18 July 2009

13o Domingo Comum, 28.06.09 [Ano B]

13o Domingo Comum, 28.06.09 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo, Vila Nova de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger

«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
De vez em quando, perguntam-me se escrevo as homílias em inglês e depois as traduzo, ou se as escrevo directamente em português. Ora, se já é demasiado difícil escrever um sermão em português... escrever primeiro em inglês, e depois traduzi-lo, seria impossível: as duas línguas são tão diferentes, e há palavras que nem podem ser traduzidas. Só um exemplo: não há uma palavra em inglês para saudade. Logo, se vou pregar em português, tenho de escrever em português.
E isto ainda é mais complicado. O próprio Evangelho sobre o qual estou a pregar foi traduzido para o português do grego. E não só: S. Marcos escreveu-o, fazendo já uma tradução. Os Israelitas falavam aramaico, mas, no Templo, falavam hebraico e, só para falar aos Romanos, usavam o grego. A nossa própria Bíblia é uma tradução de uma tradução.
O conhecimento disto é importante se queremos entender as Escrituras. Há palavras que lemos, palavras que nos parecem simples, mas que não significam aquilo que pensamos, e uma dessas palavras encontra-se, hoje, bem no meio do nosso Evangelho.
Para nós, o verbo curar significa “livrar alguém de doença por meio de adequado tratamento, ou sanar, ou restabelecer a saúde”[1]. Mas para os Judeus, “ser curado” tinha um significado muito diferente: significava “ser purificado”; significava “retomar a boa relação com Deus”. Uma pessoa impura não podia entrar no Templo, não podia louvar o Senhor com propriedade. A doença impura mais conhecida era a lepra, mas a lepra bíblica não era a mesma doença que nós conhecemos: a lepra bíblica podia ser lepra, sim, mas também podia ser herpes, ou até qualquer mancha luzidia da pele: qualquer doença de pele podia ser considerada lepra. E não era uma decisão tomada por um médico: era necessário ser tomada por um sacerdote, porque era um assunto religioso[2].
Também, qualquer coisa relacionada com o sangue podia ser impuro. Nas leis do Kashruth, que catalogam os animais puros e impuros[3], até dos animais puros, eles só podiam comer a carne, e nunca o sangue: antes de comer, era preciso tirarem todo o sangue, porque na lei bíblica, o sangue é considerado a base da vida [4].
Era por isso que mulheres eram consideradas impuras religiosamente depois do parto, ou durante sete dias depois do tempo do seu período: por causa do sangue perdido. E não era só a mulher que era impura: a impureza era contagiosa, e qualquer coisa que ela tocasse, quer a sua cama, quer uma cadeira, quer uma outra pessoa, ficava impura também. Se ela desse à luz um menino, durante um período de sete dias seguido de mais trinta e três, não podia tocar em nada de sagrado nem entrar no santuário, e se desse à luz uma menina, esse período era de sete dias mais sessenta e seis, porque uma menina, quando crescesse ia ser mulher, logo uma “base da vida”[5]. Parece paradoxal, mas aquela que era a base da vida também era impura. Os teólogos discutem muito acerca disto: há uns que acham que era devido ao sexismo da época, que uma menina tinha menos valor do que um menino, mas talvez fosse contrário: levava o dobro dos dias a uma mulher para se purificar por ter tido uma menina, precisamente porque ela podia vir a ser mãe. Se os judeus acreditavam que só Deus pode dar vida, e sabiam que eram somente as mulheres que davam vidas novas à luz, a importância das mulheres era maior, não menor, e por isso, elas precisavam de mais tempo para serem purificadas.
Uma outra causa de impureza não era a base da vida, mas a falta da vida. “Quem tocar no cadáver duma pessoa fica impuro, durante sete dias. No terceiro e no sétimo dias, deve aspergir-se com a água da purificação e então ficará puro. Aquele que tiver tocado no cadáver duma pessoa e não se tiver purificado, profana o santuário do Senhor e deve ser expulso da comunidade dos israelitas.”[6] E era ainda mais duro, devido ao mesmo contágio de impureza: qualquer outra pessoa que entrasse ou estivesse na casa aonde houvesse um cadáver, mesmo que tivesse morrido no momento, também ficava impuro.[7]
