4°Domingo do Advento, 21.12.08 [Ano B]
Igreja de Redentor/Porto
Cónego Doutor Francisco Carlos Zanger
Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
"Eu te saúdo, ó escolhida de Deus! O Senhor está contigo." Ou, nas palavras talvez mais conhecidas, “Avé Maria, cheia de graça! O Senhor é contigo.”
Quando ouviu estas palavras, a jovem Virgem Maria ficou cheia de medo. Sabemos isto, porque logo a seguir as palavras do Anjo Gabriel foram: “Não tenhas medo, Maria.”
Os Anjos são assustadores; quando, na noite do Nascimento de Nosso Senhor, o anjo apareceu aos pastores que passavam a noite no campo guardando os rebanhos, a primeira coisa que o anjo lhes disse foi: “Não tenham medo!”. Agora, vimos anjos nas lojas e eles são giros, adoráveis, bebés dourados com asas... mas não é nada de “delico-doce” como um anjo verdadeiro; os anjos são os mensageiros de Deus. É por isso que eles dizem: “Não tenhas medo”— são medonhos.
E as palavras seguintes foram até piores: "Ficarás grávida e terás um filho, a quem vais pôr o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado de Filho do Deus Altíssimo."
À primeira vista, não compreendeu. Ela perguntou ao Anjo Gabriel (e isso também demonstrou a sua coragem, confrontando um anjo do Senhor!): “Como é que isso pode ser, se eu sou virgem?”. Mas o anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Deus altíssimo te cobrirá como uma nuvem. Por isso o que vai nascer é santo e será chamado Filho de Deus.” E o anjo disse a Maria que a sua parente, Isabel, que era casada com o sacerdote Zacarias, e era velha de mais para ter crianças, também estava grávida já no sexto mês, de um filho: filho este que seria São João Baptista: "É que para Deus não há nada impossível!”
Histórias e palavras tão familiares que quase nem lhes ligamos agora, mas que para uma miúda de doze ou treze anos, que estava desposada com um homem mais velho, um homem sério, um homem muito religioso numa cultura muita conservadora... estas eram palavras terríveis, palavras medonhas. Se ela tivesse tido medo quando viu o anjo, tal teria sido o fim do mundo.
Para compreender porque era tão difícil, precisamos de saber um pouco sobre a cultura israelita do Primeiro Século. Não se tratava só de os casamentos serem arranjados, mas também que o acordo de casamento era um contrato com força legal. O Império Romano não tinha interesse nenhum em assuntos como estes, desde que os Judeus pagassem os impostos, o “IVA Romano”, e continuassem como uma colónia pacífica, podiam continuar com as suas leis tradicionais, as leis Bíblicas.
A maioria das leis sobre os casamentos estavam escritas no vigésimo segundo capitulo do Deuteronómio. O contrato de casamento era entre o noivo e o pai da noiva, e menina não tinha voz nenhuma no assunto. No caso da Virgem Maria, seu pai, São Joaquim, assegurou que ela era uma virgem, pura e sem mácula, e assinou o contrato com São José. Como era normal, a jovem Maria continuaria na casa dos pais durante o ano de noivado.
Mas, na lei, se ela ‘quebrasse o contrato’, se depois do dia do casamento, o marido a acusasse de já não ser virgem na altura do casamento, a lei era simples. Se os pais da jovem não pudessem levar os sinais da virgindade aos anciãos da cidade, reunidos em tribunal, então, como estava escrito no Deuteronómio: "devem levá-la à porta da casa do seu pai e ali será apedrejada e morta pelos homens da sua cidade. É que ela cometeu no meio do povo de Israel a infâmia de se prostituir, desonrando a casa do seu pai. Dessa maneira, acabarás com este escândalo, no meio do teu povo." E, no caso de uma menina que já estava, pelo menos, no terceiro ou quarto mês da gravidez, o tribunal não estaria muito interessado nos sinais da sua virgindade.
E Maria sabia bem disso: ela era duma família religiosa, era bem educada. Ela era jovem, ainda entre menina e mulher, provavelmente já se tinha assustado antes do encontro com o anjo, assustado com o casamento, com a entrada no mundo dos adultos, mas ao mesmo tempo tudo era animado... todos os sentimentos, todas as esperanças que são naturais a uma noiva tão jovem. E agora, com as palavras do anjo, perdia tudo.
O que é que ela poderia dizer aos pais? Que está grávida, mas ainda é virgem? O que é que ela poderia dizer ao seu noivo, José? Ela bem sabia que, ao dizer “Sim” ao anjo, ninguém iria acreditar que fosse ainda virgem... e sabia que iria morrer, apedrejada como prostituta, em frente à porta da sua casa.
Mas... como é que ela podia disser que “não”? Ela era fiel, educada na Fé, e quando o anjo — um anjo de Deus(!) se aproximou... ela não podia dizer não, não ao seu Deus!
E não teve tempo para pensar. É impossível dizer a um anjo: “Posso pensar nisto por uns dias?”. Ela tinha de responder no momento e respondeu, não assustada mas com Fé : “Servirei o Senhor como ele quiser. Seja como tu dizes.”Ou, nas palavras mais tradicionais: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segunda a tua palavra.”
Falou assim, sabendo que talvez ninguém fosse acreditar nela, que o preço da sua obediência podia ser mais do que a vergonha, poderia ser a sua própria morte. Falou assim, esta jovem, por causa da sua fé. Falou assim, e, nas palavras do Anjo Gabriel, o Espírito Santo desceu sobre ela, e o poder de Deus altíssimo cobriu-a como uma nuvem.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós!
Esta jovem, esta miúda virgem, tinha tanta coragem! É por isso que ela tem um lugar especial na nossa Fé tal como está escrito no quadragésimo segundo versículo deste mesmo Evangelho, a Santa Isabel, parente da Virgem Maria e já grávida de nove meses de João Baptista, disse: “Abençoada és tu entre todas as mulheres e abençoado é o fruto do teu ventre!" e a Virgem respondeu, no Cântico de Maria “Daqui em diante toda a gente me vai chamar ditosa, pois grandes coisas me fez o Deus Poderoso. Ele é Santo!.”
Quando Maria aceitou a vontade do Senhor e o Espírito Santo desceu sobre ela, Deus que criou o Universo, Incarnou-se. Jesus Cristo entrou na sua própria Criação nesse mesmo momento. Ele, que era verdadeiro Deus desde o princípio, fez-se verdadeiro homem, nove meses antes do primeiro Natal, no seio de Maria.
É por isso que a igreja primitiva a chamava de “Theotokos” — a “Mãe de Deus”, ou literalmente, “a Portadora de Deus”, assim insistindo que o Messias era totalmente humano e totalmente divino a partir do momento da concepção; por conseguinte, a criança que nasceu não era somente uma criança humana com a divindade habitando nela, mas era uma Pessoa com duas naturezas distintas, a divina e a humana — o Deus-Homem, o Encarnado. O Verbo se fez carne, e habitou entre nós... e só para nos salvar!
Quando o Anjo Gabriel foi mandado a Maria, ela tinha que fazer uma escolha terrível. Podia dizer que “sim”, com o risco não só de uma gravidez vergonhosa e escandalosa, mas sabendo que a lei ordenava que ela fosse apedrejada, morta em frente da casa de seu pai... ou podia dizer que “não”. E se dissesse “não”, ninguém iria saber! Ninguém, excepto o próprio Deus. E ela, esta menina tão jovem e tão assustada, respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segunda a tua palavra.”
Nós raramente somos solicitados por Deus para pôr em risco as nossas vidas... mas as exigências de Deus ainda podem parecer difíceis, porque as exigências de Deus são frequentemente muito diferentes das exigências da nossa cultura moderna. Talvez nunca iremos precisar de comparecer em frente dos anciãos da cidade, reunidos em tribunal, e sentenciando a morte... mas temos de comparecer em frente dos nossos colegas, dos nossos amigos... em frente do “Tribunal da Cultura Secular”. E as nossas vidas seriam muito mais fáceis, mais calmas, mais agradáveis, se pudéssemos dizer que somos inocentes.
Mas não podemos. Quando tivermos que comparecer em frente do “Tribunal da Cultura Secular” só poderemos confessar que somos culpados... porque cada um de nós precisa primeiro de dizer: “Eis aqui o servo do Senhor. Faça-se em mim segunda a Sua palavra.”
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
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10 January 2011
3° Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]
3°Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]
Igreja de S. João Evangelista/VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco C. Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
“Vivam sempre em alegria!” Vivam sempre em quê? Assim começou a nossa segunda leitura, da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses... com uma frase que até parece um contra senso. Estamos no Terceiro Domingo do Advento, esperando o retorno de Cristo e o Seu Juízo Final, e precisamos de viver ‘sempre em alegria’? Não seria muito mais fácil, e mais justo, viver no medo, no medo da condenação, e no medo de passar a eternidade no Inferno?
Esta é a contradição do Advento. Nós esperamos pelo Juiz do Mundo, por Aquele que conhece todos os nossos desejos e pensamentos, bons e maus, esperamos por Aquele que já disse que, cada vez que passamos por um mendigo com fome sem lhe dar comida, cada vez que sabemos de uma viúva idosa e sozinha e não a visitamos, ou que sabemos de um membro da Paróquia que está no hospital e não o visitamos, sabemos que este mendigo, ou esta viúva, ou este doente, “é um dos irmãos mais pequeninos” de Jesus, e no Juízo Final tudo isto será o mesmo que termos ignorado a própria pessoa de Jesus nessas ocasiões. E esperamos com esperança.
Esta é a contradição do Advento, podermos esperar sem medo por uma coisa tão medonha. É a contradição do Advento, e também a contradição da nossa Fé. Esperamos pelo Juízo Final, pelo julgamento de Deus, mas ao mesmo tempo sabemos que o tribunal não será “justo”, e sabemos que, se fosse um tribunal justo, e um Juiz justo, seriamos todos condenados.
Mas tal é a nossa Fé — a de que, no dia e na hora do Juízo Final, não será um julgamento de justiça, será um julgamento de amor. O nosso Juiz, Aquele que nos amou de tal modo que entrou na sua própria Criação, encarnou-se no seio da Virgem Maria e viveu como um de nós (quando podia ser rico, podia ser um rei, mas não, quis ser um homem normal, como um de nós mesmo), e morreu de um modo horrível e escandaloso, verdadeiro homem, mas ainda verdadeiro Deus ao mesmo tempo, e tudo isto só pelo seu amor a nós, e para a nossa salvação... é Ele que nos julgará! Não, este não vai ser um tribunal de justiça, graças a Deus. Será um tribunal de amor.
Mas, se será um julgamento de amor, também será um julgamento do nosso amor — e não só do nosso amor para todos os seres humanos criados por Deus, de todos nós que somos criados à Imagem de Deus, mas também do nosso amor pela Criação inteira. Nós somos os feitores da Criação, não somos os donos, mas os feitores, os “empregados” de Deus, desde que fomos criados. No primeiro capítulo do Génesis, Deus abençoou o ser humano, o primeiro homem e a mulher, desta maneira: «Sejam férteis e cresçam, encham a terra e dominem-na, dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» [v.26]
Mas este 'domínio’ não significa que nós somos os novos proprietários, os ‘donos do mundo’! No Salmo Cinquenta, Deus disse: «...pois todos os animais dos bosques me pertencem, bem como os que se encontram nos altos montes; pois conheço bem as aves das montanhas, e os répteis do campo estão à minha disposição. Se eu tivesse fome não precisava de to dizer, pois o mundo e tudo o que ele contém pertencem-me.» Não, donos não somos, somos somente os feitores do dono... e quando o dono voltar, devemos estar preparados.
Não me lembro já de quantas vezes Jesus falou através de parábolas, de comparações, sobre a importância do nosso papel enquanto feitores, quando o dono não está presente na casa. No décimo segundo capitulo do Evangelho de São Lucas, Jesus disse que: «Como poderá mostrar-se fiel e prudente o empregado a quem o Patrão deixou a tomar conta dos outros... Feliz seja seráaquele empregado a quem o patrão, quando vier, encontrar a proceder assim. Digo-vos que certamente o fará administrador de todos seus bens.» [12,42-43], mas no outro lado, no mesmo capítulo do Evangelho, o «empregado, que conhecia a vontade do patrão, mas não se preparou nem fez nada de acordo com o que ele queria, será bastante castigado»[12,47].
Temos parábolas semelhantes nos outros Evangelhos também, como a parábola do Rei e do Administrador que Não Soube Perdoar, no décimo oitavo capítulo de São Mateus, e a comparação dos Rendeiros Criminosos no décimo segundo capitulo de São Marcos, e também a história da Cura do Empregado do dum Oficial Romano no oitavo capítulo de São Mateus — o Centurião do Exército Romano que, quando Jesus queria ir a casa dele para curar o seu empregado, respondeu : «Isso não, Senhor! Não mereço que entres em minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu empregado ficará são. Também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência e os meus soldados a quem dou ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem.» O Centurião — ele que era pagão, que venerou o Mithras, o ‘deus’ dos soldados Romanos — ele entendeu! E Jesus ficou admirado, e respondeu:«Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé mesmo entre o povo de Israel. Digo-vos mais : hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no Reino do céus com Abraão, Isaac, e Jacob, enquanto os herdeiros do Reino serão lançados fora, na escuridão!”» [8,5-13]
Palavras difíceis, estas! Na altura em que Jesus disse estas palavras, nem as pessoas do Oriente, da China ou Japão, nem as pessoas do Ocidente, quer as tribos europeias quer as tribos dos Índios das Américas, conheciam o Deus de Abraão, Isaac, e Jacob . Eram todos pagãos de um tipo ou de outro. Os herdeiros do Reino, na altura, eram o povo Hebraico, e depois da Ressurreição, também os Cristãos gentílicos que foram convertidos por São Paulo e outros evangelistas da nova Fé... mas levou séculos para o Cristianismo entrar na Europa inteira, um milénio e meio para as Américas, e ainda há lugares na China, na África, e nalgumas das ilhas do Oceano Pacífico aonde o nome de Jesus é completamente desconhecido. Dois mil anos, e ainda não podemos dizer que concluímos a Grande Comissão, a de pregar a mensagem sobre o arrependimento e o perdão do pecados a todas as nações.
Bem, tínhamos só três tarefas para o julgamento final. A primeira : Amar o Senhor e os nossos próximos, e tratar os nossos próximos da mesma maneira como tratamos a Jesus, tal como Ele disse: “Saibam também que todas as vezes que deixaram de (ajudar) a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o deixaram de fazer”. Reprovamos !
Segunda: somos os feitores da Criação. Com a nossa historia de exploração do nosso planeta, com a desflorestação das grandes partes da Amazónia e da Rússia, com a extinção de tantos tipos de plantas e de animais, com a poluição dos rios e oceanos e o ar impuro, viciado, com o aquecimento global... a nossa solicitude para com a Criação não é muito visível! Reprovamos!
E terceira: a Grande Comissão — o mandamento de Jesus para levar a Boa Nova ao mundo inteiro. Dois mil anos mais tarde, num mundo com aviões, com rádio, televisão e a internet, quando podemos gastar milhões, não, biliões de Euros quer para guerras quer para os Jogos Olímpicos, há quantos mongólicos, ou Papuanos, ou Birmaneses, ou indígenas na Amazónia, que nunca ouviram sequer falar no nome “Jesus”? Reprovamos! Três mandamentos. e três Reprovações. !
E as primeiras palavras de São Paulo que ouvimos hoje, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses, são “Vivam sempre em alegria!” ? Preparamo-nos para o Juízo Final, sabendo bem que não temos resposta nenhuma para o Juiz... e necessitamos de viver sempre em alegria?
Sim! Claro que sim, porque tudo isto não tem nada haver com justiça, mas só com amor. Precisamos sempre de continuar, de tentar melhorarmo-nos, de ser Cristãos verdadeiros, e não só de nome... porque quando Jesus Cristo morreu na Cruz, Ele tirou-nos o peso terrível dos nossos pecados. É um amor incompreensível. "Vivam sempre em alegria e oração, e dêem graças a Deus por tudo. Esta é a vida que Deus quer de vocês, em união com Cristo Jesus... Que o Deus da paz vos torne totalmente perfeitos, e vos guarde dignos e irrepreensíveis de corpo e alma, até à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que vos escolheu é fiel e realizará o que prometeu." E por isto, damos graças a Deus!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
Igreja de S. João Evangelista/VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco C. Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
“Vivam sempre em alegria!” Vivam sempre em quê? Assim começou a nossa segunda leitura, da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses... com uma frase que até parece um contra senso. Estamos no Terceiro Domingo do Advento, esperando o retorno de Cristo e o Seu Juízo Final, e precisamos de viver ‘sempre em alegria’? Não seria muito mais fácil, e mais justo, viver no medo, no medo da condenação, e no medo de passar a eternidade no Inferno?
Esta é a contradição do Advento. Nós esperamos pelo Juiz do Mundo, por Aquele que conhece todos os nossos desejos e pensamentos, bons e maus, esperamos por Aquele que já disse que, cada vez que passamos por um mendigo com fome sem lhe dar comida, cada vez que sabemos de uma viúva idosa e sozinha e não a visitamos, ou que sabemos de um membro da Paróquia que está no hospital e não o visitamos, sabemos que este mendigo, ou esta viúva, ou este doente, “é um dos irmãos mais pequeninos” de Jesus, e no Juízo Final tudo isto será o mesmo que termos ignorado a própria pessoa de Jesus nessas ocasiões. E esperamos com esperança.
Esta é a contradição do Advento, podermos esperar sem medo por uma coisa tão medonha. É a contradição do Advento, e também a contradição da nossa Fé. Esperamos pelo Juízo Final, pelo julgamento de Deus, mas ao mesmo tempo sabemos que o tribunal não será “justo”, e sabemos que, se fosse um tribunal justo, e um Juiz justo, seriamos todos condenados.
Mas tal é a nossa Fé — a de que, no dia e na hora do Juízo Final, não será um julgamento de justiça, será um julgamento de amor. O nosso Juiz, Aquele que nos amou de tal modo que entrou na sua própria Criação, encarnou-se no seio da Virgem Maria e viveu como um de nós (quando podia ser rico, podia ser um rei, mas não, quis ser um homem normal, como um de nós mesmo), e morreu de um modo horrível e escandaloso, verdadeiro homem, mas ainda verdadeiro Deus ao mesmo tempo, e tudo isto só pelo seu amor a nós, e para a nossa salvação... é Ele que nos julgará! Não, este não vai ser um tribunal de justiça, graças a Deus. Será um tribunal de amor.
Mas, se será um julgamento de amor, também será um julgamento do nosso amor — e não só do nosso amor para todos os seres humanos criados por Deus, de todos nós que somos criados à Imagem de Deus, mas também do nosso amor pela Criação inteira. Nós somos os feitores da Criação, não somos os donos, mas os feitores, os “empregados” de Deus, desde que fomos criados. No primeiro capítulo do Génesis, Deus abençoou o ser humano, o primeiro homem e a mulher, desta maneira: «Sejam férteis e cresçam, encham a terra e dominem-na, dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» [v.26]
Mas este 'domínio’ não significa que nós somos os novos proprietários, os ‘donos do mundo’! No Salmo Cinquenta, Deus disse: «...pois todos os animais dos bosques me pertencem, bem como os que se encontram nos altos montes; pois conheço bem as aves das montanhas, e os répteis do campo estão à minha disposição. Se eu tivesse fome não precisava de to dizer, pois o mundo e tudo o que ele contém pertencem-me.» Não, donos não somos, somos somente os feitores do dono... e quando o dono voltar, devemos estar preparados.
Não me lembro já de quantas vezes Jesus falou através de parábolas, de comparações, sobre a importância do nosso papel enquanto feitores, quando o dono não está presente na casa. No décimo segundo capitulo do Evangelho de São Lucas, Jesus disse que: «Como poderá mostrar-se fiel e prudente o empregado a quem o Patrão deixou a tomar conta dos outros... Feliz seja seráaquele empregado a quem o patrão, quando vier, encontrar a proceder assim. Digo-vos que certamente o fará administrador de todos seus bens.» [12,42-43], mas no outro lado, no mesmo capítulo do Evangelho, o «empregado, que conhecia a vontade do patrão, mas não se preparou nem fez nada de acordo com o que ele queria, será bastante castigado»[12,47].
Temos parábolas semelhantes nos outros Evangelhos também, como a parábola do Rei e do Administrador que Não Soube Perdoar, no décimo oitavo capítulo de São Mateus, e a comparação dos Rendeiros Criminosos no décimo segundo capitulo de São Marcos, e também a história da Cura do Empregado do dum Oficial Romano no oitavo capítulo de São Mateus — o Centurião do Exército Romano que, quando Jesus queria ir a casa dele para curar o seu empregado, respondeu : «Isso não, Senhor! Não mereço que entres em minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu empregado ficará são. Também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência e os meus soldados a quem dou ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem.» O Centurião — ele que era pagão, que venerou o Mithras, o ‘deus’ dos soldados Romanos — ele entendeu! E Jesus ficou admirado, e respondeu:«Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé mesmo entre o povo de Israel. Digo-vos mais : hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no Reino do céus com Abraão, Isaac, e Jacob, enquanto os herdeiros do Reino serão lançados fora, na escuridão!”» [8,5-13]
Palavras difíceis, estas! Na altura em que Jesus disse estas palavras, nem as pessoas do Oriente, da China ou Japão, nem as pessoas do Ocidente, quer as tribos europeias quer as tribos dos Índios das Américas, conheciam o Deus de Abraão, Isaac, e Jacob . Eram todos pagãos de um tipo ou de outro. Os herdeiros do Reino, na altura, eram o povo Hebraico, e depois da Ressurreição, também os Cristãos gentílicos que foram convertidos por São Paulo e outros evangelistas da nova Fé... mas levou séculos para o Cristianismo entrar na Europa inteira, um milénio e meio para as Américas, e ainda há lugares na China, na África, e nalgumas das ilhas do Oceano Pacífico aonde o nome de Jesus é completamente desconhecido. Dois mil anos, e ainda não podemos dizer que concluímos a Grande Comissão, a de pregar a mensagem sobre o arrependimento e o perdão do pecados a todas as nações.
