13 May 2009

Domingo do Bom Pastor: 3o Domingo depois da Páscoa, 03.05.09 [Ano B]

3o Domingo depois da Páscoa, 03.05.09 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo, V.N. de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger


«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Aleluia, Cristo ressuscitou!
Na verdade ressuscitou. Aleluia!
Hoje é o Domingo do Bom Pastor, e no Evangelho, Jesus Cristo é o Bom Pastor, e nós somos as ovelhas. Quando Jesus falou ao povo sobre o Bom Pastor, Ele já estava no Templo na cidade de Jerusalém. Durante diversos dias, Ele ensinou no Templo correndo perigo, porque muitas vezes as autoridades Judaicas não gostavam dos seus ensinamentos, e mais de que uma vez, pegaram em pedras para o apedrejar[i], mas Ele esquivou-se das suas mãos. Entretanto e ao mesmo tempo, muitos outros acreditaram n’Ele[ii].
Há muitas diferenças entre o Evangelho de S. João, que é datado entre os anos 85 e 95, e os outros três Evangelhos, os Evangelhos sinópticos, o de Marcos (o mais antigo), Mateus e Lucas. As diferenças existem, porque os Evangelistas estavam a escrever para comunidades diferentes, e cada um dos Evangelistas escolheu a informação e as histórias, mais importantes, para a fé da sua comunidade: como S. João, que morreu idoso na cidade de Éfeso e escreveu nas últimas palavras do seu Evangelho: «Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever[iii].» É por isso, por exemplo, que quando os três Evangelistas ‘sinópticos’ escrevem a história da Última Ceia, eles deram toda a ênfase à instituição do Culto Eucarístico, e a ênfase de S. João é sobre o que aconteceu antes da Ceia, quando Jesus lavou os pés dos discípulos.
Para S. João, a visão de Jesus, (o mesmo Jesus que era verdadeiro homem mas também verdadeiro Deus, por quem, na Criação do Universo, tudo foi feito, e sem ele nada foi feito[iv]), ajoelhado em frente dos seus discípulos antes da refeição, lavando os seus pés sujos... este Jesus tão cuidadoso, não é muito diferente do mesmo Jesus enquanto o Bom Pastor, o pastor que expõe e dá a sua vida pelas ovelhas.
O Profeta Ezequiel deu-nos um oráculo sobre Jesus como o Bom Pastor: «Eis o que tenho para vos declarar, eu, o Senhor Deus: vou tomar eu próprio o cuidado das minhas ovelhas, velarei por elas. Como o pastor se inquieta por causa do seu rebanho, quando se encontrou no meio das suas ovelhas tresmalhadas, assim eu me inquietarei por causa do meu; hei-de libertá-las de todos os lugares por onde se espalharam num dia de nuvens e de trevas...[v].»
Talvez nos pareça a nós, que vivemos quase dois mil anos depois, que não há muito diferença entre um Evangelho escrito aproximadamente no Ano 65, como o de S. Marcos, que é o mais antigo dos quatro, e um outro que foi escrito no Ano 75 ou 80. Mas na verdade, há uma grande diferença: antes do Ano 70, os judeus em Jerusalém viviam com medo dos Romanos. As autoridades judaicas sabiam que, se houvesse alguma coisa que podia ameaçar o Império (como este “Jesus”, este “profeta” duma aldeia qualquer no campo, que pensava que era um rei), as Legiões Romanas poderiam matar milhares de pessoas.
Depois do Ano 70, já estava feito. O Templo foi destruído pelos Romanos, e os judeus que sobreviveram foram exilados, e não puderam regressar a Israel até ao ano de 1948.
Ora bem. Na altura em que S. João Evangelista, (que nós pensamos que seja o discípulo que Jesus amava e que esteve ao pé da Cruz com a Virgem Maria[vi],) escreveu o seu evangelho, o Templo já tinha sido destruído, e o povo judeu, disperso em várias direcções, como ovelhas sem pastor. João estava a escrever sobre um tempo quase trinta e cinco anos antes da destruição do Templo e da diáspora dos judeus, um tempo de grande confusão e assustador para as autoridades judaicas.
Por um lado, eles eram os líderes do povo escolhido por Deus, viviam na Terra Santa, na cidade santa de Jerusalém, e eram as autoridades do Templo de David e Salomão. Mas por outro lado, eles também estavam sob o domínio das autoridades do Império Romano, e sabiam bem que viviam tempos perigosos: que viviam em cima de um barril de pólvora, e que se houvesse uma explosão, não seriam os Romanos a ficar feridos. Eles sabiam que tinham de fazer sempre equilibrismo, entre os judeus religiosos que odiavam os Romanos, e os Romanos que podiam aniquilar Israel com seu exército que era o maior do mundo. Estavam mesmo na corda bamba!
Era por isso que eles tinham tanto medo de Jesus. Eles pensavam que o Príncipe da Paz que pregava o amor podia desencadear uma guerra. Quando ouviram falar da ressurreição de Lázaro por Jesus, então, os chefes dos sacerdotes e alguns fariseus convocaram o conselho, e disseram, “Que faremos? Este homem multiplica os milagres. Se o deixarmos continuar assim, todos crerão nele, e os Romanos virão e destroem-nos o Templo e a nação!” E Caifás, que era o sumo-sacerdote naquele ano, disse: “Não vêem que é melhor que morra um só homem pelo povo, do que toda a nação ser destruída?”. Mas até ele não sabia o que dizia: Deus usou-o para afirmar que Jesus devia morrer para salvar o povo, e não apenas o povo judaico, mas o povo do mundo inteiro.
Infelizmente, Caifás tinha razão. Trinta e sete anos mais tarde, no ano 70, os Romanos arrasaram completamente a cidade de Jerusalém, destruiram o Templo, e assassinaram ou venderam como escravos a grande maioria dos seus habitantes. Os judeus, e a nova comunidade dos Cristãos que sobreviveram, foram dispersos por todo o lado.
Quando um lobo ou um leão ameaça o rebanho, as ovelhas dispersam, correndo para cá, correndo para lá, sem direcção, sem objectivo... e sem esperança, porque o lobo ou o leão sempre podem correr com mais velocidade.
E as pobres ovelhas: o lobo horrível, o leão ainda mais terrível, eram o governo em si mesmo. Quanto mais a Igreja crescia, mais feroz ficava o leão. Foi somente a sua fé em Jesus Cristo e no mundo que há-de vir, que lhes deu a coragem de manterem-se firmes na Fé Cristã. Como S. Pedro escreveu na sua Carta aos cristãos do norte da Ásia Menor que estava a ser perseguida : «Sejam prudentes e estejam alerta, pois o vosso inimigo, o Diabo, anda em volta de vocês, como um leão a rugir, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé.[vii]»
E a Igreja cresceu, mesmo. A mensagem redentora de Jesus Cristo obteve enorme sucesso entre as pessoas mais excluídas numa sociedade tão hierarquizada, entre mulheres e pobres, e escravos, porque deu uma nova esperança[viii]. Por causa disso, a nova crença pareceu perigosa para a estabilidade do Império. As perseguições oficiais dos cristãos pelos Romanos começaram bem cedo; as primeiras foram locais, especialmente em Roma, com o Imperador Nero no ano 64, mas as perseguições provocadas pelos outros Imperadores tiveram lugar no Império inteiro.
O Cristianismo foi uma das religiões legalizadas no ano de 313 pelo Édito de Milão do Imperador Constantino (ele que foi baptizado no seu leito de morte!)[ix], mas ninguém sabe quantos milhares de cristãos foram martirizados antes. Na altura de Constantino, o Império ainda não era Cristão: a maioria das pessoas ainda eram pagãs. Só no ano 381 é que o Cristianismo foi declarado como a religião do Estado[x].
Mas nos três séculos antes, nas novas comunidades no Império Romano (e a fé cresceu em todos lados do Império, nas cidades do Egipto até Itália, e talvez até à Ibéria!), as ‘ovelhas’ das primeiras comunidades Cristãs, no tempo das perseguições, tinham vidas difíceis. É por isso que o exemplo de Nosso Senhor como o Bom Pastor, que cuida das suas ovelhas, que conhece cada uma pelo nome, bem como as ovelhas o conhecem a Ele, é tão importante. O Bom Pastor que deu a sua vida pelas suas ovelhas foi o modelo para os Apóstolos e para os primeiros bispos da Igreja que foram designados e consagrados pelos Apóstolos como pastores do rebanho que é a Igreja.
E tal como Jesus deu a sua vida por nós, também muitos dos Apóstolos foram martirizados: na tradição da Igreja, somente S. João teve uma morte natural. Sucedeu o mesmo com os bispos, e mais tarde com os presbíteros, que se lhes seguiram : umas das nossas fontes mais seguras sobre a Igreja Antiga é a colecção das cartas de S. Inácio, o Bispo de Antioquia, que foi devorado por feras no Coliseu Romano no ano 107. A tradição é que ele estudou aos pés de São João em Éfeso, e foi consagrado bispo por S. Pedro. Nas suas sete cartas que foram escritas durante a viagem a Roma para ser martirizado, ele escreveu sobre a doutrina da nova Igreja Cristã (foi a primeira pessoa que usou a frase ‘Igreja católica’ para a fé universal), especialmente sobre os bispos e a Sucessão Apostólica: na sua Carta aos Esmirnianos ele disse : “«Segui todos ao bispo, como Jesus Cristo segue ao Pai, e ao presbítero como aos apóstolos; respeitai os diáconos como à lei de Deus. Sem o bispo, ninguém faça nada do que diz respeito à Igreja... Onde aparece o bispo, aí esteja a multidão, do mesmo modo onde está Jesus Cristo, aí está a Igreja católica[xi]», .
Mas o mais importante não foi o facto de ele ter sido um grande teólogo, ou que tenha sido martirizado corajosamente. Não, o mais importante é que ele foi um pastor. Ele amou o seu povo; cuidou das suas ovelhas. No tempo da perseguição do Imperador Trajan, ele mesmo foi preso, passando o tempo a encorajar os membros da Igreja a serem fortes e fieis. Ele queria que eles se lembrassem sempre que, para um Cristão, a morte não é o fim. Ele nunca esqueceu, e nunca deixou as suas ovelhas esquecerem, que desde a Ressurreição de Jesus Cristo, pode-se matar o corpo mas não a alma, e que o amor de Deus é maior do que as coisas mais horríveis que este mundo pode fazer. Ele pode ser o pastor para as suas ovelhas, porque nunca esqueceu o amor do seu próprio Pastor, o amor de Jesus Cristo.
E agora, quase dois mil anos depois, ainda vivemos em tempos difíceis. Ninguém aqui na Europa precisa de ter medo de vir a ser martirizado pela sua fé: os nossos governos nem pensam na fé. Mas precisamos ainda de um pastor. Vivemos num tempo de crise, de desemprego, de famílias que não podem por pão na mesa. Vivemos com todos os problemas do ser humano: de doença e envelhecimento, de dor e solidão. Vivemos numa cultura que não respeita a família, e num tempo em que as famílias têm de separar-se para achar trabalho. Vivemos num tempo que nos deixa como um rebanho disperso, e com falta de pastores.
Na nossa própria Igreja há uma falta grande de pastores …. Aqui no Norte o Rev. Telmo teve de reformar-se, e no Arciprestado do Sul, o Cónego Carlo Aluigi também se vai reformar por causa da saúde e da idade, e não há ninguém para tomar os seus lugares. Nós precisamos de pastores, para cuidar das ovelhas. Todos nós precisamos de um pastor, que conheça o que precisamos, que nos ame, e que nos chame pelos nossos nomes.
Oremos:
Pai celestial, Tu confiaste à tua Igreja a participação no ministério do teu Filho, nosso Sumo-Sacerdote; através do teu Espírito Santo, chama muitos ao ministério ordenado da tua Igreja; abençoa aqueles chamados a ser diáconos, presbíteros e bispos, e a todos, inspira a resposta à tua chamada. Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen.[xii]
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
[i] S. João 8,59; 10,31
[ii] S. João 10,42
[iii] S. João 21, 25
[iv] S. João 1, 3
[v] Ezequiel 34, 11-12
[vi] Bíblia Sagrada, Tradução interconfessional, p.104
[vii] 1 S. Pedro 5, 8-9
[viii] http://educacao.uol.com.br/historia/roma-cristianismo.jhtm
[ix] http://arqueo.org
[x] http://www.christianhistorytimeline.com/lives_events/centuries/pcnt04.shtml (em português)
[xi] http://www.veritatis.com.br/article/106
[xii] Liturgia da Igreja Lusitana, p. 227

