13 May 2009

Domingo do Bom Pastor: 3o Domingo depois da Páscoa, 03.05.09 [Ano B]

3o Domingo depois da Páscoa, 03.05.09 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo, V.N. de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger


«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Aleluia, Cristo ressuscitou!
Na verdade ressuscitou. Aleluia!
Hoje é o Domingo do Bom Pastor, e no Evangelho, Jesus Cristo é o Bom Pastor, e nós somos as ovelhas. Quando Jesus falou ao povo sobre o Bom Pastor, Ele já estava no Templo na cidade de Jerusalém. Durante diversos dias, Ele ensinou no Templo correndo perigo, porque muitas vezes as autoridades Judaicas não gostavam dos seus ensinamentos, e mais de que uma vez, pegaram em pedras para o apedrejar[i], mas Ele esquivou-se das suas mãos. Entretanto e ao mesmo tempo, muitos outros acreditaram n’Ele[ii].
Há muitas diferenças entre o Evangelho de S. João, que é datado entre os anos 85 e 95, e os outros três Evangelhos, os Evangelhos sinópticos, o de Marcos (o mais antigo), Mateus e Lucas. As diferenças existem, porque os Evangelistas estavam a escrever para comunidades diferentes, e cada um dos Evangelistas escolheu a informação e as histórias, mais importantes, para a fé da sua comunidade: como S. João, que morreu idoso na cidade de Éfeso e escreveu nas últimas palavras do seu Evangelho: «Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever[iii].» É por isso, por exemplo, que quando os três Evangelistas ‘sinópticos’ escrevem a história da Última Ceia, eles deram toda a ênfase à instituição do Culto Eucarístico, e a ênfase de S. João é sobre o que aconteceu antes da Ceia, quando Jesus lavou os pés dos discípulos.
Para S. João, a visão de Jesus, (o mesmo Jesus que era verdadeiro homem mas também verdadeiro Deus, por quem, na Criação do Universo, tudo foi feito, e sem ele nada foi feito[iv]), ajoelhado em frente dos seus discípulos antes da refeição, lavando os seus pés sujos... este Jesus tão cuidadoso, não é muito diferente do mesmo Jesus enquanto o Bom Pastor, o pastor que expõe e dá a sua vida pelas ovelhas.
O Profeta Ezequiel deu-nos um oráculo sobre Jesus como o Bom Pastor: «Eis o que tenho para vos declarar, eu, o Senhor Deus: vou tomar eu próprio o cuidado das minhas ovelhas, velarei por elas. Como o pastor se inquieta por causa do seu rebanho, quando se encontrou no meio das suas ovelhas tresmalhadas, assim eu me inquietarei por causa do meu; hei-de libertá-las de todos os lugares por onde se espalharam num dia de nuvens e de trevas...[v]
Talvez nos pareça a nós, que vivemos quase dois mil anos depois, que não há muito diferença entre um Evangelho escrito aproximadamente no Ano 65, como o de S. Marcos, que é o mais antigo dos quatro, e um outro que foi escrito no Ano 75 ou 80. Mas na verdade, há uma grande diferença: antes do Ano 70, os judeus em Jerusalém viviam com medo dos Romanos. As autoridades judaicas sabiam que, se houvesse alguma coisa que podia ameaçar o Império (como este “Jesus”, este “profeta” duma aldeia qualquer no campo, que pensava que era um rei), as Legiões Romanas poderiam matar milhares de pessoas.
Depois do Ano 70, já estava feito. O Templo foi destruído pelos Romanos, e os judeus que sobreviveram foram exilados, e não puderam regressar a Israel até ao ano de 1948.
Ora bem. Na altura em que S. João Evangelista, (que nós pensamos que seja o discípulo que Jesus amava e que esteve ao pé da Cruz com a Virgem Maria[vi],) escreveu o seu evangelho, o Templo já tinha sido destruído, e o povo judeu, disperso em várias direcções, como ovelhas sem pastor. João estava a escrever sobre um tempo quase trinta e cinco anos antes da destruição do Templo e da diáspora dos judeus, um tempo de grande confusão e assustador para as autoridades judaicas.