Bem, tínhamos só três tarefas para o julgamento final. A primeira : Amar o Senhor e os nossos próximos, e tratar os nossos próximos da mesma maneira como tratamos a Jesus, tal como Ele disse: “Saibam também que todas as vezes que deixaram de (ajudar) a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o deixaram de fazer”. Reprovamos !
Segunda: somos os feitores da Criação. Com a nossa historia de exploração do nosso planeta, com a desflorestação das grandes partes da Amazónia e da Rússia, com a extinção de tantos tipos de plantas e de animais, com a poluição dos rios e oceanos e o ar impuro, viciado, com o aquecimento global... a nossa solicitude para com a Criação não é muito visível! Reprovamos!
E terceira: a Grande Comissão — o mandamento de Jesus para levar a Boa Nova ao mundo inteiro. Dois mil anos mais tarde, num mundo com aviões, com rádio, televisão e a internet, quando podemos gastar milhões, não, biliões de Euros quer para guerras quer para os Jogos Olímpicos, há quantos mongólicos, ou Papuanos, ou Birmaneses, ou indígenas na Amazónia, que nunca ouviram sequer falar no nome “Jesus”? Reprovamos! Três mandamentos. e três Reprovações. !
E as primeiras palavras de São Paulo que ouvimos hoje, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses, são “Vivam sempre em alegria!” ? Preparamo-nos para o Juízo Final, sabendo bem que não temos resposta nenhuma para o Juiz... e necessitamos de viver sempre em alegria?
Sim! Claro que sim, porque tudo isto não tem nada haver com justiça, mas só com amor. Precisamos sempre de continuar, de tentar melhorarmo-nos, de ser Cristãos verdadeiros, e não só de nome... porque quando Jesus Cristo morreu na Cruz, Ele tirou-nos o peso terrível dos nossos pecados. É um amor incompreensível. "Vivam sempre em alegria e oração, e dêem graças a Deus por tudo. Esta é a vida que Deus quer de vocês, em união com Cristo Jesus... Que o Deus da paz vos torne totalmente perfeitos, e vos guarde dignos e irrepreensíveis de corpo e alma, até à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que vos escolheu é fiel e realizará o que prometeu." E por isto, damos graças a Deus!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
2° Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]
2º Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]
Igreja do Bom Pastor/VN de Gaia
Cónego Doutor Francisco Carlos Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
Hoje é o Segundo Domingo do Advento, e o Advento é principalmente um tempo de preparação. Para o mundo secular, é um tempo de preparação para as férias, talvez o tempo para comprar uma árvore de Natal, fazer uma festa para a família e de esconder os presentes do “Pai Natal” para as crianças.
Para nós, é diferente. Preparamo-nos para o Natal, claro... mas é muito mais importante que nos preparemos para acolher Jesus, não só como o bebé no presépio, mas como o nosso Juiz e deste modo preparamo-nos para o Juízo Final. Advento é tempo de lembrar a advertência do Evangelho do Domingo passado: “Estejam, portanto, vigilantes, porque não se sabe quando voltará”.
Estejam vigilantes — estejam preparados. O tema mais importante do Advento é este mesmo : preparação. Até podemos dizer que este é um dos temas mais importantes da nossa Fé Cristã; a preparação.
É por isso que o Evangelho de São Marcos, que é ‘a Boa Nova a respeito de Jesus Cristo, Filho de Deus’, não começa com Jesus, mas com um dos profetas maiores do Antigo Testamento, Isaías, e também com um do Novo Testamento, que é São João Baptista. Mas as nossas Bíblias ensinam que a preparação para a Incarnação e o Nascimento de Jesus, e também para o Juízo Final, começou bem antes do Novo Testamento — começou desde a Criação do Universo.
Como está escrito no Evangelho de São João : «No princípio de tudo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus, e ele mesmo era Deus. Desde sempre ele esteve com Deus.» Não podemos falar dum tempo ‘antes da Criação’ — o ‘tempo’ mesmo é uma parte da Criação.
Em Grego, a língua original do Novo Testamento, há duas palavras diferentes para traduzir a nossa palavra “tempo” e que são : — chronos e kairos. Chronos é o nosso tempo, o tempo linear — o hoje vem antes do amanhã, eu nasci depois dos meus pais mas antes dos meus netos... é o “tempo normal”, do passado, do presente, e do futuro. O chronos, o nosso tempo, é somente uma parte da Criação, a parte que começou ‘no princípio, quando Deus criou o céu e a terra”, no primeiro dia, e nas primeiras palavras do Livro do Génesis.
Kairos é completamente diferente. Kairos é o “tempo de Deus”, e para Deus, todos os nossos tempos são iguais. Ele pode ver o passado e o futuro ao mesmo tempo, porque Deus existe fora do tempo humano.
É por isso que o nascimento de Jesus é tão incrível — Deus, em Cristo Jesus, não só entrou na Sua própria Criação, como entrou no chronos também — entrou no tempo ‘humano’, como bebé, e viveu, e morreu, como um de nós. Nós falamos do sacrifício na Cruz, e foi um sacrifício horrível... mas Deus primeiro sacrificou o Seu próprio lugar fora do tempo humano, no kairos, para a ignorância, a dor e o medo do chronos. Só assim é que Ele pôde exclamar, no fim da vida, «Eloí, Eloí, lema sabactáni?» --"Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”
Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Trindade, entrou na sua própria Criação como um de nós, deixando a sua omnisciência, até deixando ao lado, nesse momento terrível na Cruz, a sua sabedoria de amor do Pai... só para nos salvar??? Como é que podemos entender um sacrifício como este? Como é que podemos responder?
Não podemos entender. Precisamos de responder.
Desde a Criação, a nossa resposta ao amor de Deus foi terrível, pecaminosa. E a culpa é só nossa dado que Deus mandou centenas de profetas para nos ensinar. Deus, vivendo no kairos, fora do ‘tempo humano’, soube bem que as mensagens dos profetas seriam ignoradas e passariam despercebidas, mas ao mesmo tempo, deu-nos o livre arbítrio, deu-nos a oportunidade de escolher, quer o bem quer o mal. E, vezes sem conta, escolhíamos o mal. Ignorávamos os profetas que tinham sorte, e matámos o resto... incluindo o último, São João Baptista. Este, embora tenha acabado a sua missão profética com a cabeça num prato, conseguiu primeiro completar a sua missão — preparou o caminho do Senhor!
O caminho foi bem preparado — esta é umas das mensagens do Advento : que Deus, vivendo e mudando em kairos, preparou tudo o que era preciso bem antes do primeiro Natal em Belém. Não foram somente as mensagens dos profetas, as profecias sobre o Salvador de Isaías e Jeremias e nos Salmos do Rei David, mas também as coisas mais concretas, mais pragmáticas.
Deus primeiro mandou o Anjo Gabriel ao sacerdote idoso, Zacarias, para lhe dizer: “Deus ouviu as tuas orações : Isabel, tua mulher, (também idosa) vai dar-te um filho e tu vais pôr-lhe o nome de João”, e alguns meses mais tarde, mandou o mesmo anjo à Virgem Maria, parente de Isabel, para a Anunciação : “Eu te saúdo, ó escolhida de Deus. O Senhor está contigo! Não tenhas medo, pois foste abençoada por Deus. Ficarás grávida e terás um Filho, a quem vais pôr o nome de Jesus.” E Santa Maria disse, “Servirei o Senhor como Ele quiser. Seja como tu dizes.”
Deus tinha de mandar o anjo pela terceira vez, a São José, quando ele ouviu que Santa Maria já estava grávida — o anjo apareceu num sonho e disse-lhe: “José, filho de David, não tenhas medo de casar com Maria, pois o que nela está gerado é do Espírito Santo; e dará à luz um filho, e chamarás o seu nome Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados!”.
São João nasceu antes de Jesus, porque tinha de preparar o caminho para o seu primo, nosso Salvador. São João, o último profeta da velha Aliança, o primeiro profeta da nova, proclamou a Boa Nova : “Arrependam-se do mal, recebam o baptismo, e Deus vos perdoará os pecados”. João sabia bem que não era o Messias, o Cristo –– foi ele que disse: “Eu baptizo-vos com água, para se arrependerem do mal. Mas o que vem depois de mim tem mais autoridade do que eu : nem sequer mereço a honra de lhe levar as sandálias!. Ele há-de baptizar-vos com o Espírito Santo e com fogo”.
Então, tudo isto foi a preparação do caminho para Jesus, preparação esta, que começou na Criação, como está escrito no Evangelho de São João, quando diz: “Nele estava a vida, e essa vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram”. A preparação do caminho do Senhor continuou com as palavras dos profetas, como Isaías : “Pois bem, é o próprio Senhor que vos vai dar um sinal: uma virgem ficará grávida e vai dar à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel” que significa “Deus está connosco”, e também : “Alguém grita no deserto : preparem o caminho do Senhor e abram-lhe estradas direitas!”. [*Capítulos 7 e 40 do Isaías, na ‘Septuaginta’]
A preparação feita por Deus continuou com a pregação do primo de Jesus, São João Baptista, no deserto da região da Judeia, pregando o arrependimento do mal, e baptizando o povo no Rio Jordão, para a remissão dos pecados. E, como está escrito no nosso Evangelho, Jesus veio de Nazaré da Galileia e também foi baptizado por João Baptista no Jordão, e o céu abriu-se e o Espírito Santo, como uma pomba, descia sobre Ele, e Ele ouviu a voz do Pai, que dizia: “Tu és o meu Filho querido: tenho em Ti a maior satisfação!”.
E logo, o Espírito o impeliu para o deserto, aonde Jesus passou quarenta dias com os animais selvagens, foi tentado por Satanás, e era servido pelos anjos.
Quando saiu do deserto, começou pregando a Boa Nova sobre o amor de Deus, o arrependimento dos pecados, o Reino do Céu — mas também sobre o Juízo Final, quando Ele voltará para julgar o mundo. Vai ser um julgamento difícil, porque, como Ele disse no Evangelho de São Mateus, o nosso Juiz só quererá saber se vivíamos as nossas vidas com passividade ou compaixão — se dávamos comida para todos os que tinham fome, água para todos os que tinham sede, roupas para os que estavam nus...
Bem. Se o Advento é o tempo da preparação para o retorno de Jesus, para o Juízo Final, e se este Juízo vai ser sobre o nosso amor para com os outros... como é que nos preparamos?
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
Igreja do Bom Pastor/VN de Gaia
Cónego Doutor Francisco Carlos Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
Hoje é o Segundo Domingo do Advento, e o Advento é principalmente um tempo de preparação. Para o mundo secular, é um tempo de preparação para as férias, talvez o tempo para comprar uma árvore de Natal, fazer uma festa para a família e de esconder os presentes do “Pai Natal” para as crianças.
Para nós, é diferente. Preparamo-nos para o Natal, claro... mas é muito mais importante que nos preparemos para acolher Jesus, não só como o bebé no presépio, mas como o nosso Juiz e deste modo preparamo-nos para o Juízo Final. Advento é tempo de lembrar a advertência do Evangelho do Domingo passado: “Estejam, portanto, vigilantes, porque não se sabe quando voltará”.
Estejam vigilantes — estejam preparados. O tema mais importante do Advento é este mesmo : preparação. Até podemos dizer que este é um dos temas mais importantes da nossa Fé Cristã; a preparação.
É por isso que o Evangelho de São Marcos, que é ‘a Boa Nova a respeito de Jesus Cristo, Filho de Deus’, não começa com Jesus, mas com um dos profetas maiores do Antigo Testamento, Isaías, e também com um do Novo Testamento, que é São João Baptista. Mas as nossas Bíblias ensinam que a preparação para a Incarnação e o Nascimento de Jesus, e também para o Juízo Final, começou bem antes do Novo Testamento — começou desde a Criação do Universo.
Como está escrito no Evangelho de São João : «No princípio de tudo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus, e ele mesmo era Deus. Desde sempre ele esteve com Deus.» Não podemos falar dum tempo ‘antes da Criação’ — o ‘tempo’ mesmo é uma parte da Criação.
Em Grego, a língua original do Novo Testamento, há duas palavras diferentes para traduzir a nossa palavra “tempo” e que são : — chronos e kairos. Chronos é o nosso tempo, o tempo linear — o hoje vem antes do amanhã, eu nasci depois dos meus pais mas antes dos meus netos... é o “tempo normal”, do passado, do presente, e do futuro. O chronos, o nosso tempo, é somente uma parte da Criação, a parte que começou ‘no princípio, quando Deus criou o céu e a terra”, no primeiro dia, e nas primeiras palavras do Livro do Génesis.
Kairos é completamente diferente. Kairos é o “tempo de Deus”, e para Deus, todos os nossos tempos são iguais. Ele pode ver o passado e o futuro ao mesmo tempo, porque Deus existe fora do tempo humano.
É por isso que o nascimento de Jesus é tão incrível — Deus, em Cristo Jesus, não só entrou na Sua própria Criação, como entrou no chronos também — entrou no tempo ‘humano’, como bebé, e viveu, e morreu, como um de nós. Nós falamos do sacrifício na Cruz, e foi um sacrifício horrível... mas Deus primeiro sacrificou o Seu próprio lugar fora do tempo humano, no kairos, para a ignorância, a dor e o medo do chronos. Só assim é que Ele pôde exclamar, no fim da vida, «Eloí, Eloí, lema sabactáni?» --"Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”
Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Trindade, entrou na sua própria Criação como um de nós, deixando a sua omnisciência, até deixando ao lado, nesse momento terrível na Cruz, a sua sabedoria de amor do Pai... só para nos salvar??? Como é que podemos entender um sacrifício como este? Como é que podemos responder?
Não podemos entender. Precisamos de responder.
Desde a Criação, a nossa resposta ao amor de Deus foi terrível, pecaminosa. E a culpa é só nossa dado que Deus mandou centenas de profetas para nos ensinar. Deus, vivendo no kairos, fora do ‘tempo humano’, soube bem que as mensagens dos profetas seriam ignoradas e passariam despercebidas, mas ao mesmo tempo, deu-nos o livre arbítrio, deu-nos a oportunidade de escolher, quer o bem quer o mal. E, vezes sem conta, escolhíamos o mal. Ignorávamos os profetas que tinham sorte, e matámos o resto... incluindo o último, São João Baptista. Este, embora tenha acabado a sua missão profética com a cabeça num prato, conseguiu primeiro completar a sua missão — preparou o caminho do Senhor!
O caminho foi bem preparado — esta é umas das mensagens do Advento : que Deus, vivendo e mudando em kairos, preparou tudo o que era preciso bem antes do primeiro Natal em Belém. Não foram somente as mensagens dos profetas, as profecias sobre o Salvador de Isaías e Jeremias e nos Salmos do Rei David, mas também as coisas mais concretas, mais pragmáticas.
Deus primeiro mandou o Anjo Gabriel ao sacerdote idoso, Zacarias, para lhe dizer: “Deus ouviu as tuas orações : Isabel, tua mulher, (também idosa) vai dar-te um filho e tu vais pôr-lhe o nome de João”, e alguns meses mais tarde, mandou o mesmo anjo à Virgem Maria, parente de Isabel, para a Anunciação : “Eu te saúdo, ó escolhida de Deus. O Senhor está contigo! Não tenhas medo, pois foste abençoada por Deus. Ficarás grávida e terás um Filho, a quem vais pôr o nome de Jesus.” E Santa Maria disse, “Servirei o Senhor como Ele quiser. Seja como tu dizes.”
Deus tinha de mandar o anjo pela terceira vez, a São José, quando ele ouviu que Santa Maria já estava grávida — o anjo apareceu num sonho e disse-lhe: “José, filho de David, não tenhas medo de casar com Maria, pois o que nela está gerado é do Espírito Santo; e dará à luz um filho, e chamarás o seu nome Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados!”.
São João nasceu antes de Jesus, porque tinha de preparar o caminho para o seu primo, nosso Salvador. São João, o último profeta da velha Aliança, o primeiro profeta da nova, proclamou a Boa Nova : “Arrependam-se do mal, recebam o baptismo, e Deus vos perdoará os pecados”. João sabia bem que não era o Messias, o Cristo –– foi ele que disse: “Eu baptizo-vos com água, para se arrependerem do mal. Mas o que vem depois de mim tem mais autoridade do que eu : nem sequer mereço a honra de lhe levar as sandálias!. Ele há-de baptizar-vos com o Espírito Santo e com fogo”.
Então, tudo isto foi a preparação do caminho para Jesus, preparação esta, que começou na Criação, como está escrito no Evangelho de São João, quando diz: “Nele estava a vida, e essa vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram”. A preparação do caminho do Senhor continuou com as palavras dos profetas, como Isaías : “Pois bem, é o próprio Senhor que vos vai dar um sinal: uma virgem ficará grávida e vai dar à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel” que significa “Deus está connosco”, e também : “Alguém grita no deserto : preparem o caminho do Senhor e abram-lhe estradas direitas!”. [*Capítulos 7 e 40 do Isaías, na ‘Septuaginta’]
A preparação feita por Deus continuou com a pregação do primo de Jesus, São João Baptista, no deserto da região da Judeia, pregando o arrependimento do mal, e baptizando o povo no Rio Jordão, para a remissão dos pecados. E, como está escrito no nosso Evangelho, Jesus veio de Nazaré da Galileia e também foi baptizado por João Baptista no Jordão, e o céu abriu-se e o Espírito Santo, como uma pomba, descia sobre Ele, e Ele ouviu a voz do Pai, que dizia: “Tu és o meu Filho querido: tenho em Ti a maior satisfação!”.
E logo, o Espírito o impeliu para o deserto, aonde Jesus passou quarenta dias com os animais selvagens, foi tentado por Satanás, e era servido pelos anjos.
Quando saiu do deserto, começou pregando a Boa Nova sobre o amor de Deus, o arrependimento dos pecados, o Reino do Céu — mas também sobre o Juízo Final, quando Ele voltará para julgar o mundo. Vai ser um julgamento difícil, porque, como Ele disse no Evangelho de São Mateus, o nosso Juiz só quererá saber se vivíamos as nossas vidas com passividade ou compaixão — se dávamos comida para todos os que tinham fome, água para todos os que tinham sede, roupas para os que estavam nus...
Bem. Se o Advento é o tempo da preparação para o retorno de Jesus, para o Juízo Final, e se este Juízo vai ser sobre o nosso amor para com os outros... como é que nos preparamos?
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
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Yr B- 07.12.08
Primeiro Advento, Ano B, 30-11-2008
1° Domingo do Advento, 30.11.08 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo/VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco C. Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
Feliz Ano Novo! Já sei que hoje não é o primeiro dia do mês de Janeiro, mas hoje é o primeiro dia do calendário Eclesiástico, o Ano B, para todos os que usam as Leituras Bíblicas da nossa Igreja Lusitana e de todas as Igrejas Anglicanas.
O calendário Eclesiástico é um pouco diferente nos Estados Unidos; o Evangelho começa com o Versículo 24, em vez do 32, e neste caso prefiro o mais longo porque podemos ouvir estas palavras tão fortes: «Depois daqueles dias de sofrimento, o Sol ficará escuro e a Lua deixará de brilhar. As estrelas cairão e os poderes do céu hão-de estremecer. Hão-de ver então o Filho do Homem aparecer nas nuvens com grande poder e glória. E Ele enviará os anjos para reunirem os escolhidos de um extremo ao outro do mundo.»
Ai - isto é um drama! Tem emoções fortes, emoções de medo, mas também de esperança... porque estes versículos falam do fim do mundo, do fim do universo, do fim da criação inteira-- sem Sol, sem Lua, sem estrelas... de um tempo no qual a único luz vai ser Cristo, em todo o Seu poder. O mundo acabará como começou, na Criação — nas palavras do primeiro capitulo do Evangelho de São João, «Nele estava a vida, e essa vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram.» E como foi no principio, assim será no fim. Jesus, que era mesmo Deus na Criação do universo, que fez-se homem e veio morar, e morrer, no meio de nós, é o mesmo Jesus que voltará em poder, em toda a sua glória e majestade, para o Juízo Final.
E vai ser um Juízo assustador, como ouvimos no Evangelho de Domingo passado, porque cada um de nós vai ser julgado, e por cada vez — cada vez! — que passámos por um mendigo sem lhe dar umas moedas, por cada vez que deixámos um idoso com fome sem lhe dar comida, por cada vez que passámos por qualquer pessoa que precisava de ajuda sem fazermos nada, o Juiz vai dizer : «Saibam também que todas as vezes que deixaram de fazer isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o deixaram de fazer.» Este Juízo Final, que acontecerá no fim do mundo, pode ser mesmo terrível.
Ora bem. Se soubéssemos quando é que Jesus vai voltar, talvez fosse tudo muito mais fácil. Se eu tivesse a certeza de que tinha ainda, oh... mais quinze ou vinte anos de vida, eu podia ‘brincar’ nos primeiros quatro ou cinco anos, e depois passaria o resto do tempo vivendo como um pequeno santo... e rezando e fazendo mais boas acções nos restantes quinze anos do que as más que tinha feito nos primeiros quatro ou cinco.
Isto é mais uma idiotice do que uma ideia, porque não vai dar, de maneira nenhuma. É impossível por três razões. Primeiro, eu já sei que não posso viver quinze anos como “anjinho” — eu, que nem sequer consigo viver quinze minutos como um anjo! Segundo, Jesus, o Rei da Glória e nosso Juiz, não esquecerá os pecados dos primeiros cinco anos, só porque tentei melhorar-me nos últimos quinze! E terceiro — e mais importante — é que sabendo que Cristo voltará, tal não é ainda suficiente. Sabemos que Ele vai aparecer nas nuvens, com todo os Seus anjos e arcanjos, com grande poder e glória, mas sabemos só o como, sem saber o quando, o que não se torna muito útil.
