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18 July 2009

16o Domingo Comum, Ano B, 19 Julho 2009

160 Domingo Comum, Ano B, 19 Julho 2009
Igreja do Bom Pastor, V.N. de Gaia
Cón. Dr. Francisco C. Zanger

Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.

Talvez ainda ninguém tenha chamado a vossa atenção, mas se ainda não tiverdes notado... não sou português. Sou estrangeiro. É verdade! Não é defeito de fala ou falta de educação: é mesmo sotaque e falta de vocabulário!
E sim, estou a brincar, mas estou a brincar por uma razão: na leitura da Carta do S. Paulo aos Efésios, que é ao mesmo tempo interessante e difícil, porque fala das coisas que devem ser, e que irão ser, mas que nem na época em que foi escrita foram, nem o são agora. Ao falar das diferenças entre os judeus, que eram os únicos monoteístas da região e talvez do mundo, e os pagãos do resto do Império Romano, Paulo disse que a morte e Ressurreição de Jesus criava pela primeira vez um só povo de Deus: que Jesus fez em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova, reconciliando-os ambos com Deus. Ouçam: “Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro, abolindo na própria carne a lei, os preceitos e as prescrições”[1]. Seria uma maravilha, se fosse verdade quer na altura quer hoje mesmo; será uma maravilha quando suceder... e vai acontecer. A primeira parte já aconteceu, claro: Cristo é a nossa paz, e dentro d'Ele, dentro do Seu Corpo, somos um só povo. Mas infelizmente, nós somos humanos, pecadores, e quando Jesus destruiu o muro da inimizade, nós substuímos as vedações de arame farpado.
Paulo, que era o Apóstolo dos Gentios, escreveu sobre o muro da Lei entre os Gentios e os Judeus, mas já teve problemas entre eles: originalmente, quando os Cristãos eram Judeus, os Judeus pensavam que os Cristãos eram somente uma seita herética, mas depois, quando eles começaram a baptizar Gentios, a coisa piorou muito. O primeiro grupo que perseguiu os Cristãos foram os Judeus do Templo: antes de se converter, S. Paulo, chamado ainda Saulo, foi um dos piores de todos[2]. Ele ainda estava do outro lado do “muro da inimizade”, que ele próprio afirmou, depois, já ter sido destruído pela morte de Cristo: do outro lado, apedrajando!
Bem, como é que podemos entender tudo isto? Se Jesus Cristo fez um só povo do mundo inteiro, dos Judeus que eram o Povo escolhido por Deus, e dos Gentios que eram os restantes povos do mundo (e foi isto que Paulo escreveu), que pena que Jesus tivesse feito tudo isto sem que os povos do mundo o notassem!
Não... não é uma pena. É um pecado. É o nosso pecado.
O problema não está somente em nós não termos fé suficiente em Deus: não temos fé suficiente em nós próprios. Somos inseguros, ansiosos. É a versão do pecado pior de todas, o pecado que é a raiz de todos os outros: o orgulho. Nós pensamos que precisamos de ser perfeitos, e se não podemos aperfeiçoarmo-nos, ao menos precisamos de ser melhores do que os nossos vizinhos. “Se alguém souber que não sou perfeito, ninguém me vai amar.”
Quando o Anjo Lúcifer, ele que era o mais lindo dos anjos, cujo nome significa “Luz”, se insurgiu contra Deus e foi derrubado, atirado dos céus à terra, perdeu não só o seu nome — Lúcifer tornou-se Satanás — mas perdeu também todo o seu poder angelical, menos a sua língua dourada, a sua língua viperina... ainda pode mentir, confundir e persuadir. É por isso que lemos que Jesus, depois de ser baptizado por seu primo, S. João Baptista, foi conduzido ao deserto pelo Espírito, para ser tentado três vezes pelo diabo[3]. Satanás, que sabia bem que Jesus era verdadeiro homem, esqueceu-se que Jesus também era verdadeiro Deus, e as palavras de rejeição que Jesus proferiu são em si mesmas uma recordação: “Não tentarás o Senhor, teu Deus”[4], e “Vai-te, Satanás! A Escritura diz, ‘Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”[5]. Mas Jesus era Deus, e não só homem: Satanás ganhou o nome de “O Tentador” quando enganou dois que eram não só homens, mas inocentes.
No terceiro capítulo do Génesis, Satanás entrou na serpente, o mais astuto dos animais criados por Deus: entrou para tentar os primeiros homens, Eva e Adão, no Jardim. Só havia um fruto proibido no jardim: o da árvore do conhecimento do bem e do mal. O fruto desta árvore podia chamar-se ‘o fim da inocência’. Sem o conhecimento do bom e do mal, eles não podiam escolher o mal sobre o bem: não podiam pecar. E Satanás não queria um mundo sem pecado.
Então, Satanás entrou na serpente para fazer a sua maldade, bem como, muito mais tarde, entrou em Judas[6], e Judas traiu o Senhor. A serpente disse à mulher que, se comessem o fruto proibido, “ficarão a conhecer o mal e o bem, tal como Deus”[7]. Satanás não disse que o fruto poderia dar quaisquer “superpoderes”... só que eles poderiam ser “tal como Deus” em termos de sabedoria. Eles não queriam mostrar ignorância em frente de Deus: não queriam ser os mais ignorantes no seu pequeno mundo.
Até os nossos primeiros pais eram inseguros, ansiosos, tal como nós. No universo inteiro, Adão e Eva só conheciam Deus, mas sabiam que Deus era muito melhor, mais sábio, mais forte, mais tudo do que eles... e tornaram-se inseguros.
