08 March 2009

Sermão para o Segundo Domingo da Quaresma, Ano B, 2009

2º Domingo da Quaresma, 08.03.09 [Ano B]
Igreja do Bom Pastor/ V.N. de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger



«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Ora, com os problemas da minha coluna, agora não ando muito. Não é que seja preguiçoso, bem, não é somente preguiça, mas não ando muito. Mas, na altura em que estive como capelão na tropa, tinha de participar numas caminhadas, numas marchas de grande distância no mato com os Fuzileiros. Sujo, fatigado, com roupa cheia de suor, com o pó nas nossas caras e até pó nos nossos dentes... e eu sei que existem pessoas que gostam de fazer longas marchas nas suas férias, mas não sei porque!
No século primeiro, as pessoas não tinham alternativa. Se queriam ir de um lado a outro, e se não tinham nem cavalo nem burro, tinham que andar. Deste modo, Nosso Senhor e os seus discípulos também viveram sempre sujos, com roupas cheias de suor e cobertas com pó, e cansados, porque todos os dias andavam entre as aldeias e vilas da Galileia e da Judeia. Não sei, mas talvez fosse com sentimentos opostos que Pedro, Tiago e João ouviram as palavras de Jesus, quando disse: “Vamos subir àquela montanha alta!”... e talvez os outros, que ficaram para trás, tivessem tido sentimentos contraditórios... com os três a pensar, “Jesus escolheu-me! Mas não quero escalar uma montanha!”, e os outros pensando: “Não preciso escalar aquela montanha, podemos descansar um pouco... mas Jesus não me escolheu.”
E Jesus tomou consigo os três discípulos, e conduziu-os a sós ao alto do monte. E lá em cima, o seu aspecto transformou-se diante deles, e em vez da roupa suja e cheia de pó, os seus vestidos tornaram-se resplandecentes: brilhantes e brancos como a neve! Nas palavras de São Marcos: “Ninguém no mundo seria capaz de a branquear assim!”.
E, nesse momento, apareceram-lhes Elias e Moisés! Estavam lá, à frente dos três discípulos! Elias, o maior dos profetas, que nunca morreu mas foi levado aos Céus numa carruagem de fogo, puxada por cavalos de fogo num turbilhão[1]; Elias, de quem o Profeta Malaquias disse, falando em nome de Deus: “Vou enviar-vos o profeta Elias antes que chegue o dia do Senhor, que será um dia grande e terrível. Ele fará com que os pais se reconciliem com os filhos e os filhos com os pais. Caso contrário, virei castigar e condenar à destruição.”[2]
E não era só Elias, mas também Moisés: Moisés, que libertou o povo de Israel da escravidão no Egipto, que lhes deu os Dez Mandamentos[3] e as outras seiscentas e quarenta e uma leis da Torah[4], e que também foi transformado:, quando Moisés, depois de falar com o Senhor, desceu do monte Sinai levando na mão as placas de pedra da lei, a pele do seu rosto estava tão resplandecente que precisava de colocar um véu sobre a cara quando falava com os israelitas[5].
Aqui, em frente dos três discípulos, eles eram os representantes vivos das duas coisas mais importantes da Bíblia Hebraica, os representantes vivos do Grande Mandamento. Lembram-se das palavras de Jesus, quando um dos fariseus lhe perguntou: “Mestre, qual é o mandamento mais importante da Lei?” Jesus respondeu-lhe: “Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a alma, e com todo o entendimento. Este é o primeiro e o mais importante dos mandamentos. O segundo, tão importante como ele, é, Ama o teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas.”[6]