O Rei pode voltar daqui a mais mil anos, ou no ano que vem, ou antes do final deste Culto! E é por isso mesmo que sempre que começamos o Primeiro Domingo do Advento, começamos também o Ano Eclesiástico, assim, olhando para a frente, para o futuro. Quando o mundo secular está a pensar no Natal, nós não estamos a olhar para a chegada de um bebé, mas de um Juiz. O bebé é importante, claro, foi o bebé mais importante na história do mundo — mas quando o Juiz chegar, vai ser o fim deste mundo. Nós sabemos que devemos estar preparados para a chegada, mas é difícil, sem saber quando é que tal vai acontecer. Não somos só nós que não sabemos; nem os anjos do Céu, nem mesmo o Filho, quando Ele esteve cá connosco, sabiam. Depois do Dia da Ascensão, quando voltou para a direita do Pai, soube, claro, mas na altura, nem o Filho, que era verdadeiro Deus mas também verdadeiro homem, soube. Só o Pai Celestial sabia.
E é por isso que precisamos de estar sempre atentos, sempre preparados. Quando Nosso Senhor, depois da Ressurreição, ascendeu ao Céu, Ele deixou a cada o seu encargo de coisas para fazer. Era disso que Jesus falava, quando disse: «É como se um homem tivesse deixado a sua casa, partindo para uma viagem. Entregou a administração dos seus bens aos empregados, ficando cada um com o seu encargo, e deu ordens ao porteiro para que vigiasse. Estejam, portanto, vigilantes, porque não se sabe quando voltará o dono da casa.».
O dono da casa é Jesus Cristo, claro, que “deixou a casa” quando subiu aos céus para se sentar mais uma vez à direita do Pai. Nós, que somos Cristãos, somos os empregados que Ele deixou para administrar os seus bens aqui na terra, cada um de nós com o seu próprio encargo... mas os encargos são todos semelhantes. Até podemos dizer que são somente quatro, e são todos bem familiares.
O primeiro é este : ‘Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento. Este é o primeiro e mais importante dos mandamentos’.
O segundo, tão importante como ele é: ‘ama o teu próximo como a ti mesmo’. Tão importante, sim, mas fácil, não. Quando Jesus disse o “teu próximo”, Ele não estava a falar da pessoa sentada ao seu lado, aqui na igreja. Tal seria fácil de mais. Não, para entender Jesus quando Ele disse o “teu próximo”, temos de lembrar a parábola, a comparação do ‘samaritano de bom coração’ no décimo capitulo do Evangelho de São Lucas, e também lembrar o Evangelho da semana passada, do vigésimo quinto capítulo do Evangelho de São Mateus. O ‘nosso próximo’ é todo o mundo! O ‘nosso próximo’ é cada um “destes meus irmãos mais pequeninos”, criado à imagem de Deus.
O terceiro encargo é a Grande Comissão, dada por Jesus minutos antes da sua Ascensão — «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.». Isto não pode ser interpretado literalmente, claro — qual de nós consegue ir por todo o mundo? É um mandamento para toda a Igreja, e não para pessoas individuais. Mas como membros da Igreja una, santa, católica e apostólica, precisamos sempre de recordar que não somos somente membros nem do Salvador do Mundo nem da Igreja Lusitana mas do Corpo do Cristo mundial, e de lembrar que ainda há um quarto da população mundial que nunca ouviu falar sequer do nome de Jesus Cristo. O que é que nós podemos fazer para ajudar a Igreja no trabalho de Evangelização?
É importante, pensar nestas coisas. É importante, porque, quando o dono deixou a sua casa, ele entregou-nos, a nós, seus empregados, a administração dos seus bens — as vidas e as almas do Seu povo. Quando Jesus foi levado ao Céu e voltou ao Seu lugar à direita de Deus, deixou para nós, a Igreja, estes encargos tão importantes. Deixou estes três, e também um quarto — estejam vigilantes!
Não sabemos quando Nosso Senhor voltará. Os primeiros Cristãos, na época de São Paulo, achavam que seria durante as suas próprias vidas. Mais tarde, outros pensavam que Jesus regressaria no final do primeiro milénio, e mais tarde ainda, outros no fim do segundo, e estavam todos errados. Ninguém sabe quando Jesus voltará, e é por isso que precisamos de estar sempre bem atentos, sempre vigilantes.
Mas... também podemos dizer que... tal não é o mais importante. Não será tão importante, se nós vivermos as nossas vidas fazendo as coisas que Ele mandou. Se todos amarmos o Senhor nosso Deus com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, e com todo o nosso entendimento, e se amarmos os nossos próximos; se todos ajudarmos a Igreja a crescer conforme as possibilidades de cada um... e se tudo isto for feito não pelo medo do Inferno mas por amor a Deus que tanto deu por nós, ainda podemos estar vigilantes — mas, porque amamos o ‘dono da casa”, e queremos que Ele voltará!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
Igreja do Salvador do Mundo/VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco C. Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
Feliz Ano Novo! Já sei que hoje não é o primeiro dia do mês de Janeiro, mas hoje é o primeiro dia do calendário Eclesiástico, o Ano B, para todos os que usam as Leituras Bíblicas da nossa Igreja Lusitana e de todas as Igrejas Anglicanas.
O calendário Eclesiástico é um pouco diferente nos Estados Unidos; o Evangelho começa com o Versículo 24, em vez do 32, e neste caso prefiro o mais longo porque podemos ouvir estas palavras tão fortes: «Depois daqueles dias de sofrimento, o Sol ficará escuro e a Lua deixará de brilhar. As estrelas cairão e os poderes do céu hão-de estremecer. Hão-de ver então o Filho do Homem aparecer nas nuvens com grande poder e glória. E Ele enviará os anjos para reunirem os escolhidos de um extremo ao outro do mundo.»
Ai - isto é um drama! Tem emoções fortes, emoções de medo, mas também de esperança... porque estes versículos falam do fim do mundo, do fim do universo, do fim da criação inteira-- sem Sol, sem Lua, sem estrelas... de um tempo no qual a único luz vai ser Cristo, em todo o Seu poder. O mundo acabará como começou, na Criação — nas palavras do primeiro capitulo do Evangelho de São João, «Nele estava a vida, e essa vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a venceram.» E como foi no principio, assim será no fim. Jesus, que era mesmo Deus na Criação do universo, que fez-se homem e veio morar, e morrer, no meio de nós, é o mesmo Jesus que voltará em poder, em toda a sua glória e majestade, para o Juízo Final.
E vai ser um Juízo assustador, como ouvimos no Evangelho de Domingo passado, porque cada um de nós vai ser julgado, e por cada vez — cada vez! — que passámos por um mendigo sem lhe dar umas moedas, por cada vez que deixámos um idoso com fome sem lhe dar comida, por cada vez que passámos por qualquer pessoa que precisava de ajuda sem fazermos nada, o Juiz vai dizer : «Saibam também que todas as vezes que deixaram de fazer isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o deixaram de fazer.» Este Juízo Final, que acontecerá no fim do mundo, pode ser mesmo terrível.
Ora bem. Se soubéssemos quando é que Jesus vai voltar, talvez fosse tudo muito mais fácil. Se eu tivesse a certeza de que tinha ainda, oh... mais quinze ou vinte anos de vida, eu podia ‘brincar’ nos primeiros quatro ou cinco anos, e depois passaria o resto do tempo vivendo como um pequeno santo... e rezando e fazendo mais boas acções nos restantes quinze anos do que as más que tinha feito nos primeiros quatro ou cinco.
Isto é mais uma idiotice do que uma ideia, porque não vai dar, de maneira nenhuma. É impossível por três razões. Primeiro, eu já sei que não posso viver quinze anos como “anjinho” — eu, que nem sequer consigo viver quinze minutos como um anjo! Segundo, Jesus, o Rei da Glória e nosso Juiz, não esquecerá os pecados dos primeiros cinco anos, só porque tentei melhorar-me nos últimos quinze! E terceiro — e mais importante — é que sabendo que Cristo voltará, tal não é ainda suficiente. Sabemos que Ele vai aparecer nas nuvens, com todo os Seus anjos e arcanjos, com grande poder e glória, mas sabemos só o como, sem saber o quando, o que não se torna muito útil.
O Rei pode voltar daqui a mais mil anos, ou no ano que vem, ou antes do final deste Culto! E é por isso mesmo que sempre que começamos o Primeiro Domingo do Advento, começamos também o Ano Eclesiástico, assim, olhando para a frente, para o futuro. Quando o mundo secular está a pensar no Natal, nós não estamos a olhar para a chegada de um bebé, mas de um Juiz. O bebé é importante, claro, foi o bebé mais importante na história do mundo — mas quando o Juiz chegar, vai ser o fim deste mundo. Nós sabemos que devemos estar preparados para a chegada, mas é difícil, sem saber quando é que tal vai acontecer. Não somos só nós que não sabemos; nem os anjos do Céu, nem mesmo o Filho, quando Ele esteve cá connosco, sabiam. Depois do Dia da Ascensão, quando voltou para a direita do Pai, soube, claro, mas na altura, nem o Filho, que era verdadeiro Deus mas também verdadeiro homem, soube. Só o Pai Celestial sabia.
E é por isso que precisamos de estar sempre atentos, sempre preparados. Quando Nosso Senhor, depois da Ressurreição, ascendeu ao Céu, Ele deixou a cada o seu encargo de coisas para fazer. Era disso que Jesus falava, quando disse: «É como se um homem tivesse deixado a sua casa, partindo para uma viagem. Entregou a administração dos seus bens aos empregados, ficando cada um com o seu encargo, e deu ordens ao porteiro para que vigiasse. Estejam, portanto, vigilantes, porque não se sabe quando voltará o dono da casa.».
O dono da casa é Jesus Cristo, claro, que “deixou a casa” quando subiu aos céus para se sentar mais uma vez à direita do Pai. Nós, que somos Cristãos, somos os empregados que Ele deixou para administrar os seus bens aqui na terra, cada um de nós com o seu próprio encargo... mas os encargos são todos semelhantes. Até podemos dizer que são somente quatro, e são todos bem familiares.
O primeiro é este : ‘Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, e com todo o teu entendimento. Este é o primeiro e mais importante dos mandamentos’.
O segundo, tão importante como ele é: ‘ama o teu próximo como a ti mesmo’. Tão importante, sim, mas fácil, não. Quando Jesus disse o “teu próximo”, Ele não estava a falar da pessoa sentada ao seu lado, aqui na igreja. Tal seria fácil de mais. Não, para entender Jesus quando Ele disse o “teu próximo”, temos de lembrar a parábola, a comparação do ‘samaritano de bom coração’ no décimo capitulo do Evangelho de São Lucas, e também lembrar o Evangelho da semana passada, do vigésimo quinto capítulo do Evangelho de São Mateus. O ‘nosso próximo’ é todo o mundo! O ‘nosso próximo’ é cada um “destes meus irmãos mais pequeninos”, criado à imagem de Deus.
O terceiro encargo é a Grande Comissão, dada por Jesus minutos antes da sua Ascensão — «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.». Isto não pode ser interpretado literalmente, claro — qual de nós consegue ir por todo o mundo? É um mandamento para toda a Igreja, e não para pessoas individuais. Mas como membros da Igreja una, santa, católica e apostólica, precisamos sempre de recordar que não somos somente membros nem do Salvador do Mundo nem da Igreja Lusitana mas do Corpo do Cristo mundial, e de lembrar que ainda há um quarto da população mundial que nunca ouviu falar sequer do nome de Jesus Cristo. O que é que nós podemos fazer para ajudar a Igreja no trabalho de Evangelização?
É importante, pensar nestas coisas. É importante, porque, quando o dono deixou a sua casa, ele entregou-nos, a nós, seus empregados, a administração dos seus bens — as vidas e as almas do Seu povo. Quando Jesus foi levado ao Céu e voltou ao Seu lugar à direita de Deus, deixou para nós, a Igreja, estes encargos tão importantes. Deixou estes três, e também um quarto — estejam vigilantes!
Não sabemos quando Nosso Senhor voltará. Os primeiros Cristãos, na época de São Paulo, achavam que seria durante as suas próprias vidas. Mais tarde, outros pensavam que Jesus regressaria no final do primeiro milénio, e mais tarde ainda, outros no fim do segundo, e estavam todos errados. Ninguém sabe quando Jesus voltará, e é por isso que precisamos de estar sempre bem atentos, sempre vigilantes.
Mas... também podemos dizer que... tal não é o mais importante. Não será tão importante, se nós vivermos as nossas vidas fazendo as coisas que Ele mandou. Se todos amarmos o Senhor nosso Deus com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, e com todo o nosso entendimento, e se amarmos os nossos próximos; se todos ajudarmos a Igreja a crescer conforme as possibilidades de cada um... e se tudo isto for feito não pelo medo do Inferno mas por amor a Deus que tanto deu por nós, ainda podemos estar vigilantes — mas, porque amamos o ‘dono da casa”, e queremos que Ele voltará!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
18 July 2009
16o Domingo Comum, Ano B, 19 Julho 2009
160 Domingo Comum, Ano B, 19 Julho 2009
Igreja do Bom Pastor, V.N. de Gaia
Cón. Dr. Francisco C. Zanger
Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
Talvez ainda ninguém tenha chamado a vossa atenção, mas se ainda não tiverdes notado... não sou português. Sou estrangeiro. É verdade! Não é defeito de fala ou falta de educação: é mesmo sotaque e falta de vocabulário!
E sim, estou a brincar, mas estou a brincar por uma razão: na leitura da Carta do S. Paulo aos Efésios, que é ao mesmo tempo interessante e difícil, porque fala das coisas que devem ser, e que irão ser, mas que nem na época em que foi escrita foram, nem o são agora. Ao falar das diferenças entre os judeus, que eram os únicos monoteístas da região e talvez do mundo, e os pagãos do resto do Império Romano, Paulo disse que a morte e Ressurreição de Jesus criava pela primeira vez um só povo de Deus: que Jesus fez em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova, reconciliando-os ambos com Deus. Ouçam: “Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições”[1]. Seria uma maravilha, se fosse verdade quer na altura quer hoje mesmo; será uma maravilha quando suceder... e vai acontecer. A primeira parte já aconteceu, claro: Cristo é a nossa paz, e dentro d'Ele, dentro do Seu Corpo, somos um só povo. Mas infelizmente, nós somos humanos, pecadores, e quando Jesus destruiu o muro da inimizade, nós substuímos as vedações de arame farpado.
Paulo, que era o Apóstolo dos Gentios, escreveu sobre o muro da Lei entre os Gentios e os Judeus, mas já teve problemas entre eles: originalmente, quando os Cristãos eram Judeus, os Judeus pensavam que os Cristãos eram somente uma seita herética, mas depois, quando eles começaram a baptizar Gentios, a coisa piorou muito. O primeiro grupo que perseguiu os Cristãos foram os Judeus do Templo: antes de se converter, S. Paulo, chamado ainda Saulo, foi um dos piores de todos[2]. Ele ainda estava do outro lado do “muro da inimizade”, que ele próprio afirmou, depois, já ter sido destruído pela morte de Cristo: do outro lado, apedrajando!
Bem, como é que podemos entender tudo isto? Se Jesus Cristo fez um só povo do mundo inteiro, dos Judeus que eram o Povo escolhido por Deus, e dos Gentios que eram os restantes povos do mundo (e foi isto que Paulo escreveu), que pena que Jesus tivesse feito tudo isto sem que os povos do mundo o notassem!
Não... não é uma pena. É um pecado. É o nosso pecado.
O problema não está somente em nós não termos fé suficiente em Deus: não temos fé suficiente em nós próprios. Somos inseguros, ansiosos. É a versão do pecado pior de todas, o pecado que é a raiz de todos os outros: o orgulho. Nós pensamos que precisamos de ser perfeitos, e se não podemos aperfeiçoarmo-nos, ao menos precisamos de ser melhores do que os nossos vizinhos. “Se alguém souber que não sou perfeito, ninguém me vai amar.”
Quando o Anjo Lúcifer, ele que era o mais lindo dos anjos, cujo nome significa “Luz”, se insurgiu contra Deus e foi derrubado, atirado dos céus à terra, perdeu não só o seu nome — Lúcifer tornou-se Satanás — mas perdeu também todo o seu poder angelical, menos a sua língua dourada, a sua língua viperina... ainda pode mentir, confundir e persuadir. É por isso que lemos que Jesus, depois de ser baptizado por seu primo, S. João Baptista, foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser tentado três vezes pelo diabo[3]. Satanás, que sabia bem que Jesus era verdadeiro homem, esqueceu-se que Jesus também era verdadeiro Deus, e as palavras de rejeição que Jesus proferiu são em si mesmas uma recordação: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”[4], e “Vai-te, Satanás! A Escritura diz, ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”[5]. Mas Jesus era Deus, e não só homem: Satanás ganhou o nome de “O Tentador” quando enganou dois que eram não só homens, mas inocentes.
No terceiro capítulo do Génesis, Satanás entrou na serpente, o mais astuto dos animais criados por Deus: entrou para tentar os primeiros homens, Eva e Adão, no Jardim. Só havia um fruto proibido no jardim: o da árvore do conhecimento do bem e do mal. O fruto desta árvore podia chamar-se ‘o fim da inocência’. Sem o conhecimento do bom e do mal, eles não podiam escolher o mal sobre o bem: não podiam pecar. E Satanás não queria um mundo sem pecado.
Então, Satanás entrou na serpente para fazer a sua maldade, bem como, muito mais tarde, entrou em Judas[6], e Judas traiu o Senhor. A serpente disse à mulher que, se comessem o fruto proibido, “ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus”[7]. Satanás não disse que o fruto poderia dar quaisquer “superpoderes”... só que eles poderiam ser “tal como Deus” em termos de sabedoria. Eles não queriam mostrar ignorância em frente de Deus: não queriam ser os mais ignorantes no seu pequeno mundo.
Até os nossos primeiros pais eram inseguros, ansiosos, tal como nós. No universo inteiro, Adão e Eva só conheciam Deus, mas sabiam que Deus era muito melhor, mais sábio, mais forte, mais tudo do que eles... e tornaram-se inseguros.
Agora que já não eram inocentes, não podiam ficar no jardim paradisíaco, e Deus mandou-os embora para se frutificarem e multiplicarem no mundo que Ele fez. Os seus filhos e netos e bisnetos e trinetos encheram o mundo, mas eram também inseguros, pois sabiam que nunca poderiam ser perfeitos. Satanás nunca deixou fugir uma oportunidade: o seu novo truque é até melhor do que o anterior. Em vez de enganar-nos, insinuando que podemos melhorar-nos, desobedecendo a Deus, a nova mentira demoníaca é até pior: que nós já somos melhores do que os outros: que as pessoas diferentes, quer doutro país, quer doutra cor de pele, quer doutro modo de louvar o Senhor, são piores, são estúpidas, são ‘menos humanas’ do que nós.
Enquanto o Grande Mentiroso conseguir persuadir umas pessoas, feitas por Deus e à Imagem do próprio Deus, de que outras pessoas, igualmente feitas por Deus e à Imagem do próprio de Deus, têm menos valor aos olhos do mesmo Deus, só Satanás sai vencedor. Na história da humanidade, não houve, nem há, guerra nenhuma, perseguição nenhuma, escravatura nenhuma, conquista nenhuma, em que o instigador e o vencedor não seja... Satanás. Ele é militante de cada partido, sócio de cada clube, general em cada exército... e bispo ou pândita ou pastor ou imã ou rabino de cada grupo religioso que ensine o ódio em vez do amor, em qualquer lugar onde um grupo disser que eles são os melhores, ou os mais importantes, ou os mais amados por Deus do que qualquer outro grupo.
“Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro. Aboliu na própria carne a lei judaica, os preceitos e as prescrições. Deste modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só Corpo pela virtude da Cruz, aniquilado a inimizade.”[8]
A lei judaica que Cristo aboliu não tinha nada de mal: foi dada aos israelitas pelo próprio Deus. No plano da Salvação, não era má: era necessária. De todos os povos do mundo, Deus escolheu os Judeus, um povo pequeno, sem poder político, mas com uma força interna e eterna maior do que qualquer outro. Que outro povo teria podido sobreviver mais de dois mil anos sem país próprio, com perseguições, escravatura, com os genocídios dos Assírios e Romanos, do Nazismo e Estalinismo?
Deus escolheu os Judeus, e deu-lhes a Lei, para ajudar o seu povo a aprender quem era Deus: que o verdadeiro Deus que criou o Universo não era o mesmo que os deuses pagãos. Isto levou muito tempo: o Antigo Testamento, uma mistura de história e poesia, teologia e manuais jurídicos, genealogia e ritos religiosos, entre outras coisas, é também a narrativa dum parentesco, de uma relação durante a qual o povo escolhido aprendeu, pouco a pouco, sempre mais sobre o seu Criador.
