18 July 2009

14o Domingo Comum, Ano B, 05 Julho 2009

14o Domingo Comum, Ano B, 05 Julho 2009
Igreja do Redentor, Porto
Cón. Dr. Francisco C. Zanger

Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.

Não somente ainda não vi o novo filme “O Exterminador”, o quarto ou quinto filme da série o Exterminador Implacável: nem sequer o quero ver. Não preciso, com a minha coluna, de me sentar durante quase duas horas num cinema para ver o Arnold Schwarzenegger, de quem não gosto, nem como actor nem como político, nem para ver os ciborgues a bater nos outros robôs ou nas pessoas. Chatices como estas não me interessam. Após tantos anos como capelão, quer da tropa quer dos bombeiros, já vi todas as explosões que preciso, ao vivo. Já vi as vítimas dos desastres, dos acidentes. Para mim, não é divertimento.
Mas, entendo a atracção. Como tantos filmes, é a força que é importante: os heróis precisam de usar toda a sua força (e talvez um pouco de inteligência) para obrigarem os vilões robotizados a retroceder... até a próxima sequência da série.
É um filme do tipo popular... a violência é sempre popular. No cinema, os protagonistas são fortes e atraentes, preparados para combater força com força, para ganhar a luta ou a história heróica. São os ‘James Bonds’ do mundo do cinema.
Nos últimos anos, o site do Superman e do Batman aumentou para incluir outras personagens “super”, como o Wolverine e Ironman (Homen do Ferro) e outros mutantes, e também os heróis e inimigos mecânicos, como os Exterminadores e os Autobots e Decepeticons dos Transformers, mas é sempre a mesma coisa. Os heróis usam a força para o bem e os inimigos para o mal, mas todos usam a força... eu nunca soube de um ‘Super-herói de Fraqueza’. “Homem-Aranha”, sim. “Homem-Franzino”, não.
E não é só na cultura popular. O que é que há de valor no mundo? Quando pensamos nos países mais importantes do mundo, não pensamos nos países que melhor tratam os seus povos, mas naqueles que têm mais bombas, os exércitos maiores, ou que são os mais ricos. Mas o que vale esta riqueza, se há pessoas sem pão na mesa?
O que é que há de valor no mundo? Quando pensamos nas pessoas mais importantes, em quem pensamos nós? Nas pessoas com poder, como os políticos, os Obamas e Sócrates e todos os que têm poder político, os que mandam em orçamentos e exércitos, que podem tomar decisões, que mudam a economia ou começam as guerras? Ou talvez naqueles que mandam nas corporações multinacionais, que podem mudar as fábricas da Europa e da América do Norte para a China e a Indonésia para aumentarem os seus lucros brutos, deixando milhares de pessoas sem emprego, e que nem pensam no clima se o lucro for suficientemente vantajoso?
O que é que há de valor no mundo? Talvez os melhores jogadores de futebol, como Bruno Alves ou Ronaldo ou Kaká, eles que ganham mais dinheiro em noventa minutos do que uma professora ou um enfermeiro conseguem ganhar num ano? Ou talvez pensemos nos actores portuguesas como Pedro Alves e Carla Salgueiro, Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira, ou nos actores internacionais como o Tom Cruise, Julia Roberts e Penelope Cruz? Pensamos nos “stars” da música, quer grupos como Madredeus ou Mariza quer grupos de “hard rock” como as bandas Metallica e Guns-n-Roses americanas, ou bandas portuguesas como Ibéria ou “us&them” de Gaia?
O que é que há de valor no mundo? Ser famoso não é exactamente a mesma coisa que ter poder militar, mas é ainda ter poder. É bem fácil compreender que a coisa que tem mais valor na nossa cultura... a coisa que dá mais valor na nossa cultura... é o poder. É necessário ter poder para ser rico; é necessário ser rico para ter poder. É necessário ser poderoso, ou famoso, ou rico, se se quer ter qualquer valor na nossa cultura, no nosso mundo.
Bem. Então, como é que nós podemos entender a leitura da Segunda Epístola aos Coríntios? S. Paulo, o “Super-Apóstolo”, que venceu três naufrágios, tareias e prisões[1]... como é que ele pôde escrever: “De mim não me quero orgulhar, a não ser das minhas fraquezas.” ‘...das minhas fraquezas’??? O quê?
Há muitas diferenças, claro, entre a nossa cultura moderna e a cultura do primeiro século, quando S. Paulo escreveu as suas Epístolas. Mas num pormenor, a nossa cultura não é tão diferente do que a do primeiro século: acreditamos no poder, damos honra à potência.