Agora que já não eram inocentes, não podiam ficar no jardim paradisíaco, e Deus mandou-os embora para se frutificarem e multiplicarem no mundo que Ele fez. Os seus filhos e netos e bisnetos e trinetos encheram o mundo, mas eram também inseguros, pois sabiam que nunca poderiam ser perfeitos. Satanás nunca deixou fugir uma oportunidade: o seu novo truque é até melhor do que o anterior. Em vez de enganar-nos, insinuando que podemos melhorar-nos, desobedecendo a Deus, a nova mentira demoníaca é até pior: que nós já somos melhores do que os outros: que as pessoas diferentes, quer doutro país, quer doutra cor de pele, quer doutro modo de louvar o Senhor, são piores, são estúpidas, são ‘menos humanas’ do que nós.
Enquanto o Grande Mentiroso conseguir persuadir umas pessoas, feitas por Deus e à Imagem do próprio Deus, de que outras pessoas, igualmente feitas por Deus e à Imagem do próprio de Deus, têm menos valor aos olhos do mesmo Deus, só Satanás sai vencedor. Na história da humanidade, não houve, nem há, guerra nenhuma, perseguição nenhuma, escravatura nenhuma, conquista nenhuma, em que o instigador e o vencedor não seja... Satanás. Ele é militante de cada partido, sócio de cada clube, general em cada exército... e bispo ou pândita ou pastor ou imã ou rabino de cada grupo religioso que ensine o ódio em vez do amor, em qualquer lugar onde um grupo disser que eles são os melhores, ou os mais importantes, ou os mais amados por Deus do que qualquer outro grupo.
“Cristo é a nossa paz: de dois povos separados fez um só povo. Com a sua morte ele destruiu o muro que os separava e os tornava inimigos um do outro. Aboliu na própria carne a lei judaica, os preceitos e as prescrições. Deste modo, ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só Corpo pela virtude da Cruz, aniquilado a inimizade.”[8]
A lei judaica que Cristo aboliu não tinha nada de mal: foi dada aos israelitas pelo próprio Deus. No plano da Salvação, não era má: era necessária. De todos os povos do mundo, Deus escolheu os Judeus, um povo pequeno, sem poder político, mas com uma força interna e eterna maior do que qualquer outro. Que outro povo teria podido sobreviver mais de dois mil anos sem país próprio, com perseguições, escravatura, com os genocídios dos Assírios e Romanos, do Nazismo e Estalinismo?
Deus escolheu os Judeus, e deu-lhes a Lei, para ajudar o seu povo a aprender quem era Deus: que o verdadeiro Deus que criou o Universo não era o mesmo que os deuses pagãos. Isto levou muito tempo: o Antigo Testamento, uma mistura de história e poesia, teologia e manuais jurídicos, genealogia e ritos religiosos, entre outras coisas, é também a narrativa dum parentesco, de uma relação durante a qual o povo escolhido aprendeu, pouco a pouco, sempre mais sobre o seu Criador.
É uma relação que começou com as palavras, “Faça-se luz!”[9], e como nós sabemos, no início da Criação, o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus; tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada foi feito[10]. Os Israelitas moravam em conjunto com os outros povos do Médio Oriente, povos que tinham uma multidão de deuses, e habitualmente não diziam ‘não’ aos sacrifícios humanos. Estes deuses, como Baal e Asserás, deuses masculino e feminino dos Cananeus, queriam servilismo e subserviência dos seus crentes, e não somente obediência e humildade. A Bíblia Hebraica, o nosso Antigo Testamento, é um testemunho disso mesmo: o testemunho de um Deus que não era igual aos deuses dos outros povos. O entendimento dos israelitas precisava de crescer, pouco a pouco, do tempo de Abraão e Isaac, quando primeiro aprenderam que Deus não quer sacrifícios humanos[11]; o desenvolvimento do entendimento no Livro de Josué, onde Deus é ainda um deus de guerras e batalhas[12], até ao de Amós, o profeta que Deus mandou para castigar os ricos, em que “compraremos os infelizes por dinheiro, e os pobres por um par de sandálias”[13], e para dizer, “Odeio e desprezo as vossas festas. Não me agradam os vossos cultos. ... Quero, sim, que a justiça corra como as águas, e que o que é recto, como um rio que nunca seca!”[14]
Levou séculos, séculos duros. Os israelitas, que foram escravos no Egipto cerca de uns 200 anos, depois de José, o da capa vistosa, colorida com mangas compridas, que foi vendido pelos irmãos para escravo mas chegou a ser governador de Egipto[15], até ao tempo de Moisés que nasceu como escravo no Egipto[16] mas chegou a ser o líder e profeta dos israelitas até chegarem à terra prometida[17], talvez quinze séculos antes de Cristo[18]. Durante todo este tempo, havia um “muro” entre os israelitas, o ‘povo escolhido’ por Deus, e todo o resto do mundo, a que os judeus chamavam de Gentios, durante o tempo em que Deus “ensinou” os judeus. Levou séculos, mas quando Deus soube que tinha chegado o tempo certo (uma coisa que Deus já sabia até antes da Criação: o tempo de Deus não é o nosso), Jesus, o Filho que era o Verbo Divino durante Criação, incarnou pelo Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, e habitou entre nós.
Com os seus ensinamentos, mostrou as portas da vida eterna; com a sua morte, abriu as mesmas portas. Na sua morte, Jesus triunfou sobre o pecado e a morte, dando-nos a vida eterna. Com a sua morte Jesus não somente destruiu a morte, abrindo as portas à vida eterna, mas também destruiu o muro entre os judeus e os Gentios. Com Abraão, Deus-Pai escolheu um povo para si. Com a sua Incarnação, no seio da Virgem, com a sua morte, na Cruz, Deus-Filho escolheu todos os povos, para sempre. Com os seus dons espirituais, Deus-Espírito Santo possibilita que nós formemos o Corpo de Cristo, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.