É uma relação que começou com as palavras, “Faça-se luz!”[9], e como nós sabemos, no início da Criação, o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus; tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada foi feito[10]. Os Israelitas moravam em conjunto com os outros povos do Médio Oriente, povos que tinham uma multidão de deuses, e habitualmente não diziam ‘não’ aos sacrifícios humanos. Estes deuses, como Baal e Asserás, deuses masculino e feminino dos Cananeus, queriam servilismo e subserviência dos seus crentes, e não somente obediência e humildade. A Bíblia Hebraica, o nosso Antigo Testamento, é um testemunho disso mesmo: o testemunho de um Deus que não era igual aos deuses dos outros povos. O entendimento dos israelitas precisava de crescer, pouco a pouco, do tempo de Abraão e Isaac, quando primeiro aprenderam que Deus não quer sacrifícios humanos[11]; o desenvolvimento do entendimento no Livro de Josué, onde Deus é ainda um deus de guerras e batalhas[12], até ao de Amós, o profeta que Deus mandou para castigar os ricos, em que “compraremos os infelizes por dinheiro, e os pobres por um par de sandálias”[13], e para dizer, “Odeio e desprezo as vossas festas. Não me agradam os vossos cultos. ... Quero, sim, que a justiça corra como as águas, e que o que é recto, como um rio que nunca seca!”[14]
Levou séculos, séculos duros. Os israelitas, que foram escravos no Egipto cerca de uns 200 anos, depois de José, o da capa vistosa, colorida com mangas compridas, que foi vendido pelos irmãos para escravo mas chegou a ser governador de Egipto[15], até ao tempo de Moisés que nasceu como escravo no Egipto[16] mas chegou a ser o líder e profeta dos israelitas até chegarem à terra prometida[17], talvez quinze séculos antes de Cristo[18]. Durante todo este tempo, havia um “muro” entre os israelitas, o ‘povo escolhido’ por Deus, e todo o resto do mundo, a que os judeus chamavam de Gentios, durante o tempo em que Deus “ensinou” os judeus. Levou séculos, mas quando Deus soube que tinha chegado o tempo certo (uma coisa que Deus já sabia até antes da Criação: o tempo de Deus não é o nosso), Jesus, o Filho que era o Verbo Divino durante Criação, incarnou pelo Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, e habitou entre nós.
Com os seus ensinamentos, mostrou as portas da vida eterna; com a sua morte, abriu as mesmas portas. Na sua morte, Jesus triunfou sobre o pecado e a morte, dando-nos a vida eterna. Com a sua morte Jesus não somente destruiu a morte, abrindo as portas à vida eterna, mas também destruiu o muro entre os judeus e os Gentios. Com Abraão, Deus-Pai escolheu um povo para si. Com a sua Incarnação, no seio da Virgem, com a sua morte, na Cruz, Deus-Filho escolheu todos os povos, para sempre. Com os seus dons espirituais, Deus-Espírito Santo possibilita que nós formemos o Corpo de Cristo, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.
Mas, se Jesus Cristo destruiu o muro entre os povos do mundo, como é que estamos tão divididos? Como já disse... pecado. É o pecado do orgulho, orgulho e medo. E o medo também pode ser pecado, se tivermos medo porque não temos fé no amor de Cristo.
Ora. Se acho que não tenho muito valor, que não sou digno de respeito, digno de amor, digno das promessas de Cristo, há coisas que posso fazer.
Primeiro, posso ter a fé de que, apesar de não pelo meu mérito, pois daí não tenho salvação de jeito nenhum, o amor de Cristo é ainda tão grande que até um pecador (como eu) pode ser salvo, e depois fazer tudo quanto poder pelos outros, como acção de graças. Esta é a versão melhor, e que acontece menos (claro).
Segundo, posso trabalhar para ser melhor, e ser tão bom que mereça a salvação. Falhará. É impossível. Mas, poderia ser pior.
Terceiro, e mais comum. É dizer, “Eu não sou assim tão mau—olha para ele! Eu odeio pessoas como ele! Ele não tem valor nenhum!” A nível pessoal, estas pessoas são chatas. A nível dos grupos, esta é a justificação para todos os tipos de racismo, ou para todos os outros tipos de discriminação, como sexismo, discriminação etária, ou discriminação contra pessoas de outras religiões, quer Católicos Romanos que não gostam de Protestantes, ou Protestantes que não gostam de Católicos Romanos, quer Protestantes e Católicos Romanos que não gostam de Anglicanos porque somos ou Católicos demais para os Protestantes ou Protestantes demais para os Católicos Romanos, ou qualquer das três que odeiam os Islâmicos, e os Islâmicos que odeiam os Cristãos, e qualquer destas que não gostam dos judeus... etcetera, etcetera, etcetera.
E ao nível dos países, pode ser o pretexto para guerras, ou para os genocídios.
Para muitos de nós, nós que somos feitos por Deus à Sua própria Imagem, somente poderemos ser felizes se pensarmos que somos superiores a qualquer outro grupo. A única qualidade própria que temos é em contraste com alguém que nós pensamos ser pior, de menos valor. Os Americanos ou Ingleses acham que eles são o povo melhor do mundo, e que o resto do mundo só existe para os cuidar, são conhecidos nesta cidade de turismo.
Sou Americano—vou falar do meu país. Há muitos Americanos que não têm interesse nenhum em viajar, porque acham que nos Estados Unidos há tudo o que existe de bom no mundo. É por isso que Americanos não estudam outras línguas... Porquê? Os outros devem aprender inglês! Há muitos Americanos que querem construir um muro grande ao longo da fronteira com o México, por causa dos imigrantes ilegais... mais um substituto para o muro destruído por Cristo.
E não são somente os Americanos, claro. Os Italianos querem fazer a mesma coisa com os imigrantes da Bósnia, os Franceses com os árabes, os israelistas matam palestinianos que matam israelitas, as guerras em cada canto de África... Cada país quer um muro, e cada grupo dentro do país quer mais um muro, e cada pessoa no grupo vai precisar do seu próprio muro também... se não temos fronteiras, não podemos saber quem é “diferente”, e se não sabemos quem é “diferente”, não podemos saber quem é pior do que nós, e se não sabemos se alguém é pior que nós, só temos os nossos espelhos para ver os pecadores. Ai! Claro que temos medo!
É este mesmo o problema. É como disse S. Pedro: “Agora compreendo verdadeiramente que para Deus todos são iguais. Ele quer bem a todos os que respeitam e cumprem a sua vontade, sejam de que raça forem.”[19]
“...sejam de que raça forem.” As fronteiras do mundo não são de Deus. As fronteiras são feitas por homens, pecadores, e a maioria foram feitas com armas. O nosso Deus não fez os Estados Unidos: Ele fez a América do Norte. Deus não desenhou num mapa as fronteiras de Portugal—não foi Deus que deu a Galiza à Espanha. Deus, em Jesus Cristo, erradicou os muros entre os povos.
Não quero dizer que é mau, ter orgulho no seu próprio país, nem na sua cidade, ou na sua equipe (sou Portista!), ou na sua família. Eu até acho que as fronteiras entre países podem ter valor: a minha única ansiedade com a ideia da União Europeia é que Portugal e os outros países mais pequeninos podem perder as suas culturas particulares. Não quero morar em “Françamanha”: quero morar em Portugal!
Mas este orgulho nacional nunca pode ser tão forte que se torne num muro. A coisa mais importante é o Corpo de Cristo, e o Corpo de Cristo atravessa todas as fronteiras do mundo. Eu tenho muito mais em comum com qualquer um de vós do que tenho com um Americano que seja ateu. Só há uma “fronteira” com importância, que é a fronteira entre as pessoas que já são membros do Corpo e as que ainda o não são, e esta “fronteira” tem de ter sempre a porta aberta... mais, nós temos de convidar todos os que estão fora a entrar. Isto é a tarefa de que Jesus nos encarregou: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, vão e façam com que os povos se tornem meus discípulos. Baptizem as pessoas em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo ensinando-as a obedecer a tudo quanto eu tenho mandado. E saibam que estarei sempre convosco, até o fim do mundo.”[20]
Em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
[1] Efésios 2, 14-15
[2] Actos 7, 58; 8:1, 3; 9,1-2
[3] S. Mateus 4, 1
[4] Deuteronómio 6, 16: “Não tentareis o Senhor, vosso Deus, como o tentaste em Massá.”
[5] Deuteronómio 6, 13-14: “Temerás o Senhor, teu Deus, prestar-lhe-ás culto e só jurarás pelo seu nome. Não seguireis outros deuses entre os das nações que vos cercam.
[6] S. João 13, 26-27
[7] Génesis 3, 5
[8] Efésios 2,14-16
[9] Génesis 1, 3
[10] S. João 1, 1 e 3
[11] Génesis 22, 1-14
[12] Josué 10 (ou qualquer outro capítulo!)
[13] Amós 8, 6
[14] Amós 5, 21 e 24
[15] Génesis 37, 3-4, 25-28,; 42,6
[16] Êxodo 2, 1-10
[17] Deuteronómio 34, 1-12
[18] “Exodus”, por John Gray, PhD, Interpreter’s One-Volume Commentary on the Bible, 1984, 1971
[19] Actos 10, 34-35
[20] S. Mateus 28, 18-20
Igreja do Bom Pastor, V.N. de Gaia
Cón. Dr. Francisco C. Zanger
Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
Talvez ainda ninguém tenha chamado a vossa atenção, mas se ainda não tiverdes notado... não sou português. Sou estrangeiro. É verdade! Não é defeito de fala ou falta de educação: é mesmo sotaque e falta de vocabulário!
E sim, estou a brincar, mas estou a brincar por uma razão: na leitura da Carta do S. Paulo aos Efésios, que é ao mesmo tempo interessante e difícil, porque fala das coisas que devem ser, e que irão ser, mas que nem na época em que foi escrita foram, nem o são agora. Ao falar das diferenças entre os judeus, que eram os únicos monoteístas da região e talvez do mundo, e os pagãos do resto do Império Romano, Paulo disse que a morte e Ressurreição de Jesus criava pela primeira vez um só povo de Deus: que Jesus fez em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova, reconciliando-os ambos com Deus. Ouçam: “Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições”[1]. Seria uma maravilha, se fosse verdade quer na altura quer hoje mesmo; será uma maravilha quando suceder... e vai acontecer. A primeira parte já aconteceu, claro: Cristo é a nossa paz, e dentro d'Ele, dentro do Seu Corpo, somos um só povo. Mas infelizmente, nós somos humanos, pecadores, e quando Jesus destruiu o muro da inimizade, nós substuímos as vedações de arame farpado.
Paulo, que era o Apóstolo dos Gentios, escreveu sobre o muro da Lei entre os Gentios e os Judeus, mas já teve problemas entre eles: originalmente, quando os Cristãos eram Judeus, os Judeus pensavam que os Cristãos eram somente uma seita herética, mas depois, quando eles começaram a baptizar Gentios, a coisa piorou muito. O primeiro grupo que perseguiu os Cristãos foram os Judeus do Templo: antes de se converter, S. Paulo, chamado ainda Saulo, foi um dos piores de todos[2]. Ele ainda estava do outro lado do “muro da inimizade”, que ele próprio afirmou, depois, já ter sido destruído pela morte de Cristo: do outro lado, apedrajando!
Bem, como é que podemos entender tudo isto? Se Jesus Cristo fez um só povo do mundo inteiro, dos Judeus que eram o Povo escolhido por Deus, e dos Gentios que eram os restantes povos do mundo (e foi isto que Paulo escreveu), que pena que Jesus tivesse feito tudo isto sem que os povos do mundo o notassem!
Não... não é uma pena. É um pecado. É o nosso pecado.
O problema não está somente em nós não termos fé suficiente em Deus: não temos fé suficiente em nós próprios. Somos inseguros, ansiosos. É a versão do pecado pior de todas, o pecado que é a raiz de todos os outros: o orgulho. Nós pensamos que precisamos de ser perfeitos, e se não podemos aperfeiçoarmo-nos, ao menos precisamos de ser melhores do que os nossos vizinhos. “Se alguém souber que não sou perfeito, ninguém me vai amar.”
Quando o Anjo Lúcifer, ele que era o mais lindo dos anjos, cujo nome significa “Luz”, se insurgiu contra Deus e foi derrubado, atirado dos céus à terra, perdeu não só o seu nome — Lúcifer tornou-se Satanás — mas perdeu também todo o seu poder angelical, menos a sua língua dourada, a sua língua viperina... ainda pode mentir, confundir e persuadir. É por isso que lemos que Jesus, depois de ser baptizado por seu primo, S. João Baptista, foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser tentado três vezes pelo diabo[3]. Satanás, que sabia bem que Jesus era verdadeiro homem, esqueceu-se que Jesus também era verdadeiro Deus, e as palavras de rejeição que Jesus proferiu são em si mesmas uma recordação: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”[4], e “Vai-te, Satanás! A Escritura diz, ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”[5]. Mas Jesus era Deus, e não só homem: Satanás ganhou o nome de “O Tentador” quando enganou dois que eram não só homens, mas inocentes.
No terceiro capítulo do Génesis, Satanás entrou na serpente, o mais astuto dos animais criados por Deus: entrou para tentar os primeiros homens, Eva e Adão, no Jardim. Só havia um fruto proibido no jardim: o da árvore do conhecimento do bem e do mal. O fruto desta árvore podia chamar-se ‘o fim da inocência’. Sem o conhecimento do bom e do mal, eles não podiam escolher o mal sobre o bem: não podiam pecar. E Satanás não queria um mundo sem pecado.
Então, Satanás entrou na serpente para fazer a sua maldade, bem como, muito mais tarde, entrou em Judas[6], e Judas traiu o Senhor. A serpente disse à mulher que, se comessem o fruto proibido, “ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus”[7]. Satanás não disse que o fruto poderia dar quaisquer “superpoderes”... só que eles poderiam ser “tal como Deus” em termos de sabedoria. Eles não queriam mostrar ignorância em frente de Deus: não queriam ser os mais ignorantes no seu pequeno mundo.
Até os nossos primeiros pais eram inseguros, ansiosos, tal como nós. No universo inteiro, Adão e Eva só conheciam Deus, mas sabiam que Deus era muito melhor, mais sábio, mais forte, mais tudo do que eles... e tornaram-se inseguros.
Agora que já não eram inocentes, não podiam ficar no jardim paradisíaco, e Deus mandou-os embora para se frutificarem e multiplicarem no mundo que Ele fez. Os seus filhos e netos e bisnetos e trinetos encheram o mundo, mas eram também inseguros, pois sabiam que nunca poderiam ser perfeitos. Satanás nunca deixou fugir uma oportunidade: o seu novo truque é até melhor do que o anterior. Em vez de enganar-nos, insinuando que podemos melhorar-nos, desobedecendo a Deus, a nova mentira demoníaca é até pior: que nós já somos melhores do que os outros: que as pessoas diferentes, quer doutro país, quer doutra cor de pele, quer doutro modo de louvar o Senhor, são piores, são estúpidas, são ‘menos humanas’ do que nós.
Enquanto o Grande Mentiroso conseguir persuadir umas pessoas, feitas por Deus e à Imagem do próprio Deus, de que outras pessoas, igualmente feitas por Deus e à Imagem do próprio de Deus, têm menos valor aos olhos do mesmo Deus, só Satanás sai vencedor. Na história da humanidade, não houve, nem há, guerra nenhuma, perseguição nenhuma, escravatura nenhuma, conquista nenhuma, em que o instigador e o vencedor não seja... Satanás. Ele é militante de cada partido, sócio de cada clube, general em cada exército... e bispo ou pândita ou pastor ou imã ou rabino de cada grupo religioso que ensine o ódio em vez do amor, em qualquer lugar onde um grupo disser que eles são os melhores, ou os mais importantes, ou os mais amados por Deus do que qualquer outro grupo.
“Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro. Aboliu na própria carne a lei judaica, os preceitos e as prescrições. Deste modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só Corpo pela virtude da Cruz, aniquilado a inimizade.”[8]
A lei judaica que Cristo aboliu não tinha nada de mal: foi dada aos israelitas pelo próprio Deus. No plano da Salvação, não era má: era necessária. De todos os povos do mundo, Deus escolheu os Judeus, um povo pequeno, sem poder político, mas com uma força interna e eterna maior do que qualquer outro. Que outro povo teria podido sobreviver mais de dois mil anos sem país próprio, com perseguições, escravatura, com os genocídios dos Assírios e Romanos, do Nazismo e Estalinismo?
Deus escolheu os Judeus, e deu-lhes a Lei, para ajudar o seu povo a aprender quem era Deus: que o verdadeiro Deus que criou o Universo não era o mesmo que os deuses pagãos. Isto levou muito tempo: o Antigo Testamento, uma mistura de história e poesia, teologia e manuais jurídicos, genealogia e ritos religiosos, entre outras coisas, é também a narrativa dum parentesco, de uma relação durante a qual o povo escolhido aprendeu, pouco a pouco, sempre mais sobre o seu Criador.
É uma relação que começou com as palavras, “Faça-se luz!”[9], e como nós sabemos, no início da Criação, o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus; tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada foi feito[10]. Os Israelitas moravam em conjunto com os outros povos do Médio Oriente, povos que tinham uma multidão de deuses, e habitualmente não diziam ‘não’ aos sacrifícios humanos. Estes deuses, como Baal e Asserás, deuses masculino e feminino dos Cananeus, queriam servilismo e subserviência dos seus crentes, e não somente obediência e humildade. A Bíblia Hebraica, o nosso Antigo Testamento, é um testemunho disso mesmo: o testemunho de um Deus que não era igual aos deuses dos outros povos. O entendimento dos israelitas precisava de crescer, pouco a pouco, do tempo de Abraão e Isaac, quando primeiro aprenderam que Deus não quer sacrifícios humanos[11]; o desenvolvimento do entendimento no Livro de Josué, onde Deus é ainda um deus de guerras e batalhas[12], até ao de Amós, o profeta que Deus mandou para castigar os ricos, em que “compraremos os infelizes por dinheiro, e os pobres por um par de sandálias”[13], e para dizer, “Odeio e desprezo as vossas festas. Não me agradam os vossos cultos. ... Quero, sim, que a justiça corra como as águas, e que o que é recto, como um rio que nunca seca!”[14]
Levou séculos, séculos duros. Os israelitas, que foram escravos no Egipto cerca de uns 200 anos, depois de José, o da capa vistosa, colorida com mangas compridas, que foi vendido pelos irmãos para escravo mas chegou a ser governador de Egipto[15], até ao tempo de Moisés que nasceu como escravo no Egipto[16] mas chegou a ser o líder e profeta dos israelitas até chegarem à terra prometida[17], talvez quinze séculos antes de Cristo[18]. Durante todo este tempo, havia um “muro” entre os israelitas, o ‘povo escolhido’ por Deus, e todo o resto do mundo, a que os judeus chamavam de Gentios, durante o tempo em que Deus “ensinou” os judeus. Levou séculos, mas quando Deus soube que tinha chegado o tempo certo (uma coisa que Deus já sabia até antes da Criação: o tempo de Deus não é o nosso), Jesus, o Filho que era o Verbo Divino durante Criação, incarnou pelo Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, e habitou entre nós.
Com os seus ensinamentos, mostrou as portas da vida eterna; com a sua morte, abriu as mesmas portas. Na sua morte, Jesus triunfou sobre o pecado e a morte, dando-nos a vida eterna. Com a sua morte Jesus não somente destruiu a morte, abrindo as portas à vida eterna, mas também destruiu o muro entre os judeus e os Gentios. Com Abraão, Deus-Pai escolheu um povo para si. Com a sua Incarnação, no seio da Virgem, com a sua morte, na Cruz, Deus-Filho escolheu todos os povos, para sempre. Com os seus dons espirituais, Deus-Espírito Santo possibilita que nós formemos o Corpo de Cristo, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.
Mas, se Jesus Cristo destruiu o muro entre os povos do mundo, como é que estamos tão divididos? Como já disse... pecado. É o pecado do orgulho, orgulho e medo. E o medo também pode ser pecado, se tivermos medo porque não temos fé no amor de Cristo.
Ora. Se acho que não tenho muito valor, que não sou digno de respeito, digno de amor, digno das promessas de Cristo, há coisas que posso fazer.
Primeiro, posso ter a fé de que, apesar de não pelo meu mérito, pois daí não tenho salvação de jeito nenhum, o amor de Cristo é ainda tão grande que até um pecador (como eu) pode ser salvo, e depois fazer tudo quanto poder pelos outros, como acção de graças. Esta é a versão melhor, e que acontece menos (claro).
Segundo, posso trabalhar para ser melhor, e ser tão bom que mereça a salvação. Falhará. É impossível. Mas, poderia ser pior.
Terceiro, e mais comum. É dizer, “Eu não sou assim tão mau—olha para ele! Eu odeio pessoas como ele! Ele não tem valor nenhum!” A nível pessoal, estas pessoas são chatas. A nível dos grupos, esta é a justificação para todos os tipos de racismo, ou para todos os outros tipos de discriminação, como sexismo, discriminação etária, ou discriminação contra pessoas de outras religiões, quer Católicos Romanos que não gostam de Protestantes, ou Protestantes que não gostam de Católicos Romanos, quer Protestantes e Católicos Romanos que não gostam de Anglicanos porque somos ou Católicos demais para os Protestantes ou Protestantes demais para os Católicos Romanos, ou qualquer das três que odeiam os Islâmicos, e os Islâmicos que odeiam os Cristãos, e qualquer destas que não gostam dos judeus... etcetera, etcetera, etcetera.
E ao nível dos países, pode ser o pretexto para guerras, ou para os genocídios.
Para muitos de nós, nós que somos feitos por Deus à Sua própria Imagem, somente poderemos ser felizes se pensarmos que somos superiores a qualquer outro grupo. A única qualidade própria que temos é em contraste com alguém que nós pensamos ser pior, de menos valor. Os Americanos ou Ingleses acham que eles são o povo melhor do mundo, e que o resto do mundo só existe para os cuidar, são conhecidos nesta cidade de turismo.
Sou Americano—vou falar do meu país. Há muitos Americanos que não têm interesse nenhum em viajar, porque acham que nos Estados Unidos há tudo o que existe de bom no mundo. É por isso que Americanos não estudam outras línguas... Porquê? Os outros devem aprender inglês! Há muitos Americanos que querem construir um muro grande ao longo da fronteira com o México, por causa dos imigrantes ilegais... mais um substituto para o muro destruído por Cristo.
