15 March 2009

Sermão por o Terceiro Domingo da Quaresma, ano B (2009)

3º Domingo da Quaresma, 15.03.09 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo/ VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger


«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

«Depois, Jesus disse aos que vendiam pombas, “Tirem tudo isto daqui! Não façam da casa do meu pai uma casa de negócio!.[1]»
Os discípulos achavam que entendiam. Lembraram-se do que está escrito no décimo versículo do Salmo 69: “O zelo da tua casa me consome...”. Mas os outros, os que vendiam as pombas, as ovelhas e os bois, e os cambistas que trocavam dinheiro do Império inteiro pelas moedas do Templo, não podiam entender. Isto era uma loucura! Esta parte do Templo não era uma loja ou uma ‘casa de negócio’: era o lugar aonde os Judeus fiéis compravam os animais para os sacrifícios mandados pela Lei[2]!
No tempo em que Deus deu as leis dos sacrifícios a Moisés, no Livro de Levítico, os israelitas eram um povo de lavradores e de pastores, mas agora, no primeiro século, muitos deles moravam nas cidades, quer em Jerusalém e noutras cidades da Palestina quer nas cidades como Alexandria e Damasco, Antioquia e Roma. Todos eles queriam voltar a Jerusalém para a festa da Páscoa dos judeus, para fazer os sacrifícios que só eram possíveis de realizar no Templo... mas dado que não eram pastores nem viviam perto da cidade, precisavam de comprar os animais! E eles, que tinham as moedas de bronze das muitas e diferentes províncias romanas[3], precisavam dum câmbio para trocar de dinheiro. Isto não era uma ‘caverna de ladrões’[4], mas era um serviço útil do Templo judeu para os seus devotos.
Não é que Nosso Senhor não soubesse disso. Ele era um judeu religioso, bem educado na Lei desde a sua infância. E esta não foi a primeira vez que Jesus esteve no Templo de Jerusalém! Jesus e os seus pais iam a Jerusalém todos anos, à festa da Páscoa: foi no ano do seu décimo segundo aniversário que Jesus ficou no Templo quando os seus pais voltavam para casa, discutindo com os doutores da Lei. E devemos crer, que ele foi com eles, tal como todos os judeus fiéis o faziam anualmente. Jesus aprendeu, e entendeu, as regras dos sacrifícios, e as razões para a existência das tendas dos vendedores dos animais de sacrifício.
Jesus, que era Filho de Deus, também era filho da S. Maria e enteado de S. José: cresceu numa família religiosa, praticante. Recebeu a circuncisão de menino com oito dias[5], e quando tinha quarenta dias, Maria e José levaram-no a Jerusalém pela primeira vez, para ser apresentado ao sacerdote no Templo. E foi lá, que os seus pais sacrificaram um par de rolas ou de pombinhos. A Lei em Levítico manda que seja um cordeiro, para o holocausto, e para a expiação do pecado, mas podia ser um pombinho ou uma rola se a família não tivesse o dinheiro para um cordeiro[6]. S. José não era pobre: como carpinteiro, ele era da classe média, dado que possuía a sua própria ferramenta, e talvez uma oficina. Não havia razão para terem sacrificado somente as duas pombas dos Evangelhos, mas acho que foi isto: até Maria e José talvez não soubessem porque não estavam a sacrificar um cordeiro por Jesus, mas era porque este sacrifício estava reservado para mais tarde: o sacrifício do Cordeiro de Deus, de Jesus mesmo, na Cruz.
Ora bem. Talvez possa parecer que foi somente pelo facto de estar zangado que Jesus tenha feito um chicote de cordas e tenha expulsado todos do Templo, tal como o fez com as ovelhas e os bois, e tal como espalhou pelo chão o dinheiro dos cambistas, e derrubou as suas mesas. Talvez possa parecer, mas não foi só um explodir de cólera: foi profecia! Quando os chefes dos judeus, e os sacerdotes do Templo, lhe perguntaram: “Que sinal nos apresentas tu, para proceder deste modo? Mostra-nos como é que tu tens o direito de fazer isto!”, a sua resposta foi estranha: “Deitem abaixo este templo e eu em três dias o hei-de levantar.”