Mas, se Jesus Cristo destruiu o muro entre os povos do mundo, como é que estamos tão divididos? Como já disse... pecado. É o pecado do orgulho, orgulho e medo. E o medo também pode ser pecado, se tivermos medo porque não temos fé no amor de Cristo.
Ora. Se acho que não tenho muito valor, que não sou digno de respeito, digno de amor, digno das promessas de Cristo, há coisas que posso fazer.
Primeiro, posso ter a fé de que, apesar de não pelo meu mérito, pois daí não tenho salvação de jeito nenhum, o amor de Cristo é ainda tão grande que até um pecador (como eu) pode ser salvo, e depois fazer tudo quanto poder pelos outros, como acção de graças. Esta é a versão melhor, e que acontece menos (claro).
Segundo, posso trabalhar para ser melhor, e ser tão bom que mereça a salvação. Falhará. É impossível. Mas, poderia ser pior.
Terceiro, e mais comum. É dizer, “Eu não sou assim tão mau—olha para ele! Eu odeio pessoas como ele! Ele não tem valor nenhum!” A nível pessoal, estas pessoas são chatas. A nível dos grupos, esta é a justificação para todos os tipos de racismo, ou para todos os outros tipos de discriminação, como sexismo, discriminação etária, ou discriminação contra pessoas de outras religiões, quer Católicos Romanos que não gostam de Protestantes, ou Protestantes que não gostam de Católicos Romanos, quer Protestantes e Católicos Romanos que não gostam de Anglicanos porque somos ou Católicos demais para os Protestantes ou Protestantes demais para os Católicos Romanos, ou qualquer das três que odeiam os Islâmicos, e os Islâmicos que odeiam os Cristãos, e qualquer destas que não gostam dos judeus... etcetera, etcetera, etcetera.
E ao nível dos países, pode ser o pretexto para guerras, ou para os genocídios.
Para muitos de nós, nós que somos feitos por Deus à Sua própria Imagem, somente poderemos ser felizes se pensarmos que somos superiores a qualquer outro grupo. A única qualidade própria que temos é em contraste com alguém que nós pensamos ser pior, de menos valor. Os Americanos ou Ingleses acham que eles são o povo melhor do mundo, e que o resto do mundo só existe para os cuidar, são conhecidos nesta cidade de turismo.
Sou Americano—vou falar do meu país. Há muitos Americanos que não têm interesse nenhum em viajar, porque acham que nos Estados Unidos há tudo o que existe de bom no mundo. É por isso que Americanos não estudam outras línguas... Porquê? Os outros devem aprender inglês! Há muitos Americanos que querem construir um muro grande ao longo da fronteira com o México, por causa dos imigrantes ilegais... mais um substituto para o muro destruído por Cristo.
E não são somente os Americanos, claro. Os Italianos querem fazer a mesma coisa com os imigrantes da Bósnia, os Franceses com os árabes, os israelistas matam palestinianos que matam israelitas, as guerras em cada canto de África... Cada país quer um muro, e cada grupo dentro do país quer mais um muro, e cada pessoa no grupo vai precisar do seu próprio muro também... se não temos fronteiras, não podemos saber quem é “diferente”, e se não sabemos quem é “diferente”, não podemos saber quem é pior do que nós, e se não sabemos se alguém é pior que nós, só temos os nossos espelhos para ver os pecadores. Ai! Claro que temos medo!
É este mesmo o problema. É como disse S. Pedro: “Agora compreendo verdadeiramente que para Deus todos são iguais. Ele quer bem a todos os que respeitam e cumprem a sua vontade, sejam de que raça forem.”[19]
“...sejam de que raça forem.” As fronteiras do mundo não são de Deus. As fronteiras são feitas por homens, pecadores, e a maioria foram feitas com armas. O nosso Deus não fez os Estados Unidos: Ele fez a América do Norte. Deus não desenhou num mapa as fronteiras de Portugal—não foi Deus que deu a Galiza à Espanha. Deus, em Jesus Cristo, erradicou os muros entre os povos.
Não quero dizer que é mau, ter orgulho no seu próprio país, nem na sua cidade, ou na sua equipe (sou Portista!), ou na sua família. Eu até acho que as fronteiras entre países podem ter valor: a minha única ansiedade com a ideia da União Europeia é que Portugal e os outros países mais pequeninos podem perder as suas culturas particulares. Não quero morar em “Françamanha”: quero morar em Portugal!
Mas este orgulho nacional nunca pode ser tão forte que se torne num muro. A coisa mais importante é o Corpo de Cristo, e o Corpo de Cristo atravessa todas as fronteiras do mundo. Eu tenho muito mais em comum com qualquer um de vós do que tenho com um Americano que seja ateu. Só há uma “fronteira” com importância, que é a fronteira entre as pessoas que já são membros do Corpo e as que ainda o não são, e esta “fronteira” tem de ter sempre a porta aberta... mais, nós temos de convidar todos os que estão fora a entrar. Isto é a tarefa de que Jesus nos encarregou: “Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. Portanto, vão e façam com que os povos se tornem meus discípulos. Baptizem as pessoas em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo ensinando-as a obedecer a tudo quanto eu tenho mandado. E saibam que estarei sempre convosco, até o fim do mundo.”[20]


