4°Domingo do Advento, 21.12.08 [Ano B]
Igreja de Redentor/Porto
Cónego Doutor Francisco Carlos Zanger
Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
"Eu te saúdo, ó escolhida de Deus! O Senhor está contigo." Ou, nas palavras talvez mais conhecidas, “Avé Maria, cheia de graça! O Senhor é contigo.”
Quando ouviu estas palavras, a jovem Virgem Maria ficou cheia de medo. Sabemos isto, porque logo a seguir as palavras do Anjo Gabriel foram: “Não tenhas medo, Maria.”
Os Anjos são assustadores; quando, na noite do Nascimento de Nosso Senhor, o anjo apareceu aos pastores que passavam a noite no campo guardando os rebanhos, a primeira coisa que o anjo lhes disse foi: “Não tenham medo!”. Agora, vimos anjos nas lojas e eles são giros, adoráveis, bebés dourados com asas... mas não é nada de “delico-doce” como um anjo verdadeiro; os anjos são os mensageiros de Deus. É por isso que eles dizem: “Não tenhas medo”— são medonhos.
E as palavras seguintes foram até piores: "Ficarás grávida e terás um filho, a quem vais pôr o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado de Filho do Deus Altíssimo."
À primeira vista, não compreendeu. Ela perguntou ao Anjo Gabriel (e isso também demonstrou a sua coragem, confrontando um anjo do Senhor!): “Como é que isso pode ser, se eu sou virgem?”. Mas o anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Deus altíssimo te cobrirá como uma nuvem. Por isso o que vai nascer é santo e será chamado Filho de Deus.” E o anjo disse a Maria que a sua parente, Isabel, que era casada com o sacerdote Zacarias, e era velha de mais para ter crianças, também estava grávida já no sexto mês, de um filho: filho este que seria São João Baptista: "É que para Deus não há nada impossível!”
Histórias e palavras tão familiares que quase nem lhes ligamos agora, mas que para uma miúda de doze ou treze anos, que estava desposada com um homem mais velho, um homem sério, um homem muito religioso numa cultura muita conservadora... estas eram palavras terríveis, palavras medonhas. Se ela tivesse tido medo quando viu o anjo, tal teria sido o fim do mundo.
Para compreender porque era tão difícil, precisamos de saber um pouco sobre a cultura israelita do Primeiro Século. Não se tratava só de os casamentos serem arranjados, mas também que o acordo de casamento era um contrato com força legal. O Império Romano não tinha interesse nenhum em assuntos como estes, desde que os Judeus pagassem os impostos, o “IVA Romano”, e continuassem como uma colónia pacífica, podiam continuar com as suas leis tradicionais, as leis Bíblicas.
A maioria das leis sobre os casamentos estavam escritas no vigésimo segundo capitulo do Deuteronómio. O contrato de casamento era entre o noivo e o pai da noiva, e menina não tinha voz nenhuma no assunto. No caso da Virgem Maria, seu pai, São Joaquim, assegurou que ela era uma virgem, pura e sem mácula, e assinou o contrato com São José. Como era normal, a jovem Maria continuaria na casa dos pais durante o ano de noivado.
Mas, na lei, se ela ‘quebrasse o contrato’, se depois do dia do casamento, o marido a acusasse de já não ser virgem na altura do casamento, a lei era simples. Se os pais da jovem não pudessem levar os sinais da virgindade aos anciãos da cidade, reunidos em tribunal, então, como estava escrito no Deuteronómio: "devem levá-la à porta da casa do seu pai e ali será apedrejada e morta pelos homens da sua cidade. É que ela cometeu no meio do povo de Israel a infâmia de se prostituir, desonrando a casa do seu pai. Dessa maneira, acabarás com este escândalo, no meio do teu povo." E, no caso de uma menina que já estava, pelo menos, no terceiro ou quarto mês da gravidez, o tribunal não estaria muito interessado nos sinais da sua virgindade.
E Maria sabia bem disso: ela era duma família religiosa, era bem educada. Ela era jovem, ainda entre menina e mulher, provavelmente já se tinha assustado antes do encontro com o anjo, assustado com o casamento, com a entrada no mundo dos adultos, mas ao mesmo tempo tudo era animado... todos os sentimentos, todas as esperanças que são naturais a uma noiva tão jovem. E agora, com as palavras do anjo, perdia tudo.