E não são somente os Americanos, claro. Os Italianos querem fazer a mesma coisa com os imigrantes da Bósnia, os Franceses com os árabes, os israelistas matam palestinianos que matam israelitas, as guerras em cada canto de África... Cada país quer um muro, e cada grupo dentro do país quer mais um muro, e cada pessoa no grupo vai precisar do seu próprio muro também... se não temos fronteiras, não podemos saber quem é “diferente”, e se não sabemos quem é “diferente”, não podemos saber quem é pior do que nós, e se não sabemos se alguém é pior que nós, só temos os nossos espelhos para ver os pecadores. Ai! Claro que temos medo!
É este mesmo o problema. É como disse S. Pedro: “Agora compreendo verdadeiramente que para Deus todos são iguais. Ele quer bem a todos os que respeitam e cumprem a sua vontade, sejam de que raça forem.”[19]
“...sejam de que raça forem.” As fronteiras do mundo não são de Deus. As fronteiras são feitas por homens, pecadores, e a maioria foram feitas com armas. O nosso Deus não fez os Estados Unidos: Ele fez a América do Norte. Deus não desenhou num mapa as fronteiras de Portugal—não foi Deus que deu a Galiza à Espanha. Deus, em Jesus Cristo, erradicou os muros entre os povos.
Não quero dizer que é mau, ter orgulho no seu próprio país, nem na sua cidade, ou na sua equipe (sou Portista!), ou na sua família. Eu até acho que as fronteiras entre países podem ter valor: a minha única ansiedade com a ideia da União Europeia é que Portugal e os outros países mais pequeninos podem perder as suas culturas particulares. Não quero morar em “Françamanha”: quero morar em Portugal!
Mas este orgulho nacional nunca pode ser tão forte que se torne num muro. A coisa mais importante é o Corpo de Cristo, e o Corpo de Cristo atravessa todas as fronteiras do mundo. Eu tenho muito mais em comum com qualquer um de vós do que tenho com um Americano que seja ateu. Só há uma “fronteira” com importância, que é a fronteira entre as pessoas que já são membros do Corpo e as que ainda o não são, e esta “fronteira” tem de ter sempre a porta aberta... mais, nós temos de convidar todos os que estão fora a entrar. Isto é a tarefa de que Jesus nos encarregou: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, vão e façam com que os povos se tornem meus discípulos. Baptizem as pessoas em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo ensinando-as a obedecer a tudo quanto eu tenho mandado. E saibam que estarei sempre convosco, até o fim do mundo.”[20]
Em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
[1] Efésios 2, 14-15
[2] Actos 7, 58; 8:1, 3; 9,1-2
[3] S. Mateus 4, 1
[4] Deuteronómio 6, 16: “Não tentareis o Senhor, vosso Deus, como o tentaste em Massá.”
[5] Deuteronómio 6, 13-14: “Temerás o Senhor, teu Deus, prestar-lhe-ás culto e só jurarás pelo seu nome. Não seguireis outros deuses entre os das nações que vos cercam.
[6] S. João 13, 26-27
[7] Génesis 3, 5
[8] Efésios 2,14-16
[9] Génesis 1, 3
[10] S. João 1, 1 e 3
[11] Génesis 22, 1-14
[12] Josué 10 (ou qualquer outro capítulo!)
[13] Amós 8, 6
[14] Amós 5, 21 e 24
[15] Génesis 37, 3-4, 25-28,; 42,6
[16] Êxodo 2, 1-10
[17] Deuteronómio 34, 1-12
[18] “Exodus”, por John Gray, PhD, Interpreter’s One-Volume Commentary on the Bible, 1984, 1971
[19] Actos 10, 34-35
[20] S. Mateus 28, 18-20
15o Domingo Comum, Ano B, 12 Julho 2009
150 Domingo Comum, Ano B, 12 Julho 2009
Igreja do Salvador do Mundo, V.N. de Gaia
Cón. Dr. Francisco C. Zanger
Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
Quando fui capelão militar, aprendi nos fuzileiros um modo de instruir em três passos, um modo bem eficaz: “Observe; Faça; Ensine”. Observe uma vez, para ver o que é preciso; faça uma vez, para entender como é feito, e depois ensine uma vez, porque, diziam eles, o único método de compreender verdadeiramente alguma coisa é ensiná-la aos outros.
Graças a Hollywood, todo o mundo sabe que a vida na tropa não é fácil, e nos fuzileiros — nos United States Marine Corps — pode ser até muito difícil. Mas eu, que passei onze anos nos Marine Corps e na Marinha Militar, posso dizer com toda a certeza: ter sido um dos doze Discípulos foi muito pior.
No terceiro capítulo do Evangelho de S. Marcos, o Evangelista escreveu que Jesus subiu a um monte e chamou para junto de si os seus discípulos, aqueles que quis[1]. Não sabemos quantos foram: no final do seu ministério de três anos, eram pelo menos cento e vinte[2], homens e mulheres, mas isto foi bem antes do fim. Designou de entre eles, lá na montanha, um grupo de doze homens para ficarem na sua companhia, e mais tarde enviá-los-ia a pregar, com o poder de expulsar demónios e curar enfermidades[3].
Mas antes de pregar, precisavam de ouvir e entender a Boa Nova; antes de expulsar ou curar, precisavam de ver Jesus fazer milagres. “Observe, Faça, Ensine”. E assim foi. Segundo S. Marcos, depois de serem escolhidos como apóstolos, primeiro ouviram as Parábolas do Reino, e também a razão das parábolas, as comparações, como a do Semeador [4], a parábola da Candeia[5], e as da semente e do grão de mostarda[6]. A seguir, viram Jesus fazer milagres e curas: acalmou a tempestade[7], curou um homem de Gerasa possuído com tantos demónios que lhe chamavam Multidão[8], e finalmente curou a mulher que perdia sangue[9], cuja história ouvimos o Domingo passado, e ressuscitou, no mesmo dia, a filha do Jairo[10].
Bem... e depois de tudo isto, de ouvirem as parábolas e verem os milagres, foi a sua vez! No Evangelho de São Marcos, o mais antigo dos Evangelhos, esta é a mesma ordem: ouvir, ver, fazer. Depois da cura da filha do Jairo, e uma visita a Nazaré, onde não foi bem recebido, Jesus enviou os apóstolos e enviou-os, dois a dois, para fazerem o que ele fez: pregar a Boa Nova do arrependimento dos pecados, expulsarem os demónios e curarem as enfermidades[11].
Porquê “dois a dois”? Porque nenhum deles estava a pregar e a curar por si mesmo, mas como representantes da nova comunidade de Jesus, da comunidade que, depois da Ressurreição, será a comunidade Cristã. Ainda não era: eles ainda não sabiam que Jesus não era somente o seu mestre, não era somente um profeta, nem era somente o Messias dos Judeus, mas era Deus e Filho de Deus, o mistério da Trindade. Ainda não sabiam porque não podiam. Não foi senão até à semana anterior à Transfiguração que Simão Pedro entendeu que Jesus era mesmo o Cristo, o Meshiach[12], e foi até mais tarde, depois da Ressurreição, que eles verdadeiramente entenderam: quando S. Tomé, o incrédulo, disse “Meu Senhor e meu Deus!”[13], que são as mesmas palavras que rezo quando levanto o Corpo, que foi pão, e o Cálice de Sangue, que foi vinho, em cada Culto Eucarístico.
Jesus, primeiro, escolheu os doze Apóstolos de entre todos os seus discípulos, depois ensinou-lhes com parábolas e mostrou-lhes as curas e os exorcismos dos demónios, e quando achou que estavam prontos, mandou-os, dois a dois, fazer o mesmo. Ele nunca pensou que poderiam fazer tudo quanto queriam por todo o mundo: ele próprio não pode fazer nada na sua própria aldeia! “Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa” disse, e não pode fazer ali nenhum milagre[14]. Nunca pensou que os apóstolos podessem fazer mais!
Não, em vez disso, ele deu-lhes a ordem, “Se nalgum lugar as pessoas não vos receberem ou não quiserem ouvir-vos, quando saírem dessa terra, sacudam o pó das sandálias, como aviso para essa gente.”[15] As suas responsabilidades eram só oferecer a Boa Nova, e não forçá-la.
“Observe; Faça; Ensine”. Os dois primeiros passos Jesus podia fazê-los, e necessitava de os fazer, muito cedo no seu ministério tão breve. Só teve três anos para escolher e ensinar os apóstolos, três anos em que eles precisavam de compreender uma mensagem incompreensível. Num tempo tão curto, entre seu baptismo por S. João no Rio Jordão e a Ascensão, Jesus necessitava de persuadir os seus discípulos, todos judeus, de que ele era não só um filho de Deus, mas o Filho de Deus, e que Deus também era Pai, Filho, e Espírito Santo ao mesmo tempo... mas, ainda assim, somente um Deus.
Esta ideia, que para nós é normal, era mais do que estranho: era heresia para os apóstolos. Num mundo panteísta, eles eram judeus, monoteístas. No centro da sua fé estava a Sh’má Yisroel: o seu credo, a sua prece mais importante, vinha das palavras do sexto capítulo do Livro do Deuteronómio, versículos 4 ao 9, que começa em hebreu: “Sh’má Yisroel, Adonai Elohênu, Adonai Echod”. Baruch shêm kevod malchutó leolám vaed.”[16], , ou em português, “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Bendito seja o Nome da glória do Seu reinado para todo o sempre.” E continua, “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou ficarão gravados no teu coração. Tu os inculcarás aos teus filhos, e deles falarás, quer estejas sentado em casa quer andando pelo caminho, quando te deitas e quando te levantas. Atá-los-ás à tua mão como sinal, e levá-los-ás como uma faixa frontal (“tefilin” em hebreu) diante dos teus olhos. Escrevê-los-ás nos umbrais e nas portas da tua casa[17],[18].”
A maioria dos apóstolos não eram cultos, sabiam estas palavras, porque as recitavam diariamente. E por causa disso, era-lhes bem difícil compreender que, de um lado, é verdade que só há um Deus, mas por outro, Jesus, este homem com quem eles andavam, que comia com eles, que vivia junto deles, era Deus, ou até pior, era Deus-Filho, uma das três Pessoas que eram um só Deus. Ai! Até para nós, dois mil anos depois, com milhares de teólogos a escrever livros e dissertações sobre o assunto, é impossível entender a Trindade: só concordamos com a doutrina, pela fé. Nem posso pensar como tenha sido difícil para os apóstolos ter acreditado em que Deus sendo embora ainda um só mas em três Pessoas diferentes, ao mesmo tempo que um Terço da própria Trindade andava ali ao lado deles e com eles mesmos!
Mas a fé que é necessária não vem de dentro de nós, não é “de carne nem de sangue”[19], mas é um dos dons de Deus: quer do Pai, como Jesus disse quando Simão Pedro exclamou "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!”, quer do Espírito, como S. Paulo escreveu à comunidade Cristã em Corinto[20].
Desde o início, os apóstolos entenderam que o seu Mestre, Jesus, era especial, mas foi só com o tempo que eles poderam entender tudo. Não sei, mas acho que Jesus mudou, nas mentes deles, de um mestre sábio, para um profeta poderoso, depois para o Messias dos Judeus, mas que, só finalmente, depois da Ressurreição, eles conseguiram entender, poderam crer, que Jesus era verdadeiramente Deus. Isso não se deveu somente à Ressurreição em si mesma, mas também porque, nos cinquenta dias anteriores à Ascensão, Ele passou tempo com eles, mostrando não somente milagres, como passando por portas fechadas[21], ou colocando cento e cinquenta e três peixes grandes na sua rede quando eles nem tinham apanhado uma só sardinhita a noite inteira[22], mas, e muito mais importante, mostrando o Seu amor.
Quando Cleófas, que era o marido de Maria, a irmã da Virgem Maria, e o pai do S. Tiago e de José[23], e o outro discípulo caminhavam para Emaús, ambos tão tristes, Jesus andou com eles e ensinou-lhes as Escrituras, mas foi somente quando Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes entregou, só quando celebrou a Eucaristia, é que eles “reconheceram o Senhor ao partir o pão”. Jesus ensinou-lhes sobre a fé, mas também os alimentou, porque nós precisamos das duas coias, a alma e o corpo.
Quando os apóstolos e os discípulos, cheios de medo, estavam com as portas fechadas, Jesus não só passou pela porta fechada para lhes dar o Espírito Santo, dando-lhes o poder de perdoar os pecados[24], como também comeu com eles: mais uma vez, a alma e o corpo.
Quando S. Tomé, que não estava lá quando Jesus aparaceu pela primeira vez, não acreditou que o seu Mestre, o seu amigo, podia estar vivo de novo, Jesus voltou, foi primeiro a Tomé e disse-lhe: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé!”[25], e assim, deixou Tomé em paz sobre as suas dúvidas. Para Tomé, o tocar do Corpo curou-lhe a alma.
Jesus cozinhou peixe para os apóstolos pescadores e, depois, do milagre da rede cheia de peixes, de Pedro exigiu um tríplice protesto de amor (“Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?” “Sim, Senhor, tu sabes que te amo” “Apascenta os meus cordeiros”)[26], um tríplice protesto de amor que anulou as três negações de Pedro antes da Crucifixão. Mais uma vez, alimentou corpo e alma.
De cada vez, mostrou o seu poder; de cada vez, mostrou o seu amor. E eles precisavam deste amor, porque depois da Ascensão, depois do Pentecostes, precisavam de guiar a Igreja nascente. Não foi nada fácil: nos primeiros anos, foram perseguidos pelos judeus, e depois pelos Romanos. Foi o tempo do terceiro passo do “Observe; Faça; Ensine”. Como apóstolos de Jesus, eles tinham feito os primeiros dois: agora, precisavam fazer o terceiro: ensinar outros na Fé Cristã.
E, com a ajuda do Espírito, a Igreja cresceu rapidamente, até todos os cantos do Império Romano. Antes da comunicação em massa, antes dos telefones ou radio ou televisão ou internet, antes da invenção dos aviões ou comboios ou carros, a propagação da Boa Nova tocou almas e mentes da Palestina para oeste até o Egipto, a Líbia e Trípoli (que agora se chama Marrocos), para o leste até à Índia, e para o norte e noroeste até Antioquia na Síria, a Galácia e Capadócia, a Filadélfia e Éfeso na Turquia moderna, a Corinto e Atenas na Grécia, a Tessalônica e Filipos na Macedónia, à Sicília e Roma em Itália, e até à França e Espanha... nas primeiras três centenas de anos! E tudo isso com uma religião que não só era estranha, pois falava de “comer o Corpo e beber o Sangue de Deus”, mas também era ilegal, e perseguida pelas autoridades!
Ouçam a diferença: “Mãe, não quero ir à Escola Dominical, porque quero ir à praia!”, ou “Mãe, não quero ir à Escola Dominical, porque não quero ser torturado com óleo a ferver e depois comido por animais selvagens!”. Mas a Igreja cresceu, e cresceu.
Não foi fácil, claro. Dos doze Apóstolos originais, somente um morreu na cama. Um, o traidor Judas, suicidou-se[27], cheio de arrependimento e tristeza, e todos os outros, menos S. João, que tomou conta da Virgem Maria[28], sofreram o martírio pela Fé: SS. Pedro e Paulo, segundo a tradição, ao mesmo tempo em Roma, com Pedro crucificado de pernas para o ar e Paulo decapitado com uma espada[29] pelo Imperador Nero, S. Tiago Maior foi martirizado pelo Rei Herodes Agrippa com uma espada, e S. Tiago Menor apedrejado em frente do altar em Jerusalém3 e André crucificado numa cruz em forma de ‘X’, S. Tomé, na Índia, e os outros quatro de maneiras também horríveis. Não foi fácil, nem para os Doze, nem para os outros discípulos de Cristo Jesus.
Não foi fácil ser Cristão, mas eles sabiam que valia a pena. Sabiam, porque tinham uma relação especial com o Senhor. Eles sabiam que este mundo nunca irá ser perfeito, mas também não era seu: esperavam, com esperança e alegria, pelo mundo que há-de vir. E também, quer aqui quer no mundo que há-de vir, tinham uma relação especial com Deus: uma relação diferente da das outras religiões. Tinham, e nós também temos, uma coisa maravilhosa: Jesus disse, “Vocês são meus amigos se fizeram aquilo que eu vos mando. Agora já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo quanto aprendi do meu Pai.[30]
“Chamo-vos amigos”??? Deus chama-me “amigo”, eu que nem mereço ser o servo do Senhor? Isso é uma maravilha incompreensível... e é também o centro, o coração da nossa Fé. Nós não somos somente os servos do Senhor, nem somente crentes: nós somos, pelo amor de Cristo, o Corpo de Cristo. Este amor é uma coisa grande de mais para que a compreendamos: só podemos aceitar. Aceitar, e responder. E a única resposta a este amor é, também... amor. Amor por Deus, e amor pelo seu Corpo no mundo, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, o amor por toda a Criação de Deus.
Em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
[1] S. Marcos 3, 13-19, S. Mateus 10, 1-4, S. Lucas 6, 12-16
[2] Actos 13, 15
[3] S. Marcos 3, 14-15
[4] S. Marcos 4, 1-20; S. Mateus 13, 1-23; S. Lucas 8, 4-15
[5] S. Marcos 4, 21-25; S. Lucas 8, 16-18
[6] S. Marcos 4, 26-29; S. Marcos 4, 30-34; S. Mateus 13, 31-32; S. Lucas 13, 18-19
[7] S. Marcos 4, 35-41; S. Mateus 8, 23-27; S. Lucas 8, 22-25
[8] S. Marcos 5, 1-18; S. Mateus 8, 28-34; S. Lucas 8, 26-39
[9] S. Marcos 5, 25-34, S. Mateus 9, 20-22; S. Lucas 8, 43-48-39
[10] S. Marcos 5, 35-43
[11] S. Mateus 6, 7-13
[12] S. Marcos 8, 27-30; S. Mateus 16, 13-20; S. Lucas
[13] S. João 20, 28
[14] S. Marcos 6, 4-5
[15] S. Marcos 6, 11
[16] El Cajon (CA) City Police Department Chaplaincy Manual, por Capelão Dr. Francis C. Zanger, 2000
[17] e continua: Veahavtá êt Adonai Elohecha, bechol levavechá, uv’chol nafshechá, uv’chol meodêcha. Vehaiú hadevarím haêle, asher anochí metsavechá haiom al levavêcha. Veshinan’tám levanêcha vedibartá bam, beshivtechá bevetecha, uv’lechtechá vaderech, uv’shoch’bechá uvcumecha. Uk’shartam leot al iadecha, vehaiú letotafot bên enêcha. Uchtavtám al mezuzot betecha, uvish’arecha. Numerosos judeus recitam-nos ao menos duas vezes por dia, e capelães da tropa americana (de qualquer religião) digam-nos aos fuzileiros e soldados judeus antes da sua morte em combate. * Os primeiros versículos são também o começo dos Mandamentos, na p. 144 da nossa Liturgia da Igreja Lusitana.
[18] Deuteronómio 6, 5-9
[19] S, Mateus 16, 17
[20] 1 Coríntios 12, 9
[21] S. João 20, 19
[22] S. João 21, 3-12
[23] S. Marcos 15, 40, 47, e 16, 1; S. João 19, 25; S. Mateus 27, 56
[24] S. João 20, 22-23
[25] S. João 20, 27-28
[26] S. João 21, 15-18
[27] S. Mateus 27,5
[28] S. João 19, 25-27
[29] Scorfiace, Capítulo XV, por Tertullian , Ano 145-220, de ‘Writings of the Ante-Nicene Fathers, Volume 3’
[30] S. João 15, 15
Igreja do Salvador do Mundo, V.N. de Gaia
Cón. Dr. Francisco C. Zanger
Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
Quando fui capelão militar, aprendi nos fuzileiros um modo de instruir em três passos, um modo bem eficaz: “Observe; Faça; Ensine”. Observe uma vez, para ver o que é preciso; faça uma vez, para entender como é feito, e depois ensine uma vez, porque, diziam eles, o único método de compreender verdadeiramente alguma coisa é ensiná-la aos outros.
Graças a Hollywood, todo o mundo sabe que a vida na tropa não é fácil, e nos fuzileiros — nos United States Marine Corps — pode ser até muito difícil. Mas eu, que passei onze anos nos Marine Corps e na Marinha Militar, posso dizer com toda a certeza: ter sido um dos doze Discípulos foi muito pior.
No terceiro capítulo do Evangelho de S. Marcos, o Evangelista escreveu que Jesus subiu a um monte e chamou para junto de si os seus discípulos, aqueles que quis[1]. Não sabemos quantos foram: no final do seu ministério de três anos, eram pelo menos cento e vinte[2], homens e mulheres, mas isto foi bem antes do fim. Designou de entre eles, lá na montanha, um grupo de doze homens para ficarem na sua companhia, e mais tarde enviá-los-ia a pregar, com o poder de expulsar demónios e curar enfermidades[3].
Mas antes de pregar, precisavam de ouvir e entender a Boa Nova; antes de expulsar ou curar, precisavam de ver Jesus fazer milagres. “Observe, Faça, Ensine”. E assim foi. Segundo S. Marcos, depois de serem escolhidos como apóstolos, primeiro ouviram as Parábolas do Reino, e também a razão das parábolas, as comparações, como a do Semeador [4], a parábola da Candeia[5], e as da semente e do grão de mostarda[6]. A seguir, viram Jesus fazer milagres e curas: acalmou a tempestade[7], curou um homem de Gerasa possuído com tantos demónios que lhe chamavam Multidão[8], e finalmente curou a mulher que perdia sangue[9], cuja história ouvimos o Domingo passado, e ressuscitou, no mesmo dia, a filha do Jairo[10].
Bem... e depois de tudo isto, de ouvirem as parábolas e verem os milagres, foi a sua vez! No Evangelho de São Marcos, o mais antigo dos Evangelhos, esta é a mesma ordem: ouvir, ver, fazer. Depois da cura da filha do Jairo, e uma visita a Nazaré, onde não foi bem recebido, Jesus enviou os apóstolos e enviou-os, dois a dois, para fazerem o que ele fez: pregar a Boa Nova do arrependimento dos pecados, expulsarem os demónios e curarem as enfermidades[11].