E aqui, temos S. Paulo, um dos mais corajosos dos apóstolos, que viajou da Palestina até à Síria e à Turquia, de Creta à Grécia e à Macedónia, Itália e Espanha, que pregou a Boa Nova de Jesus Cristo apesar de ter sido encarcerado[2], flagelado três vezes com varas pelos romanos[3] e cinco vezes recebeu as trinta e nove chicotadas dos judeus, e até foi apedrejado[4], passou uma noite inteira no mar depois de um dos naufrágios, viveu com fome e sede, frio e falta de roupa[5], e tudo isto sem parar de evangelizar... ele foi mais heróico do que qualquer Indiana Jones ou James Bond! Como é que um homem como este pode dizer “Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas”: um homem que fez tanto, que parece tão forte... mas ainda assim só quer orgulhar-se na sua fraqueza?
É difícil entender isto. Mas temos de nos lembrar, Paulo não habitava no mundo criado por Hollywood, mas no mundo criado por Deus. Não só pregou a Boa Nova, mas acreditou na Boa Nova de Jesus Cristo: de Jesus Cristo. Qualquer tipo de heroísmo que tivesse feito não significava nada em comparação com a Boa Nova, e com a estima que tinha a Jesus Cristo: “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte na Cruz.[6]
Quando falamos de força, não só do corpo mas de vontade de Paulo, que sobreviveu a tanto, precisamos de nos lembrar, como ele, que a sua força não foi nada quando pensamos em Cristo. Jesus, o Verbo Divino que estava no princípio junto de Deus na Criação, Jesus, que era verdadeiramente Deus, aceitou tornar-se humano, parte da Sua própria Criação, e foi concebido pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, ela, que os Ortodoxos chamam Theotokos, a ‘Portadora de Deus’. Jesus, que poderia nascer como rei, como imperador se tivesse querido, nasceu numa família trabalhadora, uma família ‘normal’, uma família que nem tinha dinheiro para o sacrifício maior do Serviço da Purificação quando José e Maria levaram Jesus ao Templo pela primeira vez.[7]
Se Jesus, que era Deus, abrangeu a fraqueza humana, Paulo não podia gabar-se da sua proeza! Paulo, que queria seguir o Senhor em todas coisas, só podia orgulhar-se da sua fraqueza, porque foi a fraqueza e a humildade o que Jesus mostrou como o Seu caminho, e porque foi com a Sua fraqueza, a humilhação nas mãos dos soldados romanos[8], a tortura da Cruz, e a morte—a morte!—de Deus, que Jesus Cristo venceu sobre a morte[9], e ganhou para nós a vida eterna[10].
Vivemos num mundo paradoxal. Os governos do mundo pagam mais pelas armas, que matam, do que pela comida para os seus povos, que dá a vida. Com o seu novo contrato com Real Madrid, Cristiano Ronaldo (que é o melhor jogador do mundo), vai ganhar mais dinheiro do que todas as enfermeiras no Hospital de São João... eu não fiz as contas, mas talvez mais do que todas as enfermeiras dos hospitais e todos os professores no Porto! Eu sei que o futebol é importante (não, é muito importante), mas porque pagamos aos jogadores de futebol (ou basebol, ou futebol Americano, que odeio), porque pagamos aos actores de cinema, porque pagamos aos directores gerais das companhias de Wall Street, muito mais do que às pessoas que salvam as nossas vidas, ou ensinam as nossas crianças?
Há uma razão. O mundo está dividido, rasgado pelo pecado. É o pecado que diz “Poder é tudo!”. É o pecado que diz que as pessoas que nos divertem têm mais valor do que as que nos alimentam ou ensinam ou cuidam. É o pecado que diz que a única ‘cruz’ com importância é ou Penelope ou Tom, e não a Cruz do Gólgota; que os Madredeus têm mais valor do que a Mãe de Deus. É pecado; é o pecado do mundo. Nada mudou desde o tempo em que a serpente convidou Eva e Adão para comer um lanche de fruta, lá no Jardim do Éden.
E nada vai mudar, neste mundo de trevas. Mas este mundo não é nosso: nós somos baptizados, para passar das trevas para a luz, do mundo para o Corpo de Cristo. Nós passamos por este mundo, sabendo que temos muito trabalho para fazer durante o tempo que cá passamos, mas sabemos também que só passamos: a nossa pátria verdadeira está no mundo que há-de vir. Sabemos disso: Jesus disse, falando sobre os seus discípulos e sobre todos nós que O seguirmos: “Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal. Eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Santifica-os pela verdade. A Tua palavra é a verdade. Como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os envio.”[11]