Em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.


[1] Efésios 2, 14-15
[2] Actos 7, 58; 8:1, 3; 9,1-2
[3] S. Mateus 4, 1
[4] Deuteronómio 6, 16: “Não tentareis o Senhor, vosso Deus, como o tentaste em Massá.”
[5] Deuteronómio 6, 13-14: “Temerás o Senhor, teu Deus, prestar-lhe-ás culto e só jurarás pelo seu nome. Não seguireis outros deuses entre os das nações que vos cercam.
[6] S. João 13, 26-27
[7] Génesis 3, 5
[8] Efésios 2,14-16
[9] Génesis 1, 3
[10] S. João 1, 1 e 3
[11] Génesis 22, 1-14
[12] Josué 10 (ou qualquer outro capítulo!)
[13] Amós 8, 6
[14] Amós 5, 21 e 24
[15] Génesis 37, 3-4, 25-28,; 42,6
[16] Êxodo 2, 1-10
[17] Deuteronómio 34, 1-12
[18] “Exodus”, por John Gray, PhD, Interpreter’s One-Volume Commentary on the Bible, 1984, 1971
[19] Actos 10, 34-35
[20] S. Mateus 28, 18-20

14o Domingo Comum, Ano B, 05 Julho 2009

14o Domingo Comum, Ano B, 05 Julho 2009
Igreja do Redentor, Porto
Cón. Dr. Francisco C. Zanger

Que as palavras da minha boca e a meditações dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti, Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor, em o nome do Pai, e do Filho, e do Espirito Santo. Ámen.

