois da Ressurreição, será a comunidade Cristã. Ainda não era: eles ainda não sabiam que Jesus não era somente o seu mestre, não era somente um profeta, nem era somente o Messias dos Judeus, mas era Deus e Filho de Deus, o mistério da Trindade. Ainda não sabiam porque não podiam. Não foi senão até à semana anterior à Transfiguração que Simão Pedro entendeu que Jesus era mesmo o Cristo, o Meshiach[12], e foi até mais tarde, depois da Ressurreição, que eles verdadeiramente entenderam: quando S. Tomé, o incrédulo, disse “Meu Senhor e meu Deus!”[13], que são as mesmas palavras que rezo quando levanto o Corpo, que foi pão, e o Cálice de Sangue, que foi vinho, em cada Culto Eucarístico.
Jesus, primeiro, escolheu os doze Apóstolos de entre todos os seus discípulos, depois ensinou-lhes com parábolas e mostrou-lhes as curas e os exorcismos dos demónios, e quando achou que estavam prontos, mandou-os, dois a dois, fazer o mesmo. Ele nunca pensou que poderiam fazer tudo quanto queriam por todo o mundo: ele próprio não pode fazer nada na sua própria aldeia! “Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa” disse, e não pode fazer ali nenhum milagre[14]. Nunca pensou que os apóstolos podessem fazer mais!
Não, em vez disso, ele deu-lhes a ordem, “Se nalgum lugar as pessoas não vos receberem ou não quiserem ouvir-vos, quando saírem dessa terra, sacudam o pó das sandálias, como aviso para essa gente.”[15] As suas responsabilidades eram só oferecer a Boa Nova, e não forçá-la.
“Observe; Faça; Ensine”. Os dois primeiros passos Jesus podia fazê-los, e necessitava de os fazer, muito cedo no seu ministério tão breve. Só teve três anos para escolher e ensinar os apóstolos, três anos em que eles precisavam de compreender uma mensagem incompreensível. Num tempo tão curto, entre seu baptismo por S. João no Rio Jordão e a Ascensão, Jesus necessitava de persuadir os seus discípulos, todos judeus, de que ele era não só um filho de Deus, mas o Filho de Deus, e que Deus também era Pai, Filho, e Espírito Santo ao mesmo tempo... mas, ainda assim, somente um Deus.
Esta ideia, que para nós é normal, era mais do que estranho: era heresia para os apóstolos. Num mundo panteísta, eles eram judeus, monoteístas. No centro da sua fé estava a Sh’má Yisroel: o seu credo, a sua prece mais importante, vinha das palavras do sexto capítulo do Livro do Deuteronómio, versículos 4 ao 9, que começa em hebreu: “Sh’má Yisroel, Adonai Elohênu, Adonai Echod”. Baruch shêm kevod malchutó leolám vaed.”[16], , ou em português, “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Bendito seja o Nome da glória do Seu reinado para todo o sempre.” E continua, “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou ficarão gravados no teu coração. Tu os inculcarás aos teus filhos, e deles falarás, quer estejas sentado em casa quer andando pelo caminho, quando te deitas e quando te levantas. Atá-los-ás à tua mão como sinal, e levá-los-ás como uma faixa frontal (“tefilin” em hebreu) diante dos teus olhos. Escrevê-los-ás nos umbrais e nas portas da tua casa[17],[18].”
A maioria dos apóstolos não eram cultos, sabiam estas palavras, porque as recitavam diariamente. E por causa disso, era-lhes bem difícil compreender que, de um lado, é verdade que só há um Deus, mas por outro, Jesus, este homem com quem eles andavam, que comia com eles, que vivia junto deles, era Deus, ou até pior, era Deus-Filho, uma das três Pessoas que eram um só Deus. Ai! Até para nós, dois mil anos depois, com milhares de teólogos a escrever livros e dissertações sobre o assunto, é impossível entender a Trindade: só concordamos com a doutrina, pela fé. Nem posso pensar como tenha sido difícil para os apóstolos ter acreditado em que Deus sendo embora ainda um só mas em três Pessoas diferentes, ao mesmo tempo que um Terço da própria Trindade andava ali ao lado deles e com eles mesmos!
Mas a fé que é necessária não vem de dentro de nós, não é “de carne nem de sangue”[19], mas é um dos dons de Deus: quer do Pai, como Jesus disse quando Simão Pedro exclamou "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!”, quer do Espírito, como S. Paulo escreveu à comunidade Cristã em Corinto[20].