Como individuos neste mundo, nós não temos poder, somos fracos. Somos pessoas normais, e não primeiros-ministros, ou jogadores de futebol, ou actores de Hollywood, ou directores de corporações multinacionais. Não temos importância nenhuma no mundo.
Não faz mal. Não precisamos de importância neste mundo: somos membros do Corpo de Cristo. Somos fracos, como individuos, claro. Uns de nós somos muito fracos, e precisamos de ajuda; outros somos mais fortes, e podemos ajudar. É nisto mesmo que está a força do Corpo de Cristo: não somos individuos sozinhos, mas somos partes de uma coisa maior do que todos nós. O Corpo de Cristo não é somente os membros desta paróquia, ou da Igreja Lusitana ou a Comunhão Anglicana. Nem é somente todos os membros da Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica, com todos os Anglicanos e Católicos Romanos e Ortodoxos do mundo. É tudo isto, claro, mas, porque Cristo existe no “tempo de Deus”, ou Kairos em grego, fora do tempo humano, que se chama Chronos, o Corpo de Cristo também existe fora do tempo humano. Todos os cristãos que foram baptizados durante os dois mil anos, desde o primeiro Pentecostes, são partes do Corpo, e todos os mortos que aceitaram o Senhor durante os três dias que Jesus esteve no lugar dos mortos[12] são partes da tal nuvem de testemunhas de que estamos cercados[13].
É por isso que não precisamos da ‘força’ deste mundo: a nossa ‘força’, que é do Espírito, é maior. Nós temos uma coisa que o mundo não tem. Temos esperança. Sabemos que este mundo não é tudo o que há, e temos esperança no mundo que há-de vir.
Mas, ainda temos de morar aqui, por enquanto. É por isso que também temos o Corpo de Cristo, porque nós podemos fazer muito mais, juntos na fé, do que poderíamos fazer, cada por si. O nosso modelo vem do livro dos Actos dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma.”[14] Na altura, a comunidade dos crentes era ainda bem pequena, com menos de duzentos fiéis[15], e entendo que talvez o versículo seguinte seja um pouco forte demais para nós agora: “Nenhum deles dizia que os seus bens eram apenas seus, mas punham todo em comum”.[16] Com todos os crentes do mundo, isso seria mais do que difícil, mas não podemos fugir desta ideia bíblica, que cada um de nós tem uma responsabilidade para com os outros membros do Corpo.
Esta responsabilidade não deve ser financeira, claro. Há muitas outras coisas que são necessárias. Há pessoas, aqui nesta paróquia, na nossa cidade, na nossa Igreja Lusitana, no nosso mundo, que precisam de amizade, que precisam de um pouco de ajuda com qulaquer coisa, que precisam de oração. E há, também, membros do Corpo de Cristo, nossos irmãos e irmãs, que não têm pão na mesa, neste tempo de crise. Ninguém pode fazer tudo, mas juntos, não há nada que não possamos fazer.
E isto é a verdade, não porque unidos, nós possamos fazer mais... isto é a parte menor. Só o facto de serem “unidos” não resultou com os comunistas na Rússia, quando eles tentaram. Mas nós não somos somente um corpo: somos o Corpo de Cristo.
O que é que há de valor no mundo? O Corpo de Cristo, que não somos só nós, nem nós e a tal nuvem das testemunhas, mas todos nós e Jesus Cristo, verdadeiro Deus, sentado à direita do Pai. Nós precisamos de muito, mas não conseguimos fazê-lo. Mas “para Deus, não há nada impossível!”[17]

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen




Notas:
[1] 2 Coríntios 11, 25b
[2] Actos 24, 27
[3] Actos 16, 23
[4] Actos 14, 19
[5] 2 Coríntios 11, 23-28
[6] Filipenses 2, 5-8
[7] Levítico 12, 6-8
[8] S. Mateus 27, 26-31; S. Marcos 15, 15-19; S. Lucas 22, 63-64; S. João 19, 1-4
[9] S. Mateus 27, 24-27, 51-53; Actos 2, 24, 31-36; Romanos 6, 3-11
[10] Romanos 6, 22-23; 1 Timóteo 1, 16,; 1 João 511-12
[11] S. João 17, 15-18
[12] Credo dos Apóstolos, Liturgia da Igreja Lusitana, p. 254
[13] Hebreus 11, 32 – 12, 1
[14] Actos 4, 32
[15] Actos 1, 15
[16] Actos 4, 33
[17] S. Lucas, 1, 37

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