Não somente ainda não vi o novo filme “O Exterminador”, o quarto ou quinto filme da série o Exterminador Implacável: nem sequer o quero ver. Não preciso, com a minha coluna, de me sentar durante quase duas horas num cinema para ver o Arnold Schwarzenegger, de quem não gosto, nem como actor nem como político, nem para ver os ciborgues a bater nos outros robôs ou nas pessoas. Chatices como estas não me interessam. Após tantos anos como capelão, quer da tropa quer dos bombeiros, já vi todas as explosões que preciso, ao vivo. Já vi as vítimas dos desastres, dos acidentes. Para mim, não é divertimento.
Mas, entendo a atracção. Como tantos filmes, é a força que é importante: os heróis precisam de usar toda a sua força (e talvez um pouco de inteligência) para obrigarem os vilões robotizados a retroceder... até a próxima sequência da série.
É um filme do tipo popular... a violência é sempre popular. No cinema, os protagonistas são fortes e atraentes, preparados para combater força com força, para ganhar a luta ou a história heróica. São os ‘James Bonds’ do mundo do cinema.
Nos últimos anos, o site do Superman e do Batman aumentou para incluir outras personagens “super”, como o Wolverine e Ironman (Homen do Ferro) e outros mutantes, e também os heróis e inimigos mecânicos, como os Exterminadores e os Autobots e Decepeticons dos Transformers, mas é sempre a mesma coisa. Os heróis usam a força para o bem e os inimigos para o mal, mas todos usam a força... eu nunca soube de um ‘Super-herói de Fraqueza’. “Homem-Aranha”, sim. “Homem-Franzino”, não.
E não é só na cultura popular. O que é que há de valor no mundo? Quando pensamos nos países mais importantes do mundo, não pensamos nos países que melhor tratam os seus povos, mas naqueles que têm mais bombas, os exércitos maiores, ou que são os mais ricos. Mas o que vale esta riqueza, se há pessoas sem pão na mesa?
O que é que há de valor no mundo? Quando pensamos nas pessoas mais importantes, em quem pensamos nós? Nas pessoas com poder, como os políticos, os Obamas e Sócrates e todos os que têm poder político, os que mandam em orçamentos e exércitos, que podem tomar decisões, que mudam a economia ou começam as guerras? Ou talvez naqueles que mandam nas corporações multinacionais, que podem mudar as fábricas da Europa e da América do Norte para a China e a Indonésia para aumentarem os seus lucros brutos, deixando milhares de pessoas sem emprego, e que nem pensam no clima se o lucro for suficientemente vantajoso?
O que é que há de valor no mundo? Talvez os melhores jogadores de futebol, como Bruno Alves ou Ronaldo ou Kaká, eles que ganham mais dinheiro em noventa minutos do que uma professora ou um enfermeiro conseguem ganhar num ano? Ou talvez pensemos nos actores portuguesas como Pedro Alves e Carla Salgueiro, Sandra Barata Belo e Ricardo Pereira, ou nos actores internacionais como o Tom Cruise, Julia Roberts e Penelope Cruz? Pensamos nos “stars” da música, quer grupos como Madredeus ou Mariza quer grupos de “hard rock” como as bandas Metallica e Guns-n-Roses americanas, ou bandas portuguesas como Ibéria ou “us&them” de Gaia?
O que é que há de valor no mundo? Ser famoso não é exactamente a mesma coisa que ter poder militar, mas é ainda ter poder. É bem fácil compreender que a coisa que tem mais valor na nossa cultura... a coisa que dá mais valor na nossa cultura... é o poder. É necessário ter poder para ser rico; é necessário ser rico para ter poder. É necessário ser poderoso, ou famoso, ou rico, se se quer ter qualquer valor na nossa cultura, no nosso mundo.
Bem. Então, como é que nós podemos entender a leitura da Segunda Epístola aos Coríntios? S. Paulo, o “Super-Apóstolo”, que venceu três naufrágios, tareias e prisões[1]... como é que ele pôde escrever: “De mim não me quero orgulhar, a não ser das minhas fraquezas.” ‘...das minhas fraquezas’??? O quê?
Há muitas diferenças, claro, entre a nossa cultura moderna e a cultura do primeiro século, quando S. Paulo escreveu as suas Epístolas. Mas num pormenor, a nossa cultura não é tão diferente do que a do primeiro século: acreditamos no poder, damos honra à potência.
E aqui, temos S. Paulo, um dos mais corajosos dos apóstolos, que viajou da Palestina até à Síria e à Turquia, de Creta à Grécia e à Macedónia, Itália e Espanha, que pregou a Boa Nova de Jesus Cristo apesar de ter sido encarcerado[2], flagelado três vezes com varas pelos romanos[3] e cinco vezes recebeu as trinta e nove chicotadas dos judeus, e até foi apedrejado[4], passou uma noite inteira no mar depois de um dos naufrágios, viveu com fome e sede, frio e falta de roupa[5], e tudo isto sem parar de evangelizar... ele foi mais heróico do que qualquer Indiana Jones ou James Bond! Como é que um homem como este pode dizer “Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas”: um homem que fez tanto, que parece tão forte... mas ainda assim só quer orgulhar-se na sua fraqueza?
É difícil entender isto. Mas temos de nos lembrar, Paulo não habitava no mundo criado por Hollywood, mas no mundo criado por Deus. Não só pregou a Boa Nova, mas acreditou na Boa Nova de Jesus Cristo: de Jesus Cristo. Qualquer tipo de heroísmo que tivesse feito não significava nada em comparação com a Boa Nova, e com a estima que tinha a Jesus Cristo: “Sendo Ele de condição divina, não se prevaleceu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e assemelhando-se aos homens. E sendo exteriormente reconhecido como homem, humilhou-se ainda mais, tornando-se obediente até a morte, e morte na Cruz.[6]”
Quando falamos de força, não só do corpo mas de vontade de Paulo, que sobreviveu a tanto, precisamos de nos lembrar, como ele, que a sua força não foi nada quando pensamos em Cristo. Jesus, o Verbo Divino que estava no princípio junto de Deus na Criação, Jesus, que era verdadeiramente Deus, aceitou tornar-se humano, parte da Sua própria Criação, e foi concebido pelo poder do Espírito Santo no seio da Virgem Maria, ela, que os Ortodoxos chamam Theotokos, a ‘Portadora de Deus’. Jesus, que poderia nascer como rei, como imperador se tivesse querido, nasceu numa família trabalhadora, uma família ‘normal’, uma família que nem tinha dinheiro para o sacrifício maior do Serviço da Purificação quando José e Maria levaram Jesus ao Templo pela primeira vez.[7]
