10 January 2011

3° Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]

3°Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]
Igreja de S. João Evangelista/VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco C. Zanger

«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Vivam sempre em alegria!” Vivam sempre em quê? Assim começou a nossa segunda leitura, da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses... com uma frase que até parece um contra senso. Estamos no Terceiro Domingo do Advento, esperando o retorno de Cristo e o Seu Juízo Final, e precisamos de viver ‘sempre em alegria’? Não seria muito mais fácil, e mais justo, viver no medo, no medo da condenação, e no medo de passar a eternidade no Inferno?


Esta é a contradição do Advento. Nós esperamos pelo Juiz do Mundo, por Aquele que conhece todos os nossos desejos e pensamentos, bons e maus, esperamos por Aquele que já disse que, cada vez que passamos por um mendigo com fome sem lhe dar comida, cada vez que sabemos de uma viúva idosa e sozinha e não a visitamos, ou que sabemos de um membro da Paróquia que está no hospital e não o visitamos, sabemos que este mendigo, ou esta viúva, ou este doente, “é um dos irmãos mais pequeninos” de Jesus, e no Juízo Final tudo isto será o mesmo que termos ignorado a própria pessoa de Jesus nessas ocasiões. E esperamos com esperança.

Esta é a contradição do Advento, podermos esperar sem medo por uma coisa tão medonha. É a contradição do Advento, e também a contradição da nossa Fé. Esperamos pelo Juízo Final, pelo julgamento de Deus, mas ao mesmo tempo sabemos que o tribunal não será “justo”, e sabemos que, se fosse um tribunal justo, e um Juiz justo, seriamos todos condenados.

Mas tal é a nossa Fé — a de que, no dia e na hora do Juízo Final, não será um julgamento de justiça, será um julgamento de amor. O nosso Juiz, Aquele que nos amou de tal modo que entrou na sua própria Criação, encarnou-se no seio da Virgem Maria e viveu como um de nós (quando podia ser rico, podia ser um rei, mas não, quis ser um homem normal, como um de nós mesmo), e morreu de um modo horrível e escandaloso, verdadeiro homem, mas ainda verdadeiro Deus ao mesmo tempo, e tudo isto só pelo seu amor a nós, e para a nossa salvação... é Ele que nos julgará! Não, este não vai ser um tribunal de justiça, graças a Deus. Será um tribunal de amor.

Mas, se será um julgamento de amor, também será um julgamento do nosso amor — e não só do nosso amor para todos os seres humanos criados por Deus, de todos nós que somos criados à Imagem de Deus, mas também do nosso amor pela Criação inteira. Nós somos os feitores da Criação, não somos os donos, mas os feitores, os “empregados” de Deus, desde que fomos criados. No primeiro capítulo do Génesis, Deus abençoou o ser humano, o primeiro homem e a mulher, desta maneira: «Sejam férteis e cresçam, encham a terra e dominem-na, dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» [v.26]

Mas este 'domínio’ não significa que nós somos os novos proprietários, os ‘donos do mundo’! No Salmo Cinquenta, Deus disse: «...pois todos os animais dos bosques me pertencem, bem como os que se encontram nos altos montes; pois conheço bem as aves das montanhas, e os répteis do campo estão à minha disposição. Se eu tivesse fome não precisava de to dizer, pois o mundo e tudo o que ele contém pertencem-me.» Não, donos não somos, somos somente os feitores do dono... e quando o dono voltar, devemos estar preparados.

Não me lembro já de quantas vezes Jesus falou através de parábolas, de comparações, sobre a importância do nosso papel enquanto feitores, quando o dono não está presente na casa. No décimo segundo capitulo do Evangelho de São Lucas, Jesus disse que: «Como poderá mostrar-se fiel e prudente o empregado a quem o Patrão deixou a tomar conta dos outros... Feliz seja seráaquele empregado a quem o patrão, quando vier, encontrar a proceder assim. Digo-vos que certamente o fará administrador de todos seus bens.» [12,42-43], mas no outro lado, no mesmo capítulo do Evangelho, o «empregado, que conhecia a vontade do patrão, mas não se preparou nem fez nada de acordo com o que ele queria, será bastante castigado»[12,47].