Desde o início, os apóstolos entenderam que o seu Mestre, Jesus, era especial, mas foi só com o tempo que eles poderam entender tudo. Não sei, mas acho que Jesus mudou, nas mentes deles, de um mestre sábio, para um profeta poderoso, depois para o Messias dos Judeus, mas que, só finalmente, depois da Ressurreição, eles conseguiram entender, poderam crer, que Jesus era verdadeiramente Deus. Isso não se deveu somente à Ressurreição em si mesma, mas também porque, nos cinquenta dias anteriores à Ascensão, Ele passou tempo com eles, mostrando não somente milagres, como passando por portas fechadas[21], ou colocando cento e cinquenta e três peixes grandes na sua rede quando eles nem tinham apanhado uma só sardinhita a noite inteira[22], mas, e muito mais importante, mostrando o Seu amor.
Quando Cleófas, que era o marido de Maria, a irmã da Virgem Maria, e o pai do S. Tiago e de José[23], e o outro discípulo caminhavam para Emaús, ambos tão tristes, Jesus andou com eles e ensinou-lhes as Escrituras, mas foi somente quando Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes entregou, só quando celebrou a Eucaristia, é que eles “reconheceram o Senhor ao partir o pão”. Jesus ensinou-lhes sobre a fé, mas também os alimentou, porque nós precisamos das duas coias, a alma e o corpo.
Quando os apóstolos e os discípulos, cheios de medo, estavam com as portas fechadas, Jesus não só passou pela porta fechada para lhes dar o Espírito Santo, dando-lhes o poder de perdoar os pecados[24], como também comeu com eles: mais uma vez, a alma e o corpo.
Quando S. Tomé, que não estava lá quando Jesus aparaceu pela primeira vez, não acreditou que o seu Mestre, o seu amigo, podia estar vivo de novo, Jesus voltou, foi primeiro a Tomé e disse-lhe: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé!”[25], e assim, deixou Tomé em paz sobre as suas dúvidas. Para Tomé, o tocar do Corpo curou-lhe a alma.
Jesus cozinhou peixe para os apóstolos pescadores e, depois, do milagre da rede cheia de peixes, de Pedro exigiu um tríplice protesto de amor (“Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?” “Sim, Senhor, tu sabes que te amo” “Apascenta os meus cordeiros”)[26], um tríplice protesto de amor que anulou as três negações de Pedro antes da Crucifixão. Mais uma vez, alimentou corpo e alma.
De cada vez, mostrou o seu poder; de cada vez, mostrou o seu amor. E eles precisavam deste amor, porque depois da Ascensão, depois do Pentecostes, precisavam de guiar a Igreja nascente. Não foi nada fácil: nos primeiros anos, foram perseguidos pelos judeus, e depois pelos Romanos. Foi o tempo do terceiro passo do “Observe; Faça; Ensine”. Como apóstolos de Jesus, eles tinham feito os primeiros dois: agora, precisavam fazer o terceiro: ensinar outros na Fé Cristã.
E, com a ajuda do Espírito, a Igreja cresceu rapidamente, até todos os cantos do Império Romano. Antes da comunicação em massa, antes dos telefones ou radio ou televisão ou internet, antes da invenção dos aviões ou comboios ou carros, a propagação da Boa Nova tocou almas e mentes da Palestina para oeste até o Egipto, a Líbia e Trípoli (que agora se chama Marrocos), para o leste até à Índia, e para o norte e noroeste até Antioquia na Síria, a Galácia e Capadócia, a Filadélfia e Éfeso na Turquia moderna, a Corinto e Atenas na Grécia, a Tessalônica e Filipos na Macedónia, à Sicília e Roma em Itália, e até à França e Espanha... nas primeiras três centenas de anos! E tudo isso com uma religião que não só era estranha, pois falava de “comer o Corpo e beber o Sangue de Deus”, mas também era ilegal, e perseguida pelas autoridades!
Ouçam a diferença: “Mãe, não quero ir à Escola Dominical, porque quero ir à praia!”, ou “Mãe, não quero ir à Escola Dominical, porque não quero ser torturado com óleo a ferver e depois comido por animais selvagens!”. Mas a Igreja cresceu, e cresceu.