Porquê “dois a dois”? Porque nenhum deles estava a pregar e a curar por si mesmo, mas como representantes da nova comunidade de Jesus, da comunidade que, depois da Ressurreição, será a comunidade Cristã. Ainda não era: eles ainda não sabiam que Jesus não era somente o seu mestre, não era somente um profeta, nem era somente o Messias dos Judeus, mas era Deus e Filho de Deus, o mistério da Trindade. Ainda não sabiam porque não podiam. Não foi senão até à semana anterior à Transfiguração que Simão Pedro entendeu que Jesus era mesmo o Cristo, o Meshiach[12], e foi até mais tarde, depois da Ressurreição, que eles verdadeiramente entenderam: quando S. Tomé, o incrédulo, disse “Meu Senhor e meu Deus!”[13], que são as mesmas palavras que rezo quando levanto o Corpo, que foi pão, e o Cálice de Sangue, que foi vinho, em cada Culto Eucarístico.
Jesus, primeiro, escolheu os doze Apóstolos de entre todos os seus discípulos, depois ensinou-lhes com parábolas e mostrou-lhes as curas e os exorcismos dos demónios, e quando achou que estavam prontos, mandou-os, dois a dois, fazer o mesmo. Ele nunca pensou que poderiam fazer tudo quanto queriam por todo o mundo: ele próprio não pode fazer nada na sua própria aldeia! “Um profeta só é desprezado na sua pátria, entre os seus parentes e na sua própria casa” disse, e não pode fazer ali nenhum milagre[14]. Nunca pensou que os apóstolos podessem fazer mais!
Não, em vez disso, ele deu-lhes a ordem, “Se nalgum lugar as pessoas não vos receberem ou não quiserem ouvir-vos, quando saírem dessa terra, sacudam o pó das sandálias, como aviso para essa gente.”[15] As suas responsabilidades eram só oferecer a Boa Nova, e não forçá-la.
“Observe; Faça; Ensine”. Os dois primeiros passos Jesus podia fazê-los, e necessitava de os fazer, muito cedo no seu ministério tão breve. Só teve três anos para escolher e ensinar os apóstolos, três anos em que eles precisavam de compreender uma mensagem incompreensível. Num tempo tão curto, entre seu baptismo por S. João no Rio Jordão e a Ascensão, Jesus necessitava de persuadir os seus discípulos, todos judeus, de que ele era não só um filho de Deus, mas o Filho de Deus, e que Deus também era Pai, Filho, e Espírito Santo ao mesmo tempo... mas, ainda assim, somente um Deus.
Esta ideia, que para nós é normal, era mais do que estranho: era heresia para os apóstolos. Num mundo panteísta, eles eram judeus, monoteístas. No centro da sua fé estava a Sh’má Yisroel: o seu credo, a sua prece mais importante, vinha das palavras do sexto capítulo do Livro do Deuteronómio, versículos 4 ao 9, que começa em hebreu: “Sh’má Yisroel, Adonai Elohênu, Adonai Echod”. Baruch shêm kevod malchutó leolám vaed.”[16], , ou em português, “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Bendito seja o Nome da glória do Seu reinado para todo o sempre.” E continua, “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou ficarão gravados no teu coração. Tu os inculcarás aos teus filhos, e deles falarás, quer estejas sentado em casa quer andando pelo caminho, quando te deitas e quando te levantas. Atá-los-ás à tua mão como sinal, e levá-los-ás como uma faixa frontal (“tefilin” em hebreu) diante dos teus olhos. Escrevê-los-ás nos umbrais e nas portas da tua casa[17],[18].”
A maioria dos apóstolos não eram cultos, sabiam estas palavras, porque as recitavam diariamente. E por causa disso, era-lhes bem difícil compreender que, de um lado, é verdade que só há um Deus, mas por outro, Jesus, este homem com quem eles andavam, que comia com eles, que vivia junto deles, era Deus, ou até pior, era Deus-Filho, uma das três Pessoas que eram um só Deus. Ai! Até para nós, dois mil anos depois, com milhares de teólogos a escrever livros e dissertações sobre o assunto, é impossível entender a Trindade: só concordamos com a doutrina, pela fé. Nem posso pensar como tenha sido difícil para os apóstolos ter acreditado em que Deus sendo embora ainda um só mas em três Pessoas diferentes, ao mesmo tempo que um Terço da própria Trindade andava ali ao lado deles e com eles mesmos!
Mas a fé que é necessária não vem de dentro de nós, não é “de carne nem de sangue”[19], mas é um dos dons de Deus: quer do Pai, como Jesus disse quando Simão Pedro exclamou "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!”, quer do Espírito, como S. Paulo escreveu à comunidade Cristã em Corinto[20].
Desde o início, os apóstolos entenderam que o seu Mestre, Jesus, era especial, mas foi só com o tempo que eles poderam entender tudo. Não sei, mas acho que Jesus mudou, nas mentes deles, de um mestre sábio, para um profeta poderoso, depois para o Messias dos Judeus, mas que, só finalmente, depois da Ressurreição, eles conseguiram entender, poderam crer, que Jesus era verdadeiramente Deus. Isso não se deveu somente à Ressurreição em si mesma, mas também porque, nos cinquenta dias anteriores à Ascensão, Ele passou tempo com eles, mostrando não somente milagres, como passando por portas fechadas[21], ou colocando cento e cinquenta e três peixes grandes na sua rede quando eles nem tinham apanhado uma só sardinhita a noite inteira[22], mas, e muito mais importante, mostrando o Seu amor.
Quando Cleófas, que era o marido de Maria, a irmã da Virgem Maria, e o pai do S. Tiago e de José[23], e o outro discípulo caminhavam para Emaús, ambos tão tristes, Jesus andou com eles e ensinou-lhes as Escrituras, mas foi somente quando Ele tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes entregou, só quando celebrou a Eucaristia, é que eles “reconheceram o Senhor ao partir o pão”. Jesus ensinou-lhes sobre a fé, mas também os alimentou, porque nós precisamos das duas coias, a alma e o corpo.
Quando os apóstolos e os discípulos, cheios de medo, estavam com as portas fechadas, Jesus não só passou pela porta fechada para lhes dar o Espírito Santo, dando-lhes o poder de perdoar os pecados[24], como também comeu com eles: mais uma vez, a alma e o corpo.
Quando S. Tomé, que não estava lá quando Jesus aparaceu pela primeira vez, não acreditou que o seu Mestre, o seu amigo, podia estar vivo de novo, Jesus voltou, foi primeiro a Tomé e disse-lhe: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé!”[25], e assim, deixou Tomé em paz sobre as suas dúvidas. Para Tomé, o tocar do Corpo curou-lhe a alma.
Jesus cozinhou peixe para os apóstolos pescadores e, depois, do milagre da rede cheia de peixes, de Pedro exigiu um tríplice protesto de amor (“Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?” “Sim, Senhor, tu sabes que te amo” “Apascenta os meus cordeiros”)[26], um tríplice protesto de amor que anulou as três negações de Pedro antes da Crucifixão. Mais uma vez, alimentou corpo e alma.
De cada vez, mostrou o seu poder; de cada vez, mostrou o seu amor. E eles precisavam deste amor, porque depois da Ascensão, depois do Pentecostes, precisavam de guiar a Igreja nascente. Não foi nada fácil: nos primeiros anos, foram perseguidos pelos judeus, e depois pelos Romanos. Foi o tempo do terceiro passo do “Observe; Faça; Ensine”. Como apóstolos de Jesus, eles tinham feito os primeiros dois: agora, precisavam fazer o terceiro: ensinar outros na Fé Cristã.
E, com a ajuda do Espírito, a Igreja cresceu rapidamente, até todos os cantos do Império Romano. Antes da comunicação em massa, antes dos telefones ou radio ou televisão ou internet, antes da invenção dos aviões ou comboios ou carros, a propagação da Boa Nova tocou almas e mentes da Palestina para oeste até o Egipto, a Líbia e Trípoli (que agora se chama Marrocos), para o leste até à Índia, e para o norte e noroeste até Antioquia na Síria, a Galácia e Capadócia, a Filadélfia e Éfeso na Turquia moderna, a Corinto e Atenas na Grécia, a Tessalônica e Filipos na Macedónia, à Sicília e Roma em Itália, e até à França e Espanha... nas primeiras três centenas de anos! E tudo isso com uma religião que não só era estranha, pois falava de “comer o Corpo e beber o Sangue de Deus”, mas também era ilegal, e perseguida pelas autoridades!
Ouçam a diferença: “Mãe, não quero ir à Escola Dominical, porque quero ir à praia!”, ou “Mãe, não quero ir à Escola Dominical, porque não quero ser torturado com óleo a ferver e depois comido por animais selvagens!”. Mas a Igreja cresceu, e cresceu.
Não foi fácil, claro. Dos doze Apóstolos originais, somente um morreu na cama. Um, o traidor Judas, suicidou-se[27], cheio de arrependimento e tristeza, e todos os outros, menos S. João, que tomou conta da Virgem Maria[28], sofreram o martírio pela Fé: SS. Pedro e Paulo, segundo a tradição, ao mesmo tempo em Roma, com Pedro crucificado de pernas para o ar e Paulo decapitado com uma espada[29] pelo Imperador Nero, S. Tiago Maior foi martirizado pelo Rei Herodes Agrippa com uma espada, e S. Tiago Menor apedrejado em frente do altar em Jerusalém3 e André crucificado numa cruz em forma de ‘X’, S. Tomé, na Índia, e os outros quatro de maneiras também horríveis. Não foi fácil, nem para os Doze, nem para os outros discípulos de Cristo Jesus.
Não foi fácil ser Cristão, mas eles sabiam que valia a pena. Sabiam, porque tinham uma relação especial com o Senhor. Eles sabiam que este mundo nunca irá ser perfeito, mas também não era seu: esperavam, com esperança e alegria, pelo mundo que há-de vir. E também, quer aqui quer no mundo que há-de vir, tinham uma relação especial com Deus: uma relação diferente da das outras religiões. Tinham, e nós também temos, uma coisa maravilhosa: Jesus disse, “Vocês são meus amigos se fizeram aquilo que eu vos mando. Agora já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. Chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo quanto aprendi do meu Pai.[30]
“Chamo-vos amigos”??? Deus chama-me “amigo”, eu que nem mereço ser o servo do Senhor? Isso é uma maravilha incompreensível... e é também o centro, o coração da nossa Fé. Nós não somos somente os servos do Senhor, nem somente crentes: nós somos, pelo amor de Cristo, o Corpo de Cristo. Este amor é uma coisa grande de mais para que a compreendamos: só podemos aceitar. Aceitar, e responder. E a única resposta a este amor é, também... amor. Amor por Deus, e amor pelo seu Corpo no mundo, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica, o amor por toda a Criação de Deus.
Em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
[1] S. Marcos 3, 13-19, S. Mateus 10, 1-4, S. Lucas 6, 12-16
[2] Actos 13, 15
[3] S. Marcos 3, 14-15
[4] S. Marcos 4, 1-20; S. Mateus 13, 1-23; S. Lucas 8, 4-15
[5] S. Marcos 4, 21-25; S. Lucas 8, 16-18
[6] S. Marcos 4, 26-29; S. Marcos 4, 30-34; S. Mateus 13, 31-32; S. Lucas 13, 18-19
[7] S. Marcos 4, 35-41; S. Mateus 8, 23-27; S. Lucas 8, 22-25
[8] S. Marcos 5, 1-18; S. Mateus 8, 28-34; S. Lucas 8, 26-39
[9] S. Marcos 5, 25-34, S. Mateus 9, 20-22; S. Lucas 8, 43-48-39
[10] S. Marcos 5, 35-43
[11] S. Mateus 6, 7-13
[12] S. Marcos 8, 27-30; S. Mateus 16, 13-20; S. Lucas
[13] S. João 20, 28
[14] S. Marcos 6, 4-5
[15] S. Marcos 6, 11
[16] El Cajon (CA) City Police Department Chaplaincy Manual, por Capelão Dr. Francis C. Zanger, 2000
[17] e continua: Veahavtá êt Adonai Elohecha, bechol levavechá, uv’chol nafshechá, uv’chol meodêcha. Vehaiú hadevarím haêle, asher anochí metsavechá haiom al levavêcha. Veshinan’tám levanêcha vedibartá bam, beshivtechá bevetecha, uv’lechtechá vaderech, uv’shoch’bechá uvcumecha. Uk’shartam leot al iadecha, vehaiú letotafot bên enêcha. Uchtavtám al mezuzot betecha, uvish’arecha. Numerosos judeus recitam-nos ao menos duas vezes por dia, e capelães da tropa americana (de qualquer religião) digam-nos aos fuzileiros e soldados judeus antes da sua morte em combate. * Os primeiros versículos são também o começo dos Mandamentos, na p. 144 da nossa Liturgia da Igreja Lusitana.
[18] Deuteronómio 6, 5-9
[19] S, Mateus 16, 17
[20] 1 Coríntios 12, 9
[21] S. João 20, 19
[22] S. João 21, 3-12
[23] S. Marcos 15, 40, 47, e 16, 1; S. João 19, 25; S. Mateus 27, 56
[24] S. João 20, 22-23
[25] S. João 20, 27-28
[26] S. João 21, 15-18
[27] S. Mateus 27,5
[28] S. João 19, 25-27
[29] Scorfiace, Capítulo XV, por Tertullian , Ano 145-220, de ‘Writings of the Ante-Nicene Fathers, Volume 3’
[30] S. João 15, 15
14o Domingo Comum, Ano B, 05 Julho 2009
14o Domingo Comum, Ano B, 05 Julho 2009
Igreja do Redentor, Porto
Cón. Dr. Francisco C. Zanger
Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
Não somente ainda não vi o novo filme “O Exterminador”, o quarto ou quinto filme da série o Exterminador Implacável: nem sequer o quero ver. Não preciso, com a minha coluna, de me sentar durante quase duas horas num cinema para ver o Arnold Schwarzenegger, de quem não gosto, nem como actor nem como político, nem para ver os ciborgues a bater nos outros robôs ou nas pessoas. Chatices como estas não me interessam. Após tantos anos como capelão, quer da tropa quer dos bombeiros, já vi todas as explosões que preciso, ao vivo. Já vi as vítimas dos desastres, dos acidentes. Para mim, não é divertimento.
Mas, entendo a atracção. Como tantos filmes, é a força que é importante: os heróis precisam de usar toda a sua força (e talvez um pouco de inteligência) para obrigarem os vilões robotizados a retroceder... até a próxima sequência da série.
É um filme do tipo popular... a violência é sempre popular. No cinema, os protagonistas são fortes e atraentes, preparados para combater força com força, para ganhar a luta ou a história heróica. São os ‘James Bonds’ do mundo do cinema.
Nos últimos anos, o site do Superman e do Batman aumentou para incluir outras personagens “super”, como o Wolverine e Ironman (Homen do Ferro) e outros mutantes, e também os heróis e inimigos mecânicos, como os Exterminadores e os Autobots e Decepeticons dos Transformers, mas é sempre a mesma coisa. Os heróis usam a força para o bem e os inimigos para o mal, mas todos usam a força... eu nunca soube de um ‘Super-herói de Fraqueza’. “Homem-Aranha”, sim. “Homem-Franzino”, não.
E não é só na cultura popular. O que é que há de valor no mundo? Quando pensamos nos países mais importantes do mundo, não pensamos nos países que melhor tratam os seus povos, mas naqueles que têm mais bombas, os exércitos maiores, ou que são os mais ricos. Mas o que vale esta riqueza, se há pessoas sem pão na mesa?
O que é que há de valor no mundo? Quando pensamos nas pessoas mais importantes, em quem pensamos nós? Nas pessoas com poder, como os políticos, os Obamas e Sócrates e todos os que têm poder político, os que mandam em orçamentos e exércitos, que podem tomar decisões, que mudam a economia ou começam as guerras? Ou talvez naqueles que mandam nas corporações multinacionais, que podem mudar as fábricas da Europa e da América do Norte para a China e a Indonésia para aumentarem os seus lucros brutos, deixando milhares de pessoas sem emprego, e que nem pensam no clima se o lucro for suficientemente vantajoso?
O que é que há de valor no mundo? Talvez os melhores jogadores de futebol, como Bruno Alves ou Ronaldo ou Kaká, eles que ganham mais dinheiro em noventa minutos do que uma professora ou um enfermeiro conseguem ganhar num ano? Ou talvez pensemos nos actores portuguesas como Pedro Alves e Carla Salgueiro, Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira, ou nos actores internacionais como o Tom Cruise, Julia Roberts e Penelope Cruz? Pensamos nos “stars” da música, quer grupos como Madredeus ou Mariza quer grupos de “hard rock” como as bandas Metallica e Guns-n-Roses americanas, ou bandas portuguesas como Ibéria ou “us&them” de Gaia?
O que é que há de valor no mundo? Ser famoso não é exactamente a mesma coisa que ter poder militar, mas é ainda ter poder. É bem fácil compreender que a coisa que tem mais valor na nossa cultura... a coisa que dá mais valor na nossa cultura... é o poder. É necessário ter poder para ser rico; é necessário ser rico para ter poder. É necessário ser poderoso, ou famoso, ou rico, se se quer ter qualquer valor na nossa cultura, no nosso mundo.
Bem. Então, como é que nós podemos entender a leitura da Segunda Epístola aos Coríntios? S. Paulo, o “Super-Apóstolo”, que venceu três naufrágios, tareias e prisões[1]... como é que ele pôde escrever: “De mim não me quero orgulhar, a não ser das minhas fraquezas.” ‘...das minhas fraquezas’??? O quê?
Há muitas diferenças, claro, entre a nossa cultura moderna e a cultura do primeiro século, quando S. Paulo escreveu as suas Epístolas. Mas num pormenor, a nossa cultura não é tão diferente do que a do primeiro século: acreditamos no poder, damos honra à potência.
E aqui, temos S. Paulo, um dos mais corajosos dos apóstolos, que viajou da Palestina até à Síria e à Turquia, de Creta à Grécia e à Macedónia, Itália e Espanha, que pregou a Boa Nova de Jesus Cristo apesar de ter sido encarcerado[2], flagelado três vezes com varas pelos romanos[3] e cinco vezes recebeu as trinta e nove chicotadas dos judeus, e até foi apedrejado[4], passou uma noite inteira no mar depois de um dos naufrágios, viveu com fome e sede, frio e falta de roupa[5], e tudo isto sem parar de evangelizar... ele foi mais heróico do que qualquer Indiana Jones ou James Bond! Como é que um homem como este pode dizer “Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas”: um homem que fez tanto, que parece tão forte... mas ainda assim só quer orgulhar-se na sua fraqueza?
É difícil entender isto. Mas temos de nos lembrar, Paulo não habitava no mundo criado por Hollywood, mas no mundo criado por Deus. Não só pregou a Boa Nova, mas acreditou na Boa Nova de Jesus Cristo: de Jesus Cristo. Qualquer tipo de heroísmo que tivesse feito não significava nada em comparação com a Boa Nova, e com a estima que tinha a Jesus Cristo: “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte na Cruz.[6]”
Quando falamos de força, não só do corpo mas de vontade de Paulo, que sobreviveu a tanto, precisamos de nos lembrar, como ele, que a sua força não foi nada quando pensamos em Cristo. Jesus, o Verbo Divino que estava no princípio junto de Deus na Criação, Jesus, que era verdadeiramente Deus, aceitou tornar-se humano, parte da Sua própria Criação, e foi concebido pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, ela, que os Ortodoxos chamam Theotokos, a ‘Portadora de Deus’. Jesus, que poderia nascer como rei, como imperador se tivesse querido, nasceu numa família trabalhadora, uma família ‘normal’, uma família que nem tinha dinheiro para o sacrifício maior do Serviço da Purificação quando José e Maria levaram Jesus ao Templo pela primeira vez.[7]
Se Jesus, que era Deus, abrangeu a fraqueza humana, Paulo não podia gabar-se da sua proeza! Paulo, que queria seguir o Senhor em todas coisas, só podia orgulhar-se da sua fraqueza, porque foi a fraqueza e a humildade o que Jesus mostrou como o Seu caminho, e porque foi com a Sua fraqueza, a humilhação nas mãos dos soldados romanos[8], a tortura da Cruz, e a morte—a morte!—de Deus, que Jesus Cristo venceu sobre a morte[9], e ganhou para nós a vida eterna[10].
Vivemos num mundo paradoxal. Os governos do mundo pagam mais pelas armas, que matam, do que pela comida para os seus povos, que dá a vida. Com o seu novo contrato com Real Madrid, Cristiano Ronaldo (que é o melhor jogador do mundo), vai ganhar mais dinheiro do que todas as enfermeiras no Hospital de São João... eu não fiz as contas, mas talvez mais do que todas as enfermeiras dos hospitais e todos os professores no Porto! Eu sei que o futebol é importante (não, é muito importante), mas porque pagamos aos jogadores de futebol (ou basebol, ou futebol Americano, que odeio), porque pagamos aos actores de cinema, porque pagamos aos directores gerais das companhias de Wall Street, muito mais do que às pessoas que salvam as nossas vidas, ou ensinam as nossas crianças?
Há uma razão. O mundo está dividido, rasgado pelo pecado. É o pecado que diz “Poder é tudo!”. É o pecado que diz que as pessoas que nos divertem têm mais valor do que as que nos alimentam ou ensinam ou cuidam. É o pecado que diz que a única ‘cruz’ com importância é ou Penelope ou Tom, e não a Cruz do Gólgota; que os Madredeus têm mais valor do que a Mãe de Deus. É pecado; é o pecado do mundo. Nada mudou desde o tempo em que a serpente convidou Eva e Adão para comer um lanche de fruta, lá no Jardim do Éden.