Se Jesus, que era Deus, abrangeu a fraqueza humana, Paulo não podia gabar-se da sua proeza! Paulo, que queria seguir o Senhor em todas coisas, só podia orgulhar-se da sua fraqueza, porque foi a fraqueza e a humildade o que Jesus mostrou como o Seu caminho, e porque foi com a Sua fraqueza, a humilhação nas mãos dos soldados romanos[8], a tortura da Cruz, e a morte—a morte!—de Deus, que Jesus Cristo venceu sobre a morte[9], e ganhou para nós a vida eterna[10].
Vivemos num mundo paradoxal. Os governos do mundo pagam mais pelas armas, que matam, do que pela comida para os seus povos, que dá a vida. Com o seu novo contrato com Real Madrid, Cristiano Ronaldo (que é o melhor jogador do mundo), vai ganhar mais dinheiro do que todas as enfermeiras no Hospital de São João... eu não fiz as contas, mas talvez mais do que todas as enfermeiras dos hospitais e todos os professores no Porto! Eu sei que o futebol é importante (não, é muito importante), mas porque pagamos aos jogadores de futebol (ou basebol, ou futebol Americano, que odeio), porque pagamos aos actores de cinema, porque pagamos aos directores gerais das companhias de Wall Street, muito mais do que às pessoas que salvam as nossas vidas, ou ensinam as nossas crianças?
Há uma razão. O mundo está dividido, rasgado pelo pecado. É o pecado que diz “Poder é tudo!”. É o pecado que diz que as pessoas que nos divertem têm mais valor do que as que nos alimentam ou ensinam ou cuidam. É o pecado que diz que a única ‘cruz’ com importância é ou Penelope ou Tom, e não a Cruz do Gólgota; que os Madredeus têm mais valor do que a Mãe de Deus. É pecado; é o pecado do mundo. Nada mudou desde o tempo em que a serpente convidou Eva e Adão para comer um lanche de fruta, lá no Jardim do Éden.
E nada vai mudar, neste mundo de trevas. Mas este mundo não é nosso: nós somos baptizados, para passar das trevas para a luz, do mundo para o Corpo de Cristo. Nós passamos por este mundo, sabendo que temos muito trabalho para fazer durante o tempo que cá passamos, mas sabemos também que só passamos: a nossa pátria verdadeira está no mundo que há-de vir. Sabemos disso: Jesus disse, falando sobre os seus discípulos e sobre todos nós que O seguirmos: “Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal. Eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Santifica-os pela verdade. A Tua palavra é a verdade. Como Tu me enviaste ao mundo, também Eu os envio.”[11]
Como individuos neste mundo, nós não temos poder, somos fracos. Somos pessoas normais, e não primeiros-ministros, ou jogadores de futebol, ou actores de Hollywood, ou directores de corporações multinacionais. Não temos importância nenhuma no mundo.
Não faz mal. Não precisamos de importância neste mundo: somos membros do Corpo de Cristo. Somos fracos, como individuos, claro. Uns de nós somos muito fracos, e precisamos de ajuda; outros somos mais fortes, e podemos ajudar. É nisto mesmo que está a força do Corpo de Cristo: não somos individuos sozinhos, mas somos partes de uma coisa maior do que todos nós. O Corpo de Cristo não é somente os membros desta paróquia, ou da Igreja Lusitana ou a Comunhão Anglicana. Nem é somente todos os membros da Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica, com todos os Anglicanos e Católicos Romanos e Ortodoxos do mundo. É tudo isto, claro, mas, porque Cristo existe no “tempo de Deus”, ou Kairos em grego, fora do tempo humano, que se chama Chronos, o Corpo de Cristo também existe fora do tempo humano. Todos os cristãos que foram baptizados durante os dois mil anos, desde o primeiro Pentecostes, são partes do Corpo, e todos os mortos que aceitaram o Senhor durante os três dias que Jesus esteve no lugar dos mortos[12] são partes da tal nuvem de testemunhas de que estamos cercados[13].
É por isso que não precisamos da ‘força’ deste mundo: a nossa ‘força’, que é do Espírito, é maior. Nós temos uma coisa que o mundo não tem. Temos esperança. Sabemos que este mundo não é tudo o que há, e temos esperança no mundo que há-de vir.
Mas, ainda temos de morar aqui, por enquanto. É por isso que também temos o Corpo de Cristo, porque nós podemos fazer muito mais, juntos na fé, do que poderíamos fazer, cada por si. O nosso modelo vem do livro dos Actos dos Apóstolos: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma.”[14] Na altura, a comunidade dos crentes era ainda bem pequena, com menos de duzentos fiéis[15], e entendo que talvez o versículo seguinte seja um pouco forte demais para nós agora: “Nenhum deles dizia que os seus bens eram apenas seus, mas punham todo em comum”.[16] Com todos os crentes do mundo, isso seria mais do que difícil, mas não podemos fugir desta ideia bíblica, que cada um de nós tem uma responsabilidade para com os outros membros do Corpo.
Esta responsabilidade não deve ser financeira, claro. Há muitas outras coisas que são necessárias. Há pessoas, aqui nesta paróquia, na nossa cidade, na nossa Igreja Lusitana, no nosso mundo, que precisam de amizade, que precisam de um pouco de ajuda com qulaquer coisa, que precisam de oração. E há, também, membros do Corpo de Cristo, nossos irmãos e irmãs, que não têm pão na mesa, neste tempo de crise. Ninguém pode fazer tudo, mas juntos, não há nada que não possamos fazer.
E isto é a verdade, não porque unidos, nós possamos fazer mais... isto é a parte menor. Só o facto de serem “unidos” não resultou com os comunistas na Rússia, quando eles tentaram. Mas nós não somos somente um corpo: somos o Corpo de Cristo.
O que é que há de valor no mundo? O Corpo de Cristo, que não somos só nós, nem nós e a tal nuvem das testemunhas, mas todos nós e Jesus Cristo, verdadeiro Deus, sentado à direita do Pai. Nós precisamos de muito, mas não conseguimos fazê-lo. Mas “para Deus, não há nada impossível!”[17]