O que é que ela poderia dizer aos pais? Que está grávida, mas ainda é virgem? O que é que ela poderia dizer ao seu noivo, José? Ela bem sabia que, ao dizer “Sim” ao anjo, ninguém iria acreditar que fosse ainda virgem... e sabia que iria morrer, apedrejada como prostituta, em frente à porta da sua casa.
Mas... como é que ela podia disser que “não”? Ela era fiel, educada na Fé, e quando o anjo — um anjo de Deus(!) se aproximou... ela não podia dizer não, não ao seu Deus!
E não teve tempo para pensar. É impossível dizer a um anjo: “Posso pensar nisto por uns dias?”. Ela tinha de responder no momento e respondeu, não assustada mas com Fé : “Servirei o Senhor como ele quiser. Seja como tu dizes.”Ou, nas palavras mais tradicionais: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segunda a tua palavra.”
Falou assim, sabendo que talvez ninguém fosse acreditar nela, que o preço da sua obediência podia ser mais do que a vergonha, poderia ser a sua própria morte. Falou assim, esta jovem, por causa da sua fé. Falou assim, e, nas palavras do Anjo Gabriel, o Espírito Santo desceu sobre ela, e o poder de Deus altíssimo cobriu-a como uma nuvem.
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós!
Esta jovem, esta miúda virgem, tinha tanta coragem! É por isso que ela tem um lugar especial na nossa Fé tal como está escrito no quadragésimo segundo versículo deste mesmo Evangelho, a Santa Isabel, parente da Virgem Maria e já grávida de nove meses de João Baptista, disse: “Abençoada és tu entre todas as mulheres e abençoado é o fruto do teu ventre!" e a Virgem respondeu, no Cântico de Maria “Daqui em diante toda a gente me vai chamar ditosa, pois grandes coisas me fez o Deus Poderoso. Ele é Santo!.”
Quando Maria aceitou a vontade do Senhor e o Espírito Santo desceu sobre ela, Deus que criou o Universo, Incarnou-se. Jesus Cristo entrou na sua própria Criação nesse mesmo momento. Ele, que era verdadeiro Deus desde o princípio, fez-se verdadeiro homem, nove meses antes do primeiro Natal, no seio de Maria.
É por isso que a igreja primitiva a chamava de “Theotokos” — a “Mãe de Deus”, ou literalmente, “a Portadora de Deus”, assim insistindo que o Messias era totalmente humano e totalmente divino a partir do momento da concepção; por conseguinte, a criança que nasceu não era somente uma criança humana com a divindade habitando nela, mas era uma Pessoa com duas naturezas distintas, a divina e a humana — o Deus-Homem, o Encarnado. O Verbo se fez carne, e habitou entre nós... e só para nos salvar!
Quando o Anjo Gabriel foi mandado a Maria, ela tinha que fazer uma escolha terrível. Podia dizer que “sim”, com o risco não só de uma gravidez vergonhosa e escandalosa, mas sabendo que a lei ordenava que ela fosse apedrejada, morta em frente da casa de seu pai... ou podia dizer que “não”. E se dissesse “não”, ninguém iria saber! Ninguém, excepto o próprio Deus. E ela, esta menina tão jovem e tão assustada, respondeu: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segunda a tua palavra.”
Nós raramente somos solicitados por Deus para pôr em risco as nossas vidas... mas as exigências de Deus ainda podem parecer difíceis, porque as exigências de Deus são frequentemente muito diferentes das exigências da nossa cultura moderna. Talvez nunca iremos precisar de comparecer em frente dos anciãos da cidade, reunidos em tribunal, e sentenciando a morte... mas temos de comparecer em frente dos nossos colegas, dos nossos amigos... em frente do “Tribunal da Cultura Secular”. E as nossas vidas seriam muito mais fáceis, mais calmas, mais agradáveis, se pudéssemos dizer que somos inocentes.
Mas não podemos. Quando tivermos que comparecer em frente do “Tribunal da Cultura Secular” só poderemos confessar que somos culpados... porque cada um de nós precisa primeiro de dizer: “Eis aqui o servo do Senhor. Faça-se em mim segunda a Sua palavra.”
