10 January 2011

4° Domingo do Advento, 21.12.08 [Ano B] A Coragem duma Virgem

4°Domingo do Advento, 21.12.08 [Ano B]
Igreja de Redentor/Porto
Cónego Doutor Francisco Carlos Zanger

Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.


"Eu te saúdo, ó escolhida de Deus! O Senhor está contigo." Ou, nas palavras talvez mais conhecidas, “Avé Maria, cheia de graça! O Senhor é contigo.”

Quando ouviu estas palavras, a jovem Virgem Maria ficou cheia de medo. Sabemos isto, porque logo a seguir as palavras do Anjo Gabriel foram: “Não tenhas medo, Maria.”

Os Anjos são assustadores; quando, na noite do Nascimento de Nosso Senhor, o anjo apareceu aos pastores que passavam a noite no campo guardando os rebanhos, a primeira coisa que o anjo lhes disse foi: “Não tenham medo!”. Agora, vimos anjos nas lojas e eles são giros, adoráveis, bebés dourados com asas... mas não é nada de “delico-doce” como um anjo verdadeiro; os anjos são os mensageiros de Deus. É por isso que eles dizem: “Não tenhas medo”— são medonhos.

E as palavras seguintes foram até piores: "Ficarás grávida e terás um filho, a quem vais pôr o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado de Filho do Deus Altíssimo."

À primeira vista, não compreendeu. Ela perguntou ao Anjo Gabriel (e isso também demonstrou a sua coragem, confrontando um anjo do Senhor!): “Como é que isso pode ser, se eu sou virgem?”. Mas o anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Deus altíssimo te cobrirá como uma nuvem. Por isso o que vai nascer é santo e será chamado Filho de Deus.” E o anjo disse a Maria que a sua parente, Isabel, que era casada com o sacerdote Zacarias, e era velha de mais para ter crianças, também estava grávida já no sexto mês, de um filho: filho este que seria São João Baptista: "É que para Deus não há nada impossível!”

Histórias e palavras tão familiares que quase nem lhes ligamos agora, mas que para uma miúda de doze ou treze anos, que estava desposada com um homem mais velho, um homem sério, um homem muito religioso numa cultura muita conservadora... estas eram palavras terríveis, palavras medonhas. Se ela tivesse tido medo quando viu o anjo, tal teria sido o fim do mundo.

Para compreender porque era tão difícil, precisamos de saber um pouco sobre a cultura israelita do Primeiro Século. Não se tratava só de os casamentos serem arranjados, mas também que o acordo de casamento era um contrato com força legal. O Império Romano não tinha interesse nenhum em assuntos como estes, desde que os Judeus pagassem os impostos, o “IVA Romano”, e continuassem como uma colónia pacífica, podiam continuar com as suas leis tradicionais, as leis Bíblicas.
A maioria das leis sobre os casamentos estavam escritas no vigésimo segundo capitulo do Deuteronómio. O contrato de casamento era entre o noivo e o pai da noiva, e menina não tinha voz nenhuma no assunto. No caso da Virgem Maria, seu pai, São Joaquim, assegurou que ela era uma virgem, pura e sem mácula, e assinou o contrato com São José. Como era normal, a jovem Maria continuaria na casa dos pais durante o ano de noivado.
Mas, na lei, se ela ‘quebrasse o contrato’, se depois do dia do casamento, o marido a acusasse de já não ser virgem na altura do casamento, a lei era simples. Se os pais da jovem não pudessem levar os sinais da virgindade aos anciãos da cidade, reunidos em tribunal, então, como estava escrito no Deuteronómio: "devem levá-la à porta da casa do seu pai e ali será apedrejada e morta pelos homens da sua cidade. É que ela cometeu no meio do povo de Israel a infâmia de se prostituir, desonrando a casa do seu pai. Dessa maneira, acabarás com este escândalo, no meio do teu povo." E, no caso de uma menina que já estava, pelo menos, no terceiro ou quarto mês da gravidez, o tribunal não estaria muito interessado nos sinais da sua virgindade.

E Maria sabia bem disso: ela era duma família religiosa, era bem educada. Ela era jovem, ainda entre menina e mulher, provavelmente já se tinha assustado antes do encontro com o anjo, assustado com o casamento, com a entrada no mundo dos adultos, mas ao mesmo tempo tudo era animado... todos os sentimentos, todas as esperanças que são naturais a uma noiva tão jovem. E agora, com as palavras do anjo, perdia tudo.