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen




Notas:
[1] 2 Coríntios 11, 25b
[2] Actos 24, 27
[3] Actos 16, 23
[4] Actos 14, 19
[5] 2 Coríntios 11, 23-28
[6] Filipenses 2, 5-8
[7] Levítico 12, 6-8
[8] S. Mateus 27, 26-31; S. Marcos 15, 15-19; S. Lucas 22, 63-64; S. João 19, 1-4
[9] S. Mateus 27, 24-27, 51-53; Actos 2, 24, 31-36; Romanos 6, 3-11
[10] Romanos 6, 22-23; 1 Timóteo 1, 16,; 1 João 511-12
[11] S. João 17, 15-18
[12] Credo dos Apóstolos, Liturgia da Igreja Lusitana, p. 254
[13] Hebreus 11, 32 – 12, 1
[14] Actos 4, 32
[15] Actos 1, 15
[16] Actos 4, 33
[17] S. Lucas, 1, 37

27 March 2009

Sermão por o Quinto Domingo da Quaresma, Ano B, ((2009) (in Portuguese)

5º Domingo da Quaresma, 29.03.09 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo/ V.N. de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger


«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Finalmente, o último Domingo da Quaresma. Há um restaurante aonde nos comemos quase todos sextas-feiras, a proprietária ainda não lembra que eu não quero nem carne nem sobremesa nas sextas-feiras durante Quaresma... religiosa, ela não é.
A cultura mesma agora não é. Eu moro em Braga, a cidade mais Católica Romana do país, mas senti mau quando vi nas todas as igrejas lá, desde o começo da Quaresma, anúncios sobre as Procissões da Semana Santa... mas nada sobre a Quaresma mesma. A Câmara da Braga também tem publicidade sobre as Procissões, e não só em Braga mas em todo o Portugal e Espanha, também.
As Procissões são coisas boas, e as pessoas que participam, os farricocos e outros figurantes, são crentes, fieis, e se uma das Procissões muda a coração de somente uma pessoa para ser Cristão, vale a pena. Mas eu acho que a Câmara esta pensando menos nas almas e mais nos Euros das turistas, quando investem dinheiro em publicidade. É triste, mas espelha-se a cultura em que vivemos.
Estava pensando, esta semana passado, sobre Quaresma e a cultura. Estava pensando, também, sobre espelhos, porque eles não são todos iguais. Quaresma e a cultura: as duas são espelhos, mas espelhos bem diferentes, espelhos quem mostram-nos coisas diferentes. Dois espelhos, mas no primeiro, se olhamos nele cuidadosamente, e com fé e paciência, nós podemos ver as nossas essências verdadeiras, com todo o que é bom (e há muito que é bom: somos formados na semelhança de Deus) e com todo o que é mau (e há também muito—nós somos pecadores, quebrados). No espelho segundo, o espelho da cultura, a imagem é invertida e deformado, e a que mostra é mentira.
No Calendário Eclesiástico, as quarenta dias da Quaresma podem ser por nos um espelho, um espelho dado pela Igreja, que nós podemos usar para espreitar para dentro dos cantos mais escuros das nossas almas e mentes, um espelho para reflectir e apontar uma luz e limpar as teias da aranha, de desempoeirar o espírito, nos lugares dentro de nos em quem nós não queremos olhar. É um espelho que pode reflectir a luz até aos lugares mais escuros, mais cheia das trevas. É por isso que começamos a Quaresma com as palavras «Convido-vos, portanto, em nome da Igreja, a observar santa Quaresma, com exame de consciência...[1]».
O espelho da cultura é diferente. Se o espelho da Quaresma mostra-nos a verdade, o espelho da cultura reflecte o contrário. Quando eu veja televisão, não há diferenças grandes entre a publicidade aqui e nos Estados Unidos. É sempre o mesmo—se dirijais o carro perfeito, useis as cosméticas perfeitas, se bebeis a bebida perfeita que comprastes no supermercado perfeito, se laveis suas roupas perfeitas com a sabão perfeita... se compreis todas as coisas que estes companhias querem vender, vocês também podem aparecer-se perfeitas como as actores, podem ter vidas perfeitas e felizes, sem falhas nenhumas...
Isto é a Grande Mentira: que nós podemos aperfeiçoar-se. Que nós não precisamos de Cristo. Que nós podemos, se compramos isto, ou gastamos dinheiro naquela, ou adquirimos este ai, podemos der feliz, podemos se popular, podemos ter vidas contentes e alegres. Nunca precisamos de ficar sozinho ou assustado ou triste, nunca sentimos humilhação ou vergonha, nada mais de solidão ou de saudades... uma vida de beleza e perfeição, só para o preço, o preço mínimo, de nosso produto. E baseado no orgulho, este ideia que nós podemos ganhar, ou comprar, a nossa própria felicidade, e que não precisamos de ninguém, e sobretudo não precisamos de Deus. É orgulho, e pecado, e, sempre, uma mentira.
Era por orgulho, o pecado que é a raiz de todos os outros, que o Grande Mentiroso, o arcanjo Satanás[2], foi expulsado dos Céus. Esmagado, o Inimigo caiu dos Céus e ficou como senhor deste mundo. Perdeu seu poder como arcanjo, mas não sua voz tentador. Há nada que ele pode fazer contra nos... mas ele ainda tem a lingua dum sedutor; as mentiras para enganar nos.
Deus deu-nos livre-arbítrio. E com este livre-arbítrio, nós precisamos escolher entre as verdades de Deus e do seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, e as mentiras do Inimigo. Mas de vez em quando, as verdades são duros, difíceis, e as mentiras tem mais poder de atracção.
Há muitas partes da Grande Mentira, da mentira do Diabo. Hoje não falo sobre as partes que glorificam violência, ou racismo, ou os outros que também tem suas raízes no orgulho. Só falará das partes quem ouvimos mais da cultura, da média... e a média é um instrumento maravilhoso para o Inimigo! Quem é que não quer ser linda, ou rico, ou “sexy”, ou popular... que não quer todos as coisas que eles vendem na televisão? A primeira parte da Grande Mentira é esta: estas pessoas são lindas, ou rico, ou “sexy”, ou popular, somente por causa dos produtos que usam. É o carro novo, ou a fragrância sensual, ou as roupas da moda... E se nós compramos as mesmas coisas, também podemos ser lindas, ou ricas, ou “sexy”, ou popular.