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
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10 January 2011
3° Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]
3°Domingo do Advento, 07.12.08 [Ano B]
Igreja de S. João Evangelista/VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco C. Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
“Vivam sempre em alegria!” Vivam sempre em quê? Assim começou a nossa segunda leitura, da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses... com uma frase que até parece um contra senso. Estamos no Terceiro Domingo do Advento, esperando o retorno de Cristo e o Seu Juízo Final, e precisamos de viver ‘sempre em alegria’? Não seria muito mais fácil, e mais justo, viver no medo, no medo da condenação, e no medo de passar a eternidade no Inferno?
Esta é a contradição do Advento. Nós esperamos pelo Juiz do Mundo, por Aquele que conhece todos os nossos desejos e pensamentos, bons e maus, esperamos por Aquele que já disse que, cada vez que passamos por um mendigo com fome sem lhe dar comida, cada vez que sabemos de uma viúva idosa e sozinha e não a visitamos, ou que sabemos de um membro da Paróquia que está no hospital e não o visitamos, sabemos que este mendigo, ou esta viúva, ou este doente, “é um dos irmãos mais pequeninos” de Jesus, e no Juízo Final tudo isto será o mesmo que termos ignorado a própria pessoa de Jesus nessas ocasiões. E esperamos com esperança.
Esta é a contradição do Advento, podermos esperar sem medo por uma coisa tão medonha. É a contradição do Advento, e também a contradição da nossa Fé. Esperamos pelo Juízo Final, pelo julgamento de Deus, mas ao mesmo tempo sabemos que o tribunal não será “justo”, e sabemos que, se fosse um tribunal justo, e um Juiz justo, seriamos todos condenados.
Mas tal é a nossa Fé — a de que, no dia e na hora do Juízo Final, não será um julgamento de justiça, será um julgamento de amor. O nosso Juiz, Aquele que nos amou de tal modo que entrou na sua própria Criação, encarnou-se no seio da Virgem Maria e viveu como um de nós (quando podia ser rico, podia ser um rei, mas não, quis ser um homem normal, como um de nós mesmo), e morreu de um modo horrível e escandaloso, verdadeiro homem, mas ainda verdadeiro Deus ao mesmo tempo, e tudo isto só pelo seu amor a nós, e para a nossa salvação... é Ele que nos julgará! Não, este não vai ser um tribunal de justiça, graças a Deus. Será um tribunal de amor.
Mas, se será um julgamento de amor, também será um julgamento do nosso amor — e não só do nosso amor para todos os seres humanos criados por Deus, de todos nós que somos criados à Imagem de Deus, mas também do nosso amor pela Criação inteira. Nós somos os feitores da Criação, não somos os donos, mas os feitores, os “empregados” de Deus, desde que fomos criados. No primeiro capítulo do Génesis, Deus abençoou o ser humano, o primeiro homem e a mulher, desta maneira: «Sejam férteis e cresçam, encham a terra e dominem-na, dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» [v.26]
Mas este 'domínio’ não significa que nós somos os novos proprietários, os ‘donos do mundo’! No Salmo Cinquenta, Deus disse: «...pois todos os animais dos bosques me pertencem, bem como os que se encontram nos altos montes; pois conheço bem as aves das montanhas, e os répteis do campo estão à minha disposição. Se eu tivesse fome não precisava de to dizer, pois o mundo e tudo o que ele contém pertencem-me.» Não, donos não somos, somos somente os feitores do dono... e quando o dono voltar, devemos estar preparados.
Não me lembro já de quantas vezes Jesus falou através de parábolas, de comparações, sobre a importância do nosso papel enquanto feitores, quando o dono não está presente na casa. No décimo segundo capitulo do Evangelho de São Lucas, Jesus disse que: «Como poderá mostrar-se fiel e prudente o empregado a quem o Patrão deixou a tomar conta dos outros... Feliz seja seráaquele empregado a quem o patrão, quando vier, encontrar a proceder assim. Digo-vos que certamente o fará administrador de todos seus bens.» [12,42-43], mas no outro lado, no mesmo capítulo do Evangelho, o «empregado, que conhecia a vontade do patrão, mas não se preparou nem fez nada de acordo com o que ele queria, será bastante castigado»[12,47].