E nada vai mudar, neste mundo de trevas. Mas este mundo não é nosso: nós somos baptizados, para passar das trevas para a luz, do mundo para o Corpo de Cristo. Nós passamos por este mundo, sabendo que temos muito trabalho para fazer durante o tempo que cá passamos, mas sabemos também que só passamos: a nossa pátria verdadeira está no mundo que há-de vir. Sabemos disso: Jesus disse, falando sobre os seus discípulos e sobre todos nós que O seguirmos: “Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal. Eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Santifica-os pela verdade. A Tua palavra é a verdade. Como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os envio.”[11]
Como individuos neste mundo, nós não temos poder, somos fracos. Somos pessoas normais, e não primeiros-ministros, ou jogadores de futebol, ou actores de Hollywood, ou directores de corporações multinacionais. Não temos importância nenhuma no mundo.
Não faz mal. Não precisamos de importância neste mundo: somos membros do Corpo de Cristo. Somos fracos, como individuos, claro. Uns de nós somos muito fracos, e precisamos de ajuda; outros somos mais fortes, e podemos ajudar. É nisto mesmo que está a força do Corpo de Cristo: não somos individuos sozinhos, mas somos partes de uma coisa maior do que todos nós. O Corpo de Cristo não é somente os membros desta paróquia, ou da Igreja Lusitana ou a Comunhão Anglicana. Nem é somente todos os membros da Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica, com todos os Anglicanos e Católicos Romanos e Ortodoxos do mundo. É tudo isto, claro, mas, porque Cristo existe no “tempo de Deus”, ou Kairos em grego, fora do tempo humano, que se chama Chronos, o Corpo de Cristo também existe fora do tempo humano. Todos os cristãos que foram baptizados durante os dois mil anos, desde o primeiro Pentecostes, são partes do Corpo, e todos os mortos que aceitaram o Senhor durante os três dias que Jesus esteve no lugar dos mortos[12] são partes da tal nuvem de testemunhas de que estamos cercados[13].
É por isso que não precisamos da ‘força’ deste mundo: a nossa ‘força’, que é do Espírito, é maior. Nós temos uma coisa que o mundo não tem. Temos esperança. Sabemos que este mundo não é tudo o que há, e temos esperança no mundo que há-de vir.
Mas, ainda temos de morar aqui, por enquanto. É por isso que também temos o Corpo de Cristo, porque nós podemos fazer muito mais, juntos na fé, do que poderíamos fazer, cada por si. O nosso modelo vem do livro dos Actos dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma.”[14] Na altura, a comunidade dos crentes era ainda bem pequena, com menos de duzentos fiéis[15], e entendo que talvez o versículo seguinte seja um pouco forte demais para nós agora: “Nenhum deles dizia que os seus bens eram apenas seus, mas punham todo em comum”.[16] Com todos os crentes do mundo, isso seria mais do que difícil, mas não podemos fugir desta ideia bíblica, que cada um de nós tem uma responsabilidade para com os outros membros do Corpo.
Esta responsabilidade não deve ser financeira, claro. Há muitas outras coisas que são necessárias. Há pessoas, aqui nesta paróquia, na nossa cidade, na nossa Igreja Lusitana, no nosso mundo, que precisam de amizade, que precisam de um pouco de ajuda com qulaquer coisa, que precisam de oração. E há, também, membros do Corpo de Cristo, nossos irmãos e irmãs, que não têm pão na mesa, neste tempo de crise. Ninguém pode fazer tudo, mas juntos, não há nada que não possamos fazer.
E isto é a verdade, não porque unidos, nós possamos fazer mais... isto é a parte menor. Só o facto de serem “unidos” não resultou com os comunistas na Rússia, quando eles tentaram. Mas nós não somos somente um corpo: somos o Corpo de Cristo.
O que é que há de valor no mundo? O Corpo de Cristo, que não somos só nós, nem nós e a tal nuvem das testemunhas, mas todos nós e Jesus Cristo, verdadeiro Deus, sentado à direita do Pai. Nós precisamos de muito, mas não conseguimos fazê-lo. Mas “para Deus, não há nada impossível!”[17]
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen
Notas:
[1] 2 Coríntios 11, 25b
[2] Actos 24, 27
[3] Actos 16, 23
[4] Actos 14, 19
[5] 2 Coríntios 11, 23-28
[6] Filipenses 2, 5-8
[7] Levítico 12, 6-8
[8] S. Mateus 27, 26-31; S. Marcos 15, 15-19; S. Lucas 22, 63-64; S. João 19, 1-4
[9] S. Mateus 27, 24-27, 51-53; Actos 2, 24, 31-36; Romanos 6, 3-11
[10] Romanos 6, 22-23; 1 Timóteo 1, 16,; 1 João 511-12
[11] S. João 17, 15-18
[12] Credo dos Apóstolos, Liturgia da Igreja Lusitana, p. 254
[13] Hebreus 11, 32 – 12, 1
[14] Actos 4, 32
[15] Actos 1, 15
[16] Actos 4, 33
[17] S. Lucas, 1, 37
Igreja do Redentor, Porto
Cón. Dr. Francisco C. Zanger
Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.
Não somente ainda não vi o novo filme “O Exterminador”, o quarto ou quinto filme da série o Exterminador Implacável: nem sequer o quero ver. Não preciso, com a minha coluna, de me sentar durante quase duas horas num cinema para ver o Arnold Schwarzenegger, de quem não gosto, nem como actor nem como político, nem para ver os ciborgues a bater nos outros robôs ou nas pessoas. Chatices como estas não me interessam. Após tantos anos como capelão, quer da tropa quer dos bombeiros, já vi todas as explosões que preciso, ao vivo. Já vi as vítimas dos desastres, dos acidentes. Para mim, não é divertimento.
Mas, entendo a atracção. Como tantos filmes, é a força que é importante: os heróis precisam de usar toda a sua força (e talvez um pouco de inteligência) para obrigarem os vilões robotizados a retroceder... até a próxima sequência da série.
É um filme do tipo popular... a violência é sempre popular. No cinema, os protagonistas são fortes e atraentes, preparados para combater força com força, para ganhar a luta ou a história heróica. São os ‘James Bonds’ do mundo do cinema.
Nos últimos anos, o site do Superman e do Batman aumentou para incluir outras personagens “super”, como o Wolverine e Ironman (Homen do Ferro) e outros mutantes, e também os heróis e inimigos mecânicos, como os Exterminadores e os Autobots e Decepeticons dos Transformers, mas é sempre a mesma coisa. Os heróis usam a força para o bem e os inimigos para o mal, mas todos usam a força... eu nunca soube de um ‘Super-herói de Fraqueza’. “Homem-Aranha”, sim. “Homem-Franzino”, não.
E não é só na cultura popular. O que é que há de valor no mundo? Quando pensamos nos países mais importantes do mundo, não pensamos nos países que melhor tratam os seus povos, mas naqueles que têm mais bombas, os exércitos maiores, ou que são os mais ricos. Mas o que vale esta riqueza, se há pessoas sem pão na mesa?
O que é que há de valor no mundo? Quando pensamos nas pessoas mais importantes, em quem pensamos nós? Nas pessoas com poder, como os políticos, os Obamas e Sócrates e todos os que têm poder político, os que mandam em orçamentos e exércitos, que podem tomar decisões, que mudam a economia ou começam as guerras? Ou talvez naqueles que mandam nas corporações multinacionais, que podem mudar as fábricas da Europa e da América do Norte para a China e a Indonésia para aumentarem os seus lucros brutos, deixando milhares de pessoas sem emprego, e que nem pensam no clima se o lucro for suficientemente vantajoso?
O que é que há de valor no mundo? Talvez os melhores jogadores de futebol, como Bruno Alves ou Ronaldo ou Kaká, eles que ganham mais dinheiro em noventa minutos do que uma professora ou um enfermeiro conseguem ganhar num ano? Ou talvez pensemos nos actores portuguesas como Pedro Alves e Carla Salgueiro, Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira, ou nos actores internacionais como o Tom Cruise, Julia Roberts e Penelope Cruz? Pensamos nos “stars” da música, quer grupos como Madredeus ou Mariza quer grupos de “hard rock” como as bandas Metallica e Guns-n-Roses americanas, ou bandas portuguesas como Ibéria ou “us&them” de Gaia?
O que é que há de valor no mundo? Ser famoso não é exactamente a mesma coisa que ter poder militar, mas é ainda ter poder. É bem fácil compreender que a coisa que tem mais valor na nossa cultura... a coisa que dá mais valor na nossa cultura... é o poder. É necessário ter poder para ser rico; é necessário ser rico para ter poder. É necessário ser poderoso, ou famoso, ou rico, se se quer ter qualquer valor na nossa cultura, no nosso mundo.
Bem. Então, como é que nós podemos entender a leitura da Segunda Epístola aos Coríntios? S. Paulo, o “Super-Apóstolo”, que venceu três naufrágios, tareias e prisões[1]... como é que ele pôde escrever: “De mim não me quero orgulhar, a não ser das minhas fraquezas.” ‘...das minhas fraquezas’??? O quê?
Há muitas diferenças, claro, entre a nossa cultura moderna e a cultura do primeiro século, quando S. Paulo escreveu as suas Epístolas. Mas num pormenor, a nossa cultura não é tão diferente do que a do primeiro século: acreditamos no poder, damos honra à potência.
E aqui, temos S. Paulo, um dos mais corajosos dos apóstolos, que viajou da Palestina até à Síria e à Turquia, de Creta à Grécia e à Macedónia, Itália e Espanha, que pregou a Boa Nova de Jesus Cristo apesar de ter sido encarcerado[2], flagelado três vezes com varas pelos romanos[3] e cinco vezes recebeu as trinta e nove chicotadas dos judeus, e até foi apedrejado[4], passou uma noite inteira no mar depois de um dos naufrágios, viveu com fome e sede, frio e falta de roupa[5], e tudo isto sem parar de evangelizar... ele foi mais heróico do que qualquer Indiana Jones ou James Bond! Como é que um homem como este pode dizer “Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas”: um homem que fez tanto, que parece tão forte... mas ainda assim só quer orgulhar-se na sua fraqueza?
É difícil entender isto. Mas temos de nos lembrar, Paulo não habitava no mundo criado por Hollywood, mas no mundo criado por Deus. Não só pregou a Boa Nova, mas acreditou na Boa Nova de Jesus Cristo: de Jesus Cristo. Qualquer tipo de heroísmo que tivesse feito não significava nada em comparação com a Boa Nova, e com a estima que tinha a Jesus Cristo: “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte na Cruz.[6]”
Quando falamos de força, não só do corpo mas de vontade de Paulo, que sobreviveu a tanto, precisamos de nos lembrar, como ele, que a sua força não foi nada quando pensamos em Cristo. Jesus, o Verbo Divino que estava no princípio junto de Deus na Criação, Jesus, que era verdadeiramente Deus, aceitou tornar-se humano, parte da Sua própria Criação, e foi concebido pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, ela, que os Ortodoxos chamam Theotokos, a ‘Portadora de Deus’. Jesus, que poderia nascer como rei, como imperador se tivesse querido, nasceu numa família trabalhadora, uma família ‘normal’, uma família que nem tinha dinheiro para o sacrifício maior do Serviço da Purificação quando José e Maria levaram Jesus ao Templo pela primeira vez.[7]
Se Jesus, que era Deus, abrangeu a fraqueza humana, Paulo não podia gabar-se da sua proeza! Paulo, que queria seguir o Senhor em todas coisas, só podia orgulhar-se da sua fraqueza, porque foi a fraqueza e a humildade o que Jesus mostrou como o Seu caminho, e porque foi com a Sua fraqueza, a humilhação nas mãos dos soldados romanos[8], a tortura da Cruz, e a morte—a morte!—de Deus, que Jesus Cristo venceu sobre a morte[9], e ganhou para nós a vida eterna[10].
Vivemos num mundo paradoxal. Os governos do mundo pagam mais pelas armas, que matam, do que pela comida para os seus povos, que dá a vida. Com o seu novo contrato com Real Madrid, Cristiano Ronaldo (que é o melhor jogador do mundo), vai ganhar mais dinheiro do que todas as enfermeiras no Hospital de São João... eu não fiz as contas, mas talvez mais do que todas as enfermeiras dos hospitais e todos os professores no Porto! Eu sei que o futebol é importante (não, é muito importante), mas porque pagamos aos jogadores de futebol (ou basebol, ou futebol Americano, que odeio), porque pagamos aos actores de cinema, porque pagamos aos directores gerais das companhias de Wall Street, muito mais do que às pessoas que salvam as nossas vidas, ou ensinam as nossas crianças?
Há uma razão. O mundo está dividido, rasgado pelo pecado. É o pecado que diz “Poder é tudo!”. É o pecado que diz que as pessoas que nos divertem têm mais valor do que as que nos alimentam ou ensinam ou cuidam. É o pecado que diz que a única ‘cruz’ com importância é ou Penelope ou Tom, e não a Cruz do Gólgota; que os Madredeus têm mais valor do que a Mãe de Deus. É pecado; é o pecado do mundo. Nada mudou desde o tempo em que a serpente convidou Eva e Adão para comer um lanche de fruta, lá no Jardim do Éden.
E nada vai mudar, neste mundo de trevas. Mas este mundo não é nosso: nós somos baptizados, para passar das trevas para a luz, do mundo para o Corpo de Cristo. Nós passamos por este mundo, sabendo que temos muito trabalho para fazer durante o tempo que cá passamos, mas sabemos também que só passamos: a nossa pátria verdadeira está no mundo que há-de vir. Sabemos disso: Jesus disse, falando sobre os seus discípulos e sobre todos nós que O seguirmos: “Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal. Eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Santifica-os pela verdade. A Tua palavra é a verdade. Como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os envio.”[11]
Como individuos neste mundo, nós não temos poder, somos fracos. Somos pessoas normais, e não primeiros-ministros, ou jogadores de futebol, ou actores de Hollywood, ou directores de corporações multinacionais. Não temos importância nenhuma no mundo.
Não faz mal. Não precisamos de importância neste mundo: somos membros do Corpo de Cristo. Somos fracos, como individuos, claro. Uns de nós somos muito fracos, e precisamos de ajuda; outros somos mais fortes, e podemos ajudar. É nisto mesmo que está a força do Corpo de Cristo: não somos individuos sozinhos, mas somos partes de uma coisa maior do que todos nós. O Corpo de Cristo não é somente os membros desta paróquia, ou da Igreja Lusitana ou a Comunhão Anglicana. Nem é somente todos os membros da Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica, com todos os Anglicanos e Católicos Romanos e Ortodoxos do mundo. É tudo isto, claro, mas, porque Cristo existe no “tempo de Deus”, ou Kairos em grego, fora do tempo humano, que se chama Chronos, o Corpo de Cristo também existe fora do tempo humano. Todos os cristãos que foram baptizados durante os dois mil anos, desde o primeiro Pentecostes, são partes do Corpo, e todos os mortos que aceitaram o Senhor durante os três dias que Jesus esteve no lugar dos mortos[12] são partes da tal nuvem de testemunhas de que estamos cercados[13].
É por isso que não precisamos da ‘força’ deste mundo: a nossa ‘força’, que é do Espírito, é maior. Nós temos uma coisa que o mundo não tem. Temos esperança. Sabemos que este mundo não é tudo o que há, e temos esperança no mundo que há-de vir.
Mas, ainda temos de morar aqui, por enquanto. É por isso que também temos o Corpo de Cristo, porque nós podemos fazer muito mais, juntos na fé, do que poderíamos fazer, cada por si. O nosso modelo vem do livro dos Actos dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma.”[14] Na altura, a comunidade dos crentes era ainda bem pequena, com menos de duzentos fiéis[15], e entendo que talvez o versículo seguinte seja um pouco forte demais para nós agora: “Nenhum deles dizia que os seus bens eram apenas seus, mas punham todo em comum”.[16] Com todos os crentes do mundo, isso seria mais do que difícil, mas não podemos fugir desta ideia bíblica, que cada um de nós tem uma responsabilidade para com os outros membros do Corpo.
Esta responsabilidade não deve ser financeira, claro. Há muitas outras coisas que são necessárias. Há pessoas, aqui nesta paróquia, na nossa cidade, na nossa Igreja Lusitana, no nosso mundo, que precisam de amizade, que precisam de um pouco de ajuda com qulaquer coisa, que precisam de oração. E há, também, membros do Corpo de Cristo, nossos irmãos e irmãs, que não têm pão na mesa, neste tempo de crise. Ninguém pode fazer tudo, mas juntos, não há nada que não possamos fazer.
E isto é a verdade, não porque unidos, nós possamos fazer mais... isto é a parte menor. Só o facto de serem “unidos” não resultou com os comunistas na Rússia, quando eles tentaram. Mas nós não somos somente um corpo: somos o Corpo de Cristo.
O que é que há de valor no mundo? O Corpo de Cristo, que não somos só nós, nem nós e a tal nuvem das testemunhas, mas todos nós e Jesus Cristo, verdadeiro Deus, sentado à direita do Pai. Nós precisamos de muito, mas não conseguimos fazê-lo. Mas “para Deus, não há nada impossível!”[17]
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen
Notas:
[1] 2 Coríntios 11, 25b
[2] Actos 24, 27
[3] Actos 16, 23
[4] Actos 14, 19
[5] 2 Coríntios 11, 23-28
[6] Filipenses 2, 5-8
[7] Levítico 12, 6-8
[8] S. Mateus 27, 26-31; S. Marcos 15, 15-19; S. Lucas 22, 63-64; S. João 19, 1-4
[9] S. Mateus 27, 24-27, 51-53; Actos 2, 24, 31-36; Romanos 6, 3-11
[10] Romanos 6, 22-23; 1 Timóteo 1, 16,; 1 João 511-12
[11] S. João 17, 15-18
[12] Credo dos Apóstolos, Liturgia da Igreja Lusitana, p. 254
[13] Hebreus 11, 32 – 12, 1
[14] Actos 4, 32
[15] Actos 1, 15
[16] Actos 4, 33
[17] S. Lucas, 1, 37
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13o Domingo Comum, 28.06.09 [Ano B]
13o Domingo Comum, 28.06.09 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo, Vila Nova de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
De vez em quando, perguntam-me se escrevo as homílias em inglês e depois as traduzo, ou se as escrevo directamente em português. Ora, se já é demasiado difícil escrever um sermão em português... escrever primeiro em inglês, e depois traduzi-lo, seria impossível: as duas línguas são tão diferentes, e há palavras que nem podem ser traduzidas. Só um exemplo: não há uma palavra em inglês para saudade. Logo, se vou pregar em português, tenho de escrever em português.
E isto ainda é mais complicado. O próprio Evangelho sobre o qual estou a pregar foi traduzido para o português do grego. E não só: S. Marcos escreveu-o, fazendo já uma tradução. Os Israelitas falavam aramaico, mas, no Templo, falavam hebraico e, só para falar aos Romanos, usavam o grego. A nossa própria Bíblia é uma tradução de uma tradução.
O conhecimento disto é importante se queremos entender as Escrituras. Há palavras que lemos, palavras que nos parecem simples, mas que não significam aquilo que pensamos, e uma dessas palavras encontra-se, hoje, bem no meio do nosso Evangelho.
Para nós, o verbo curar significa “livrar alguém de doença por meio de adequado tratamento, ou sanar, ou restabelecer a saúde”[1]. Mas para os Judeus, “ser curado” tinha um significado muito diferente: significava “ser purificado”; significava “retomar a boa relação com Deus”. Uma pessoa impura não podia entrar no Templo, não podia louvar o Senhor com propriedade. A doença impura mais conhecida era a lepra, mas a lepra bíblica não era a mesma doença que nós conhecemos: a lepra bíblica podia ser lepra, sim, mas também podia ser herpes, ou até qualquer mancha luzidia da pele: qualquer doença de pele podia ser considerada lepra. E não era uma decisão tomada por um médico: era necessário ser tomada por um sacerdote, porque era um assunto religioso[2].
Também, qualquer coisa relacionada com o sangue podia ser impuro. Nas leis do Kashruth, que catalogam os animais puros e impuros[3], até dos animais puros, eles só podiam comer a carne, e nunca o sangue: antes de comer, era preciso tirarem todo o sangue, porque na lei bíblica, o sangue é considerado a base da vida [4].
Era por isso que mulheres eram consideradas impuras religiosamente depois do parto, ou durante sete dias depois do tempo do seu período: por causa do sangue perdido. E não era só a mulher que era impura: a impureza era contagiosa, e qualquer coisa que ela tocasse, quer a sua cama, quer uma cadeira, quer uma outra pessoa, ficava impura também. Se ela desse à luz um menino, durante um período de sete dias seguido de mais trinta e três, não podia tocar em nada de sagrado nem entrar no santuário, e se desse à luz uma menina, esse período era de sete dias mais sessenta e seis, porque uma menina, quando crescesse ia ser mulher, logo uma “base da vida”[5]. Parece paradoxal, mas aquela que era a base da vida também era impura. Os teólogos discutem muito acerca disto: há uns que acham que era devido ao sexismo da época, que uma menina tinha menos valor do que um menino, mas talvez fosse contrário: levava o dobro dos dias a uma mulher para se purificar por ter tido uma menina, precisamente porque ela podia vir a ser mãe. Se os judeus acreditavam que só Deus pode dar vida, e sabiam que eram somente as mulheres que davam vidas novas à luz, a importância das mulheres era maior, não menor, e por isso, elas precisavam de mais tempo para serem purificadas.