Eles não entenderam. Claro que não: para eles, o Templo era um edifício, mas era mais do que um simples edifício; era o verdadeiro centro da adoração e louvor ao Senhor. Este era já o segundo Templo: o primeiro foi mandado construir pelo Rei Salomão,[7] filho do Rei David, 950 anos antes de Cristo, mas foi destruído pelos babilónios no ano 587 a.C.[8], no tempo do Exílio na Babilónia dos judeus do antigo Reino de Judá. O Segundo Templo foi construído depois do Exílio, quando o Rei Ciro da Pérsia deixou os judeus voltar a Israel e reconstruírem o Templo. Levou 46 anos para o construir, e o Templo estava no centro, não somente da religião dos israelitas, mas das suas vidas. Era por isso, que os judeus que viviam noutras partes do Império tinham de voltar a Jerusalém para celebrarem a Páscoa dos judeus: não podiam fazer os sacrifícios exigidos noutro lugar.
No tempo de Jesus, o Rei Herodes estava a proceder a uma “remodelação” do templo, que os judeus mais religiosos consideravam ser uma profanação, dado que ele queria incluir partes pagãs para agradar a César e aos Romanos. Esta seria a segunda profanação Romana: no ano 136 a.C., o Imperador Romano mandou sacrificar uma porca sobre o altar, uma profanação repugnante, e assim instigou a primeira revolta judaica contra os Romanos. Mas mesmo com estas profanações, o Templo era ainda o centro da adoração dos judeus, e o único lugar aonde os judeus podiam fazer os sacrifícios mandados por Deus.
Todo isto... e este Jesus entrou, fez um grande barulho com os vendedores, e então disse: “Deitem abaixo este templo, e eu em três dias o hei-de levantar”. O quê???
Não. Eles não entenderam de jeito nenhum. Os discípulos só entenderam, após a Ressurreição.
Jesus não estava a falar de um edifício: falava do templo do seu corpo. E isto era uma coisa que ninguém, na altura, podia entender... talvez a sua mãe, Maria, ou José, se ambos se lembrassem das palavras do anjo da Anunciação, mas mais ninguém entenderia. O acto de Jesus foi uma profecia de futuro.
Deus sabia que o Segundo Templo, já duas vezes anteriormente profanado, seria completamente destruído pelos Romanos no ano 70, e o resto de Jerusalém também. Mas isto ocorreu quase, quarenta anos depois e os chefes dos judeus e os sacerdotes do Templo não poderiam prever tal coisa. Mas no Evangelho de S. João, é claro que Jesus Cristo, que foi verdadeiro homem e verdadeiro Deus ao mesmo tempo, sabia bem que o tempo do Templo físico estava passado, e que o Deus que usava o Templo como seu escabelo[9] agora estava dentro dele mesmo.
Jesus sabia também que o tempo dos sacrifícios no altar do Templo estava a passar: que o último sacrifício vivo de um cordeiro seria o sacrifício do Cordeiro de Deus, não sacrificado no altar de Deus pelos seus sacerdotes, mas sacrificado numa Cruz secular pelos soldados Romanos. Durante quase dois mil anos, desde o tempo de Abraão e Isaac, Deus mandou o Povo escolhido sacrificar animais, quando na mesma altura, muitas outras religiões sacrificavam pessoas. Desde o tempo do Rei Salomão o Sábio,e durante mil anos executaram-se sacrifícios de animais no Templo. Mas estes eram sacrifícios por Deus. Já estava quase no tempo do sacrifício último, do sacrifício único, de Deus.