Por um lado, eles eram os líderes do povo escolhido por Deus, viviam na Terra Santa, na cidade santa de Jerusalém, e eram as autoridades do Templo de David e Salomão. Mas por outro lado, eles também estavam sob o domínio das autoridades do Império Romano, e sabiam bem que viviam tempos perigosos: que viviam em cima de um barril de pólvora, e que se houvesse uma explosão, não seriam os Romanos a ficar feridos. Eles sabiam que tinham de fazer sempre equilibrismo, entre os judeus religiosos que odiavam os Romanos, e os Romanos que podiam aniquilar Israel com seu exército que era o maior do mundo. Estavam mesmo na corda bamba!
Era por isso que eles tinham tanto medo de Jesus. Eles pensavam que o Príncipe da Paz que pregava o amor podia desencadear uma guerra. Quando ouviram falar da ressurreição de Lázaro por Jesus, então, os chefes dos sacerdotes e alguns fariseus convocaram o conselho, e disseram, “Que faremos? Este homem multiplica os milagres. Se o deixarmos continuar assim, todos crerão nele, e os Romanos virão e destroem-nos o Templo e a nação!” E Caifás, que era o sumo-sacerdote naquele ano, disse: “Não vêem que é melhor que morra um só homem pelo povo, do que toda a nação ser destruída?”. Mas até ele não sabia o que dizia: Deus usou-o para afirmar que Jesus devia morrer para salvar o povo, e não apenas o povo judaico, mas o povo do mundo inteiro.
Infelizmente, Caifás tinha razão. Trinta e sete anos mais tarde, no ano 70, os Romanos arrasaram completamente a cidade de Jerusalém, destruiram o Templo, e assassinaram ou venderam como escravos a grande maioria dos seus habitantes. Os judeus, e a nova comunidade dos Cristãos que sobreviveram, foram dispersos por todo o lado.
Quando um lobo ou um leão ameaça o rebanho, as ovelhas dispersam, correndo para cá, correndo para lá, sem direcção, sem objectivo... e sem esperança, porque o lobo ou o leão sempre podem correr com mais velocidade.
E as pobres ovelhas: o lobo horrível, o leão ainda mais terrível, eram o governo em si mesmo. Quanto mais a Igreja crescia, mais feroz ficava o leão. Foi somente a sua fé em Jesus Cristo e no mundo que há-de vir, que lhes deu a coragem de manterem-se firmes na Fé Cristã. Como S. Pedro escreveu na sua Carta aos cristãos do norte da Ásia Menor que estava a ser perseguida : «Sejam prudentes e estejam alerta, pois o vosso inimigo, o Diabo, anda em volta de vocês, como um leão a rugir, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé.[vii]»
E a Igreja cresceu, mesmo. A mensagem redentora de Jesus Cristo obteve enorme sucesso entre as pessoas mais excluídas numa sociedade tão hierarquizada, entre mulheres e pobres, e escravos, porque deu uma nova esperança[viii]. Por causa disso, a nova crença pareceu perigosa para a estabilidade do Império. As perseguições oficiais dos cristãos pelos Romanos começaram bem cedo; as primeiras foram locais, especialmente em Roma, com o Imperador Nero no ano 64, mas as perseguições provocadas pelos outros Imperadores tiveram lugar no Império inteiro.
O Cristianismo foi uma das religiões legalizadas no ano de 313 pelo Édito de Milão do Imperador Constantino (ele que foi baptizado no seu leito de morte!)[ix], mas ninguém sabe quantos milhares de cristãos foram martirizados antes. Na altura de Constantino, o Império ainda não era Cristão: a maioria das pessoas ainda eram pagãs. Só no ano 381 é que o Cristianismo foi declarado como a religião do Estado[x].
Mas nos três séculos antes, nas novas comunidades no Império Romano (e a fé cresceu em todos lados do Império, nas cidades do Egipto até Itália, e talvez até à Ibéria!), as ‘ovelhas’ das primeiras comunidades Cristãs, no tempo das perseguições, tinham vidas difíceis. É por isso que o exemplo de Nosso Senhor como o Bom Pastor, que cuida das suas ovelhas, que conhece cada uma pelo nome, bem como as ovelhas o conhecem a Ele, é tão importante. O Bom Pastor que deu a sua vida pelas suas ovelhas foi o modelo para os Apóstolos e para os primeiros bispos da Igreja que foram designados e consagrados pelos Apóstolos como pastores do rebanho que é a Igreja.