É preciso compreender tudo isto para entender o Evangelho que ouvimos hoje, para apreender quão estranho, quão maravilhoso, foram as coisas que Jesus fez. Quando Jesus e os seus discípulos chegaram à aldeia, estava á sua espera uma grande multidão. Um deles, um chefe da sinagoga chamado Jairo, apresentou-se, ajoelhou-se e pedia-lhe muito dizendo “A minha filha está a morrer. Vem, impõe as mãos sobre ela, para que se salve e viva!” Jesus foi com ele, e uma grande multidão o seguia, apertando-o de todos os lados.
Na meia desta multidão estava uma mulher que já há doze anos sofria duma doença, padecendo de uma perda de sangue. Sofrera muito nas mãos de vários médicos, gastando tudo quanto tinha, mas só piorava cada vez mais. Ela ouvia falar de Jesus como um homem santo, mas por causa da sua doença ela era impura, e nem lhe passava pela cabeça falar com Ele, ainda menos na presença de um dos chefes da sinagoga. Mas ainda tinha esperança: se pudesse só tocar nas roupas de Jesus, ficaria curada!
Abeirou-se por atrás de Jesus, no meio de multidão, e tocou-lhe na orla do seu manto. Imediatamente a hemorragia estancou e ela teve a certeza de estar curada. Mas Jesus sentiu que algum poder saiu d'Ele, voltou-se para trás, e perguntou: “Quem tocou as minhas vestes?”. A mulher ouviu, e ficou cheia do medo. Aproximou-se de Jesus, lançou-se-lhe aos pés, e contou-lhe toda a verdade. Mas Jesus disse-lhe: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz, estás curada do teu mal”[8].
Isto era o oposto do Lei! A Lei dizia que esta mulher já estava impura há doze anos[9], por isso ela teve tanto medo quando Jesus perguntou: “Quem me tocou?”. Ela sabia que, normalmente, quando tocasse na roupa de Jesus, deixaria Jesus impuro também até à noite, e no mesmo momento que em estava a ir salvar a filha de Jairo, o chefe da sinagoga. Se Jesus ficasse impuro, não poderia nem sequer entrar na casa de Jairo!
Mas em vez de ficar impuro, Jesus purificou a mulher. Mais ninguém soube o que aconteceu: “curada do teu mal” não significava ‘curada da tua impureza’. Jesus sabia, e ela sabia, e isso era suficiente. Desta forma, ela podia retornar ao Templo, podia renovar a sua relação intíma com Deus, e louvar o Senhor como uma israelita pura, pela primeira vez em doze anos.
Infelizmente, no mesmo momento, chegaram algumas pessoas que vinham da casa de Jairo, anunciando: “Jairo, a tua filha já morreu. Não vale a pena incomodares mais o Mestre.” Ouvindo Jesus estas palavras, dirigiu-se ao chefe da sinagoga: “Não temas; tem só fé!” Jairo já tinha demonstrado a sua fé quando se apresentou a Jesus pedindo a sua ajuda. Mas a fé que Jesus agora ordenava era uma fé que contínua, até quando parece que tudo está perdido.
Jesus não permitiu que mais ninguém o acompanhasse, além de Simão Pedro, Tiago, e João, o irmão de Tiago. Ao chegar a casa de Jairo, entrou e viu o alvoroço, os que choravam e faziam lamentações. Mas Jesus disse: “Para quê todo esse barulho e esses choros? A menina não está morta! Ela está só a dormir!”. E eles riam-se d'Ele. Contudo, tendo Jesus mandado todos para fora, menos os pais e os seus três discípulos, levou-os ao quarto onde a menina estava deitada.
Jesus segurou a mão da menina, e disse-lhe: “Talitha cumi”, que significa em aramaico: “Menina, levanta-te! Sou Eu que te digo!” E a menina, que tinha doze anos, levantou-se e começou a andar. Jesus ordenou-lhes severamente que não contassem nada a ninguém, e disse-lhes para darem de comer à menina.
Mais uma vez, o oposto da Lei! A palavra que S. Marcos usou em grego quando escreveu ‘levantou-se’ é a mesma palavra para ‘ressuscitar’. A menina estava morta e, normalmente, se alguém tocasse no cadáver dela ficaria impuro. Jesus segurou a sua mão e, em vez de ficar impuro, ela ficou viva!