Uma outra causa de impureza não era a base da vida, mas a falta da vida. “Quem tocar no cadáver duma pessoa fica impuro, durante sete dias. No terceiro e no sétimo dias, deve aspergir-se com a água da purificação e então ficará puro. Aquele que tiver tocado no cadáver duma pessoa e não se tiver purificado, profana o santuário do Senhor e deve ser expulso da comunidade dos israelitas.”[6] E era ainda mais duro, devido ao mesmo contágio de impureza: qualquer outra pessoa que entrasse ou estivesse na casa aonde houvesse um cadáver, mesmo que tivesse morrido no momento, também ficava impuro.[7]
É preciso compreender tudo isto para entender o Evangelho que ouvimos hoje, para apreender quão estranho, quão maravilhoso, foram as coisas que Jesus fez. Quando Jesus e os seus discípulos chegaram à aldeia, estava á sua espera uma grande multidão. Um deles, um chefe da sinagoga chamado Jairo, apresentou-se, ajoelhou-se e pedia-lhe muito dizendo “A minha filha está a morrer. Vem, impõe as mãos sobre ela, para que se salve e viva!” Jesus foi com ele, e uma grande multidão o seguia, apertando-o de todos os lados.
Na meia desta multidão estava uma mulher que já há doze anos sofria duma doença, padecendo de uma perda de sangue. Sofrera muito nas mãos de vários médicos, gastando tudo quanto tinha, mas só piorava cada vez mais. Ela ouvia falar de Jesus como um homem santo, mas por causa da sua doença ela era impura, e nem lhe passava pela cabeça falar com Ele, ainda menos na presença de um dos chefes da sinagoga. Mas ainda tinha esperança: se pudesse só tocar nas roupas de Jesus, ficaria curada!
Abeirou-se por atrás de Jesus, no meio de multidão, e tocou-lhe na orla do seu manto. Imediatamente a hemorragia estancou e ela teve a certeza de estar curada. Mas Jesus sentiu que algum poder saiu d'Ele, voltou-se para trás, e perguntou: “Quem tocou as minhas vestes?”. A mulher ouviu, e ficou cheia do medo. Aproximou-se de Jesus, lançou-se-lhe aos pés, e contou-lhe toda a verdade. Mas Jesus disse-lhe: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz, estás curada do teu mal”[8].
Isto era o oposto do Lei! A Lei dizia que esta mulher já estava impura há doze anos[9], por isso ela teve tanto medo quando Jesus perguntou: “Quem me tocou?”. Ela sabia que, normalmente, quando tocasse na roupa de Jesus, deixaria Jesus impuro também até à noite, e no mesmo momento que em estava a ir salvar a filha de Jairo, o chefe da sinagoga. Se Jesus ficasse impuro, não poderia nem sequer entrar na casa de Jairo!
Mas em vez de ficar impuro, Jesus purificou a mulher. Mais ninguém soube o que aconteceu: “curada do teu mal” não significava ‘curada da tua impureza’. Jesus sabia, e ela sabia, e isso era suficiente. Desta forma, ela podia retornar ao Templo, podia renovar a sua relação intíma com Deus, e louvar o Senhor como uma israelita pura, pela primeira vez em doze anos.
Infelizmente, no mesmo momento, chegaram algumas pessoas que vinham da casa de Jairo, anunciando: “Jairo, a tua filha já morreu. Não vale a pena incomodares mais o Mestre.” Ouvindo Jesus estas palavras, dirigiu-se ao chefe da sinagoga: “Não temas; tem só fé!” Jairo já tinha demonstrado a sua fé quando se apresentou a Jesus pedindo a sua ajuda. Mas a fé que Jesus agora ordenava era uma fé que contínua, até quando parece que tudo está perdido.
Jesus não permitiu que mais ninguém o acompanhasse, além de Simão Pedro, Tiago, e João, o irmão de Tiago. Ao chegar a casa de Jairo, entrou e viu o alvoroço, os que choravam e faziam lamentações. Mas Jesus disse: “Para quê todo esse barulho e esses choros? A menina não está morta! Ela está só a dormir!”. E eles riam-se d'Ele. Contudo, tendo Jesus mandado todos para fora, menos os pais e os seus três discípulos, levou-os ao quarto onde a menina estava deitada.
Jesus segurou a mão da menina, e disse-lhe: “Talitha cumi”, que significa em aramaico: “Menina, levanta-te! Sou Eu que te digo!” E a menina, que tinha doze anos, levantou-se e começou a andar. Jesus ordenou-lhes severamente que não contassem nada a ninguém, e disse-lhes para darem de comer à menina.
Mais uma vez, o oposto da Lei! A palavra que S. Marcos usou em grego quando escreveu ‘levantou-se’ é a mesma palavra para ‘ressuscitar’. A menina estava morta e, normalmente, se alguém tocasse no cadáver dela ficaria impuro. Jesus segurou a sua mão e, em vez de ficar impuro, ela ficou viva!
Em cada uma das duas histórias, a da mulher com a perda de sangue e a da filha morta de Jairo, Jesus afirmou que a coisa mais importante era a fé. “Minha filha, a tua fé te salvou.” “Não te assustes, tem só fé!” Antes da Sua própria Ressurreição, não podia ser ainda a fé em Jesus Cristo como Deus e sim no Pai, mas a fé era essencial. A Lei foi dada aos israelitas por Deus, e eles precisavam de lhe obedecer; mas a Lei era para os humanos, e Deus não está ao abrigo da Lei. Jesus, verdadeiro homem, pregava as Boas Novas; Jesus, verdadeiro Deus, podia pedir milagres a seu Pai, milagres que iam contra as leis, quer da Bíblia quer da física, para aqueles que tinham fé.
Há uma outra lei bíblica que Jesus “quebrou”, exigindo fé: muita fé. A Lei hebraica, dada a Moisés por Deus, há capítulos inteiros sobre os animais puros e impuros[10], e não era só proibido tocar num cadáver humano, mas também no cadáver de qualquer animal proibido[11], ou dum animal puro que tivesse morrido naturalmente[12]. A proibição contra o sangue é repetida muitas vezes4. Mas na Última Ceia, na noite em que foi entregue, Jesus tomou pão, deu graças ao Senhor, e disse: “Tomem. Isto é o meu corpo.” Depois pegou no cálice, deu graças, e disse: “Isto é o meu sangue.”[13]
Isto é o meu corpo? Isto é o meu sangue? Isto é impossível! Não podia haver maior violação da Lei! Comer o corpo de Jesus? Beber o Seu sangue?
Para nós, dois mil anos mais tarde, não é assim tão estranho, mas para os Judeus, que foram discípulos do Senhor, era chocante, escandaloso. Eles precisavam de ter fé, fé completa, fé quase esmagadora, em Jesus, para ouvir e acreditar nestas palavras. Mas tinham. E, por causa da sua fé, nós, hoje, podemos partir o Pão que é o Corpo de Cristo, para participar no Corpo de Cristo.
Quando ouvimos histórias das curas miraculosas, como ouvimos no Evangelho hoje, é fácil pensar somente na cura física... e quando temos membros da família ou amigos com doenças graves, queremos, rezamos para que tenham a mesma cura. Entendo... é normal. De vez em quando, pensamos que Deus não ouve as nossas orações, quando as pessoas que nós amamos não melhoram. Não sei quantos vezes ouvi “A culpa é minha; eu não tenho fé suficiente”, ou “A culpa é de Deus, ou não me escuta, ou não existe.”
Mas a culpa não é nossa nem de Deus. Quando rezamos por uma cura, temos de nos lembrar que a cura de Deus não é só física... a cura menor de Deus é a parte física. A cura de Deus é termos uma boa relação com o Senhor, completa, de alma e coração. Os sintomas físicos são temporários. Ser parte do Corpo de Cristo é eterno. As dores passam, quer nesta vida, quer na vida que há-de vir. A cura de Deus pode ser física, mas também pode ser coragem face às aflições, e a fé que nos faz saber que, de boa ou má saúde, estamos ligados ao Corpo de Cristo, que é eterno.
Isto não é fácil: nós queremos que as pessoas vivam sem doenças, sem dor, sem morte. E Jesus Cristo, Deus que encarnou e viveu como homem, que morreu em agonia, que viu a dor da sua mãe quando contemplava o seu único filho a morrer... Jesus entende como isto para nós é difícil. É por isso que Ele ainda está aqui, connosco, na Santa Eucaristia no altar, e no Corpo de Cristo que é a Igreja. Uma parte da ‘cura’ de Deus é o amor da comunidade, bem como uma parte do trabalho da comunidade é o amor, e o apoio de todos os membros por todos os membros.
Não temam. Lembrem-se das palavras de Deus, “...eu nunca te esqueceria. Eis que estás gravada na palma das minhas mãos.”[14]
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen
Notas:
[1] Dicionário de Português, Beiks LLC, 1998, 2005
[2] Levítico 13, 1-46
[3] Levítico 11, 1-46
[4] Génesis 9, 3-4; Levítico 7, 26-27; Deuteronómio 12, 23-25, e outros
[5] Levítico 12, 1-8; S. Lucas 2, 22 (caso da Virgem Maria ao nascimento de Jesus)
[6] Números 19, 11-13
[7] Números 19, 14
[8] S. Marcos 5, 25:34
[9] Levítico 15: 25-27
[10] Levítico 11; Deuteronómio 14
[11] Levítico 11, 24, 31-15
[12] Levítico 11, 39-40
[13] S. Mateus 26, 26-28; S. Marcos 14, 22-24; S. Lucas 22, 19-20; S. João 6, 53-56; 1 Coríntios 11, 23-26
[14] Isaías 49, 15b-16
Igreja do Salvador do Mundo, Vila Nova de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
De vez em quando, perguntam-me se escrevo as homílias em inglês e depois as traduzo, ou se as escrevo directamente em português. Ora, se já é demasiado difícil escrever um sermão em português... escrever primeiro em inglês, e depois traduzi-lo, seria impossível: as duas línguas são tão diferentes, e há palavras que nem podem ser traduzidas. Só um exemplo: não há uma palavra em inglês para saudade. Logo, se vou pregar em português, tenho de escrever em português.
E isto ainda é mais complicado. O próprio Evangelho sobre o qual estou a pregar foi traduzido para o português do grego. E não só: S. Marcos escreveu-o, fazendo já uma tradução. Os Israelitas falavam aramaico, mas, no Templo, falavam hebraico e, só para falar aos Romanos, usavam o grego. A nossa própria Bíblia é uma tradução de uma tradução.
O conhecimento disto é importante se queremos entender as Escrituras. Há palavras que lemos, palavras que nos parecem simples, mas que não significam aquilo que pensamos, e uma dessas palavras encontra-se, hoje, bem no meio do nosso Evangelho.
Para nós, o verbo curar significa “livrar alguém de doença por meio de adequado tratamento, ou sanar, ou restabelecer a saúde”[1]. Mas para os Judeus, “ser curado” tinha um significado muito diferente: significava “ser purificado”; significava “retomar a boa relação com Deus”. Uma pessoa impura não podia entrar no Templo, não podia louvar o Senhor com propriedade. A doença impura mais conhecida era a lepra, mas a lepra bíblica não era a mesma doença que nós conhecemos: a lepra bíblica podia ser lepra, sim, mas também podia ser herpes, ou até qualquer mancha luzidia da pele: qualquer doença de pele podia ser considerada lepra. E não era uma decisão tomada por um médico: era necessário ser tomada por um sacerdote, porque era um assunto religioso[2].
Também, qualquer coisa relacionada com o sangue podia ser impuro. Nas leis do Kashruth, que catalogam os animais puros e impuros[3], até dos animais puros, eles só podiam comer a carne, e nunca o sangue: antes de comer, era preciso tirarem todo o sangue, porque na lei bíblica, o sangue é considerado a base da vida [4].
Era por isso que mulheres eram consideradas impuras religiosamente depois do parto, ou durante sete dias depois do tempo do seu período: por causa do sangue perdido. E não era só a mulher que era impura: a impureza era contagiosa, e qualquer coisa que ela tocasse, quer a sua cama, quer uma cadeira, quer uma outra pessoa, ficava impura também. Se ela desse à luz um menino, durante um período de sete dias seguido de mais trinta e três, não podia tocar em nada de sagrado nem entrar no santuário, e se desse à luz uma menina, esse período era de sete dias mais sessenta e seis, porque uma menina, quando crescesse ia ser mulher, logo uma “base da vida”[5]. Parece paradoxal, mas aquela que era a base da vida também era impura. Os teólogos discutem muito acerca disto: há uns que acham que era devido ao sexismo da época, que uma menina tinha menos valor do que um menino, mas talvez fosse contrário: levava o dobro dos dias a uma mulher para se purificar por ter tido uma menina, precisamente porque ela podia vir a ser mãe. Se os judeus acreditavam que só Deus pode dar vida, e sabiam que eram somente as mulheres que davam vidas novas à luz, a importância das mulheres era maior, não menor, e por isso, elas precisavam de mais tempo para serem purificadas.
Uma outra causa de impureza não era a base da vida, mas a falta da vida. “Quem tocar no cadáver duma pessoa fica impuro, durante sete dias. No terceiro e no sétimo dias, deve aspergir-se com a água da purificação e então ficará puro. Aquele que tiver tocado no cadáver duma pessoa e não se tiver purificado, profana o santuário do Senhor e deve ser expulso da comunidade dos israelitas.”[6] E era ainda mais duro, devido ao mesmo contágio de impureza: qualquer outra pessoa que entrasse ou estivesse na casa aonde houvesse um cadáver, mesmo que tivesse morrido no momento, também ficava impuro.[7]
É preciso compreender tudo isto para entender o Evangelho que ouvimos hoje, para apreender quão estranho, quão maravilhoso, foram as coisas que Jesus fez. Quando Jesus e os seus discípulos chegaram à aldeia, estava á sua espera uma grande multidão. Um deles, um chefe da sinagoga chamado Jairo, apresentou-se, ajoelhou-se e pedia-lhe muito dizendo “A minha filha está a morrer. Vem, impõe as mãos sobre ela, para que se salve e viva!” Jesus foi com ele, e uma grande multidão o seguia, apertando-o de todos os lados.
Na meia desta multidão estava uma mulher que já há doze anos sofria duma doença, padecendo de uma perda de sangue. Sofrera muito nas mãos de vários médicos, gastando tudo quanto tinha, mas só piorava cada vez mais. Ela ouvia falar de Jesus como um homem santo, mas por causa da sua doença ela era impura, e nem lhe passava pela cabeça falar com Ele, ainda menos na presença de um dos chefes da sinagoga. Mas ainda tinha esperança: se pudesse só tocar nas roupas de Jesus, ficaria curada!
Abeirou-se por atrás de Jesus, no meio de multidão, e tocou-lhe na orla do seu manto. Imediatamente a hemorragia estancou e ela teve a certeza de estar curada. Mas Jesus sentiu que algum poder saiu d'Ele, voltou-se para trás, e perguntou: “Quem tocou as minhas vestes?”. A mulher ouviu, e ficou cheia do medo. Aproximou-se de Jesus, lançou-se-lhe aos pés, e contou-lhe toda a verdade. Mas Jesus disse-lhe: “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz, estás curada do teu mal”[8].
Isto era o oposto do Lei! A Lei dizia que esta mulher já estava impura há doze anos[9], por isso ela teve tanto medo quando Jesus perguntou: “Quem me tocou?”. Ela sabia que, normalmente, quando tocasse na roupa de Jesus, deixaria Jesus impuro também até à noite, e no mesmo momento que em estava a ir salvar a filha de Jairo, o chefe da sinagoga. Se Jesus ficasse impuro, não poderia nem sequer entrar na casa de Jairo!
Mas em vez de ficar impuro, Jesus purificou a mulher. Mais ninguém soube o que aconteceu: “curada do teu mal” não significava ‘curada da tua impureza’. Jesus sabia, e ela sabia, e isso era suficiente. Desta forma, ela podia retornar ao Templo, podia renovar a sua relação intíma com Deus, e louvar o Senhor como uma israelita pura, pela primeira vez em doze anos.
Infelizmente, no mesmo momento, chegaram algumas pessoas que vinham da casa de Jairo, anunciando: “Jairo, a tua filha já morreu. Não vale a pena incomodares mais o Mestre.” Ouvindo Jesus estas palavras, dirigiu-se ao chefe da sinagoga: “Não temas; tem só fé!” Jairo já tinha demonstrado a sua fé quando se apresentou a Jesus pedindo a sua ajuda. Mas a fé que Jesus agora ordenava era uma fé que contínua, até quando parece que tudo está perdido.
Jesus não permitiu que mais ninguém o acompanhasse, além de Simão Pedro, Tiago, e João, o irmão de Tiago. Ao chegar a casa de Jairo, entrou e viu o alvoroço, os que choravam e faziam lamentações. Mas Jesus disse: “Para quê todo esse barulho e esses choros? A menina não está morta! Ela está só a dormir!”. E eles riam-se d'Ele. Contudo, tendo Jesus mandado todos para fora, menos os pais e os seus três discípulos, levou-os ao quarto onde a menina estava deitada.
Jesus segurou a mão da menina, e disse-lhe: “Talitha cumi”, que significa em aramaico: “Menina, levanta-te! Sou Eu que te digo!” E a menina, que tinha doze anos, levantou-se e começou a andar. Jesus ordenou-lhes severamente que não contassem nada a ninguém, e disse-lhes para darem de comer à menina.
Mais uma vez, o oposto da Lei! A palavra que S. Marcos usou em grego quando escreveu ‘levantou-se’ é a mesma palavra para ‘ressuscitar’. A menina estava morta e, normalmente, se alguém tocasse no cadáver dela ficaria impuro. Jesus segurou a sua mão e, em vez de ficar impuro, ela ficou viva!
Em cada uma das duas histórias, a da mulher com a perda de sangue e a da filha morta de Jairo, Jesus afirmou que a coisa mais importante era a fé. “Minha filha, a tua fé te salvou.” “Não te assustes, tem só fé!” Antes da Sua própria Ressurreição, não podia ser ainda a fé em Jesus Cristo como Deus e sim no Pai, mas a fé era essencial. A Lei foi dada aos israelitas por Deus, e eles precisavam de lhe obedecer; mas a Lei era para os humanos, e Deus não está ao abrigo da Lei. Jesus, verdadeiro homem, pregava as Boas Novas; Jesus, verdadeiro Deus, podia pedir milagres a seu Pai, milagres que iam contra as leis, quer da Bíblia quer da física, para aqueles que tinham fé.
Há uma outra lei bíblica que Jesus “quebrou”, exigindo fé: muita fé. A Lei hebraica, dada a Moisés por Deus, há capítulos inteiros sobre os animais puros e impuros[10], e não era só proibido tocar num cadáver humano, mas também no cadáver de qualquer animal proibido[11], ou dum animal puro que tivesse morrido naturalmente[12]. A proibição contra o sangue é repetida muitas vezes4. Mas na Última Ceia, na noite em que foi entregue, Jesus tomou pão, deu graças ao Senhor, e disse: “Tomem. Isto é o meu corpo.” Depois pegou no cálice, deu graças, e disse: “Isto é o meu sangue.”[13]
Isto é o meu corpo? Isto é o meu sangue? Isto é impossível! Não podia haver maior violação da Lei! Comer o corpo de Jesus? Beber o Seu sangue?
Para nós, dois mil anos mais tarde, não é assim tão estranho, mas para os Judeus, que foram discípulos do Senhor, era chocante, escandaloso. Eles precisavam de ter fé, fé completa, fé quase esmagadora, em Jesus, para ouvir e acreditar nestas palavras. Mas tinham. E, por causa da sua fé, nós, hoje, podemos partir o Pão que é o Corpo de Cristo, para participar no Corpo de Cristo.
Quando ouvimos histórias das curas miraculosas, como ouvimos no Evangelho hoje, é fácil pensar somente na cura física... e quando temos membros da família ou amigos com doenças graves, queremos, rezamos para que tenham a mesma cura. Entendo... é normal. De vez em quando, pensamos que Deus não ouve as nossas orações, quando as pessoas que nós amamos não melhoram. Não sei quantos vezes ouvi “A culpa é minha; eu não tenho fé suficiente”, ou “A culpa é de Deus, ou não me escuta, ou não existe.”
Mas a culpa não é nossa nem de Deus. Quando rezamos por uma cura, temos de nos lembrar que a cura de Deus não é só física... a cura menor de Deus é a parte física. A cura de Deus é termos uma boa relação com o Senhor, completa, de alma e coração. Os sintomas físicos são temporários. Ser parte do Corpo de Cristo é eterno. As dores passam, quer nesta vida, quer na vida que há-de vir. A cura de Deus pode ser física, mas também pode ser coragem face às aflições, e a fé que nos faz saber que, de boa ou má saúde, estamos ligados ao Corpo de Cristo, que é eterno.
Isto não é fácil: nós queremos que as pessoas vivam sem doenças, sem dor, sem morte. E Jesus Cristo, Deus que encarnou e viveu como homem, que morreu em agonia, que viu a dor da sua mãe quando contemplava o seu único filho a morrer... Jesus entende como isto para nós é difícil. É por isso que Ele ainda está aqui, connosco, na Santa Eucaristia no altar, e no Corpo de Cristo que é a Igreja. Uma parte da ‘cura’ de Deus é o amor da comunidade, bem como uma parte do trabalho da comunidade é o amor, e o apoio de todos os membros por todos os membros.
Não temam. Lembrem-se das palavras de Deus, “...eu nunca te esqueceria. Eis que estás gravada na palma das minhas mãos.”[14]
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen
Notas:
[1] Dicionário de Português, Beiks LLC, 1998, 2005
[2] Levítico 13, 1-46
[3] Levítico 11, 1-46
[4] Génesis 9, 3-4; Levítico 7, 26-27; Deuteronómio 12, 23-25, e outros
[5] Levítico 12, 1-8; S. Lucas 2, 22 (caso da Virgem Maria ao nascimento de Jesus)
[6] Números 19, 11-13
[7] Números 19, 14
[8] S. Marcos 5, 25:34
[9] Levítico 15: 25-27
[10] Levítico 11; Deuteronómio 14
[11] Levítico 11, 24, 31-15
[12] Levítico 11, 39-40
[13] S. Mateus 26, 26-28; S. Marcos 14, 22-24; S. Lucas 22, 19-20; S. João 6, 53-56; 1 Coríntios 11, 23-26
[14] Isaías 49, 15b-16
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