On IQ Tests (written in response to an email I received)

I am convinced that the only thing IQ tests really measure is how well you take IQ tests. When I was a kid, my mother had to do a 'Testing and Measurements' course for her Master's in Special Ed, and part of it was having to practice giving IQ tests to kids. Since she had me at hand, I got lots of practice taking them, and guess what-- the more I practiced, the better my IQ became. I was getting smarter by the day! What a surprise.

So, when the school counselor brought me in in 9th grade or so (because I was getting lousy grades while seeming to be reasonably bright... at least I had a smart mouth!) and gave me a "real" test, I scored in the top 1%... the school counselor's only "official genius". Why? It's not because I'm the smartest person she ever gave the test to-- it's because I was the only one who knew how the tests worked in advance, and had practiced taking them. The questions may have been different, but the types of questions were the same; I knew what the test-giver was looking for, and fed it to her.

IQ tests measure your test-taking ability, and not your intelligence (whatever "intelligence" means, anyway). The guy at the garage I used to use probably had a much lower IQ score than I, but was a heck of a lot better at understanding and fixing car engines. And in the end, which is more useful-- being skilled at test-taking, or car mechanics? There aren't a lot of jobs for test-takers, but a good auto mechanic can always get a job.

We choose the strangest things to measure a person's value. Why does one FIFA Football star or US Major League Baseball pitcher make more money than fifty garbagemen or cops or firefighters or teachers? If the pitcher doesn't play for a month, how are our lives affected? If the garbagemen don't collect any garbage, or if the police department or fire department is short fifty firefighters or cops for a month, or the district loses fifty teachers, how are our lives affected? To be honest, I'd rather my team lost some games than be neck-deep in garbage and rats, or have my house burn, or be robbed at gunpoint, or have my grandkids be illiterate.

People who can throw a fast really well are highly paid and honored. The people who really make a difference in our lives are paid as little as we can get away with, and ignored. Folks with "high IQs" can boast and join groups like MENSA, where they can pat each other on the back for being so brilliant... I'd rather honor people who were useful to society than those who were merely "brilliant", or that could throw a baseball really fast. Hmmph. Must be something wrong with me.

26 April 2009

Sermão: 2o Domingo Depois da Páscoa, 19.04.09 [Ano B]

2o Domingo Depois da Páscoa, 19.04.09 [Ano B]
Igreja de S. João Evangelista/ Torne, V.N. de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger

«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.
Aleluia, Cristo ressuscitou!
Na verdade ressuscitou. Aleluia!
Os dois que encontraram o Senhor no caminho de Emaús voltaram imediatamente para Jerusalém, onde estavam os apóstolos reunidos com outros companheiros, na sala com as portas fechadas, com medo das autoridades[1]. E os apóstolos e os outros diziam-lhes: “O Senhor ressuscitou verdadeiramente, e apareceu a Simão!”
Cleófas (que talvez fosse o cunhado da Virgem Maria[2]) e o outro discípulo, ambos vindos de Emaús, contaram o que lhes havia acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Cristo ao partir do pão. Enquanto ainda falavam desse encontro, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco”. Espantados e cheios de medo, pensaram estar a ver um fantasma. Mesmo aqueles que diziam que o Senhor tinha ressuscitado e que tinha aparecido a Simão... e mesmo aqueles que tinham acabado de ouvir o encontro dos dois discípulos com Jesus no caminho de Emaús... quando Ele apareceu mesmo em frente deles, não acreditaram. Acharam que era um espírito, e ficaram cheios de temor.
Jesus precisou de lhes dizer: “Olhem para as minhas mãos e os meus pés! Sou eu mesmo! Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho.’ Mas eles ficaram ainda assim tão assombrados que Jesus perguntou: “Têm aqui alguma coisa para comer?”, e tomou e comeu um pedaço de peixe assado em frente deles, para eles entenderem que não era um fantasma.
E só depois de tudo isso, Jesus pode falar aos seus discípulos sobre tudo o que aconteceu: que, de acordo com tudo o que estava escrito nas Escrituras, Cristo, tinha de morrer, e ao terceiro dia ressuscitar dos mortos, e que em seu Nome se havia de pregar a mensagem sobre o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando em Jerusalém. “São vocês as testemunhas destas coisas.”
Se Ele não fosse Deus, acho que precisávamos de ter pena de Nosso Senhor... dado que eram estes medrosos que iriam ser “as testemunhas destas coisas”? Estes que já sabiam da Ressurreição, e que mesmo assim tiveram tanto medo de um “fantasma” que era Jesus? Estes que nem podiam sair da sala, com medo das autoridades?
Mas Jesus Cristo foi, e é, o nosso Deus, e sabia mais do que eles podiam fazer com a ajuda do Espírito Santo do que por eles mesmos. Na Leitura dos Actos dos Apóstolos de hoje, foi S. Pedro (o mesmo Pedro que negou Jesus, seu Mestre, seu amigo, três vezes antes do segundo canto do galo por causa do seu medo ) que pregou com tanta força, tanta coragem, no Templo, dizendo aos Israelitas: “O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob, o Deus dos nossos pais glorificou o seu servo Jesus, que vós entregastes e negastes perante Pilatos, quando este tinha resolvido soltá-lo. Mas vós renegastes o Santo e o Justo e pedistes que se vos desse um homicida! Matastes o Príncipe da vida, mas Deus ressuscitou-o dentre os mortos: disso nós somos testemunhas.” “..renegastes o Santo e Justo...” “Matastes o Príncipe da vida...” Onde é que Simão Pedro, ele que foi tão teimoso, que negou o seu Senhor, que ficou escondido na sala do andar de cima durante a Crucificação e depois... onde é que ele ganhou tanta coragem?
Não ganhou; foi dada. Foi dada pelo Espírito Santo.
E Pedro e S. João, os dois apóstolos que iam subindo ao templo juntos e curaram o mendigo, o homem que era coxo de nascença, que sofreu preso e passou a noite na cadeia (e não foi a última vez!). E eles tiveram a coragem de defender a sua fé em Jesus Cristo em frente das mesmas autoridades judaicas que, anteriormente, tinham levado Jesus aos Romanos para ser crucificado. Coragem dada pelo Espírito para a propagação da Fé.
O Livro de Actos dos Apóstolos é a historia do começo desta propagação. A nossa Igreja começou com somente umas 120 pessoas[3], os onze Apóstolos, as três Marias: a Virgem Maria e a outra Maria, irmã dela e mulher de Cleófas, que foi mãe do S. Tiago e S. José[4], e Maria Madalena, Salomé[5], Joana[6], e ainda outras mulheres e homens que seguiram Jesus durante a sua vida, e até ao fim. E foram as mulheres que ficaram com Jesus mesmo até ao fim nos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas: talvez porque fosse mais perigoso para os homens, e só no Evangelho de S. João nos aparece um dos Apóstolos, o que Jesus amava, ao pé da Cruz com Maria, a mãe de Jesus[7].
E a partir destes 120 crentes, a Igreja cresceu, primeiro em Jerusalém, e em pouco tempo em todos os lugares do Império Romano. Dezenas, e depois centenas, e depois milhares de pessoas foram convertidas, apesar das perseguições, feitas, primeiro pelos Judeus[8], e depois pelo Império Romano[9].
E cresceu por todo o lado mesmo! Este grupo tão diminuto, tão pobrezinho, que era uma minoria impopular numa província pequenina e pobre, sem importância num Império imenso, cresceu tão rapidamente que só foi possível graças ao poder do Espírito. Numa altura em que não havia aviões, carros, ou comboios, setenta tal anos depois da Ressurreição, já havia comunidades de cristãos em cidades que agora são partes do Egipto e Síria, Jordão e Turquia, Grécia e Macedónia, e até em Roma. O Cristianismo foi pregado não só pelos missionários oficiais, como S. Paulo, mas também pelos comerciantes que eram crentes, que, animados pela sua nova Fé, evangelizaram outros quando viajavam para vender os seus produtos.
A mensagem redentora de Jesus Cristo obteve enorme sucesso entre as pessoas mais excluídas numa sociedade tão hierárquica, entre mulheres e pobres, e escravos, porque deu uma nova esperança[10]. Como todas as coisas fora da norma, esta nova crença pareceu perigosa para a estabilidade do Império. As perseguições oficiais dos cristãos pelos Romanos começaram bem cedo; a primeira foi local, somente em Roma, com o Imperador Nero no ano 64, mas as perseguições dos outros Imperadores, até a última de Dioclesiano, entre os anos 284 e 312, foram no Império inteiro.
Durante os primeiros séculos, antes do Cristianismo se ter tornado a religião do Império no Ano 313, ninguém sabe quantos milhares de cristãos foram martirizados. E a coisa mais incrível? A maioria podia-se ter salvo! Para os Romanos, o problema com os Cristãos não era o facto de eles crerem em Jesus Cristo como Deus: o problema era que eles criam em Jesus Cristo como sendo o único Deus. O Império não tinham problema nenhum com a sua multidão de povos com as suas multidões de deuses. Mas... num Império com tantas culturas, tantos povos diferentes, a veneração da deusa ‘Roma’ e do Imperador foi o “colo” que o manteve unido. Então, todo o mundo no Império inteiro, (menos os Judeus na Província da Palestina, que tinham permissão especial de ficar monoteístas) precisava de queimar o incenso no altar Romano.
E os Cristãos, crescendo como ervas daninhas por todos os lados, recusavam-se a cultuar a deusa ‘Roma’, e a aceitar a divinização dos imperadores. E por esta falta de fidelidade ao Império, precisavam de morrer.
Mas muitas vezes, bastava-lhes queimar um pouco de incenso, uma vez... sem abandonar a sua religião tão estranha (que até dava a impressão de canibalismo, com eles falando sobre o comer o corpo e beber o sangue deste “Jesus)... mas não. Eles preferiam morrer, torturados, comidos por animais selvagens, ou queimados vivos, do que venerar qualquer outro deus.
Como é que eles podiam ter tanta coragem: antes morrer do que venerar o deus do Império? Porque sabiam que, para um Cristão fiel, a morte não é o fim. Sabiam que a morte foi tragada pela vitória, pela Ressurreição de Jesus Cristo.
Mas tudo isso foi nos primeiros três séculos... o que é que tudo isso significa para nós, hoje?
Significa isso: que nada mudou nestes dois mil anos. Para nós que somos Cristãos, membros da Igreja una, santa, católica e apostólica, a responsabilidade de ser fiel, de defender a nossa Fé, é a mesma. Durante séculos, os Cristãos tiveram a oportunidade de escolher entre a Fé e a segurança. Posso falar sobre milhares destes cristãos, mas não quero pregar durante três ou quatro horas: vou mencionar apenas alguns.
S. Tomás Becket, o Arcebispo de Cantuária, disputou sobre os direitos da Igreja com o Rei Henrique II de Inglaterra. Beckett, antes de ser consagrado, foi Chanceler e amigo do Rei, mas após a sua eleição, como Arcebispo em 1162, foi coerente e sério com o seu cargo: mudou para uma vida ascética e monástica, e começou a resistir vigorosamente às violações das liberdades eclesiásticas por parte do monarca. E quatro dos cavaleiros do Rei mataram o Arcebispo em 1170, na sua própria catedral. As suas últimas palavras foram: “Em Nome de Jesus e da protecção da sua Igreja, estou pronto a abraçar a morte.”[11] Ainda agora, há um altar no local aonde Beckett morreu, e o Arcebispo de Cantuária, nosso metropolita, celebra lá a Eucaristia.
Se Beckett foi martirizado às ordens de um Rei, um outro mártir, também Anglicano, foi curiosamente um Rei de Inglaterra. O Rei Carlos Primeiro, foi martirizado em 1649, pelo governo Puritano. O Rei tinha de escolher: ou renunciar à Sucessão Apostólica e ao Livro de Oração Comum (a Liturgia Anglicana), ou eles matavam-no. Ele recusou, e disse que seria melhor morrer do que abandonar a Fé una, santa, católica e apostólica. Foi degolado no dia 30 Janeiro de 1649[12].
E também há mártires modernos. Nos Estados Unidos, o Pastor Martin Luther King dedicou a sua vida à luta não-violenta pela justiça e direitos civis, não só para os negros mas para todos, e sempre com uma perspectiva Bíblica: que a coisa mais importante é o que Deus reclama de nós: “que pratiques justiça, que ames a bondade, e que andes com humildade diante do teu Deus”[13].
Ele sabia-se odiado pelos racistas, mas a sua coragem, baseada na sua fé, nunca falhou. Como ele disse: “Se não estás pronto a morrer por alguma coisa, não estás pronto para viver.”[14] E pouco mais tarde, foi assassinado.
O King, apesar de ser um pastor Baptista, é um dos santos oficias da Igreja Episcopal, da Igreja Anglicana nos Estados Unidos. A sua festa é celebrada a 4 de Abril, o dia em que ele foi martirizado em 1968.
Nem todos os que arriscavam morreram, claro. O importante não é ser-se mártir, mas viver a fé, conhecendo os riscos mas não os deixando impedir-nos. Vou acabar com minha listinha dos santos com dois portugueses, e no caso do primeiro, nem sei se foi Cristão. Hoje é dia 26 de Abril: talvez se o Domingo tivesse calhado no dia 25, poderiamos cantar a “Grândola” em vez de um dos hinos. Uma coincidência... o dia do calendário da Igreja Episcopal para lembrar o Doutor King é 4 de Abril, que também é o dia no qual um português famoso morreu. A 4 de Abril, 1992, com sómente 48 anos, morreu o Capitão Fernando José Salgueiro Maia. Eu não sei se Salgueiro Maia foi crente... mas sei que tinha coragem. Foi ele que avançou a pé e sozinho na Rua do Arsenal, de braços erguidos e agitando um lenço branco, em direcção aos blindados das forças fiéis à ditadura. Para seu bem e de todos nós, os soldados não obedeceram às ordens de fogo dadas pelo seu brigadeiro. Salgueiro Maia sabia que podia morrer na madrugada de 25 de Abril, mas ainda fez o que precisava sem ceder por medo[15].
Mas a semana passada, eu aprendi sobre a vida de outro dos heróis da fé, um que é muito desconhecido até no seu próprio pais: uma amiga deu-me um livro português[16] sobre o Aristides de Sousa Mendes, que foi o Cônsul de Portugal em Bordéus, França em 1939 e 1940. Em Novembro de 1939, quando os Nazis já começavam a sua “Solução Final” para matar os Judeus, o Ministério dos Negócios Estrangeiros emitiu a “Circular 14”, instruções rígidas para não dar vistos aos refugiados que tinham o perigo: judeus, antifascistas e os “apátridas”. Sousa Mendes, um diplomata profissional de muitos anos, não podia aceitar tal: achava que isso era racista e atroz.
No dia 10 de Maio, 1940, os Nazis começaram a invasão da França. Em Junho, Bordéus foi inundada por setecentos mil refugiados, incluindo muitos judeus. Sousa Mendes sabia que a Constituição de 1933 tinha a garantia que «em nenhuma circunstância a religião ou as convicções políticas de um estrangeiro o impedem de procurar refúgio no território português», o contrário da “Circular 14”. O cônsul foi um Cristão, um Católico, e necessitou de tomar uma decisão.
Ele passou três dias em retiro. Quando saiu a 16 de Junho, anunciou que tinha decidido salvar todos aqueles e aquelas que pudesse salvar das feras Nazis, no tempo que ainda lhe restava.
Entre 17 e 19 de Junho, trabalhando dia e noite, ele deu vistos a todos os que queriam : talvez 50 ­mil ou mais, em desobediência às ordens do Dr. Salazar. Só parou, na noite de 19, quando a cidade foi bombardeada pelos Nazis. Ninguém sabe os números exactos, mas é praticamente certo que 30 mil refugiados, incluindo 10 mil judeus, tenham conseguido entrar em Portugal, só por causa deste Cristão.
O Dr. Salazar ficou furioso. Sousa Mendes foi escorraçado do corpo diplomático sem qualquer reforma, e a PIDE assegurou-se de que ele nunca mais trabalharia; os seus filhos tiveram de emigrar para achar trabalho. Ele perdeu a fé na Igreja Católica Romana, mas nunca perdeu a sua fé Cristã, e meses antes do seu falecimento, tinha sempre As Confissões de Santo Agostinho à cabeceira. No ano de 1958, morreu em pobreza total, no Hospital da Ordem Terceira, um hospital Franciscano em Lisboa, e nem dinheiro para o fato tinha ... foi sepultado numa mortalha do hospital, uma mortalha franciscana, da Ordem do santo pacifico dos pobres.
Ele foi um desconhecido em Portugal: muitos ainda não o conhecem. Depois da guerra, quando o mundo inteiro soube do Holocausto, ele que tinha salvo tantos milhares não foi considerado um herói pelo governo. Não foi, até 1976, dois anos depois dos ‘Cravos’, altura em que o primeiro artigo sobre ele, que arriscou tudo e foi tão castigado, foi finalmente publicado em Portugal[17].
Aristides de Sousa Mendes também não pensem que era um herói... mas era sim um Cristão.
Rabino Chaim Kruger, um judeu a quem ele ajudou, escreveu: “Ele disse-nos que tinha sido expulso das suas funções por causa de todo este incidente, no entanto, sentia-se com grande satisfação, porque se milhares de judeus tinham sofrido por causa dum católico, então valia a pena que um católico sofresse por todos aqueles judeus. E ele aceitou tudo isto que lhe estava a acontecer com amor.”[18]
Acho que é triste, que este modelo de Fé português não seja mais e melhor conhecido, quer em Portugal quer no mundo inteiro. É irónico, que Oskar Schindler (do filme A Lista de Schindler), seja tão famoso porque salvou talvez 1.200 pessoas, enquanto o desconhecido Sousa Mendes salvou 30.000 pessoas .
Num mundo aonde é tão fácil nada dar, de só fazer o mínimo que é preciso, de obedecer aos superiores, de não fazer barulhos... temos aqui um homem que pode ser um modelo para as nossas crianças, para nós mesmos... e ninguém conhece a sua história!
Neste mundo, com todos os seus problemas, é nos dada a oportunidade de defender os fundamentos e valores Cristãos, de trabalhar por um mundo de justiça e de amizade para todos. Sabemos que podemos ter um preço a pagar: que uns Cristãos têm de sacrificar as suas vidas, outros a sua saúde, e outros as suas riquezas e segurança. Outros têm de sacrificar nada mais do que um pouco tempo.
Estamos agora no tempo de Páscoa, quando nos é dado saber que qualquer preço que precisamos de pagar neste mundo vai ser somente temporário, por causa do grande preço que Jesus já pagou por todos nós sobre a Cruz. Mesmo a morte é apenas temporária agora, desde a Ressurreição.
A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
Aleluia, Cristo ressuscitou!
Na verdade ressuscitou. Aleluia!

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

Notas:



[1] S. João 20,19
[2] S. João 19, 25
[3] Actos 2,15
[4] Actos 2, 14; S. Mateus 27,56; S. Marcos 6,3 e 15,47; S. João 19, 25, e no Actos 2, 14-15, os onze Discípulos, a mãe de Jesus, e “os irmãos de Jesus” foram 120 irmãos! No Médio Oriente, na altura e também ainda na Palestina, a palavra “irmão” significava qualquer homem da família ou da clã.
[5] S. Marcos 15,40
[6] S. Lucas 24,10
[7] S. João 19,26último
[8] Actos 5, 17-18; 7, 54-60; 8, 1-3
[9] http://br.geocities.com/momentoscomjesuss/historia1/perseguicao.htm
[10][10] http://educacao.uol.com.br/historia/roma-cristianismo.jhtm
[11] Dicionário da Idade Média, por Henry Loyn, Traduzido por Alvaro Cabral, Edição de Jorge Zahar Editor Ltda, 1990
[12]http://www.skcm.org/SCharles/History/history_Charles.html
[13] Miqueias 6,8
[14] http://www.portalafro.com.br/religioes/evangelicos/martin.htm
[15] Notícias Magazine (suplemento do Díario de Notícias de 19.04.2009); www.vidaslusofonas.pt/salgueiro_maia.htm
[16] Aristides de Sousa Mendes: Um Justo Contra a Corrente, por Miriam Assor, 2009 (todas as notas com um ‘*’ vem deste livro)
[17] Diário Popular, 4 Maio 1976*
[18] Carta enviada ao Museu Yad Vashem, 23, May 1967*

REMEMBER! St. Charles, King and Martyr, and Aristides de Sousa Mendes

Saint Charles, King and Martyr, who was canonized by the Anglican Church on April 26, 1661, is featured prominently in my sermon tomorrow morning (April 26th) at the Anglican Igreja de São João Evangelista in Vila Nova de Gaia, Portugal. I am including King Charles as one of the saints of the Church who risked all and sacrificed much for his faith, along with the martyrs of the early Church killed by the Romans, St. Thomas Beckett, Capitão Salgueiro Maia (the 25th is Portuguese Independence Day, when Salgueiro Maia's courage was partly responsible for the lack of bloodshed during the governmenal overthow; coincidentally, he died on April 4 of 1992-- Dr. Martin Luther King, the American Protestant religious leader who fought for Civil Rights and against war, was martyred on April 4, 1968), and especially Aristides de Sousa Mendes, the Portuguese diplomat.