Não foi fácil, claro. Dos doze Apóstolos originais, somente um morreu na cama. Um, o traidor Judas, suicidou-se[27], cheio de arrependimento e tristeza, e todos os outros, menos S. João, que tomou conta da Virgem Maria[28], sofreram o martírio pela Fé: SS. Pedro e Paulo, segundo a tradição, ao mesmo tempo em Roma, com Pedro crucificado de pernas para o ar e Paulo decapitado com uma espada[29] pelo Imperador Nero, S. Tiago Maior foi martirizado pelo Rei Herodes Agrippa com uma espada, e S. Tiago Menor apedrejado em frente do altar em Jerusalém3 e André crucificado numa cruz em forma de ‘X’, S. Tomé, na Índia, e os outros quatro de maneiras também horríveis. Não foi fácil, nem para os Doze, nem para os outros discípulos de Cristo Jesus.
Não foi fácil ser Cristão, mas eles sabiam que valia a pena. Sabiam, porque tinham uma relação especial com o Senhor. Eles sabiam que este mundo nunca irá ser perfeito, mas também não era seu: esperavam, com esperança e alegria, pelo mundo que há-de vir. E também, quer aqui quer no mundo que há-de vir, tinham uma relação especial com Deus: uma relação diferente da das outras religiões. Tinham, e nós também temos, uma coisa maravilhosa: Jesus disse, “Vocês são meus amigos se fizeram aquilo que eu vos mando. Agora já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo quanto aprendi do meu Pai.[30]
“Chamo-vos amigos”??? Deus chama-me “amigo”, eu que nem mereço ser o servo do Senhor? Isso é uma maravilha incompreensível... e é também o centro, o coração da nossa Fé. Nós não somos somente os servos do Senhor, nem somente crentes: nós somos, pelo amor de Cristo, o Corpo de Cristo. Este amor é uma coisa grande de mais para que a compreendamos: só podemos aceitar. Aceitar, e responder. E a única resposta a este amor é, também... amor. Amor por Deus, e amor pelo seu Corpo no mundo, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, o amor por toda a Criação de Deus.

Em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.


[1] S. Marcos 3, 13-19, S. Mateus 10, 1-4, S. Lucas 6, 12-16
[2] Actos 13, 15
[3] S. Marcos 3, 14-15
[4] S. Marcos 4, 1-20; S. Mateus 13, 1-23; S. Lucas 8, 4-15
[5] S. Marcos 4, 21-25; S. Lucas 8, 16-18
[6] S. Marcos 4, 26-29; S. Marcos 4, 30-34; S. Mateus 13, 31-32; S. Lucas 13, 18-19
[7] S. Marcos 4, 35-41; S. Mateus 8, 23-27; S. Lucas 8, 22-25
[8] S. Marcos 5, 1-18; S. Mateus 8, 28-34; S. Lucas 8, 26-39
[9] S. Marcos 5, 25-34, S. Mateus 9, 20-22; S. Lucas 8, 43-48-39
[10] S. Marcos 5, 35-43
[11] S. Mateus 6, 7-13
[12] S. Marcos 8, 27-30; S. Mateus 16, 13-20; S. Lucas
[13] S. João 20, 28
[14] S. Marcos 6, 4-5
[15] S. Marcos 6, 11
[16] El Cajon (CA) City Police Department Chaplaincy Manual, por Capelão Dr. Francis C. Zanger, 2000
[17] e continua: Veahavtá êt Adonai Elohecha, bechol levavechá, uv’chol nafshechá, uv’chol meodêcha. Vehaiú hadevarím haêle, asher anochí metsavechá haiom al levavêcha. Veshinan’tám levanêcha vedibartá bam, beshivtechá bevetecha, uv’lechtechá vaderech, uv’shoch’bechá uvcumecha. Uk’shartam leot al iadecha, vehaiú letotafot bên enêcha. Uchtavtám al mezuzot betecha, uvish’arecha. Numerosos judeus recitam-nos ao menos duas vezes por dia, e capelães da tropa americana (de qualquer religião) digam-nos aos fuzileiros e soldados judeus antes da sua morte em combate. * Os primeiros versículos são também o começo dos Mandamentos, na p. 144 da nossa Liturgia da Igreja Lusitana.
[18] Deuteronómio 6, 5-9
[19] S, Mateus 16, 17
[20] 1 Coríntios 12, 9
[21] S. João 20, 19
[22] S. João 21, 3-12
[23] S. Marcos 15, 40, 47, e 16, 1; S. João 19, 25; S. Mateus 27, 56
[24] S. João 20, 22-23
[25] S. João 20, 27-28
[26] S. João 21, 15-18
[27] S. Mateus 27,5
[28] S. João 19, 25-27
[29] Scorfiace, Capítulo XV, por Tertullian , Ano 145-220, de ‘Writings of the Ante-Nicene Fathers, Volume 3’
[30] S. João 15, 15

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