E tal como Jesus deu a sua vida por nós, também muitos dos Apóstolos foram martirizados: na tradição da Igreja, somente S. João teve uma morte natural. Sucedeu o mesmo com os bispos, e mais tarde com os presbíteros, que se lhes seguiram : umas das nossas fontes mais seguras sobre a Igreja Antiga é a colecção das cartas de S. Inácio, o Bispo de Antioquia, que foi devorado por feras no Coliseu Romano no ano 107. A tradição é que ele estudou aos pés de São João em Éfeso, e foi consagrado bispo por S. Pedro. Nas suas sete cartas que foram escritas durante a viagem a Roma para ser martirizado, ele escreveu sobre a doutrina da nova Igreja Cristã (foi a primeira pessoa que usou a frase ‘Igreja católica’ para a fé universal), especialmente sobre os bispos e a Sucessão Apostólica: na sua Carta aos Esmirnianos ele disse : “«Segui todos ao bispo, como Jesus Cristo segue ao Pai, e ao presbítero como aos apóstolos; respeitai os diáconos como à lei de Deus. Sem o bispo, ninguém faça nada do que diz respeito à Igreja... Onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja católica[xi]», .
Mas o mais importante não foi o facto de ele ter sido um grande teólogo, ou que tenha sido martirizado corajosamente. Não, o mais importante é que ele foi um pastor. Ele amou o seu povo; cuidou das suas ovelhas. No tempo da perseguição do Imperador Trajan, ele mesmo foi preso, passando o tempo a encorajar os membros da Igreja a serem fortes e fieis. Ele queria que eles se lembrassem sempre que, para um Cristão, a morte não é o fim. Ele nunca esqueceu, e nunca deixou as suas ovelhas esquecerem, que desde a Ressurreição de Jesus Cristo, pode-se matar o corpo mas não a alma, e que o amor de Deus é maior do que as coisas mais horríveis que este mundo pode fazer. Ele pode ser o pastor para as suas ovelhas, porque nunca esqueceu o amor do seu próprio Pastor, o amor de Jesus Cristo.
E agora, quase dois mil anos depois, ainda vivemos em tempos difíceis. Ninguém aqui na Europa precisa de ter medo de vir a ser martirizado pela sua fé: os nossos governos nem pensam na fé. Mas precisamos ainda de um pastor. Vivemos num tempo de crise, de desemprego, de famílias que não podem por pão na mesa. Vivemos com todos os problemas do ser humano: de doença e envelhecimento, de dor e solidão. Vivemos numa cultura que não respeita a família, e num tempo em que as famílias têm de separar-se para achar trabalho. Vivemos num tempo que nos deixa como um rebanho disperso, e com falta de pastores.
Na nossa própria Igreja há uma falta grande de pastores …. Aqui no Norte o Rev. Telmo teve de reformar-se, e no Arciprestado do Sul, o Cónego Carlo Aluigi também se vai reformar por causa da saúde e da idade, e não há ninguém para tomar os seus lugares. Nós precisamos de pastores, para cuidar das ovelhas. Todos nós precisamos de um pastor, que conheça o que precisamos, que nos ame, e que nos chame pelos nossos nomes.
Oremos:
Pai celestial, Tu confiaste à tua Igreja a participação no ministério do teu Filho, nosso Sumo-Sacerdote; através do teu Espírito Santo, chama muitos ao ministério ordenado da tua Igreja; abençoa aqueles chamados a ser diáconos, presbíteros e bispos, e a todos, inspira a resposta à tua chamada. Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen.[xii]
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
[i] S. João 8,59; 10,31
[ii] S. João 10,42
[iii] S. João 21, 25
[iv] S. João 1, 3
[v] Ezequiel 34, 11-12
[vi] Bíblia Sagrada, Tradução interconfessional, p.104
[vii] 1 S. Pedro 5, 8-9
[viii] http://educacao.uol.com.br/historia/roma-cristianismo.jhtm
[ix] http://arqueo.org
[x] http://www.christianhistorytimeline.com/lives_events/centuries/pcnt04.shtml (em português)
[xi] http://www.veritatis.com.br/article/106
[xii] Liturgia da Igreja Lusitana, p. 227

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