Asigned to Bordeaux, France, Consul Aristides de Sousa Mendes, because of his Catholic faith, chose to disobey his Portugese Fascist government in 1940 and issue entry visas into "neutral" Portugal to perhaps some 50,000 refugees from the Nazis in two days (stopping only when the Nazi bombadment destroyed the Consul). An estimated 30,000, including 10,000 Jews who almost certainly otherwise would have ended up in the Camps, were actually able to get across the Spanish border, cross all of Spain, and get into Portugal (despite the best efforts of the Portuguese "political police").


Sousa Mendes was thrown out of the Diplomatic Corps without a pension, and Salazar's secret police ensured he never worked again... for that matter, his sons had to emigrate, as the very name "Sousa Mendes" was blacklisted across the country. In 1958, he died in abject poverty in a Franciscan hospital-- without even the funds for a burial suit. He was buried in a Franciscan Tertiary shroud donated by the hospital. I think St. Francis, Il Povorello, would approve.

It's ironic that Oskar Schindler, who saved between 1,000 and 1200 lives, should be remembered in best-selling books and a major movie, Schindler's List, while Sousa Mendes, who saved 30 times as many, is virtually unknown, even in Portugal. But then, Hitler died, and the new government honored the enemy of the old. In Portugal, Salazar continued in power until 1968, when he was injured in a fall; the fascist 'New State" fell in a virtually bloodless military coup on April 25, 1974, with free democratic elections followed two years later. Only after the Salazaristas were out of power could Sousa Mendes' name even be published in the Portuguese press. Sousa Mendes, in his willingness to sacrifice himself to love justice, to do mercy, and to walk humbly with his God, was a true hero, but knowledge of that which he defended made those in power uncomfortable, and so he went unremembered. It is too easy for those in power to control knowledge.

St. Charles, King and Martyr, died willingly, because he believed in the one, holy, catholic, and apostolic faith. Is it any wonder that his name has been lost from our Kalendar?

Remember!
Francis+

04 April 2009

Two photos from Evora, Portugal

Remember, o man, that thou art dust, and to dust thou shalt return.'

The 'Capela dos Ossos', a chapel that is part of a 500 year old Franciscan church. The chapel, constructed from skeletons from monastic cemeteries in the city (including some 5000 skulls), was used for meditating on our human mortality. After the initial shock, it is profoundly moving.





The Roman Temple at Evora
The ruins of the Roman Temple in Evora, possibly dedicated to Diana and dating to the 1st or 2nd Century.


All photos: © 2009 by Francis C. Zanger


02 April 2009

Annunciation and Incarnation

I have for a number of years preached that March 25th is misnamed in the Church Kalendar-- it is most importantly the actual Feast of the Incarnation. When we refer to Christmas as the Incarnation, we are strongly implying that "the Word became flesh and dwelt among us" at the moment of His human birth. That not only bad theology, but dangerous.

The Word became flesh and dwelt among us first as a zygote and then as an embryo-- the Creator of the entire universe allowed Himself to become just a few tiny cells within that universe, and to gestate and grow within the womb of the Blessed Virgin Mary, and to be born, fully human and yet fully God. If we call the Feast of the Nativity the "Incarnation" (as too many do), then there is no reason not to allow abortion-- if Jesus became human only after His birth, then, by definition, embryos are not human.

The Nativity remains important-- it is when the Incarnation was announced to the Jews, via the shepherds, just as the Epiphany is important because it commemorates the Incarnation being proclaimed to the world at large, via the Magi/"three kings". But March 25th, when that young girl, frightened by the Archangel, frightened by the enormity of what was being asked of her, still said "yes", still said Ecce ancilla Dómini; fiat mihi secundum verbum tuum (Behold the handmaid of the Lord; be it unto me according to thy word)... that is the true Feast of the Incarnation. Et Verbum caro factum est, et habitávit in nobis! (And the Word was made flesh, and dwelt amongst us.)

Also important to us is to remember the words Mary spoke, and to make them our own. "I am the servant of the Lord; be it unto me according to thy will." Our culture teaches us that what we want is most important-- from Burger King's "Have it your way" through McDonalds' "You deserve a break today!" to my least favorite, L'Oreal's "Because you're worth it!". But we shouldn't always have it our way, and we're not worth it. We're each of us broken, each of us sinful. Many of us are indeed 'doing the best that we can', but that best, sadly, isn't good enough. If it were, God would not have to have humbled Himself to become a mere human embryo, to be born through blood and pain into a human life ending in a horrible, tortured death, and solely out of love for us.

In response to such immense love, what other response can we possibly give, other than "Be it unto me according to Thy word."?

27 March 2009

Sermão por o Quinto Domingo da Quaresma, Ano B, ((2009) (in Portuguese)

5º Domingo da Quaresma, 29.03.09 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo/ V.N. de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger


«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Finalmente, o último Domingo da Quaresma. Há um restaurante aonde nos comemos quase todos sextas-feiras, a proprietária ainda não lembra que eu não quero nem carne nem sobremesa nas sextas-feiras durante Quaresma... religiosa, ela não é.
A cultura mesma agora não é. Eu moro em Braga, a cidade mais Católica Romana do país, mas senti mau quando vi nas todas as igrejas lá, desde o começo da Quaresma, anúncios sobre as Procissões da Semana Santa... mas nada sobre a Quaresma mesma. A Câmara da Braga também tem publicidade sobre as Procissões, e não só em Braga mas em todo o Portugal e Espanha, também.
As Procissões são coisas boas, e as pessoas que participam, os farricocos e outros figurantes, são crentes, fieis, e se uma das Procissões muda a coração de somente uma pessoa para ser Cristão, vale a pena. Mas eu acho que a Câmara esta pensando menos nas almas e mais nos Euros das turistas, quando investem dinheiro em publicidade. É triste, mas espelha-se a cultura em que vivemos.
Estava pensando, esta semana passado, sobre Quaresma e a cultura. Estava pensando, também, sobre espelhos, porque eles não são todos iguais. Quaresma e a cultura: as duas são espelhos, mas espelhos bem diferentes, espelhos quem mostram-nos coisas diferentes. Dois espelhos, mas no primeiro, se olhamos nele cuidadosamente, e com fé e paciência, nós podemos ver as nossas essências verdadeiras, com todo o que é bom (e há muito que é bom: somos formados na semelhança de Deus) e com todo o que é mau (e há também muito—nós somos pecadores, quebrados). No espelho segundo, o espelho da cultura, a imagem é invertida e deformado, e a que mostra é mentira.
No Calendário Eclesiástico, as quarenta dias da Quaresma podem ser por nos um espelho, um espelho dado pela Igreja, que nós podemos usar para espreitar para dentro dos cantos mais escuros das nossas almas e mentes, um espelho para reflectir e apontar uma luz e limpar as teias da aranha, de desempoeirar o espírito, nos lugares dentro de nos em quem nós não queremos olhar. É um espelho que pode reflectir a luz até aos lugares mais escuros, mais cheia das trevas. É por isso que começamos a Quaresma com as palavras «Convido-vos, portanto, em nome da Igreja, a observar santa Quaresma, com exame de consciência...[1]».
O espelho da cultura é diferente. Se o espelho da Quaresma mostra-nos a verdade, o espelho da cultura reflecte o contrário. Quando eu veja televisão, não há diferenças grandes entre a publicidade aqui e nos Estados Unidos. É sempre o mesmo—se dirijais o carro perfeito, useis as cosméticas perfeitas, se bebeis a bebida perfeita que comprastes no supermercado perfeito, se laveis suas roupas perfeitas com a sabão perfeita... se compreis todas as coisas que estes companhias querem vender, vocês também podem aparecer-se perfeitas como as actores, podem ter vidas perfeitas e felizes, sem falhas nenhumas...
Isto é a Grande Mentira: que nós podemos aperfeiçoar-se. Que nós não precisamos de Cristo. Que nós podemos, se compramos isto, ou gastamos dinheiro naquela, ou adquirimos este ai, podemos der feliz, podemos se popular, podemos ter vidas contentes e alegres. Nunca precisamos de ficar sozinho ou assustado ou triste, nunca sentimos humilhação ou vergonha, nada mais de solidão ou de saudades... uma vida de beleza e perfeição, só para o preço, o preço mínimo, de nosso produto. E baseado no orgulho, este ideia que nós podemos ganhar, ou comprar, a nossa própria felicidade, e que não precisamos de ninguém, e sobretudo não precisamos de Deus. É orgulho, e pecado, e, sempre, uma mentira.
Era por orgulho, o pecado que é a raiz de todos os outros, que o Grande Mentiroso, o arcanjo Satanás[2], foi expulsado dos Céus. Esmagado, o Inimigo caiu dos Céus e ficou como senhor deste mundo. Perdeu seu poder como arcanjo, mas não sua voz tentador. Há nada que ele pode fazer contra nos... mas ele ainda tem a lingua dum sedutor; as mentiras para enganar nos.
Deus deu-nos livre-arbítrio. E com este livre-arbítrio, nós precisamos escolher entre as verdades de Deus e do seu Filho Unigênito, Jesus Cristo, e as mentiras do Inimigo. Mas de vez em quando, as verdades são duros, difíceis, e as mentiras tem mais poder de atracção.
Há muitas partes da Grande Mentira, da mentira do Diabo. Hoje não falo sobre as partes que glorificam violência, ou racismo, ou os outros que também tem suas raízes no orgulho. Só falará das partes quem ouvimos mais da cultura, da média... e a média é um instrumento maravilhoso para o Inimigo! Quem é que não quer ser linda, ou rico, ou “sexy”, ou popular... que não quer todos as coisas que eles vendem na televisão? A primeira parte da Grande Mentira é esta: estas pessoas são lindas, ou rico, ou “sexy”, ou popular, somente por causa dos produtos que usam. É o carro novo, ou a fragrância sensual, ou as roupas da moda... E se nós compramos as mesmas coisas, também podemos ser lindas, ou ricas, ou “sexy”, ou popular.
Na contracapa da revista Visão desta semana passada, tinha um foto grande do actor George Clooney, e dum relógio Omega, com as palavras (em Inglês) “George Clooney’s Choice” — a escolha do George Clooney. A mensagem é fácil a entender: se quer ser tão “sexy”, tão popular, de ter a vida feliz de George Clooney, só precisa escolher o mesmo relógio. Nós podemos ter “valor”, se compramos os produtos vendido nas revistas e televisão. Ai, é tão fácil, ser feliz!
Quando pensamos nisso, podemos ver como é uma estupideza. Um relógio pode dizer as horas, e nada mais. Não pode dar qualquer valor a uma pessoa: o nosso único valor verdadeiro é uma coisa interior—a mais que conformamos ao Imagem do Deus, a mais valor que temos.
Mas a primeira parte desta Grande Mentira é que nosso valor é uma coisa exterior, a segunda parte (e isto é esquisito!) é até pior. A primeira parte diz que nos estamos sem valor se não compramos estes produtos, mas a segunda parte é o oposto: que nós já somos perfeitos. E a Mentira é tão talentoso que, se não olhamos bem, se não examinamos as mentiras cuidadosamente mesmo, nem percebemos que os duas coisas são opostas.
Ouçam a publicidade comum: “Hoje, você merece uma pausa!”, declara McDonalds. Uma nova promoção parceria entre duas companhias: “Você Merece Coca-Cola e Avon!” Ou a minha favorita, da companhia L’Oreal, que nós ensina simplesmente: “Porque você merece!”.
“Porque você merece!”??? Nós merecemos o que? Nos, que vivam num mundo aonde há uns quem jogam fora mais comida do que comem, ao mesmo tempo que há tanto quem nem podem por pão na mesa por suas crianças... nos, que vivam num mundo aonde um medico seria melhor pagado fazendo lipoaspiração nos ricos do que tratando as doenças tropicais quem matam milhões... Nos, quem “matas os profetas e apedrejas os mensageiros que Deus nos envia”?[3] O que é que nós “merecemos”???
É por isso que precisamos da Quaresma. Nós ouvimos as mensagens da cultura dia inteiro. É por isso que a Quaresma é um dom da Igreja, um tempo que, cada ano, dá nós a possibilidade duma interrupção transitória em nossas vidas. Este tempo de jejum e da renúncia não é para nós punir, mas para dá-nos um pouco de espaço, espaço fora do mundo a da sua cultura tão barulhenta, em que nós podemos examinar as nossas almas e mentes: para ver como as influencias malignas das mentiras do Inimigo já podiam acumular nos cantos mais escuros, e para convidar a Luz de Cristo ilumina as trevas. Para convidar a Luz, e eliminar as mentiras, quer que somos sem valor quer que merecemos tudo que queremos.
Nós temos valor, sem comprar nada, porque foram feiro por Deus no seu próprio Imagem, e nós merecemos nada, por causa dos nossos pecados. O nosso valor é tanto que Deus ainda nos ama, apesar de todos nosso pecados. E com todos nosso pecados, nós merecemos nada, sem o amor de Deus.
No Evangelho, Jesus disse, «”Neste momento, o meu coração está perturbado. Mas que posso fazer? Pedir ao Pai que me livre do que está para me acontecer nesta hora? Mas eu vim ao mundo precisamente por causa desta hora! Pai, manifesta o teu poder!” Veio então uma voz do céu que dizia: “Já o manifestei e voltarei ainda a manifestá-lo”.[4]»
“Já o manifestei...”. Esta quinta-feira passada, o dia 25 de Março, foi a verdadeira ‘Festa de Encarnação’: a Anunciação à Virgem Maria. Foi a Encarnação, porque foi neste momento que “a Palavra fez-se homem e habitou nós[5]”. É incrível... que Deus, o Criador do Universo inteiro, inicialmente habitou entre nós como um embriãozinho, no seio da Virgem, e nasceu normalmente como verdadeiro homem, mas também foi verdadeiro Deus! E não só nasceu como um de nós, mas também morreu, horrivelmente na Cruz, só pelo amor de nós, que somos tão pecaminoso que, sem o amor de Deus, devem ser perdidos.
‘Já o manifestei, e voltarei ainda a manifestá-lo’. Jesus disse que “chegou o momento em que este mundo vai ser julgado, e que o senhor deste mundo vai ser expulso”. Jesus, no Evangelho de S. Mateus, deu nós uma descrição pormenorizado do Juízo Final[6], e apesar de todas as mentiras do Inimigo, não somos julgados pelos nossos roupas de moda, ou carros novos, ou qualquer coisa assim. Também, não seria que o Juiz dirá: “Você merece o Reino dos Céus!”: o Cristo não é Coca-Cola! Não, se a Grande Mentira é isso: você é a coisa mais importante, ama-te mesmo, a verdade é diferente: “Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, e tua alma, e tua mente, e ama o teu próximo como a ti mesmo.”
Dois espelhos. O da cultura reflecte que nós merecemos todo que queremos, e que só precisamos de gastar dinheiro para aperfeiçoar-se. O da Quaresma, o da Fé, reflecte a Imagem do Deus. No primeiro, é o espelho que é estragada, a mostra a mentira que somos perfeitos. No segundo, é nós que somos estragados, desfiguradas por pecado, que precisamos a Salvação de Cristo Jesus. Duas reflexões. Uma verdade.
Nesta Quaresma, escolhamos a verdade. Nesta Quaresma, olhemos no espelho, reconheçamos os nossos imperfeições, nossos pecados, e deixemos que a Luz brilha nas trevas, porque se deixamos, as trevas, e as mentiras, não podem vencer[7].
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
[1] Liturgia da Igreja Lusitana, p.142
[2] Apocalipse 12 7-9
[3] S. Mateus 23, 37
[4] S. João 12, 27-28
[5] S. João 1, 14
[6] S. Mateus 25, 31-46 (e seria bom, consultar mais uma vez!)
[7] S. João 1,5