Na Cruz, neste instrumento de tortura e degradação, o Filho de Deus tinha de ser sacrificado. Foi por isso que se incarnou no seio da Virgem Maria. Foi por isso que ele andou pelos caminhos e estradas, ensinando e preparando os seus discípulos e o povo para um futuro novo; não para uma fé nova, mas uma fé com uma nova visão. Em vez de um Templo físico, e de um edifício no qual os sacerdotes fizessem os sacrifícios para o povo, agora era um Templo que seria o próprio Corpo de Cristo, deitado abaixo e levantado em três dias, sacrificado e ressuscitado em três dias. Em vez dum Templo físico, para o qual todos os fieis precisavam de viajar para fazer os seus sacrifícios, agora um Templo Espiritual, do qual todos faziam parte. Se o Corpo de Cristo é o novo Templo, todos nós somos como os tijolos, as pedras das paredes do Templo.
Mas, ao mesmo tempo que somos o Corpo de Cristo, somos também alimentados pelo próprio Corpo, sacrificado por nós. Na altura do Primeiro e do Segundo Templos de Jerusalém, quando um animal era sacrificado no altar, as melhores partes da carne eram distribuídas pelos Levitas, que eram os sacerdotes, dado que eram a única tribo entre os Judeus que podiam ser sacerdotes, mas que também não podiam ter outro trabalho: ganhavam o seu “pão da mesa” no trabalho do Senhor.
Com o último sacrifício vivo, de Jesus Cristo na Cruz, todos nós que somos “um povo santo de sacerdotes ao serviço do Reino, povo que pertence a Deus[10]”, somos como os Levitas do tempo do Templo velho: nem todos serviam ao altar, mas todos tinham a responsabilidade da preservação da Fé, e todos recebiam da alimentação do altar. O mesmo se passa connosco: alguns de nós são presbíteros de altar ou Bispos, mas todos temos a responsabilidade pela preservação e a propagação da Boa Nova, e todos nós podemos receber o Corpo, e agora o Sangue, do Sacrifício do Cordeiro de Deus. Nós recebemos o verdadeiro Corpo, o verdadeiro Sangue de Deus, de um Deus que nos amou de tal modo, que Ele próprio, sendo o Criador[11], entrou na sua própria Criação, e viveu como um de nós, e morreu por todos nós, e só para nos salvar.
É Ele que, em cada semana, nos convida ao seu próprio altar, para recebermos o seu Corpo e Sangue. Não é um ‘sacrifício novo’: Jesus morreu uma vez só, na Cruz. Mas também não é somente uma comemoração, uma lembrança: o sacrifício de Jesus na Cruz existiu num tempo particular, já há uns 2.000 anos atrás, mas também existe agora fora do tempo humano, no “chiros”, e o sacrifício uma vez feito é, pelo amor de Deus por nós, ‘novo’ de cada vez, em cada Culto Eucarístico. Comemos e bebemos, sabendo que é o verdadeiro Corpo e Sangue de Nosso Senhor. Alimentai-nos d’Ele, em nossos corações, e em todos os nossos corpos e mentes, com fé, e sabemos que precisamos de responder, em fé, e com acções de graças.
Mas como? Por este dom de amor tão grande, tão imenso, como é que podemos responder? Se o nosso Deus nos amou, e nos ama, de tal modo que morreu por nós e para a nossa salvação, de tal modo que é Ele próprio que dá o seu próprio Corpo e Sangue para nos alimentar, como é que nós podemos responder? Isto é uma pergunta muito importante, talvez a pergunta mais importante, e não só neste tempo de Quaresma.
Talvez a única resposta para o amor seja o ... amor: nós também precisamos de amar a Criação, e o povo criado à semelhança de Deus. Agora, nós não sacrificamos uma porção dos nossos bens no Altar do Templo, mas podemos sacrificar uma porção para o novo Templo: para o Corpo de Cristo. Nesta altura de crise, de desemprego e fome, de um mundo cheio de guerras e doenças, há tanto que podemos fazer... e tudo que fazemos, fazemos por Ele[12], que já fez tanto por nós.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
Endnotes:
[1] S. João 2, 16
[2] Levítico 7, 1-10. 15-20, 30-34; 9, 3-5 12, 6-8; 14, 10-21; 23, 12-21 etc.
[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Moeda_da_Roma_Antiga
[4] S. Lucas 19, 46
[5] Levítico 12, 3
[6] Levítico 12, 8
[7] 1 Reis 6, 1-38
[8] 2 Crónicas 36,19
[9] 1 Crónicas 28, 2
[10] 1 Pedro 2,9
[11] S. João 1, 1-5, 9-12, 14
[12] S. Mateus 25, 31-40

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