Na contracapa da revista Visão desta semana passada, tinha um foto grande do actor George Clooney, e dum relógio Omega, com as palavras (em Inglês) “George Clooney’s Choice” — a escolha do George Clooney. A mensagem é fácil a entender: se quer ser tão “sexy”, tão popular, de ter a vida feliz de George Clooney, só precisa escolher o mesmo relógio. Nós podemos ter “valor”, se compramos os produtos vendido nas revistas e televisão. Ai, é tão fácil, ser feliz!
Quando pensamos nisso, podemos ver como é uma estupideza. Um relógio pode dizer as horas, e nada mais. Não pode dar qualquer valor a uma pessoa: o nosso único valor verdadeiro é uma coisa interior—a mais que conformamos ao Imagem do Deus, a mais valor que temos.
Mas a primeira parte desta Grande Mentira é que nosso valor é uma coisa exterior, a segunda parte (e isto é esquisito!) é até pior. A primeira parte diz que nos estamos sem valor se não compramos estes produtos, mas a segunda parte é o oposto: que nós já somos perfeitos. E a Mentira é tão talentoso que, se não olhamos bem, se não examinamos as mentiras cuidadosamente mesmo, nem percebemos que os duas coisas são opostas.
Ouçam a publicidade comum: “Hoje, você merece uma pausa!”, declara McDonalds. Uma nova promoção parceria entre duas companhias: “Você Merece Coca-Cola e Avon!” Ou a minha favorita, da companhia L’Oreal, que nós ensina simplesmente: “Porque você merece!”.
“Porque você merece!”??? Nós merecemos o que? Nos, que vivam num mundo aonde há uns quem jogam fora mais comida do que comem, ao mesmo tempo que há tanto quem nem podem por pão na mesa por suas crianças... nos, que vivam num mundo aonde um medico seria melhor pagado fazendo lipoaspiração nos ricos do que tratando as doenças tropicais quem matam milhões... Nos, quem “matas os profetas e apedrejas os mensageiros que Deus nos envia”?[3] O que é que nós “merecemos”???
É por isso que precisamos da Quaresma. Nós ouvimos as mensagens da cultura dia inteiro. É por isso que a Quaresma é um dom da Igreja, um tempo que, cada ano, dá nós a possibilidade duma interrupção transitória em nossas vidas. Este tempo de jejum e da renúncia não é para nós punir, mas para dá-nos um pouco de espaço, espaço fora do mundo a da sua cultura tão barulhenta, em que nós podemos examinar as nossas almas e mentes: para ver como as influencias malignas das mentiras do Inimigo já podiam acumular nos cantos mais escuros, e para convidar a Luz de Cristo ilumina as trevas. Para convidar a Luz, e eliminar as mentiras, quer que somos sem valor quer que merecemos tudo que queremos.
Nós temos valor, sem comprar nada, porque foram feiro por Deus no seu próprio Imagem, e nós merecemos nada, por causa dos nossos pecados. O nosso valor é tanto que Deus ainda nos ama, apesar de todos nosso pecados. E com todos nosso pecados, nós merecemos nada, sem o amor de Deus.
No Evangelho, Jesus disse, «”Neste momento, o meu coração está perturbado. Mas que posso fazer? Pedir ao Pai que me livre do que está para me acontecer nesta hora? Mas eu vim ao mundo precisamente por causa desta hora! Pai, manifesta o teu poder!” Veio então uma voz do céu que dizia: “Já o manifestei e voltarei ainda a manifestá-lo”.[4]»
“Já o manifestei...”. Esta quinta-feira passada, o dia 25 de Março, foi a verdadeira ‘Festa de Encarnação’: a Anunciação à Virgem Maria. Foi a Encarnação, porque foi neste momento que “a Palavra fez-se homem e habitou nós[5]”. É incrível... que Deus, o Criador do Universo inteiro, inicialmente habitou entre nós como um embriãozinho, no seio da Virgem, e nasceu normalmente como verdadeiro homem, mas também foi verdadeiro Deus! E não só nasceu como um de nós, mas também morreu, horrivelmente na Cruz, só pelo amor de nós, que somos tão pecaminoso que, sem o amor de Deus, devem ser perdidos.
‘Já o manifestei, e voltarei ainda a manifestá-lo’. Jesus disse que “chegou o momento em que este mundo vai ser julgado, e que o senhor deste mundo vai ser expulso”. Jesus, no Evangelho de S. Mateus, deu nós uma descrição pormenorizado do Juízo Final[6], e apesar de todas as mentiras do Inimigo, não somos julgados pelos nossos roupas de moda, ou carros novos, ou qualquer coisa assim. Também, não seria que o Juiz dirá: “Você merece o Reino dos Céus!”: o Cristo não é Coca-Cola! Não, se a Grande Mentira é isso: você é a coisa mais importante, ama-te mesmo, a verdade é diferente: “Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, e tua alma, e tua mente, e ama o teu próximo como a ti mesmo.”
Dois espelhos. O da cultura reflecte que nós merecemos todo que queremos, e que só precisamos de gastar dinheiro para aperfeiçoar-se. O da Quaresma, o da Fé, reflecte a Imagem do Deus. No primeiro, é o espelho que é estragada, a mostra a mentira que somos perfeitos. No segundo, é nós que somos estragados, desfiguradas por pecado, que precisamos a Salvação de Cristo Jesus. Duas reflexões. Uma verdade.
Nesta Quaresma, escolhamos a verdade. Nesta Quaresma, olhemos no espelho, reconheçamos os nossos imperfeições, nossos pecados, e deixemos que a Luz brilha nas trevas, porque se deixamos, as trevas, e as mentiras, não podem vencer[7].
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
[1] Liturgia da Igreja Lusitana, p.142
[2] Apocalipse 12 7-9
[3] S. Mateus 23, 37
[4] S. João 12, 27-28
[5] S. João 1, 14
[6] S. Mateus 25, 31-46 (e seria bom, consultar mais uma vez!)
[7] S. João 1,5
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