Cal Thomas on Regulating Wall Street: Aaargh!

I just read by Cal Thomas called "Channeling Anger", published on 24 March '09 by the Cagle Post [http://www.caglepost.com/column/Cal+Thomas/131322/Challenging+Anger.html]. If I didn't know better, I'd have tought it was satire (that's satire with a 't', not Safire with an 'f'-- I don't always agree with Safire, but he writes better).

Cal Thomas's idea that we should just let the leaders of Big Business govern themselves (as they have been doing since deregulation) and just enforce the laws as they now stand (none of which seem to have been broken) makes me wonder whether he's rolling his own. Are the politicians the best people to regulate Big Business? Perhps not, but they happen to be the Government of the United States of America, which means it is their job. And no, they haven't been doing it.

Thomas's saying it's a bipartisan problem, then rattling off the names of the members of only one party, simply made him look a little silly-- as though he got up from his desk to go to the john mid-article, and when he returned he'd forgotten what he'd previously written.

What has happened with Detroit and Wall Street is what happens when you deregulate... when you tell the people who make the profits that they also get to make the rules, then they make the rules that'll make the most profits.

If you ensure that the people who make the rules-- that is, our elected legislators-- cannot benefit from those rules... which means getting rid of the corporate lobbyists, then perhaps things will be better next time around. Too late for this time, I'm afraid-- the Teapot Dome Scandal (oops, I meant the housing mortgage market scandal) has already done its damage, and the whole world is suffering (and some children starving to death) because of the greed of a few.

22 March 2009

Sermão por o Quarto Domingo da Quaresma, Ano B (2009)

4º Domingo da Quaresma, 22.03.09 [Ano B]
Igreja do Redentor/ Porto
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger


«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Hoje é o Dia dos Pais, e com razão: é o Dia dos Pais porque também é o Domingo mais perto da Festa de São Joaquim. Infelizmente, não sabemos muito sobre a história de Joaquim, o pai da Virgem Maria. A primeira informação que temos sobre ele foi escrita no Protoevangelho de Tiago, cerca do ano 150. Um “protoevangelho” é um livro sobre as coisas que aconteceram antes da história contada nos Evangelhos: o nascimento e a vida da S. Maria, e a infância de Jesus, por exemplo: o Protoevangelho de Tiago é talvez o mais bem conhecido. Na altura da Igreja Antiga era popular na Igreja oriental. Foi traduzido do Grego para nove outras línguas!, mas nunca fez parte da Bíblia, e é mais uma história interessante e didáctica do que algo de verdadeiramente importante para nossa fé ou salvação.
Esta história da devoção dos pais e do nascimento da Virgem Maria era bem conhecida desde o fim do segundo ou do terceiro século na Igreja d’oriente (a futura Igreja Ortodoxa), atingindo a sua plenitude no século VI. No ocidente, levou mais tempo, mas a veneração dos pais de Maria já era popular antes da Idade Média. A história deles no Protoevangelho de Tiago apesar de que não podia ter sido escrito por S. Tiago (o escritor não sabia muito sobre a vida dos Judeus!) [1], foi importante para a comunidade Cristã por razões normais; eles queriam saber mais sobre o seu Senhor, e este, e outros livros do mesmo tipo e altura falavam sobre a infância de Jesus. Especialmente antes de terem a Bíblia (que até ao fim do século quarto ainda não estava oficialmente completa), as comunidades Cristãs em locais diferentes tinham livros e cartas diferentes aprovadas pelos apóstolos, e foi só quando os bispos da Igreja, reunidos em Concílios da Igreja inteira e usando a lista do Bispo Atanásio de Alexandria, decidiram que os livros que nós temos agora, começando com os quatro Evangelhos, que o Novo Testamento que nós usamos agora se tornasse “oficial”. Os livros como o Protoevangelho de Tiago nem chegaram a fazer parte dos livros Deuterocanónicos.
Mas as histórias escritas no Protoevangelho já faziam parte da tradição Cristã. É de lá que “conhecemos” que Joaquim foi o irmão de São José, o padrasto de Jesus Cristo, e por causa disto, o feriado oficial na Igreja Anglicana é a 20 de Março, juntamente com o de São José (na Igreja Ortodoxa, é conjuntamente com o de Sta. Ana a 9 de Setembro[2], e na Igreja Católica Romana era a 19 de Março, e foi mudado para 6 de Agosto, e já há 30 e tal anos que se celebra juntamente com o de Sta. Ana a 26 do Julho[3]!). Eram idosos, ele e a sua mulher, Ana. Ela tinha 80 anos, e ele mais. Durante o seu casamento, ela foi estéril, e Joaquim foi censurado pelo sacerdote Rúben no Templo por não ter filhos. Então, confiando em Deus, Joaquim foi para o deserto para rezar e orar.
Durante o tempo em que ele esteve no deserto, um anjo visitou Ana, e disse-lhe que ela estava grávida e ia dar à luz uma filha. Ao mesmo tempo, um anjo apareceu a Joaquim, dizendo que Deus tinha ouvido as suas preces. Quando voltou ao lar, Ana correu (correu, com os seus 80 anos!) para o encontrar, e lhe relatar as suas noticias. E ela estava mesmo grávida, e deu à luz Míriam, a Maria, que seria a mãe de Deus. E, segundo a escritura, Joaquim e Ana tiveram uma segunda filha, também chamada Maria (tal como as famílias Portuguesas também eles davam o nome de «Maria» às filhas!), que ficou com ela ao pé da Cruz quando o seu filho Jesus foi morto pelos Romanos[4].
É uma história linda, e familiar: no Livro de Génesis, Sarai, a esposa de Abraão, também idosa de mais para ter filhos, deu à luz Isaac quando Abraão tinha 100 anos[5]; conhecemos também a de Ana que foi a mãe do profeta Samuel[6]; e, claro, a de S. Isabel, a mãe de S. João Baptista[7]. É uma história linda, mas será verdadeira? Quem sabe? Pode ser, pode não ser... e a nossa salvação não depende disto de jeito nenhum. É uma parte da nossa tradição, da tradição antiga da nossa Igreja, mas não é doutrina.
S. Paulo escreveu, na sua Primeira Carta as Coríntios uma frase que ouvimos a semana passada: “De facto, os judeus pedem milagres...” Pediram, e receberam, mas ninguém o reconheceu. O milagre que eles queriam, pelo qual eles esperavam, era o de um Messias que seria um grande guerreiro, que podia combater os Romanos e vencê-los, um Messias que podia conduzir Israel e o mundo numa era de paz e de prosperidade mundial. O que receberam foi o Filho de Deus, que podia conduzir o mundo ao Reino dos Céus.
Mas o milagre não começou com o Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, nem com a Incarnação de Jesus, o Filho Unigénito de Deus, no seio da Virgem Maria. Antes da Incarnação, os idosos, Joaquim e Ana, tinha de ter o seu próprio milagre, quando ela, já idosa e estéril por tantos anos, ficou grávida. E antes disso, tantos outros milagres, todos os milagres do Antigo Testamento, para deixar que o pastor David fosse o Rei de Israel, e que este homem, Joaquim, pudesse ser seu descendente. A série de milagres que incluíram o nascimento de Maria para ser a Virgem Mãe de Jesus começou com o próprio Jesus : «No princípio de tudo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e ele mesmo era Deus. Desde sempre ele esteve com Deus. Todas as coisas feitas foram feitas por meio dele, e sem ele nada foi criado. Nele estava a vida, e essa vida era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não venceram.»[8]
A série, a sequência dos milagres começou com a Criação, e nunca mais acabará. Cada momento que temos é um parte da série dos milagres de Deus, todos interligados em modos que nós não podemos entender. As escrituras hebraicas ensinam que Deus estava no centro de tudo. É impossível ler os livros de Génesis ou o dos Salmos, ou Provérbios ou o Livro de Job, por exemplo, sem aprender isto. E estas eram as Escrituras de S. Joaquim, pai de Maria.
Nós aqui marcamos o Dia dos Pais no Domingo mais próximo das festas de S. Joaquim, o pai da Virgem Maria, e também do de S. José, Padrasto de Nosso Senhor. E no Dia dos Pais, é fundamental lembrar a importância que Joaquim teve na vida da jovem Maria, tal como a importância que S. José teve na vida de Jesus. Porque na altura deles, ainda não existia Escola Dominical para ensinar os miúdos na Fé. Quem o fazia eram os próprios pais.
Quando nós pensamos na história da vida de Jesus, normalmente começamos com a Anunciação, o momento em que o Arcanjo Gabriel apareceu a Maria, e lhe disse: “Avé, Maria, cheia de graça! O Senhor é contigo!” [9] E o anjo continuou, “Ficarás grávida e terás um filho, a quem vais pôr o nome de Jesus.” E Maria, esta miúda de talvez doze ou treze anos, respondeu: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.”[10]
Deus deu-nos livre-arbítrio, livre escolha. E sobretudo numa coisa tão grande como esta, Maria podia escolher, precisava de escolher... e não precisava de dizer ‘Servirei o Senhor como ele quiser. Seja como tu dizes’. Podia—podia dizer “não”.
Os seus pais tão idosos, Joaquim e Ana, mas especialmente Joaquim, dado que no primeiro século eram os homens que eram alfabetizados[11], tinham estudado a Lei e os Profetas, e educaram sua filha Maria na Fé judaica. Ela era uma filha bem-educada, talvez mais que o normal para uma filha, para uma menina, desta altura. A educação religiosa pertencia aos meninos e aos homens... e as coisas da casa eram para as mulheres. Mas esta menina bem-educada foi mais do que apenas “bem-educada” por Joaquim e Ana, que eram tão idosos. Maria foi um milagre de Deus. E por isso, ela foi educada, não só nas coisas da casa por sua mãe, Ana, mas também nas da Lei Sacra por seu pai, Joaquim.
Então, Maria, que no momento da Anunciação já estava noiva de São José, conhecia bem as leis sobre o casamento contidas no Livro de Deuteronómio. Na Lei, o contrato de casamento era entre o noivo e o pai da noiva: ela não tinha voz nenhuma no assunto. No caso da Virgem Maria, seu pai, S. Joaquim, assegurou que ela era uma virgem, pura e sem mácula, quando assinou o contrato com S. José... e também assegurou que ela seria ainda virgem, pura e sem mácula, no dia do casamento. Como era normal nesta altura, a jovem Maria continuou na casa dos pais durante o ano de noivado.
Mas, na Lei de Deuteronómio, se ela ‘quebrasse o contrato’: se, depois do casamento, o marido dissesse que ela não era virgem quando entrou no casamento, a Lei era simples. Se os pais da jovem não pudessem levar os sinais de virgindade[12], a veste com a marca de sangue, aos anciãos da cidade reunidos em tribunal, então, tal como estava escrito no Deuteronómio, «devem levá-la à porta da casa do seu pai e ali será apedrejada e morta pelos homens da sua cidade. É que ela cometeu no meio do povo de Israel a infâmia de se prostituir, desonrando a casa de seu pai. Dessa maneira, acabarás com este escândalo, no meio do teu povo.»[13] E, no caso duma menina que já estava, pelo menos, no terceiro ou quarto mês da gravidez, é claro que o tribunal não estaria muito interessado em quaisquer sinais de virgindade!
E Maria sabia bem disso, porque ela foi bem educada acerca da Lei por seu Pai. Ela sabia que, se ela dissesse “Sim” ao anjo, ninguém iria acreditar que ela fosse ainda virgem... e que deste modo ela podia morrer, apedrejada como prostituta, em frente à porta da sua própria casa.
Mas S. Joaquim não lhe ensinou só a Lei de Deus; mais importante, ele ensinou a sua filha no amor de Deus. Maria sabia, porque nisso foi educada pelo pai, que Deus a amava, e que, se o Anjo do Senhor lhe pedia uma coisa que parecia tão escandalosa, tão perigosa, era, de qualquer maneira, seguro. Maria sabia, porque aprendeu isto do seu pai, que o amor de Deus era até mais importante do que as Leis e os mandamentos. Se isto era o que Deus queria, isto que parecia tão difícil e perigoso, então tal era ainda uma coisa recta... e o que ela precisava de fazer. Ela não precisava de entender nem de saber ‘porque?’ — ela só precisava de ser obediente ao amor de Deus.
“Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.”[14]
Se não tivesse sido educada no amor de seu pai, S. Joaquim, estas palavras teriam sido impossíveis de pronunciar. Mas não foram impossíveis. S. Joaquim ensinou à sua filha o Amor de Deus, e para amar a Deus, e por causa disso, ela teve a confiança necessária para dizer ‘sim’ ao Senhor.
Mas pensem: se Joaquim nunca tivesse ensinado a sua filha a obedecer e a amar e a confiar no Senhor, Maria teria ficado assustada e não teria dito ‘Sim’ ao Arcanjo Gabriel... É impossível saber o que teria acontecido, para ela, para o mundo, e para nós. Mas foi por causa de seu pai, S. Joaquim, que ela teve confiança no Pai, em Deus. “E o Verbo encarnou, e habitou entre nós”.[15]
Esquisito, não é? Que um dos melhores modelos para os pais, possa ser este homem, este pai, que é talvez meio mitológico. Como já disse, não há nada na Bíblia sobre o pai da Virgem Maria.
Mas sabemos duma coisa bem importante sobre ele. O pai de Maria ensinou-a a amar e a servir ao Senhor, e o resultado foi a Salvação do Mundo. E esta é a lição que nós precisamos de ensinar às nossas crianças: não que eles podem salvar o mundo, claro, e isto não é o que a Virgem fez. A lição, a única lição, é esta: se nós ensinamos as nossas crianças a amar e a servir ao Senhor, Deus pode usá-las para fazer o que Ele quer, para este mundo e para o mundo que há-de vir.
Quais das nossas crianças serão chamadas por Deus para fazer alguma coisa importante? Quem sabe? Mas se eles estiverem preparados tal como Maria foi preparada por seu pai, se eles receberem o amor, a sabedoria, e a confiança que Joaquim deu a Maria, e que nós podemos, e precisamos, de dar às nossas crianças, Deus pode usá-las, tal como usou a Virgem.
E, nas palavras do Rei Salomão, «Filhos, oiçam as advertências dum pai; estejam atentos para adquirirem conhecimento. Pois a instrução que vos dou é boa; não abandonem os meus ensinamentos.»[16]

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

[1] Early Christian Doctrines [Doctrinas Antigas Cristã] , by J.N.D. Kelly, Harper & Row:1972, p. 492
[2] http://www.goarch.org/chapel/saints_view?contentid=201
[3] http://www.mundocatolico.org.br/missalit.html
[4] S. João 19, 25
[5] Genesis 18, 10; 21, 1-3
[6] 1Samuel 1, 12-20
[7] S. Lucas 1, 36
[8] S. João 1, 1-5
[9] S. Lucas 1, 28
[10] S. Lucas 1, 38
[11] Na Idade Média, quando somente os clerigos cristãos podiam ler, quase todos os homens dos judeus podiam—é parte da sua cultura.
[12] Deuteronómio 22, 17-18
[13] Deuteronómio 22, 20-21
[14] S. Lucas 1, 38
[15] S. João 1, 14
[16] Provérbios 4, 1-2

15 March 2009

Sermão por o Terceiro Domingo da Quaresma, ano B (2009)

3º Domingo da Quaresma, 15.03.09 [Ano B]
Igreja do Salvador do Mundo/ VN de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger


«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

«Depois, Jesus disse aos que vendiam pombas, “Tirem tudo isto daqui! Não façam da casa do meu pai uma casa de negócio!.[1]»
Os discípulos achavam que entendiam. Lembraram-se do que está escrito no décimo versículo do Salmo 69: “O zelo da tua casa me consome...”. Mas os outros, os que vendiam as pombas, as ovelhas e os bois, e os cambistas que trocavam dinheiro do Império inteiro pelas moedas do Templo, não podiam entender. Isto era uma loucura! Esta parte do Templo não era uma loja ou uma ‘casa de negócio’: era o lugar aonde os Judeus fiéis compravam os animais para os sacrifícios mandados pela Lei[2]!
No tempo em que Deus deu as leis dos sacrifícios a Moisés, no Livro de Levítico, os israelitas eram um povo de lavradores e de pastores, mas agora, no primeiro século, muitos deles moravam nas cidades, quer em Jerusalém e noutras cidades da Palestina quer nas cidades como Alexandria e Damasco, Antioquia e Roma. Todos eles queriam voltar a Jerusalém para a festa da Páscoa dos judeus, para fazer os sacrifícios que só eram possíveis de realizar no Templo... mas dado que não eram pastores nem viviam perto da cidade, precisavam de comprar os animais! E eles, que tinham as moedas de bronze das muitas e diferentes províncias romanas[3], precisavam dum câmbio para trocar de dinheiro. Isto não era uma ‘caverna de ladrões’[4], mas era um serviço útil do Templo judeu para os seus devotos.
Não é que Nosso Senhor não soubesse disso. Ele era um judeu religioso, bem educado na Lei desde a sua infância. E esta não foi a primeira vez que Jesus esteve no Templo de Jerusalém! Jesus e os seus pais iam a Jerusalém todos anos, à festa da Páscoa: foi no ano do seu décimo segundo aniversário que Jesus ficou no Templo quando os seus pais voltavam para casa, discutindo com os doutores da Lei. E devemos crer, que ele foi com eles, tal como todos os judeus fiéis o faziam anualmente. Jesus aprendeu, e entendeu, as regras dos sacrifícios, e as razões para a existência das tendas dos vendedores dos animais de sacrifício.
Jesus, que era Filho de Deus, também era filho da S. Maria e enteado de S. José: cresceu numa família religiosa, praticante. Recebeu a circuncisão de menino com oito dias[5], e quando tinha quarenta dias, Maria e José levaram-no a Jerusalém pela primeira vez, para ser apresentado ao sacerdote no Templo. E foi lá, que os seus pais sacrificaram um par de rolas ou de pombinhos. A Lei em Levítico manda que seja um cordeiro, para o holocausto, e para a expiação do pecado, mas podia ser um pombinho ou uma rola se a família não tivesse o dinheiro para um cordeiro[6]. S. José não era pobre: como carpinteiro, ele era da classe média, dado que possuía a sua própria ferramenta, e talvez uma oficina. Não havia razão para terem sacrificado somente as duas pombas dos Evangelhos, mas acho que foi isto: até Maria e José talvez não soubessem porque não estavam a sacrificar um cordeiro por Jesus, mas era porque este sacrifício estava reservado para mais tarde: o sacrifício do Cordeiro de Deus, de Jesus mesmo, na Cruz.
Ora bem. Talvez possa parecer que foi somente pelo facto de estar zangado que Jesus tenha feito um chicote de cordas e tenha expulsado todos do Templo, tal como o fez com as ovelhas e os bois, e tal como espalhou pelo chão o dinheiro dos cambistas, e derrubou as suas mesas. Talvez possa parecer, mas não foi só um explodir de cólera: foi profecia! Quando os chefes dos judeus, e os sacerdotes do Templo, lhe perguntaram: “Que sinal nos apresentas tu, para proceder deste modo? Mostra-nos como é que tu tens o direito de fazer isto!”, a sua resposta foi estranha: “Deitem abaixo este templo e eu em três dias o hei-de levantar.”
Eles não entenderam. Claro que não: para eles, o Templo era um edifício, mas era mais do que um simples edifício; era o verdadeiro centro da adoração e louvor ao Senhor. Este era já o segundo Templo: o primeiro foi mandado construir pelo Rei Salomão,[7] filho do Rei David, 950 anos antes de Cristo, mas foi destruído pelos babilónios no ano 587 a.C.[8], no tempo do Exílio na Babilónia dos judeus do antigo Reino de Judá. O Segundo Templo foi construído depois do Exílio, quando o Rei Ciro da Pérsia deixou os judeus voltar a Israel e reconstruírem o Templo. Levou 46 anos para o construir, e o Templo estava no centro, não somente da religião dos israelitas, mas das suas vidas. Era por isso, que os judeus que viviam noutras partes do Império tinham de voltar a Jerusalém para celebrarem a Páscoa dos judeus: não podiam fazer os sacrifícios exigidos noutro lugar.
No tempo de Jesus, o Rei Herodes estava a proceder a uma “remodelação” do templo, que os judeus mais religiosos consideravam ser uma profanação, dado que ele queria incluir partes pagãs para agradar a César e aos Romanos. Esta seria a segunda profanação Romana: no ano 136 a.C., o Imperador Romano mandou sacrificar uma porca sobre o altar, uma profanação repugnante, e assim instigou a primeira revolta judaica contra os Romanos. Mas mesmo com estas profanações, o Templo era ainda o centro da adoração dos judeus, e o único lugar aonde os judeus podiam fazer os sacrifícios mandados por Deus.
Todo isto... e este Jesus entrou, fez um grande barulho com os vendedores, e então disse: “Deitem abaixo este templo, e eu em três dias o hei-de levantar”. O quê???
Não. Eles não entenderam de jeito nenhum. Os discípulos só entenderam, após a Ressurreição.
Jesus não estava a falar de um edifício: falava do templo do seu corpo. E isto era uma coisa que ninguém, na altura, podia entender... talvez a sua mãe, Maria, ou José, se ambos se lembrassem das palavras do anjo da Anunciação, mas mais ninguém entenderia. O acto de Jesus foi uma profecia de futuro.
Deus sabia que o Segundo Templo, já duas vezes anteriormente profanado, seria completamente destruído pelos Romanos no ano 70, e o resto de Jerusalém também. Mas isto ocorreu quase, quarenta anos depois e os chefes dos judeus e os sacerdotes do Templo não poderiam prever tal coisa. Mas no Evangelho de S. João, é claro que Jesus Cristo, que foi verdadeiro homem e verdadeiro Deus ao mesmo tempo, sabia bem que o tempo do Templo físico estava passado, e que o Deus que usava o Templo como seu escabelo[9] agora estava dentro dele mesmo.
Jesus sabia também que o tempo dos sacrifícios no altar do Templo estava a passar: que o último sacrifício vivo de um cordeiro seria o sacrifício do Cordeiro de Deus, não sacrificado no altar de Deus pelos seus sacerdotes, mas sacrificado numa Cruz secular pelos soldados Romanos. Durante quase dois mil anos, desde o tempo de Abraão e Isaac, Deus mandou o Povo escolhido sacrificar animais, quando na mesma altura, muitas outras religiões sacrificavam pessoas. Desde o tempo do Rei Salomão o Sábio,e durante mil anos executaram-se sacrifícios de animais no Templo. Mas estes eram sacrifícios por Deus. Já estava quase no tempo do sacrifício último, do sacrifício único, de Deus.
Na Cruz, neste instrumento de tortura e degradação, o Filho de Deus tinha de ser sacrificado. Foi por isso que se incarnou no seio da Virgem Maria. Foi por isso que ele andou pelos caminhos e estradas, ensinando e preparando os seus discípulos e o povo para um futuro novo; não para uma fé nova, mas uma fé com uma nova visão. Em vez de um Templo físico, e de um edifício no qual os sacerdotes fizessem os sacrifícios para o povo, agora era um Templo que seria o próprio Corpo de Cristo, deitado abaixo e levantado em três dias, sacrificado e ressuscitado em três dias. Em vez dum Templo físico, para o qual todos os fieis precisavam de viajar para fazer os seus sacrifícios, agora um Templo Espiritual, do qual todos faziam parte. Se o Corpo de Cristo é o novo Templo, todos nós somos como os tijolos, as pedras das paredes do Templo.
Mas, ao mesmo tempo que somos o Corpo de Cristo, somos também alimentados pelo próprio Corpo, sacrificado por nós. Na altura do Primeiro e do Segundo Templos de Jerusalém, quando um animal era sacrificado no altar, as melhores partes da carne eram distribuídas pelos Levitas, que eram os sacerdotes, dado que eram a única tribo entre os Judeus que podiam ser sacerdotes, mas que também não podiam ter outro trabalho: ganhavam o seu “pão da mesa” no trabalho do Senhor.
Com o último sacrifício vivo, de Jesus Cristo na Cruz, todos nós que somos “um povo santo de sacerdotes ao serviço do Reino, povo que pertence a Deus[10]”, somos como os Levitas do tempo do Templo velho: nem todos serviam ao altar, mas todos tinham a responsabilidade da preservação da Fé, e todos recebiam da alimentação do altar. O mesmo se passa connosco: alguns de nós são presbíteros de altar ou Bispos, mas todos temos a responsabilidade pela preservação e a propagação da Boa Nova, e todos nós podemos receber o Corpo, e agora o Sangue, do Sacrifício do Cordeiro de Deus. Nós recebemos o verdadeiro Corpo, o verdadeiro Sangue de Deus, de um Deus que nos amou de tal modo, que Ele próprio, sendo o Criador[11], entrou na sua própria Criação, e viveu como um de nós, e morreu por todos nós, e só para nos salvar.
É Ele que, em cada semana, nos convida ao seu próprio altar, para recebermos o seu Corpo e Sangue. Não é um ‘sacrifício novo’: Jesus morreu uma vez só, na Cruz. Mas também não é somente uma comemoração, uma lembrança: o sacrifício de Jesus na Cruz existiu num tempo particular, já há uns 2.000 anos atrás, mas também existe agora fora do tempo humano, no “chiros”, e o sacrifício uma vez feito é, pelo amor de Deus por nós, ‘novo’ de cada vez, em cada Culto Eucarístico. Comemos e bebemos, sabendo que é o verdadeiro Corpo e Sangue de Nosso Senhor. Alimentai-nos d’Ele, em nossos corações, e em todos os nossos corpos e mentes, com fé, e sabemos que precisamos de responder, em fé, e com acções de graças.
Mas como? Por este dom de amor tão grande, tão imenso, como é que podemos responder? Se o nosso Deus nos amou, e nos ama, de tal modo que morreu por nós e para a nossa salvação, de tal modo que é Ele próprio que dá o seu próprio Corpo e Sangue para nos alimentar, como é que nós podemos responder? Isto é uma pergunta muito importante, talvez a pergunta mais importante, e não só neste tempo de Quaresma.
Talvez a única resposta para o amor seja o ... amor: nós também precisamos de amar a Criação, e o povo criado à semelhança de Deus. Agora, nós não sacrificamos uma porção dos nossos bens no Altar do Templo, mas podemos sacrificar uma porção para o novo Templo: para o Corpo de Cristo. Nesta altura de crise, de desemprego e fome, de um mundo cheio de guerras e doenças, há tanto que podemos fazer... e tudo que fazemos, fazemos por Ele[12], que já fez tanto por nós.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
Endnotes:
[1] S. João 2, 16
[2] Levítico 7, 1-10. 15-20, 30-34; 9, 3-5 12, 6-8; 14, 10-21; 23, 12-21 etc.
[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Moeda_da_Roma_Antiga
[4] S. Lucas 19, 46
[5] Levítico 12, 3
[6] Levítico 12, 8
[7] 1 Reis 6, 1-38
[8] 2 Crónicas 36,19
[9] 1 Crónicas 28, 2
[10] 1 Pedro 2,9
[11] S. João 1, 1-5, 9-12, 14
[12] S. Mateus 25, 31-40

10 March 2009

A letter sent to Pres. Obama and my Senators and Representative

March 10th, 2009

While I may be far from being a political socialist or even a liberal Democrat (as a devout Christian, I cannot support the liberal's stance on abortion, for example), for the same reason I believe that Americans should be willing to fund a program ensuring that everyone can have access to health care--because to do otherwise is not merely unChristian, but also bad politics.
The funds which we don't spend on preventive health care for the poor we end up spending on far more costly emergency care and/or serious health problems later on. The untreated poor infect the insured middle-class and wealthy, thus ensuring that all of our health care premiums continue torise. The single mom whose job doesn't provide insurance, or sufficient insurance, for her to keep her children healthy still sends those children to school, where they spread diseases that univeral health care could have stopped.
I am currently volunteering in Portugal, the poorest country in western Europe. It still manages to provide basic health care for all of itscitizens. This doesn't mean that there aren't private doctors and hospitals as well, for those with their own funds-- but it does mean that the overall health of the nation's population is better, and thus so is its productivity. In these difficult financial times, we cannot afford NOT to provide basic health care for every man, woman and child in America.
Sincerely,
Canon Francis C. Zanger

08 March 2009

Sermão para o Segundo Domingo da Quaresma, Ano B, 2009

2º Domingo da Quaresma, 08.03.09 [Ano B]
Igreja do Bom Pastor/ V.N. de Gaia
Cónego Dr. Francisco Carlos Zanger



«Que as palavras da minha boca e a meditação dos nossos corações, sejam agradáveis perante Ti Senhor, nossa Rocha e nosso Redentor; em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo». Ámen.