Temos parábolas semelhantes nos outros Evangelhos também, como a parábola do Rei e do Administrador que Não Soube Perdoar, no décimo oitavo capítulo de São Mateus, e a comparação dos Rendeiros Criminosos no décimo segundo capitulo de São Marcos, e também a história da Cura do Empregado do dum Oficial Romano no oitavo capítulo de São Mateus — o Centurião do Exército Romano que, quando Jesus queria ir a casa dele para curar o seu empregado, respondeu : «Isso não, Senhor! Não mereço que entres em minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu empregado ficará são. Também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência e os meus soldados a quem dou ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem.» O Centurião — ele que era pagão, que venerou o Mithras, o ‘deus’ dos soldados Romanos — ele entendeu! E Jesus ficou admirado, e respondeu:«Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé mesmo entre o povo de Israel. Digo-vos mais : hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no Reino do céus com Abraão, Isaac, e Jacob, enquanto os herdeiros do Reino serão lançados fora, na escuridão!”» [8,5-13]
Palavras difíceis, estas! Na altura em que Jesus disse estas palavras, nem as pessoas do Oriente, da China ou Japão, nem as pessoas do Ocidente, quer as tribos europeias quer as tribos dos Índios das Américas, conheciam o Deus de Abraão, Isaac, e Jacob . Eram todos pagãos de um tipo ou de outro. Os herdeiros do Reino, na altura, eram o povo Hebraico, e depois da Ressurreição, também os Cristãos gentílicos que foram convertidos por São Paulo e outros evangelistas da nova Fé... mas levou séculos para o Cristianismo entrar na Europa inteira, um milénio e meio para as Américas, e ainda há lugares na China, na África, e nalgumas das ilhas do Oceano Pacífico aonde o nome de Jesus é completamente desconhecido. Dois mil anos, e ainda não podemos dizer que concluímos a Grande Comissão, a de pregar a mensagem sobre o arrependimento e o perdão do pecados a todas as nações.
Bem, tínhamos só três tarefas para o julgamento final. A primeira : Amar o Senhor e os nossos próximos, e tratar os nossos próximos da mesma maneira como tratamos a Jesus, tal como Ele disse: “Saibam também que todas as vezes que deixaram de (ajudar) a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o deixaram de fazer”. Reprovamos !
Segunda: somos os feitores da Criação. Com a nossa historia de exploração do nosso planeta, com a desflorestação das grandes partes da Amazónia e da Rússia, com a extinção de tantos tipos de plantas e de animais, com a poluição dos rios e oceanos e o ar impuro, viciado, com o aquecimento global... a nossa solicitude para com a Criação não é muito visível! Reprovamos!
E terceira: a Grande Comissão — o mandamento de Jesus para levar a Boa Nova ao mundo inteiro. Dois mil anos mais tarde, num mundo com aviões, com rádio, televisão e a internet, quando podemos gastar milhões, não, biliões de Euros quer para guerras quer para os Jogos Olímpicos, há quantos mongólicos, ou Papuanos, ou Birmaneses, ou indígenas na Amazónia, que nunca ouviram sequer falar no nome “Jesus”? Reprovamos! Três mandamentos. e três Reprovações. !
E as primeiras palavras de São Paulo que ouvimos hoje, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses, são “Vivam sempre em alegria!” ? Preparamo-nos para o Juízo Final, sabendo bem que não temos resposta nenhuma para o Juiz... e necessitamos de viver sempre em alegria?
Sim! Claro que sim, porque tudo isto não tem nada haver com justiça, mas só com amor. Precisamos sempre de continuar, de tentar melhorarmo-nos, de ser Cristãos verdadeiros, e não só de nome... porque quando Jesus Cristo morreu na Cruz, Ele tirou-nos o peso terrível dos nossos pecados. É um amor incompreensível. "Vivam sempre em alegria e oração, e dêem graças a Deus por tudo. Esta é a vida que Deus quer de vocês, em união com Cristo Jesus... Que o Deus da paz vos torne totalmente perfeitos, e vos guarde dignos e irrepreensíveis de corpo e alma, até à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que vos escolheu é fiel e realizará o que prometeu." E por isto, damos graças a Deus!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
Igreja de S. João Evangelista/VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco C. Zanger
«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
“Vivam sempre em alegria!” Vivam sempre em quê? Assim começou a nossa segunda leitura, da Primeira Carta de São Paulo aos Tessalonicenses... com uma frase que até parece um contra senso. Estamos no Terceiro Domingo do Advento, esperando o retorno de Cristo e o Seu Juízo Final, e precisamos de viver ‘sempre em alegria’? Não seria muito mais fácil, e mais justo, viver no medo, no medo da condenação, e no medo de passar a eternidade no Inferno?