E ali no monte, o representante da lei, Moisés, e o dos profetas, Elias, estavam juntos apenas para falar com o seu companheiro, seu Mestre, Jesus. Para um Judeu, este era um momento incrível... duas das pessoas mais importantes da história inteira, estavam ali com Jesus, com quem eles andavam e falavam e comiam todos dias! Mas este Jesus não tinha uma aparência normal: Ele estava reluzente, e em vez da sujeira e pó da caminhada, tinha roupas brancas e brilhantes como a neve!
Pedro e os outros estavam cheios de medo, mas ao mesmo tempo queriam agarrar-se ao momento. “Mestre,” disse Pedro, “é tão bom estarmos aqui! Vamos levantar três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias!” Mas Pedro não sabia o que estava a dizer. E desceu então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; dessa nuvem veio uma voz que disse : “Este é o meu Filho querido. Oiçam o que ele diz!”. E quando os discípulos olharam em redor, já não viram ninguém, apenas Jesus com eles.
Foram os três: Elias, Moisés e Jesus. O primeiro significou as profecias de Deus para os homens, e o segundo as leis de Deus. Mas a voz de Deus não disse: ‘oiçam as palavras dos profetas’, nem ‘obedeçam à lei’. Não: foi, e é: ‘Oiçam o que o meu Filho querido diz!”. Porque quando a nuvem desapareceu, desapareceram também Elias e Moisés, mas Jesus ficou.
Torna-se então importante, entender estas palavras, para se entender a razão pela qual este capítulo do Evangelho faz parte do Leccionário da nossa Igreja durante a Quaresma. E para tal, é preciso lembrar o que é que aconteceu uns dias antes da Transfiguração de Jesus.
Seis dias antes, Jesus e os seus discípulos estavam na região de Cesareia de Filipe, e pelo caminho Jesus perguntou-lhes: “Quem é que o povo diz que eu sou?”. E eles responderam: “Uns dizem que tu és João Baptista, outros Elias, e outras ainda, que és um dos profetas.” Jesus acrescentou: “E vocês, quem acham que eu sou?” E foi Pedro que respondeu: “Tu és o Messias!”.
Ora bem. O Messias pelo qual esperavam os Hebreus, e pelo qual muitos Judeus ainda esperam, não é o nosso Salvador. O “Ha’Mashiach” será um judeu, filho normal de um homem e de uma mulher, que ascenderá ao trono de Israel, conduzindo a Nação de Israel e o mundo numa era de paz e prosperidade universal, marcada pelo fim das guerras e da intolerância, durante a qual todos os povos coexistirão de forma pacífica[7]. O “mundo que há-de vir” que eles esperavam não era o Reino dos Céus, mas este próprio mundo, pacificado, e o Messias que eles esperavam não era o próprio Deus, mas somente um homem da família de David, um líder que podia vencer os Romanos.
Na transfiguração de Jesus no monte, os três discípulos não viram uma transformação de um homem num ‘grande guerreiro’. Eles viram a transformação de um homem em ‘Filho de Deus’”, resplandecente como o sol e com vestes brancas como a neve. E mais... foi um transformação teológica, também. Eles viram pela primeira vez um Messias que não era só homem, e que tinha dentro dele “toda a lei e os profetas”. Lá no monte, eles viram Jesus, e Elias, e Moisés; e então ouviram as palavras de Deus dizendo: “Este é o meu Filho querido. Oiçam o que ele diz!”. E Elias e Moisés desapareceram, ficando Jesus sózinho no seu lugar. Fazia já uma semana desde que Pedro e os discípulos tinham entendido pela primeira vez que Jesus era o Messias, e agora, eles tinham de aprender que o Messias era o Filho verdadeiro de Deus, e que era a Ele, e não somente à Lei e aos profetas, que eles precisavam de seguir.