Ora, com os problemas da minha coluna, agora não ando muito. Não é que seja preguiçoso, bem, não é somente preguiça, mas não ando muito. Mas, na altura em que estive como capelão na tropa, tinha de participar numas caminhadas, numas marchas de grande distância no mato com os Fuzileiros. Sujo, fatigado, com roupa cheia de suor, com o pó nas nossas caras e até pó nos nossos dentes... e eu sei que existem pessoas que gostam de fazer longas marchas nas suas férias, mas não sei porque!
No século primeiro, as pessoas não tinham alternativa. Se queriam ir de um lado a outro, e se não tinham nem cavalo nem burro, tinham que andar. Deste modo, Nosso Senhor e os seus discípulos também viveram sempre sujos, com roupas cheias de suor e cobertas com pó, e cansados, porque todos os dias andavam entre as aldeias e vilas da Galileia e da Judeia. Não sei, mas talvez fosse com sentimentos opostos que Pedro, Tiago e João ouviram as palavras de Jesus, quando disse: “Vamos subir àquela montanha alta!”... e talvez os outros, que ficaram para trás, tivessem tido sentimentos contraditórios... com os três a pensar, “Jesus escolheu-me! Mas não quero escalar uma montanha!”, e os outros pensando: “Não preciso escalar aquela montanha, podemos descansar um pouco... mas Jesus não me escolheu.”
E Jesus tomou consigo os três discípulos, e conduziu-os a sós ao alto do monte. E lá em cima, o seu aspecto transformou-se diante deles, e em vez da roupa suja e cheia de pó, os seus vestidos tornaram-se resplandecentes: brilhantes e brancos como a neve! Nas palavras de São Marcos: “Ninguém no mundo seria capaz de a branquear assim!”.
E, nesse momento, apareceram-lhes Elias e Moisés! Estavam lá, à frente dos três discípulos! Elias, o maior dos profetas, que nunca morreu mas foi levado aos Céus numa carruagem de fogo, puxada por cavalos de fogo num turbilhão[1]; Elias, de quem o Profeta Malaquias disse, falando em nome de Deus: “Vou enviar-vos o profeta Elias antes que chegue o dia do Senhor, que será um dia grande e terrível. Ele fará com que os pais se reconciliem com os filhos e os filhos com os pais. Caso contrário, virei castigar e condenar à destruição.”[2]
E não era só Elias, mas também Moisés: Moisés, que libertou o povo de Israel da escravidão no Egipto, que lhes deu os Dez Mandamentos[3] e as outras seiscentas e quarenta e uma leis da Torah[4], e que também foi transformado:, quando Moisés, depois de falar com o Senhor, desceu do monte Sinai levando na mão as placas de pedra da lei, a pele do seu rosto estava tão resplandecente que precisava de colocar um véu sobre a cara quando falava com os israelitas[5].
Aqui, em frente dos três discípulos, eles eram os representantes vivos das duas coisas mais importantes da Bíblia Hebraica, os representantes vivos do Grande Mandamento. Lembram-se das palavras de Jesus, quando um dos fariseus lhe perguntou: “Mestre, qual é o mandamento mais importante da Lei?” Jesus respondeu-lhe: “Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a alma, e com todo o entendimento. Este é o primeiro e o mais importante dos mandamentos. O segundo, tão importante como ele, é, Ama o teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas.”[6]
E ali no monte, o representante da lei, Moisés, e o dos profetas, Elias, estavam juntos apenas para falar com o seu companheiro, seu Mestre, Jesus. Para um Judeu, este era um momento incrível... duas das pessoas mais importantes da história inteira, estavam ali com Jesus, com quem eles andavam e falavam e comiam todos dias! Mas este Jesus não tinha uma aparência normal: Ele estava reluzente, e em vez da sujeira e pó da caminhada, tinha roupas brancas e brilhantes como a neve!
Pedro e os outros estavam cheios de medo, mas ao mesmo tempo queriam agarrar-se ao momento. “Mestre,” disse Pedro, “é tão bom estarmos aqui! Vamos levantar três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias!” Mas Pedro não sabia o que estava a dizer. E desceu então uma nuvem que os cobriu com a sua sombra; dessa nuvem veio uma voz que disse : “Este é o meu Filho querido. Oiçam o que ele diz!”. E quando os discípulos olharam em redor, já não viram ninguém, apenas Jesus com eles.
Foram os três: Elias, Moisés e Jesus. O primeiro significou as profecias de Deus para os homens, e o segundo as leis de Deus. Mas a voz de Deus não disse: ‘oiçam as palavras dos profetas’, nem ‘obedeçam à lei’. Não: foi, e é: ‘Oiçam o que o meu Filho querido diz!”. Porque quando a nuvem desapareceu, desapareceram também Elias e Moisés, mas Jesus ficou.
Torna-se então importante, entender estas palavras, para se entender a razão pela qual este capítulo do Evangelho faz parte do Leccionário da nossa Igreja durante a Quaresma. E para tal, é preciso lembrar o que é que aconteceu uns dias antes da Transfiguração de Jesus.
Seis dias antes, Jesus e os seus discípulos estavam na região de Cesareia de Filipe, e pelo caminho Jesus perguntou-lhes: “Quem é que o povo diz que eu sou?”. E eles responderam: “Uns dizem que tu és João Baptista, outros Elias, e outras ainda, que és um dos profetas.” Jesus acrescentou: “E vocês, quem acham que eu sou?” E foi Pedro que respondeu: “Tu és o Messias!”.
Ora bem. O Messias pelo qual esperavam os Hebreus, e pelo qual muitos Judeus ainda esperam, não é o nosso Salvador. O “Ha’Mashiach” será um judeu, filho normal de um homem e de uma mulher, que ascenderá ao trono de Israel, conduzindo a Nação de Israel e o mundo numa era de paz e prosperidade universal, marcada pelo fim das guerras e da intolerância, durante a qual todos os povos coexistirão de forma pacífica[7]. O “mundo que há-de vir” que eles esperavam não era o Reino dos Céus, mas este próprio mundo, pacificado, e o Messias que eles esperavam não era o próprio Deus, mas somente um homem da família de David, um líder que podia vencer os Romanos.
Na transfiguração de Jesus no monte, os três discípulos não viram uma transformação de um homem num ‘grande guerreiro’. Eles viram a transformação de um homem em ‘Filho de Deus’”, resplandecente como o sol e com vestes brancas como a neve. E mais... foi um transformação teológica, também. Eles viram pela primeira vez um Messias que não era só homem, e que tinha dentro dele “toda a lei e os profetas”. Lá no monte, eles viram Jesus, e Elias, e Moisés; e então ouviram as palavras de Deus dizendo: “Este é o meu Filho querido. Oiçam o que ele diz!”. E Elias e Moisés desapareceram, ficando Jesus sózinho no seu lugar. Fazia já uma semana desde que Pedro e os discípulos tinham entendido pela primeira vez que Jesus era o Messias, e agora, eles tinham de aprender que o Messias era o Filho verdadeiro de Deus, e que era a Ele, e não somente à Lei e aos profetas, que eles precisavam de seguir.
Quando Deus deu a Lei a Moisés, tal foi muito difícil para os Israelitas, tal como teria sido muito difícil para nós. Desde o Pecado Original no Jardim do Éden[8], nós somos “quebrados”, nós somos todos pecadores. É como disse S. Paulo na sua Carta aos Romanos “Todos andam fora do caminho e todos se perdem,”[9]. E mais: “Todos pecaram e ficaram longe de Deus.”[10] Por isso, Deus mandou os seus profetas, Elias e Eliseu, Isaías e Jeremias, Amós e Miqueias e os outros, para ensinar o seu povo. Mas o povo não os ouviu; talvez não pudesse ouvi-los a dizer : “Oh Jerusalém, Jerusalém! Matas os profetas e apedrejas os mensageiros que Deus te envia!”[11]
E, por amor de nós, o Filho Unigénito de Deus, gerado do Pai desde toda a eternidade, desceu dos Céus e encarnou-se no seio da Virgem Maria... O Criador, entrou na sua própria Criação e fez-se homem, com todos os problemas e dores da humanidade, e morreu, horrivelmente, na Cruz, só para nós salvar.
Não precisava. Nós que pecamos e ficamos tão longe de Deus não o merecíamos. Isto não é justiça. É somente amor. Mas ouçam bem: «eu não quero justiça — quero amor».
Então, pelo amor de Deus, que é que podemos fazer, pelo amor­ de Deus?
A resposta está aqui, no monte da Transfiguração. Se tentamos seguir Moisés e a Lei, falhamos. Se tentamos seguir Elias e as profecias, falhamos. Andamos fora do caminho e perdemo-nos, porque somos pecadores. Temos, temos de seguir a Jesus, e o amor de Deus.
A única resposta que podemos dar em face do imenso amor do Senhor é... o nosso amor. Precisamos de amar o Senhor nosso Deus com todo o coração, com toda a alma, e com todo o entendimento. É o que Jesus nos exige, dado que só assim é que podemos mostrar o nosso amor ao Senhor[12], precisamos de amar os nossos próximos... e os nossos próximos são todos criados à semelhança de Deus, e a Criação inteira.
E neste tempo de Quaresma, é sobre isso que temos de pensar, de ponderar, de meditar. Mas ao mesmo tempo, não estou a falar de nada difícil. Se precisássemos de adivinhar, de conjecturar, o que Jesus queria de nós, tal seria mesmo assustador. Mas Jesus, mais uma vez no seu imenso amor, deu-nos uma receita, uma lista!
Primeiro, é preciso amar o Senhor. Como? Com todo o coração, toda a alma, e todo o entendimento.
E segundo, é preciso amar o nosso próximo. Como? [E, nestes tempos duros da crise económica, das guerras e catástrofes naturais, isto é tão importante!] Quando virmos o Senhor — ou qualquer dos seus irmãos mais pequeninos — com fome, dêmos-lhe de comer. Quando virmos o Senhor — ou qualquer um dos seus irmãos mais pequeninos — com sede, dêmos-lhe de beber. Quando virmos o Senhor, ou qualquer um dos seus irmãos mais pequeninos nu, dêmos-lhe vestidos. Quando virmos o Senhor, ou qualquer um dos seus irmãos mais pequeninos, com doenças, ou na cadeia, ou como um estrangeiro no nosso país, cuidemos dele[13].
Mas não façamos nada disto porque temos medo do inferno. Não amemos a Deus, nem cuidemos dos nossos próximos, só porque temos medo de ser castigados pelos nossos pecados. Só há uma razão, uma única razão, para ceder às exigências de Jesus Cristo, e não é o medo. É pelo amor. Quando ouvimos “Deus amou de tal modo o mundo...” nós precisamos de responder. Esta Quaresma é o tempo perfeito para lembrar, e de pensar, de ponderar, e de meditar na realidade de que só há uma resposta possível pelo amor de Deus por nós. E essa resposta é... amor.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

[1] 2 Reis 2,11
[2] Malaquias 3, 22-24
[3] Êxodo 20, 1-17
[4] Sobretudo o Código da Aliança de Êxodo 20, 22 à 23, 23, e as leis dos livros Levítico, Números e Deuteronómio
[5] Êxodo 34, 29-33
[6] S. Mateus 22, 37-40
[7] Isaías 11, 1-9
[8] Génesis 3, 6-24
[9] Romanos 3, 12
[10] Romanos 3, 23
[11] S. Lucas 13, 34
[12] Tiago 2, 14-26
[13] S. Mateus 25, 31-40
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