Esta é a contradição do Advento. Nós esperamos pelo Juiz do Mundo, por Aquele que conhece todos os nossos desejos e pensamentos, bons e maus, esperamos por Aquele que já disse que, cada vez que passamos por um mendigo com fome sem lhe dar comida, cada vez que sabemos de uma viúva idosa e sozinha e não a visitamos, ou que sabemos de um membro da Paróquia que está no hospital e não o visitamos, sabemos que este mendigo, ou esta viúva, ou este doente, “é um dos irmãos mais pequeninos” de Jesus, e no Juízo Final tudo isto será o mesmo que termos ignorado a própria pessoa de Jesus nessas ocasiões. E esperamos com esperança.
Esta é a contradição do Advento, podermos esperar sem medo por uma coisa tão medonha. É a contradição do Advento, e também a contradição da nossa Fé. Esperamos pelo Juízo Final, pelo julgamento de Deus, mas ao mesmo tempo sabemos que o tribunal não será “justo”, e sabemos que, se fosse um tribunal justo, e um Juiz justo, seriamos todos condenados.
Mas tal é a nossa Fé — a de que, no dia e na hora do Juízo Final, não será um julgamento de justiça, será um julgamento de amor. O nosso Juiz, Aquele que nos amou de tal modo que entrou na sua própria Criação, encarnou-se no seio da Virgem Maria e viveu como um de nós (quando podia ser rico, podia ser um rei, mas não, quis ser um homem normal, como um de nós mesmo), e morreu de um modo horrível e escandaloso, verdadeiro homem, mas ainda verdadeiro Deus ao mesmo tempo, e tudo isto só pelo seu amor a nós, e para a nossa salvação... é Ele que nos julgará! Não, este não vai ser um tribunal de justiça, graças a Deus. Será um tribunal de amor.
Mas, se será um julgamento de amor, também será um julgamento do nosso amor — e não só do nosso amor para todos os seres humanos criados por Deus, de todos nós que somos criados à Imagem de Deus, mas também do nosso amor pela Criação inteira. Nós somos os feitores da Criação, não somos os donos, mas os feitores, os “empregados” de Deus, desde que fomos criados. No primeiro capítulo do Génesis, Deus abençoou o ser humano, o primeiro homem e a mulher, desta maneira: «Sejam férteis e cresçam, encham a terra e dominem-na, dominem sobre os peixes do mar e as aves do céu e sobre todos os animais que andam sobre a terra.» [v.26]
Mas este 'domínio’ não significa que nós somos os novos proprietários, os ‘donos do mundo’! No Salmo Cinquenta, Deus disse: «...pois todos os animais dos bosques me pertencem, bem como os que se encontram nos altos montes; pois conheço bem as aves das montanhas, e os répteis do campo estão à minha disposição. Se eu tivesse fome não precisava de to dizer, pois o mundo e tudo o que ele contém pertencem-me.» Não, donos não somos, somos somente os feitores do dono... e quando o dono voltar, devemos estar preparados.
Não me lembro já de quantas vezes Jesus falou através de parábolas, de comparações, sobre a importância do nosso papel enquanto feitores, quando o dono não está presente na casa. No décimo segundo capitulo do Evangelho de São Lucas, Jesus disse que: «Como poderá mostrar-se fiel e prudente o empregado a quem o Patrão deixou a tomar conta dos outros... Feliz seja seráaquele empregado a quem o patrão, quando vier, encontrar a proceder assim. Digo-vos que certamente o fará administrador de todos seus bens.» [12,42-43], mas no outro lado, no mesmo capítulo do Evangelho, o «empregado, que conhecia a vontade do patrão, mas não se preparou nem fez nada de acordo com o que ele queria, será bastante castigado»[12,47].