Temos parábolas semelhantes nos outros Evangelhos também, como a parábola do Rei e do Administrador que Não Soube Perdoar, no décimo oitavo capítulo de São Mateus, e a comparação dos Rendeiros Criminosos no décimo segundo capitulo de São Marcos, e também a história da Cura do Empregado do dum Oficial Romano no oitavo capítulo de São Mateus — o Centurião do Exército Romano que, quando Jesus queria ir a casa dele para curar o seu empregado, respondeu : «Isso não, Senhor! Não mereço que entres em minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu empregado ficará são. Também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência e os meus soldados a quem dou ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem.» O Centurião — ele que era pagão, que venerou o Mithras, o ‘deus’ dos soldados Romanos — ele entendeu! E Jesus ficou admirado, e respondeu:«Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé mesmo entre o povo de Israel. Digo-vos mais : hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no Reino do céus com Abraão, Isaac, e Jacob, enquanto os herdeiros do Reino serão lançados fora, na escuridão!”» [8,5-13]

Palavras difíceis, estas! Na altura em que Jesus disse estas palavras, nem as pessoas do Oriente, da China ou Japão, nem as pessoas do Ocidente, quer as tribos europeias quer as tribos dos Índios das Américas, conheciam o Deus de Abraão, Isaac, e Jacob . Eram todos pagãos de um tipo ou de outro. Os herdeiros do Reino, na altura, eram o povo Hebraico, e depois da Ressurreição, também os Cristãos gentílicos que foram convertidos por São Paulo e outros evangelistas da nova Fé... mas levou séculos para o Cristianismo entrar na Europa inteira, um milénio e meio para as Américas, e ainda há lugares na China, na África, e nalgumas das ilhas do Oceano Pacífico aonde o nome de Jesus é completamente desconhecido. Dois mil anos, e ainda não podemos dizer que concluímos a Grande Comissão, a de pregar a mensagem sobre o arrependimento e o perdão do pecados a todas as nações.

Bem, tínhamos só três tarefas para o julgamento final. A primeira : Amar o Senhor e os nossos próximos, e tratar os nossos próximos da mesma maneira como tratamos a Jesus, tal como Ele disse: “Saibam também que todas as vezes que deixaram de (ajudar) a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o deixaram de fazer”. Reprovamos !

Segunda: somos os feitores da Criação. Com a nossa historia de exploração do nosso planeta, com a desflorestação das grandes partes da Amazónia e da Rússia, com a extinção de tantos tipos de plantas e de animais, com a poluição dos rios e oceanos e o ar impuro, viciado, com o aquecimento global... a nossa solicitude para com a Criação não é muito visível! Reprovamos!

E terceira: a Grande Comissão — o mandamento de Jesus para levar a Boa Nova ao mundo inteiro. Dois mil anos mais tarde, num mundo com aviões, com rádio, televisão e a internet, quando podemos gastar milhões, não, biliões de Euros quer para guerras quer para os Jogos Olímpicos, há quantos mongólicos, ou Papuanos, ou Birmaneses, ou indígenas na Amazónia, que nunca ouviram sequer falar no nome “Jesus”? Reprovamos! Três mandamentos. e três Reprovações. !

E as primeiras palavras de São Paulo que ouvimos hoje, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses, são “Vivam sempre em alegria!” ? Preparamo-nos para o Juízo Final, sabendo bem que não temos resposta nenhuma para o Juiz... e necessitamos de viver sempre em alegria?

Sim! Claro que sim, porque tudo isto não tem nada haver com justiça, mas só com amor. Precisamos sempre de continuar, de tentar melhorarmo-nos, de ser Cristãos verdadeiros, e não só de nome... porque quando Jesus Cristo morreu na Cruz, Ele tirou-nos o peso terrível dos nossos pecados. É um amor incompreensível. "Vivam sempre em alegria e oração, e dêem graças a Deus por tudo. Esta é a vida que Deus quer de vocês, em união com Cristo Jesus... Que o Deus da paz vos torne totalmente perfeitos, e vos guarde dignos e irrepreensíveis de corpo e alma, até à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que vos escolheu é fiel e realizará o que prometeu." E por isto, damos graças a Deus!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

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