Em cada uma das duas histórias, a da mulher com a perda de sangue e a da filha morta de Jairo, Jesus afirmou que a coisa mais importante era a fé. “Minha filha, a tua fé te salvou.” “Não te assustes, tem só fé!” Antes da Sua própria Ressurreição, não podia ser ainda a fé em Jesus Cristo como Deus e sim no Pai, mas a fé era essencial. A Lei foi dada aos israelitas por Deus, e eles precisavam de lhe obedecer; mas a Lei era para os humanos, e Deus não está ao abrigo da Lei. Jesus, verdadeiro homem, pregava as Boas Novas; Jesus, verdadeiro Deus, podia pedir milagres a seu Pai, milagres que iam contra as leis, quer da Bíblia quer da física, para aqueles que tinham fé.
Há uma outra lei bíblica que Jesus “quebrou”, exigindo fé: muita fé. A Lei hebraica, dada a Moisés por Deus, há capítulos inteiros sobre os animais puros e impuros[10], e não era só proibido tocar num cadáver humano, mas também no cadáver de qualquer animal proibido[11], ou dum animal puro que tivesse morrido naturalmente[12]. A proibição contra o sangue é repetida muitas vezes4. Mas na Última Ceia, na noite em que foi entregue, Jesus tomou pão, deu graças ao Senhor, e disse: “Tomem. Isto é o meu corpo.” Depois pegou no cálice, deu graças, e disse: “Isto é o meu sangue.”[13]
Isto é o meu corpo? Isto é o meu sangue? Isto é impossível! Não podia haver maior violação da Lei! Comer o corpo de Jesus? Beber o Seu sangue?
Para nós, dois mil anos mais tarde, não é assim tão estranho, mas para os Judeus, que foram discípulos do Senhor, era chocante, escandaloso. Eles precisavam de ter fé, fé completa, fé quase esmagadora, em Jesus, para ouvir e acreditar nestas palavras. Mas tinham. E, por causa da sua fé, nós, hoje, podemos partir o Pão que é o Corpo de Cristo, para participar no Corpo de Cristo.
Quando ouvimos histórias das curas miraculosas, como ouvimos no Evangelho hoje, é fácil pensar somente na cura física... e quando temos membros da família ou amigos com doenças graves, queremos, rezamos para que tenham a mesma cura. Entendo... é normal. De vez em quando, pensamos que Deus não ouve as nossas orações, quando as pessoas que nós amamos não melhoram. Não sei quantos vezes ouvi “A culpa é minha; eu não tenho fé suficiente”, ou “A culpa é de Deus, ou não me escuta, ou não existe.”
Mas a culpa não é nossa nem de Deus. Quando rezamos por uma cura, temos de nos lembrar que a cura de Deus não é só física... a cura menor de Deus é a parte física. A cura de Deus é termos uma boa relação com o Senhor, completa, de alma e coração. Os sintomas físicos são temporários. Ser parte do Corpo de Cristo é eterno. As dores passam, quer nesta vida, quer na vida que há-de vir. A cura de Deus pode ser física, mas também pode ser coragem face às aflições, e a fé que nos faz saber que, de boa ou má saúde, estamos ligados ao Corpo de Cristo, que é eterno.
Isto não é fácil: nós queremos que as pessoas vivam sem doenças, sem dor, sem morte. E Jesus Cristo, Deus que encarnou e viveu como homem, que morreu em agonia, que viu a dor da sua mãe quando contemplava o seu único filho a morrer... Jesus entende como isto para nós é difícil. É por isso que Ele ainda está aqui, connosco, na Santa Eucaristia no altar, e no Corpo de Cristo que é a Igreja. Uma parte da ‘cura’ de Deus é o amor da comunidade, bem como uma parte do trabalho da comunidade é o amor, e o apoio de todos os membros por todos os membros.
Não temam. Lembrem-se das palavras de Deus, “...eu nunca te esqueceria. Eis que estás gravada na palma das minhas mãos.”[14]

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen




Notas:
[1] Dicionário de Português, Beiks LLC, 1998, 2005
[2] Levítico 13, 1-46
[3] Levítico 11, 1-46
[4] Génesis 9, 3-4; Levítico 7, 26-27; Deuteronómio 12, 23-25, e outros
[5] Levítico 12, 1-8; S. Lucas 2, 22 (caso da Virgem Maria ao nascimento de Jesus)
[6] Números 19, 11-13
[7] Números 19, 14
[8] S. Marcos 5, 25:34
[9] Levítico 15: 25-27
[10] Levítico 11; Deuteronómio 14
[11] Levítico 11, 24, 31-15
[12] Levítico 11, 39-40
[13] S. Mateus 26, 26-28; S. Marcos 14, 22-24; S. Lucas 22, 19-20; S. João 6, 53-56; 1 Coríntios 11, 23-26
[14] Isaías 49, 15b-16

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