Temos parábolas semelhantes nos outros Evangelhos também, como a parábola do Rei e do Administrador que Não Soube Perdoar, no décimo oitavo capítulo de São Mateus, e a comparação dos Rendeiros Criminosos no décimo segundo capitulo de São Marcos, e também a história da Cura do Empregado do dum Oficial Romano no oitavo capítulo de São Mateus — o Centurião do Exército Romano que, quando Jesus queria ir a casa dele para curar o seu empregado, respondeu : «Isso não, Senhor! Não mereço que entres em minha casa. Basta que digas uma palavra e o meu empregado ficará são. Também eu tenho os meus superiores a quem devo obediência e os meus soldados a quem dou ordens. Digo a um que vá, e ele vai. Digo a outro que venha, e ele vem.» O Centurião — ele que era pagão, que venerou o Mithras, o ‘deus’ dos soldados Romanos — ele entendeu! E Jesus ficou admirado, e respondeu:«Fiquem sabendo que ainda não encontrei ninguém com tanta fé mesmo entre o povo de Israel. Digo-vos mais : hão-de vir muitos do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa no Reino do céus com Abraão, Isaac, e Jacob, enquanto os herdeiros do Reino serão lançados fora, na escuridão!”» [8,5-13]
Palavras difíceis, estas! Na altura em que Jesus disse estas palavras, nem as pessoas do Oriente, da China ou Japão, nem as pessoas do Ocidente, quer as tribos europeias quer as tribos dos Índios das Américas, conheciam o Deus de Abraão, Isaac, e Jacob . Eram todos pagãos de um tipo ou de outro. Os herdeiros do Reino, na altura, eram o povo Hebraico, e depois da Ressurreição, também os Cristãos gentílicos que foram convertidos por São Paulo e outros evangelistas da nova Fé... mas levou séculos para o Cristianismo entrar na Europa inteira, um milénio e meio para as Américas, e ainda há lugares na China, na África, e nalgumas das ilhas do Oceano Pacífico aonde o nome de Jesus é completamente desconhecido. Dois mil anos, e ainda não podemos dizer que concluímos a Grande Comissão, a de pregar a mensagem sobre o arrependimento e o perdão do pecados a todas as nações.
Bem, tínhamos só três tarefas para o julgamento final. A primeira : Amar o Senhor e os nossos próximos, e tratar os nossos próximos da mesma maneira como tratamos a Jesus, tal como Ele disse: “Saibam também que todas as vezes que deixaram de (ajudar) a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o deixaram de fazer”. Reprovamos !
Segunda: somos os feitores da Criação. Com a nossa historia de exploração do nosso planeta, com a desflorestação das grandes partes da Amazónia e da Rússia, com a extinção de tantos tipos de plantas e de animais, com a poluição dos rios e oceanos e o ar impuro, viciado, com o aquecimento global... a nossa solicitude para com a Criação não é muito visível! Reprovamos!
E terceira: a Grande Comissão — o mandamento de Jesus para levar a Boa Nova ao mundo inteiro. Dois mil anos mais tarde, num mundo com aviões, com rádio, televisão e a internet, quando podemos gastar milhões, não, biliões de Euros quer para guerras quer para os Jogos Olímpicos, há quantos mongólicos, ou Papuanos, ou Birmaneses, ou indígenas na Amazónia, que nunca ouviram sequer falar no nome “Jesus”? Reprovamos! Três mandamentos. e três Reprovações. !
E as primeiras palavras de São Paulo que ouvimos hoje, na sua Primeira Carta aos Tessalonicenses, são “Vivam sempre em alegria!” ? Preparamo-nos para o Juízo Final, sabendo bem que não temos resposta nenhuma para o Juiz... e necessitamos de viver sempre em alegria?
Sim! Claro que sim, porque tudo isto não tem nada haver com justiça, mas só com amor. Precisamos sempre de continuar, de tentar melhorarmo-nos, de ser Cristãos verdadeiros, e não só de nome... porque quando Jesus Cristo morreu na Cruz, Ele tirou-nos o peso terrível dos nossos pecados. É um amor incompreensível. "Vivam sempre em alegria e oração, e dêem graças a Deus por tudo. Esta é a vida que Deus quer de vocês, em união com Cristo Jesus... Que o Deus da paz vos torne totalmente perfeitos, e vos guarde dignos e irrepreensíveis de corpo e alma, até à vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que vos escolheu é fiel e realizará o que prometeu." E por isto, damos graças a Deus!
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
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