O que é que ela poderia dizer aos pais? Que está grávida, mas ainda é virgem? O que é que ela poderia dizer ao seu noivo, José? Ela bem sabia que, ao dizer “Sim” ao anjo, ninguém iria acreditar que fosse ainda virgem... e sabia que iria morrer, apedrejada como prostituta, em frente à porta da sua casa.

Mas... como é que ela podia disser que “não”? Ela era fiel, educada na Fé, e quando o anjo — um anjo de Deus(!) se aproximou... ela não podia dizer não, não ao seu Deus!

E não teve tempo para pensar. É impossível dizer a um anjo: “Posso pensar nisto por uns dias?”. Ela tinha de responder no momento e respondeu, não assustada mas com Fé : “Servirei o Senhor como ele quiser. Seja como tu dizes.”Ou, nas palavras mais tradicionais: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segunda a tua palavra.”

Falou assim, sabendo que talvez ninguém fosse acreditar nela, que o preço da sua obediência podia ser mais do que a vergonha, poderia ser a sua própria morte. Falou assim, esta jovem, por causa da sua fé. Falou assim, e, nas palavras do Anjo Gabriel, o Espírito Santo desceu sobre ela, e o poder de Deus altíssimo cobriu-a como uma nuvem.

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós!

Esta jovem, esta miúda virgem, tinha tanta coragem! É por isso que ela tem um lugar especial na nossa Fé tal como está escrito no quadragésimo segundo versículo deste mesmo Evangelho, a Santa Isabel, parente da Virgem Maria e já grávida de nove meses de João Baptista, disse: “Abençoada és tu entre todas as mulheres e abençoado é o fruto do teu ventre!" e a Virgem respondeu, no Cântico de Maria “Daqui em diante toda a gente me vai chamar ditosa, pois grandes coisas me fez o Deus Poderoso. Ele é Santo!.”

Quando Maria aceitou a vontade do Senhor e o Espírito Santo desceu sobre ela, Deus que criou o Universo, Incarnou-se. Jesus Cristo entrou na sua própria Criação nesse mesmo momento. Ele, que era verdadeiro Deus desde o princípio, fez-se verdadeiro homem, nove meses antes do primeiro Natal, no seio de Maria.

É por isso que a igreja primitiva a chamava de “Theotokos” — a “Mãe de Deus”, ou literalmente, “a Portadora de Deus”, assim insistindo que o Messias era totalmente humano e totalmente divino a partir do momento da concepção; por conseguinte, a criança que nasceu não era somente uma criança humana com a divindade habitando nela, mas era uma Pessoa com duas naturezas distintas, a divina e a humana — o Deus-Homem, o Encarnado. O Verbo se fez carne, e habitou entre nós... e só para nos salvar!

Quando o Anjo Gabriel foi mandado a Maria, ela tinha que fazer uma escolha terrível. Podia dizer que “sim”, com o risco não só de uma gravidez vergonhosa e escandalosa, mas sabendo que a lei ordenava que ela fosse apedrejada, morta em frente da casa de seu pai... ou podia dizer que “não”. E se dissesse “não”, ninguém iria saber! Ninguém, excepto o próprio Deus. E ela, esta menina tão jovem e tão assustada, respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segunda a tua palavra.”

Nós raramente somos solicitados por Deus para pôr em risco as nossas vidas... mas as exigências de Deus ainda podem parecer difíceis, porque as exigências de Deus são frequentemente muito diferentes das exigências da nossa cultura moderna. Talvez nunca iremos precisar de comparecer em frente dos anciãos da cidade, reunidos em tribunal, e sentenciando a morte... mas temos de comparecer em frente dos nossos colegas, dos nossos amigos... em frente do “Tribunal da Cultura Secular”. E as nossas vidas seriam muito mais fáceis, mais calmas, mais agradáveis, se pudéssemos dizer que somos inocentes.

Mas não podemos. Quando tivermos que comparecer em frente do “Tribunal da Cultura Secular” só poderemos confessar que somos culpados... porque cada um de nós precisa primeiro de dizer: “Eis aqui o servo do Senhor. Faça-se em mim segunda a Sua palavra.”


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

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