Quando Deus deu a Lei a Moisés, tal foi muito difícil para os Israelitas, tal como teria sido muito difícil para nós. Desde o Pecado Original no Jardim do Éden[8], nós somos “quebrados”, nós somos todos pecadores. É como disse S. Paulo na sua Carta aos Romanos “Todos andam fora do caminho e todos se perdem,”[9]. E mais: “Todos pecaram e ficaram longe de Deus.”[10] Por isso, Deus mandou os seus profetas, Elias e Eliseu, Isaías e Jeremias, Amós e Miqueias e os outros, para ensinar o seu povo. Mas o povo não os ouviu; talvez não pudesse ouvi-los a dizer : “Oh Jerusalém, Jerusalém! Matas os profetas e apedrejas os mensageiros que Deus te envia!”[11]
E, por amor de nós, o Filho Unigénito de Deus, gerado do Pai desde toda a eternidade, desceu dos Céus e encarnou-se no seio da Virgem Maria... O Criador, entrou na sua própria Criação e fez-se homem, com todos os problemas e dores da humanidade, e morreu, horrivelmente, na Cruz, só para nós salvar.
Não precisava. Nós que pecamos e ficamos tão longe de Deus não o merecíamos. Isto não é justiça. É somente amor. Mas ouçam bem: «eu não quero justiça — quero amor».
Então, pelo amor de Deus, que é que podemos fazer, pelo amor­ de Deus?
A resposta está aqui, no monte da Transfiguração. Se tentamos seguir Moisés e a Lei, falhamos. Se tentamos seguir Elias e as profecias, falhamos. Andamos fora do caminho e perdemo-nos, porque somos pecadores. Temos, temos de seguir a Jesus, e o amor de Deus.
A única resposta que podemos dar em face do imenso amor do Senhor é... o nosso amor. Precisamos de amar o Senhor nosso Deus com todo o coração, com toda a alma, e com todo o entendimento. É o que Jesus nos exige, dado que só assim é que podemos mostrar o nosso amor ao Senhor[12], precisamos de amar os nossos próximos... e os nossos próximos são todos criados à semelhança de Deus, e a Criação inteira.
E neste tempo de Quaresma, é sobre isso que temos de pensar, de ponderar, de meditar. Mas ao mesmo tempo, não estou a falar de nada difícil. Se precisássemos de adivinhar, de conjecturar, o que Jesus queria de nós, tal seria mesmo assustador. Mas Jesus, mais uma vez no seu imenso amor, deu-nos uma receita, uma lista!
Primeiro, é preciso amar o Senhor. Como? Com todo o coração, toda a alma, e todo o entendimento.
E segundo, é preciso amar o nosso próximo. Como? [E, nestes tempos duros da crise económica, das guerras e catástrofes naturais, isto é tão importante!] Quando virmos o Senhor — ou qualquer dos seus irmãos mais pequeninos — com fome, dêmos-lhe de comer. Quando virmos o Senhor — ou qualquer um dos seus irmãos mais pequeninos — com sede, dêmos-lhe de beber. Quando virmos o Senhor, ou qualquer um dos seus irmãos mais pequeninos nu, dêmos-lhe vestidos. Quando virmos o Senhor, ou qualquer um dos seus irmãos mais pequeninos, com doenças, ou na cadeia, ou como um estrangeiro no nosso país, cuidemos dele[13].
Mas não façamos nada disto porque temos medo do inferno. Não amemos a Deus, nem cuidemos dos nossos próximos, só porque temos medo de ser castigados pelos nossos pecados. Só há uma razão, uma única razão, para ceder às exigências de Jesus Cristo, e não é o medo. É pelo amor. Quando ouvimos “Deus amou de tal modo o mundo...” nós precisamos de responder. Esta Quaresma é o tempo perfeito para lembrar, e de pensar, de ponderar, e de meditar na realidade de que só há uma resposta possível pelo amor de Deus por nós. E essa resposta é... amor.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

[1] 2 Reis 2,11
[2] Malaquias 3, 22-24
[3] Êxodo 20, 1-17
[4] Sobretudo o Código da Aliança de Êxodo 20, 22 à 23, 23, e as leis dos livros Levítico, Números e Deuteronómio
[5] Êxodo 34, 29-33
[6] S. Mateus 22, 37-40
[7] Isaías 11, 1-9
[8] Génesis 3, 6-24
[9] Romanos 3, 12
[10] Romanos 3, 23
[11] S. Lucas 13, 34
[12] Tiago 2, 14-26
[13] S. Mateus 25, 31-40

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